30 de jul de 2011

Poesia da noite

  Enquanto observo a lua, que solitária desfaz a escuridão do céu, pessoas cegas adormecem na casa defronte. Não cegas dos olhos, e sim cegas da alma. O aroma da noite acaricia-me o peito ao inspirá-lo profunda e vivamente. Tão vivamente que quase posso sentir minha vida alheia a mim, esvaindo-se por minhas mãos e libertando-se - inacreditavelmente bela. Como poderia defini-la, se não existe melhor definição do que seu próprio nome? Vida!
  Os pobres cegos adormecidos ressonam tentando, cada qual, esquecer-se de seus sofrimentos. Ah, se soubessem que sofrer é sinônimo de estar vivo, dariam um valor imensamente maior a cada dor que os aflige.
  Há outros pobres que não são cegos, e sim surdos, estes já não dormem - permanecem despertos tentando em vão decifrar os mistérios do mundo. Então, tapam os ouvidos para não terem de escutar o que a noite vem dizer-lhes: mistérios não são indecifráveis, todavia, decifrar o grande mistério é de inútil serventia. Não o pense, contemple-o - mistério é poesia e a vida é a poesia infinita.

28 de jul de 2011

A part Ono

  Ao acordar, ela teve um sobressalto notando que a outra metade da cama havia desaparecido. E a metade do armário não estava lá. Correu ao banheiro e lavou o rosto, mirou-se no espelho, este não possuía, também, a outra metade. Entrando na cozinha, ela viu o que temia: meia-mesa, meia-geladeira, meio-fogão e meia-pia. A sala de estar não estava diferente - do sofá restara apenas a metade e de cada cadeira faltavam duas pernas. Ao ver que a garrafa favorita de uísque estava, como todo o resto, pela metade, ela previu o pior. Foi quando olhou para a porta - estava meio aberta. Sim, ele fora embora, levando metade dela consigo.

26 de jul de 2011

Simples de coração

É isso.
Só isso?
Só isso!
E não é demais?
O quê?
Só isso.

24 de jul de 2011

Please, help us

  "Depois de 12 horas dormidas o sono esvai-se completamente, o que fazer nas outras 12 horas que restam?" - ela havia escrito isso com uma caneta escura em um pedaço rasgado de papel.

  John observava seus movimentos atentamente. Os olhos dela vermelhos repletos de uma fúria inesperada.
  - Eu não aguento mais - dizia ela em meio a espasmos. - Eu não posso mais... Minha cabeça... Não aguenta mais.
 Ele se sentia a cada minuto mais torturado; completamente impossibilitado diante de tal circunstância. Já havia se passado horas e ela não melhorara nem um pouco.
  De repente, ela começou a tomar atitudes violentas contra si mesma, puxando os próprios cabelos e arranhando-se inteira. John não aguentava mais, porém estava lá por ela e sabia o que fazer ou, pelo menos, acreditava que sabia. Sem esperar que seus ataques violentos piorassem, ele a apertou contra o peito e comprimiu-a com muita força; ele possuía a cabeça dela enterrada em si, envolveu seu corpo e pôde sentir seus ossos, completamente angustiado por seu estado - ela estava gravemente magra. Nesse momento, ela projetou sua ira no corpo dele, mordendo as partes que alcançava e arranhando suas costas furiosamente - quase arrancando pedaços. John sentia e aguentava toda a dor, era excruciante, porém ele a apertava ainda com mais força contra si. Depois de um longo tempo neste estado, ora ferindo com menos intensidade, ora voltando com a força anterior, ela cessou. Contudo, não estava acabado, John sabia disso enquanto ouvia sua respiração ofegante e manteve-a na mesma posição, todavia, agora o gesto mais parecia um abraço apertado do que ele tentando contê-la de seus surtos brutais. Ela se acalmou, por fim, e levemente se desvencilhou dele.
  Ela voltando ao seu estado normal, porém, não totalmente consciente, viu um lampejo da dor física na face de John, a qual ele tentava não demonstrar; notou as manchas de sangue na camisa dele e percebeu o estrago que estava causando. E ele notou que por trás de todo aquele vazio (o ódio tornava-se vazio quando os ataques cessavam) em seus olhos, havia arrependimento e dor.
  - Vá embora - ela conseguiu com muito esforço sussurrar, olhando-o suplicante.
  Então, olhando-a com toda a intensidade que possuía, ele disse segurando sua mão (ela tentou soltar a mão dele, porém ele segurou com aquela força masculina de modo que seria impossível desprendê-lo de seus dedos) - deixar-lhe pode realmente parecer uma proposta tentadora no momento, mas, é impossível. Esqueceu-se de que estamos no mesmo barco em meio ao oceano e que eu jamais conseguiria nadar até a margem sem a sua ajuda? Perdão, eu terei de ficar até você estar boa o suficiente para me obrigar a ir embora.
  Ela apenas lançou um olhar vazio a ele e respirou profundamente como se contasse suas inspirações - como se ele não estivesse ali e nada no mundo importasse. John sabia que ela não tinha culpa do vazio que sentia e que ela lutava para sentir algo, qualquer coisa, contudo, a duras penas, o que acabava sentindo era um ódio fora do comum. A situação era grave em um ponto muito além do que qualquer um imaginaria - John sabia muito bem que o motivo da maioria das depressões seguidas por suicídios era o vazio, a perda da fé em sentir qualquer coisa além daquele vazio extremo; e ela demonstrava sua força em sentir, ela tentava de todas as formas sentir algo, por isso ele não a culpava por sentir aquele ódio doentio. Ele não a culpava de maneira alguma. E só desejava que ela comesse algo, tomasse um banho e dormisse um pouco. No entanto, isso seria demais para ela. Então, perdia-se olhando-a absorta em seu vazio, enquanto apenas implorava em pensamento: "por favor, chore um pouco." Contudo ela estava excessivamente seca para derramar uma lágrima sequer.

