3 de jun de 2011

Epitáfio de um sábio

  Não quero ver escrito em meu túmulo: "aqui jaz o grande sábio, aquele que teve uma vida magnífica, devido à sua mente brilhante" - pois toda minha sabedoria teve pequena utilidade, e não me sentirei nem um pouco enaltecido. E quando o louco disse-me que o verdadeiro problema dos homens era o fato de eles terem uma mente e desejarem desenvolvê-la, porque a graça de viver estava em toda sua ignorância, eu tive uma pena profunda dele. Hoje, vendo minha doença prover-se de meu corpo e o final de minha vida tão próximo, tenho pena de mim; queria olhar para trás e dizer o quanto vivi, todavia, não posso - não vivi! Obtive todas as faculdades, fui homem das ciências e da filosofia, engrandeci-me a cada leitura; a cada elogio, estes me eram constantes. Entretanto, não obtive uma gota de insanidade, um gole sequer de meus sonhos instintivos. Eu fui realmente sábio, conhecedor de todas as teorias, porém, onde esteve meu caráter empírico?
  Eu tive sonhos? Sim e todos foram realizados, meus ideais propostos. Fui homem grandioso perante a humanidade, o que mais eu poderia querer? Realizei sonhos e muitos, e faz diferença não serem meus por instinto? Não me venha falar de livre arbítrio, já ouvi o bastante nas palavras daquele louco. Tive a liberdade de escolhas, que importa que a lista de escolhas não tenha sido escrita por mim, afinal?
  Eu fui feliz? Sim, segundo a humanidade, pois segui dentro dos conformes e não decepcionei a ninguém - há no mundo algo que pudesse me fazer mais contente? Há e muito, respondeu-me o louco, perturbando-me novamente, basta olhar seu Eu interior, aquele que oculta dentro de si e que nunca recebeu chance de manifestar suas vontades.
  Ah, as vontades, eu nem sei se as que tive foram realmente minhas de fato. Contudo, de que me adianta pensar nisso agora que a doença devora-me aos poucos?
  Nos últimos de meus dias cheguei a seguinte conclusão: fiz de minha vida algo inútil, pois faltou-me a loucura - fundamental grandeza dos homens.

4 comentários:

  1. Que nada loucura que nada!
    A coisa e fazer o que quer e quando quiser...agora se e maneiro ou nao,se todos gostam ou nao...isso e indiferente voce gostando ta otimo!

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  2. Boa tarde,

    Vim agradecer e retribuir a visita em meu blog. Aguardo sua visita!

    Tenha um bom fim de semana!
    Abrs

    Victor

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  3. Às vezes me pergunto de onde é que sai tanta criatividade ... você brinca com as palavras transformando-as em texos maravilhosos. Quisera eu escrever com tanta facilidade, e ainda por cima, passar uma mensagem aos leitores.

    Parabéns!

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  4. Sabe, eu não acredito que o ser humano consiga ser livre quando convive com outros. Afinal ele sempre será influenciado pelo gosto do outros. Nunca haverá liberdade se ele não se desprender das opiniões alheias. beijão!

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