9 de jun de 2011

Elo invisível

  A porta abriu-se em um estrondo, no estado em que eu me encontrava nem me assustei, o mundo poderia desabar e eu continuaria ali, olhando o nada, com os olhos encharcados e o livro do Pequeno Príncipe na mão - meu livro favorito e que também era o favorito de minha mãe, única coisa em comum. Olhei para trás calmamente para ver quem invadia meu apartamento, era o John, eu já sabia, ele era o único, além de mim, que tinha as chaves. Ele se sentou ao meu lado na cama, sondou-me rapidamente e desviou o olhar para o chão; ficamos contemplando o nada por longos minutos. Somente depois de um tempo eu pude perceber  que ele estava vestindo um pijama e um moletom vermelho e velho, reparei na sua barba matinal não feita - como se tivesse pulado da cama rapidamente, vestido a primeira coisa que viu e nem tivesse parado para jogar uma água no rosto. De fato, ele havia feito isso, ele não precisava me dizer. Eu sabia que ao receber a minha ligação dizendo o que aconteceu, ele não pensaria em mais nada e viria correndo me ver. De qualquer maneira, eu me espantei, pois não era comum vê-lo atormentado e mal-vestido ao invés de sorridente, exibindo a camiseta do Paul McCartney que eu lhe dera. John importava-se comigo como ninguém nunca o fez, e eu me importava igualmente com ele.
  - É bom ter você aqui - eu quebrei o silêncio.
  - Eu não sei o que dizer, talvez devesse perguntar como você está, mas seria muito fingimento convencional de minha parte - ele me olhou profundamente com os olhos rasos d'água, quase se desculpando. - Não sei exatamente como é perder uma mãe porque eu não tive, você sabe. Mas quando eu perdi meu pai, eu não soube onde pisar, não sei como sobrevivi todo esse tempo sem o sorriso orgulhoso dele ao olhar para mim, não sei, mesmo. Ele era muito novo para morrer, eu era muito novo para o perder. Eu ainda precisava muito dele, apesar de que ele não fosse meu pai biológico, mesmo sangue e todas essas coisas, eu o amava como tal. Porém ele se foi, em um belo dia de manhã ele beijava minha testa antes de ir ao trabalho, dizendo que eu estava de férias, mas não precisava acordar à tarde por isso - John sorriu sem perceber nesse momento - e ao entardecer, diferente dos outros dias, ele não voltou com aquele semblante cansado, de pai que cria uma filho sozinho, perguntando o que eu tinha feito durante o dia. De manhã eu o tinha e à noite não mais. Ele não voltou, no lugar dele veio meu avô materno e me levou com ele para sua casa, e lá passei o resto de minha infância, em meio aqueles retratos de minha mãe, pelo menos dessa maneira ela foi presente. - Ele parou de repente e fitou-me demoradamente antes de prosseguir - sei que falei demais, mas o que eu quis dizer é que eu sei como é perder pessoas especiais. Seus pais sofreram no acidente e lutaram naquele hospital, mas eles não aguentaram e não vou dizer que aconteceu o que tinha de acontecer nem que eles foram para um lugar melhor, pois sei que não acredita nessas coisas, mas quero que saiba, se hoje estou aqui, se superei, foi por que de algum lugar eu tirei forças para seguir em frente e amadurecer e tenho certeza de que isso também acontecerá com você, pois sempre foi mais forte do que eu. Mas não precisa fazer isso imediatamente, por enquanto basta saber que eu estou aqui, ao seu lado, deixando suas lágrimas correrem. Completamente inútil, mas estou aqui.
  Eu sabia que John no fundo estava coberto de razão, como sempre. Eu seguiria em frente, tinha certeza disso, porém não agora, não hoje. No momento a única coisa da qual eu precisava era ficar quieta, absorta em minha dor. E assim ficamos, eu e John, parados, olhando o nada; era como se John sentisse a minha aflição, porém, poderia ele sentir a minha aflição? Acredito sinceramente que sim. Apesar de eu ter a concepção de que ninguém é capaz de sentir exatamente o que se passa dentro do outro ou mesmo entender o que acontece, por mais que chegue perto disso, John parecia realmente sentir o que eu sentia e isso vinha de longa data. Ele sempre me entendia perfeitamente, como só eu mesma poderia.