  Depois de quase duas horas em silêncio, olhando-o sem expressão nenhuma, ela sentiu - e ele também - que os ataques estavam voltando. Ela o olhou uma última vez desculpando-se e praticamente gritando com os olhos para que ele fosse embora, antes de ter em si toda a sua fúria de volta, dessa vez anunciada através de gritos angustiantes e ensurdecedores.

  John não se conteve e chorou. Ele não sabia até quando isso tudo iria durar nem qual fim teria; sabia que não podia deixá-la sozinha nesse estado, pois seria fatal. Por mais que ele soubesse da possibilidade de ficar exatamente como ela, ele ficaria até o fim. Enquanto ele tivesse um pingo de paz de espírito, ele faria de tudo para ajudá-la, mesmo que em vão. E se fossem para acabar, acabariam exatamente como tinham começado - juntos. Então ofereceu seu corpo novamente a ela, se ela tinha de descarregar seu ódio, tudo bem, desde que não fosse em si mesma.

22 de jul de 2011

Submetendo-me ao sistema

  O fato de dois ou três deles estarem dizendo-me o que/quando/como/onde fazer, não quer dizer que eu já possa seguir suas vozes confiante e cegamente, isso me exigirá certo treino e técnicas a mais. Terei de me livrar do costume sujo de desejar por mim e esquecer-me daquela antiga e pesada liberdade de ter vontades. Serei automática aos seus pedidos. Entregar-me-ei àquelas mãos e darei o melhor de mim a algo que sequer imagino e entendo, que seja. O futuro não pode, não deve, não sabe esperar, e eu tenho de fazer parte dele, neste instante imediato, já - o que jamais poderei sem a ajuda deles, sem as suas ordens claras e altas. Veja bem, eles sabem o que fazem. Minha inteligência de nada serve e nunca serviu a mim - de que me adianta todas as minhas habilidades e competências se não faço ideia de onde aplicá-las? Eles ordenarão e indicarão o momento certo, o que for certo, eu sei. Imenso vazio de nunca saber nem o quê, nem quando, nem como, nem onde fazer absolutamente nada. Agudo vazio de ver este nada aumentar e tornar-se um gigante sobre mim. Na-da. Eu não sou nada, eu nunca poderia comparar-me a um ser inteiro - sou apenas parte deste ser e nada posso fazer, além de participar do sistema ordenado por meu superior, para identificar minha unicidade. Não, eu não acredito nessa tal de unicidade. Eu jamais a verei, jamais a serei. Estou submetida a eles.

