26 de jun de 2011

Fantasmas do passado

  Em momentos como esse eu cismo se pode existir algo melhor do que sentir a brisa e admirar o nascer do sol através do oceano. Acredito com toda a força da alma que não, momentos de pura poesia valem mais que tudo. E na insistência dos pensamentos, eu me pergunto se Jim demorará para chegar com sua doçura agradável e me fazer companhia. De qualquer forma, neste exato instante eu preferiria ficar só. A presença de Jim tem me perturbado e o problema é que eu sei bem qual é o motivo. Posso lembrar-me perfeitamente da primeira vez que nos vimos, os olhares cruzando-se, os vazios misturando-se, os sorrisos abrindo-se timidamente e assim começou, como começa qualquer história. No entanto, eu jamais deveria ter iniciado qualquer relacionamento com ele, eu sabia que isso aconteceria, eu sabia que esse tipo de romance nunca foi para mim... apesar de que ele parecesse o cara certo, o único que poderia realmente me tirar daquele abismo onde eu me encontrava, mostrar-me a luz novamente. Ele parecia ser o único, no entanto, ele era o único do qual eu deveria ter me afastado desde o princípio. Agora estou perdida, não posso livrar-me dele, e não aguento mais olhar em sua face. Dói, dói, dói. Dói tê-lo, dói mais ainda não tê-lo... O certo seria ele me fazer bem, não? Por um momento eu acreditei fiel e cegamente que ele conseguiria - erro meu.
  - Estou contemplando esta vista encantadora há algum tempo - estremeci, eu odiava quando Jim proferia a palavra encantadora. - Não pude resistir de vir até aqui, te atrapalho?
  - Claro que não - eu respondi sorrindo, enquanto ele se sentava ao meu lado e abraçava-me. Eu estava morrendo aos poucos, era a pior tortura que eu já recebera na minha vida. Meu Deus, onde eu estava com a cabeça? Esse homem que está ao meu lado me causa dores infernais, e tudo é pior do que antes, quando eu caía cada dia mais naquele precipício.

  Eu não pretendia envolver-me com mais ninguém, desde as inúmeras decepções que tive com Eddie. Aliás, enormes decepções. Eu me atirei na mais profunda depressão, porém eu seria forte o suficiente para me salvar sozinha e eu jurei para mim e para o mundo que nunca mais, nunca mais eu iria cair de novo. Nunca mais me apaixonaria, nunca mais me entregaria. As mágoas que tive bastariam para uma vida inteira. Contudo, Jim chegou com seu jeito tão doce, gentil e culto - exatamente como era Eddie - e eu fiz de tudo para resistir, porém, com o tempo se tornou impossível fazê-lo.
  Nós nos entendíamos muito bem, mesmos gostos musicais, mesmas preferências literárias; nós podíamos passar horas conversando sem parar sobre tudo. Tudo. Estávamos em perfeita sintonia - exatamente como era com Eddie - eu sabia que estava errada em continuar com aquilo, com aqueles encontros tão agradáveis e apaixonantes.
  Tudo em Jim lembrava-me Eddie, inclusive agora, enquanto ele tem os olhos fixos em mim e contempla-me de modo tão profundo que poderia me perder em seus olhos castanhos claros - uma das poucas diferenças, Eddie possuía olhos verdes, de qualquer forma a intensidade com que me fitavam era idêntica. Estava tudo errado, tudo errado, nada deveria ser assim. Eu deveria estar melhor com Jim, ele me fazia bem. Pelo menos, eu acreditava nisso. E neste exato instante, Jim me abraça e posso sentir sua barba tão macia, e penso que Eddie também tinha uma barba que deveria ser muito macia. Inferno! Tudo nele me lembra o outro e isso era a única coisa da qual eu não precisava.

  Jim percebeu minha tensão e sem perguntar o porquê, tentou me deixar relaxada distraindo-me com qualquer assunto bobo, que logo transformaríamos em grandes devaneios, tornando tudo poesia e filosofia. E ele prestava atenção em cada detalhe que saía de minha boca e toda vez que ele assentia com a cabeça seriamente ou abria o seu sorriso contido, quase tímido, eu desejava morrer - era exatamente como os gestos de Eddie. E toda dor voltava. Eu não conseguia livrar-me da angustia, a dor devorava-me toda vez que eu simplesmente olhava para ele. Pergunto-me: se é tamanha a dor e se no fundo eu sabia as coisas seriam desse jeito, por que, então, eu insisti nesta história estúpida? E a resposta chega no mesmo segundo: porque eu acreditei que Jim seria a cura perfeita para todas as feridas que Eddie deixou. Ele seria a cura perfeita com toda sua leveza, eu seria alguém melhor para nós dois. Entretanto, o efeito foi o contrário, ele abre mais ainda os cortes a cada vez que me deixa ouvir sua voz, com seu sotaque alemão - é quase o próprio Eddie falando.

  No fundo eu sabia que o que me atraía em Jim era o fato de que ele era extremamente parecido com Eddie, fisicamente e na própria personalidade. Com a sutil diferença de que Jim estava sendo sincero desde o início, que no nosso relacionamento não havia mentiras e que com ele era tudo real, não era errado, não era crime; com ele era correto, aceitável; era simples e não deveria doer. Com o Eddie tudo isso seria impossível. E por que não ficar feliz com isso? Não seria um bom prêmio, depois de tudo que passei, ter um amor real, um relacionamento concreto? Seria, se eu não soubesse que o homem que eu amava não era o Jim e sim a imagem viva de Eddie.

  E Jim disse de repente:
  - Estou vivendo meus sonhos aqui com você - e eu olhei em seus olhos, querendo arrancar dele sua essência, querendo enxergar Jim. JimJim e não Eddie, isso era ótimo. Poderia ser assim pelo resto de nossos dias, contudo eu não poderia apostar nisso, então decidi não fazer mais nada, senão aproveitar o momento.
  - E é real, não é Jim? - eu disse sentindo as lágrimas formando-se em meus olhos e vendo a expressão espantada dele com a minha pergunta, todavia, repleta de amor. - Dessa vez é de verdade, não é? - eu questionava como uma criança desconfiada.
  - Claro que é - ele não entendia as perguntas, contudo respondia ternamente, até que a minha lágrima venceu e escorreu e atrás dessa escorreram muitas outras em uma torrente, e eu já não me controlava e chorava compulsivamente. E, sem aguentar mais, Jim perguntou preocupado - o que está acontecendo meu amor? - e me abraçava, embalando-me, tentando acalmar-me.
  - Eu posso te ver. Eu posso te sentir. Eu posso acreditar em você.

  E nesse momento eu respirei todo o aroma de Jim, beijei seu rosto, e senti-o mais profundamente que pude. Pela primeira vez eu estava sentindo verdadeiramente o Jim. O meu Jim e mais ninguém. Eu estava livrando-me dos fantasmas do passado.

2 comentários:

  1. Oi Pamela ^^
    O personagem Vash é legal mesmo, muito carisnmático e engraçado..bom, ele é hilário ..só vendo pra crer =)
    E parabens..seu texto está muito bem escrito e envolvente.

    http://www.empadinhafrita.blogspot.com

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  2. Sabe, sempre que leio os seus textos fico pensando num comentário 'razoável' eu diria. Quisera eu escrever tão bem assim; confesso que são poucos os textos que me prendem até o fim, e o seu é um deles (não só este, como todos os outros que tive a oportunidade de ler aqui).Esses fantasmas, infelizmente, nos perseguem não é mesmo? O jeito é seguir em frente, pois uma hora ou outra eles aparecem pra nos perturbar.

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