  Nosso silêncio foi quebrado pelas batidas na porta, era Luke, meu namorado, obriguei-me a ligar para ele, depois de John acalmar-me com sua presença. Ao entrar ele me abraçou intensamente, quase me penetrando e desculpou-se pela demora. Estava de banho tomado, bem vestido, usando sua jaqueta de couro e cheirando a loção de barba, o que era costumeiro. Seus cabelos de cachos compridos caíam sobre os ombros e eu os amava, era bom sentir o cheiro dele, mesmo naquela situação. De qualquer forma, a sua presença, ao contrário da de John, não melhorava em nada minha disposição de espírito, eu preferia, mesmo, que ele fosse embora; isso era crueldade de minha parte, afinal ele estava muito abatido e preocupado por minha causa e eu entendia isso, então fiz o melhor que pude para demonstrar falsamente que ficava aliviada com ele ao meu lado. Ele demorou para notar John ali, porém ao fazê-lo, lançou-lhe um olhar aborrecido; quanto a isso, eu e John já estávamos habituados e podíamos entendê-lo, pois sempre tivemos esse problema em todos os nosso relacionamentos: as namoradas de John morriam de ciúmes de mim e a relação chegava ao fim toda vez que ela mandavam ele escolher entre elas e eu, e o meus namorados desconfiavam de tanta proximidade, tanta união, com Luke não seria diferente.
  - Meu amor, Como você está? Ah, que pergunta. Como eu estava preocupado - dizia Lukedesgrudar de mim. - Tudo vai passar, vai passar. Eles estão em um lugar melhor agora...
  - Luke, por favor, poupe-se e poupe-me das palavras de consolos. Desculpe, mas eu só queria o silêncio agora - as lágrimas escorriam descontroladamente pelo meu rosto, lógico que qualquer um vendo esta cena não ficaria quieto, sem pronunciar nenhuma palavra de conforto. Luke era qualquer um, esse era o problema. Eu não precisava de qualquer um, precisava apenas de John.
  - Tudo bem - disse Luke transparecendo sua mágoa. Como ele ousa ficar magoado? Meus pais faleceram esta madrugada por causa de um acidente de carro estúpido, e ele fica magoado por que eu mandei ele calar a boca?
  John quebrou o silêncio a contragosto.
  - Agora que Luke chegou, vou deixar vocês dois a sós. Mas qualquer coisa me ligue, estarei...
  - Não, John! - Luke interrompeu-o. - Ela precisa de você mais do que a mim - eu percebi a dor e a aversão de Luke ao falar isso; foi difícil para ele assumir o fato de que a ligação existente entre eu e John era maior do que qualquer outra coisa imaginável. Porém ele disse e o que ele fez em seguida foi uma grande prova de amor - ele abriu mão de zelar por mim, para me entregar a quem eu mais precisava: John.
  Ficamos os três ali, em silêncio, Luke tinha os olhos estáticos em mim; John olhava o chão, raras vezes olhou para mim e nesses momentos meu coração enchia-se de paz, era como se eu enxergasse naqueles olhos verdes e únicos a minha própria alma.
  De repente, Luke levantou-se para atender o celular que chamava e foi para outro cômodo, ao voltar disse:
  - Meu pai ligou e está precisando de mim. Desculpe, eu já venho - dizendo isso ele beijou minha testa amorosamente e despediu-se de John com as palavras "obrigado, cara", sem nenhum sinal de ressentimento, pelo contrário, um agradecimento verdadeiro.

  Eu ainda não sei se naquele dia ele foi embora por que realmente precisava ou se foi sensível a ponto de me deixar sozinha, o que era melhor para mim. O que sei, é que depois que ele foi e eu fiquei a sós com John, fui voltando ao normal e, aos poucos, os pensamentos foram estabilizando-se. O caos estava desaparecendo.

  - Sabe John, o que me entristece não é o fato de eu não demonstrar o que sentia por eles, pois eles sabiam o quanto eu era fechada e não exigiam muito de mim nesse ponto. O que faz com que eu queria me atirar de uma ponte é essa sensação de desamparo. Estou me sentindo completamente só. Chego a acreditar que teria sido melhor que não tivéssemos tido uma relação tão boa e tão unida, pois talvez eu não sofresse tanto como agora. Não consigo me imaginar sem eles. Estou sozinha agora... completamente só.
  - Ei, não diga isso, nunca mais - John falou muito sério. - Como pode dizer isso? Aceito todas as lágrimas que quiser derramar, respeito os dias, meses e até mesmo os anos de depressão, se você precisar deles. Mas, de jeito nenhum, posso aceitar você supondo a completa solidão. Não posso acreditar que por um momento, uma fração de segundo, passou pela sua cabeça que irá ficar sozinha. Olhe para mim - nesse momento ele segurou minha face com as duas mãos, forçando-me docemente a olhar em seus olhos. - Grave uma coisa em sua cabeça: eu nunca vou te deixar. Aconteça o que acontecer. Eu-nun-ca-vou-te-dei-xar. Preciso repetir quantas vezes?
  Eu abaixei a cabeça, ele continuou.
  - Garota, minha garota. Não posso ficar longe de você e nem você pode ficar longe de mim. Precisamos um do outro. Conhecemos um ao outro. Estou em seu interior, sabe o que eu quero dizer, só você sabe - ele parou de falar para me olhar como se quisesse arrancar de meus olhos se eu estava realmente entendendo o que ele queria dizer com tudo aquilo. - Ninguém no mundo poderá penetrar sua alma como eu e o inverso também.  - Ele praticamente sussurrou - somos o intrínseco um do outro.

  Eu me levantei e fui fumar na sacada, ele foi atrás. John conseguiria me dar as forças necessárias, eu não tinha dúvidas quanto a isso. Depois de algumas tragadas, eu disse por fim:
  - Nós temos um elo invisível - falei sem fitá-los nos olhos, não precisava. Ele também, não tirou os olhos da Tabacaria do outro lado da rua.
  - Nós temos um elo invisível - repetiu ele concordando, antes de se despedir. - Vou lhe deixar agora, daqui a pouco o Luke volta e sei que você precisa de um tempo seu. Me ligue assim que sentir que deve - e abraçou-me fortemente antes de virar as costas e ir embora.

  John era realmente parte de mim, eu pude refletir antes de Luke chegar.

2 comentários:

  1. Apesar de triste, é um conto bem reflexivo. Digo isso, pois já vi algumas histórias parecidas (em relação a um 'amigo' muito próximo e o namorado) Quanto ao assunto principal, confesso que em alguns momentos senti até um aperto no coração. Olha, são raríssimas as vezes que eu me envolvo nos textos, mas este me surpreendeu.
    Parabéns mesmo.

    Pra quem vai comentar, recomendo que leia antes, pois vale muito a pena.

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  2. Concerteza!! Como Rubi disse ,apesar de muito triste..e uma grande história..da proxima coloca menas palavras.ficou muito grande...mais serão poucos os que vao ler.....!!!
    Muito bom mesmo,a quanto tempo tem isso???vlwlwlw

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