20 de jul de 2011

Algo maior

  O Amor não segue nenhum preceito, pelo contrário, ele se rebela, envolve-se, desliga-se de tudo e todos, para existir apenas dentro daqueles que fazem acontecer - fazem o Amor acontecer. Não temos poder nenhum sobre, ele é quem escolhe como, quando e em qual sexo. E desse Amor tão insubmisso é que tiramos as forças necessárias para enfrentar futuros terríveis julgamentos. Amor que é Amor vê as pedras do caminho e passa por cima de todas sem perder o brilho da menina dos olhos. Amor que é Amor tem seu jeito próprio de se revelar, de pregar suas peças com tamanha autenticidade. É feito por dois que unem suas mãos, enlaçam seus corpos e cerram os olhos. É feito por dois ou por duas. É a junção de cores, de almas, de gostos. O desaparecimento das classes, dos dogmas, do que nunca importou verdadeiramente. É o abrir os olhos para o que a vida oferece-nos de melhor.
  Obstáculos triviais não conseguem interferir nos planos do Amor. O Amor é algo maior, é algo muito além do que é julgado e na maioria das vezes incompreendido - ele é belo, de todas as formas possíveis, o amor é imensamente belo.
  Ele nos ensina  a fechar os olhos para podermos enxergar melhor; a não tocarmos no preconceito para tocar melhor no outro; a pensar com o coração e usar a mente para sentir. Faz o que é impossível tornar-se possível.
  O Amor é a arma perfeita - tem o poder liberto no olhar, a força na entrega das almas, a satisfação na perda dos sentidos e chega ao ápice no arfar de dois corpos finalmente entrelaçados.

18 de jul de 2011

Starlight

  Cameron acordou e assustou-se ao perceber um braço e uma perna sobre seu corpo. E entrou em um verdadeiro pânico mental ao notar que aquele não era o seu quarto. Lentamente para não o acordar, ela retirou o braço dele de seu corpo, remover aquela perna é que seria complicado. Depois de algumas tentativas vãs ela desistiu, era impossível mover a perna sem o despertar. Ela estava de costas para ele e não conseguia lembrar quem era o homem com quem ela fora para cama. Ah, meu Deus, o que eu fiz com esse cara? - pensou ela e num sobressalto ela olhou para seu corpo - pelo menos não estou completamente nua. E virou sua cabeça para trás tentando enxergá-lo, sem sucesso, pois ele estava com o rosto enterrado em seus cabelos. Ela viu apenas os cabelos castanhos dele. Como se ele pudesse sentí-la, mexeu-se e no movimento retirou sua perna de cima dela. Estou livre - ela levantou-se e colocou suas roupas, tomaria banho em casa. Porém antes de fugir da casa daquele estranho ela olhou bem para ele, analisando-o - ele é realmente muito bonito, atlético e fica ótimo com essa barba matinal.
  Enquanto procurava as chaves de seu carro, ela olhou pela janela para saber onde se encontrava, contudo não reconheceu o lugar. Onde eu estou? - ela se desesperou. Teria de perguntar a ele. Então, sentou-se na cozinha, sem coragem de acordá-lo, e foi absorvida por seus pensamentos - como eu posso gastar meus dias dessa forma? Como eu posso descuidar-me desse jeito? E se esses forem realmente meus últimos dias? - e, nesse instante, eliminou esse tipo de pensamento de sua mente, ela amava demais a vida para pensar nisso.
  Ela realmente amava a vida, como ninguém nunca amou ou sequer compreendeu.
  - Bom dia - ela teve um sobressalto, ele acordara, ela não sabia o que fazer. Ao menos sua voz era agradável.
  - Bom dia - ela estava completamente embaraçada. - Desculpe, eu esperei que acordasse apenas para saber que lugar é esse
  - Calma. Estamos realmente afastados do centro, eu te levo depois, sem problemas.
  - Obrigada, mas se apenas me disser onde estou, eu posso ir sozinha - ele a olhou curiosamente e ela retribuiu o mesmo olhar. - O que aconteceu ontem, pode me dizer?
  - Ah, eu imaginei que não lembraria. - Ele riu um pouco antes de continuar - você bebe um pouco, não é?
  - Mas nós nos cuidamos pelo menos, por favor, diga que sim.
  - Não, não fizemos nada. - E completou ao ver a incredulidade na face dela - quase, na verdade. Mas estávamos tão bêbados que pegamos no sono.
  - O que eu faço numa situação dessa? - ela estava aliviada, ainda assim muito atrapalhada.
  - Toma um café - ele já estava abrindo os armários e pegando tudo que precisava para preparar panquecas. Ela não pôde deixar de esboçar um sorriso. - A propósito, me chamo Adam, caso não lembre - e ele também sorriu, e ficaram por alguns segundos assim, sorrindo um para o outro. Esses pequenos momentos sempre foram extremamente valorizados por Cameron, então, subitamente ela se lembrou dos exames.
  - Onde fica o banheiro? - ele apontou para a primeira porta do corredor, e Cameron dirigiu-se a ela.
  Ao entrar no banheiro, trancar a porta e conferir se estava realmente trancada (era a sua mania mais irritante), ela respirou fundo e tirou de sua bolsa os exames. Ela não os abrira desde que os pegara no consultório do doutor Smith. Ela estava com muito medo que o resultado desse exame fosse positivo, sim, seu tumor era maligno. E de uma só vez ela o abriu e viu o que não queria.

  - Tudo bem? - Adam perguntou, notando que ela estava pálida, quase desmaiando.
  - Não, não está nada bem - ela limitou-se a dizer, sem olhar para ele.
  - O que houve? - perguntou ele realmente preocupado.
  - Desculpe, desculpe, você não tem nada a ver com isso - ele não precisava ouvir nada daquilo, porém ela precisava falar com alguém. - Já conheceu alguém que amasse a vida acima de tudo, que soubesse realmente aproveitá-la? Essa sou eu. Eu sempre amei a vida mais que qualquer outra pessoa pensaria em amar. Talvez esse tenha sido meu erro - nesse instante suas lágrimas começaram a cair. A realidade tomava conta dela causando dores insuportáveis.
  - Calma, tudo vai ficar bem - ele a abraçou, ela se desvencilhou.
  - Não, não vai, você não sabe, não compreende - falava Cameron demonstrando todo o seu sofrimento. - Imagine viver amando a vida como se ela fosse acabar amanhã, de qualquer forma isso irá mesmo acontecer, mas agora imagine que esse amanhã esteja mais próximo do que você acredita - ela mostrou os exames. - Eu estou com câncer, dá pra acreditar? Câncer!
  - Eu sinto muito - disse Adam sem saber o que fazer.
  - Perdão, você não tinha que passar por isso, a culpa não é sua - disse ela dando-se conta do que estava fazendo. - Perdão, obrigada por tudo, mesmo - Cameron olhou-o profundamente, pegou as chaves de seu carro e foi embora, deixando-o boquiaberto e imóvel.

  Depois de alguns minutos na estrada, percebeu que estava afastando-se da cidade ao invés de se dirigir ao centro. Contudo não se importava. O vento já secara suas lágrimas, e ela já refletira o suficiente. Então, estacionou o carro no acostamento da rodovia e caminhou um pouco com seus exames na mão. Respirou profundamente, como se a entrada do ar causasse-lhe um prazer ímpar. E, subitamente, rasgou o seu exame em pedaços ínfimos. Aquele papel era pesado demais para que ela o carregasse. E o importante não estava escrito em lugar algum, e ela sabia: a vida tinha urgência em ser vivida agora.

16 de jul de 2011

Hey, Jude

  Ele caminhava sempre apressado pela rua movimentada. Sempre cabisbaixo, escondido sob seus óculos escuros. Ele nunca contemplava o céu e nem nada. Era como se o mundo fosse pesado demais para ele carregar - como se ele precisasse carregá-lo. Ele era completamente absorvido em sua melancolia. A vida tentara ensinar-lhe todas as formas possíveis de felicidade. No entanto, ele nunca aprendia. Jude nunca aprende, deveras. Boa aparência, perfeita índole e outras diversas qualidades nunca lhe foram suficientes - faltava algo muito além do que a vida oferecia-lhe. Porém, Jude não sabia de sua própria condição, Jude não tinha a percepção de seu desalento. Ele apenas seguia pela rua, cabisbaixo, evitando todo e qualquer olhar que ousasse transpassá-lo. Jude era tomado por sua tristeza e não restava espaço para mais nada. Ele estava completamente perdido em sua solidão.
  Enquanto ele fazia o caminho costumeiro, ele não pensava em absolutamente nada, apenas no que ia fazer - o que fazia todos os dias. Comprou sete pássaros e levou-os consigo em uma pequena gaiola. Sentou-se sob a figueira de seu quintal e deu àqueles pássaros a liberdade e a felicidade plena. Ao soltá-los, Jude sorriu. Ele invejava-os.

12 de jul de 2011

Dog days are over

  Eu sinto o cheiro do dia que se inicia, abro a janela com uma esperança no rosto. Eu pensei que já não fosse capaz de sorrir, então sinto meu riso através do espelho, havia esquecido de como isso poderia ser bom - sorri pelo simples motivo de sentir o sol e saber que se vive bem assim. Eu vivo, eu amo, eu vivo. A felicidade toma conta novamente, eu vou a qualquer lugar sem me mover, essa é a minha viagem perfeita.
   As minhas sensações tremem em espasmos contínuos, meu corpo é a prova disso. A minha alma grita, grita, como quem dança subjetivamente, minha alma é tão objetiva. O transeunte caminha pela rua, sorrindo, ele já está sabendo. O sol brilha como nunca, ele também sabe. E os meus olhos avisam a todo meu mundo com todos os meus eus: pode sair, pode sair, todos já estão sabendo - os dias terríveis se foram. Os dias terríveis se foram! Viva, viva, viva, viva, viva de novo, como um dia você viveu. Os dias terríveis se foram. Devolva-se seu amor.
  Felicidade pula no ar, pulsa no sangue, vaga no mar. Vagar no mar, essa é a nossa chance. Levo-lhe pela mão, os dias terríveis se foram, é a nossa chance. Devolva-me todo seu amor. Conte para seus irmãos e para seus pais que hoje os dias terríveis se foram. Viva como sempre, viva como a vida lhe exige que viva.
  Os dias terríveis se foram e eu percebi grande mudança ao fitar meu reflexo no espelho. Quanta diferença. Os dias terríveis se foram, e agora tudo se transfigurou. Os dias terríveis se foram, e eu não sou o que era antes, agora eu possuo marcas cicatrizadas de todos os cortes cruelmente profundos. Ser um ser vagando no mar me fez ver tudo do avesso e o avesso é muito mais bonito. Agora eu voltei para terra firme. E pasmo - no entanto um pasmo de alegria - nada é como foi um dia. Aceito a brusca mudança, eu só não quero esquecer-me do que fui ontem.
  Os dias terríveis se foram.

7 de jul de 2011

Bresso

  Os carros cruzavam velozes na rua próxima, os prédios e suas luzes transbordavam uma beleza urbana e ofuscavam qualquer brilho que as estrelas pudessem oferecer. A cidade noturna era esplendente, naquele momento era mais radiante do que a própria natureza, despertando a admiração de olhos fascinados, de quem estava só ou acompanhado, seus sons embriagavam os apaixonados, aborreciam os razinzas, trazendo vida a tudo que há muito já estava morto.
  Anna observava todo o movimento da mesa de um bar, com seu vinho predileto de inverno e com um sorriso que demonstrava seu fascínio inabalável por tudo, por tudo.
  Segundo após segundo, logo o sol apontaria em algum canto do qual Anna, completamente desnorteada pelo álcool e pela vida, tentava adivinhar.
  Os segundos continuavam passando, como tinha de ser, se é que tinha de ser alguma coisa, não importava, os segundos continuavam passando e a vida também, ainda mais depressa.
  A cadeira vazia à sua frente mostrava aos outros sua solidão, e mostrava a ela sua solitude, e ao pensar nisto Anna sorria ainda mais, encontrara sua serenidade finalmente, todavia, finalmente até quando? Até que finalmente sucedesse o próximo segundo e a cadeira fosse sorrateiramente ocupada por alguém, não alguém qualquer, mas aquele alguém. Anna bebeu seu vinho indiferente com a atrevida companhia, e ele pediu uma cerveja com seu sotaque alemão, causando calafrios pelo corpo de Anna.
  - Como vai a vida? - perguntou Eddie finalmente.
  - Morrendo e renascendo por aí - respondeu Anna, não querendo questionar sobre ele, sabia que ele estava bem.
  - Eu vou vivendo às vezes - disse Eddie, respondendo a pergunta inexistente.

  Longos segundos de silêncio se passaram.

  O silêncio era agradável, contudo deveria ser quebrado, então, como sempre foi Anna que se deu ao trabalho. - Ela sabe que você está aqui? - perguntou ela, pela primeira vez olhando nos olhos de Eddie, este abaixou a cabeça.
  - Não - respondeu Eddie, surpreendendo-a, pois ela esperou que ele negasse, se defendesse ou travasse a fala como sempre fizera, e tomou a cerveja de seu copo em um só gole.
  - Eu imaginei - disse Anna. - Tomara que ela não passe e te veja aqui...
  - Eu não me importaria - interrompeu Eddie impaciente. - Talvez fosse até melhor.
  - Quanta frieza dentro de uma pessoa que eu julgava tão sensível - desdenhou Anna. - Sol me pareceu ser uma mulher incrível...
  - E é! - ele parecia cada vez mais impaciente, já arrependido de estar ali. - Ela é incrível, doce e me faz muito bem. É ela que tem me salvado todos os dias - e ao falar esta última frase, ele a olhou quase suplicante, torturado e vencido.
  Anna ficou perplexa pela coragem dele de lhe falar tais coisas, expor seus sentimentos dessa forma, todavia, não emitiu nenhum som, apenas do toque em sua taça de vinho.
  - Ela me faz muito bem - continuou Eddie. - O problema é que o mal que você me faz é ainda maior.
  O olhar incrédulo de Anna levantou-se imediatamente para os olhos predadores dele, ela era uma presa tão fácil.
  O silêncio perdurou por algum tempo, então Eddie tornou a falar em um tom de puro desespero - eu não aguento mais! Eu não posso mais! Ela me ajudou, muito mais que isso, me salvou durante todo esse tempo, até você voltar a aparecer diariamente em minha vida. Eu tento te evitar, mas evitar não é natural e deveria ser fácil - nesse momento deu uma pausa, para continuar em seguida quase sussurrando - eu dou voltas naquele prédio só para não cruzar por você, não enxergar seu olhos, mas a cada dia tem sido mais doloroso. E é só no fim da tarde que encontro meu alívio... nela.
  - Obrigada pelas palavras, conseguiu mudar tudo - ironizou Anna.
  - Eu quero mudar tudo, só não sei o que fazer... me diz! - Sem obter resposta Eddie continuou - eu queria tanto fugir...
  - Fugir, diante de tantas possibilidades, esta é a única que sempre passou em sua cabeça, não é? - falou Anna com desdém. - A fuga é o seu elemento.
  - E se eu terminasse? - perguntou ele.
  - Seria mais tolo do que eu poderia imaginar - respondeu Anna.

  O último gole de vinho foi tomado, Anna olhou intensamente para Eddie, analisando cada expressão que passava em sua face e enfim disse, dessa vez branda, quase doce, quase... - eu espero que você fique bem e que tome logo a sua decisão, por você, e caso precisar me procure, as minhas pontes nunca são destruídas, e você sabe o caminho. E eu espero que a Sol fique bem, ela sem dúvidas é uma mulher incrível, e isso é o que mais dói ao fim de tudo - parou de falar por um momento para evitar uma lágrima. - Você teve sorte, saiba disto e saiba que eu tive sorte também porque eu não espero nada de você nem de ninguém, apenas da vida, e eu vou vivendo por aí, sempre feliz como você me pediu, e esta é a maior sorte que se pode ter.
  A noite chegou ao fim, o vinho também, no entanto o dia estava apenas começando, e Anna foi sorrindo para casa, e, misteriosamente, Eddie também.

2 de jul de 2011

Pessoa

  Depois de dois ou três meses mergulhada na mais profunda depressão, Anna só poderia estar sentindo-se a pessoa mais feliz do mundo e esbanjar sua alegria no bar com seus amigos - esbanjar totalmente sua alegria, talvez o excesso de álcool tenha ajudado um pouco. Não demorou muito para que ela enxergasse um rosto desconhecido no grupo. Um rosto agradavelmente estranho, olhos verdes penetrantes, barba por fazer na face branca e desgrenhados cabelos loiros.
  - Anna, sagitariana com ascendente em touro, cética por natureza, prazer - disse ela ao estranho, exaltando-se e divertindo-se.
  - Prazer, Billie - limitou-se a dizer ele aborrecido, com os olhos de quem não dorme direito a quatro ou cinco dias e a expressão maçante. Nada convidativo.
  Não se falaram, tampouco se olharam pelo resto da noite.

  Seis meses depois, Anna encontra-se de volta em sua depressão e os amigos a arrastam para o típico bar, quando aquele conhecido estranho surge no mesmo grupo.
  - Anna, sagitariana com ascendente em touro, cética por natureza, tudo bem? - cumprimentou Billie totalmente expansivo e contente por vê-la. Ele estava irreconhecível.
  - Tudo - respondeu Anna simplesmente.
  Não se falaram, tampouco se olharam pelo resto da noite.

  Passara-se quase um ano, Anna já havia saído e retornado a sua depressão diversas vezes, até que foi completamente tomada pela doença e abominava, mesmo, ver a luz do sol. Contudo, nessa noite seus amigos convenceram-na, usando do argumento de que nunca mais insistiriam se ela saísse com eles. E ela, sem nenhum ânimo, aceitou. Entretanto, ela preferia passar, como nas outras noites, em casa lendo Fernando Pessoa, com sua cerveja e solidão.
  No bar, aquele de sempre, ela viu o estranho, aquele de sempre, sentado do outro lado da longa mesa repleta de amigos com suas alegrias incontidas. Os únicos melancólicos do lugar eram aqueles dois estranhos conhecidos. Ela o fitou por alguns minutos, curiosa por ele estar tão calado quanto ela. Depois de ela desviar sua atenção dele, ele a fitou por alguns minutos, curioso por ela estar tão calada quanto ele. E assim continuaram, calados e solitários no meio de todos.
  Anna levantou-se silenciosamente para comprar um maço de cigarros, ninguém percebeu. Billie levantou-se silenciosamente para comprar um maço de cigarros, ninguém percebeu.
  - Uma cartela... - os dois falaram ao mesmo tempo e olharam-se sem aparentar nenhum entusiasmo.
  - Quanto tempo - Billie disse acendendo seu cigarro, sem voltar para a mesa.
  - Quanto tempo - Anna repetiu, também acendendo seu cigarro.
  - Você parece tão animada quanto eu por estar aqui - disse Billie irônico.
  Os dois olhavam-se melancolicamente, com as expressões aborrecidas, enquanto tocava uma música de Guilherme Arantes.
  - Eu gosto dele - ela deu uma tragada no cigarro e continuou - do Arantes, porém ouvir justo essa música agora me faz lembrar coisas que eu não gostaria de lembrar.
  - Eu também gosto dele, mas ele me faz lembrar certas coisas que eu também preferiria não lembrar.
  - Romances sujos e decepcionantes? - perguntou Anna.
  - Romances sujos e decepcionantes! - concordou Billie.
  Anna estranhava tantas coincidências, desconfiou que ele estivesse mentindo e lançando a ela um papo de aconteceu-com-você-e-comigo-também-então-vamos-misturar-nossas-mágoas-na-cama. 
   - Eu queria estar em casa, lendo Fernando Pessoa - Billie não percebeu que ao dizer isso, ela o olhou espantada. Não, ele não estava mentindo, tinha algo nele que estava em profunda sintonia com ela.
  Nesse momento ela sorriu, apenas, e ele retribuiu. Foram sorrisos desconfiados, porém sinceros. Eles voltaram à mesa e conversaram por horas. Sentiram-se mais felizes. E nessa noite eles se conheceram de verdade; perceberam que ambos gostavam de ler Pessoa e pessoas, por isso eram tão contidos. Nessa noite eles deixaram que suas solidões se misturassem e compartilharam de seus vazios. Por fim, foram embora juntos, e pela primeira estavam na mesma sintonia, deixando ao mesmo tempo suas depressões para trás.