22 de jun de 2011

Caindo na estrada (On the road)

  Olhava atentamente cada livro em sua estante, cada um tinha seu significado especial, escolhia alguns distintos e os acariciava suavemente - faziam uma grande parte de sua vida, e não poderia levar todos consigo. Por um momento de reflexão, o último para decidir finalmente qual caminho seguir, Van sentou-se em sua cama e com os olhos fechados respirou profundamente, tentando levar junto de si o aroma daquele quarto, tão desorganizadamente decorado com seus posteres e miniaturas de animes e de Bob Dylan que ele tanto adorava, como se fosse a última vez que estaria ali. Sem perceber o que estava fazendo, ele abriu o armário e pegou uma camiseta roxa, muito pequena para ser sua, era de Angel, sua garota que havia ido embora para algum canto do Mississipi, ele aspirou o cheiro daquela camiseta e as lágrimas logo vieram aos seus olhos; ele demorou para perceber o quanto amava essa garota impecavelmente linda com seus cabelos compridos, loiros e de cachos que caíam dançando perfeitamente, sua pele dourada pelo tempo que morara com ele na Califórnia e seus olhos ingênuos cor de mel. Ele era do tipo de cara durão que tratava todas as mulheres de forma igual - como vagabundas, mas era desproposital. Ele então sentiu raiva de Angel por ter ido embora e ter deixado aquela peça de roupa, seu lado animal desejou que fosse uma roupa íntima, seu lado homem quis chorar de raiva. Ela fugira com um soldado que lhe prometera vida melhor. Ela que vá para o inferno! - ele profere sempre que pensa nela: o tempo todo.

  Ele pegou tudo o que havia em sua caixinha de economias, o que era ao todo uns 248 dólares apenas, e uma mochila com o mínimo de pertences possível - um livro, umas camisetas e um canivete. Nada de fotos, nada de lembranças. Deixou inúmeras cartas enormes, escritas a base de benzedrina, na gaveta da cozinha, alguém leria algum dia; alguém que se preocupasse com ele e invadisse sua casa. 

  Adeus, West Memphis! Michigan, aí vou eu, especificando: Detroit. É lá que o sol brilha. Van partia sorrindo e cantarolando pela estrada, esperando algum carro bondoso para lhe dar uma carona. E assim, de carona em carona, ele conheceu muitas pessoas e muitos lugares diferentes, no início sentiu falta de casa e dos antigos amigos, porém o que ele queria era aventura, o que ele não poderia encontrar sem sair de casa e nem poderia contar com a ajuda dos amigos que eram benevolentes demais. Então, simplesmente seguiu da mesma forma por quilômetros, até chegar em Nashville e foi lá que conheceu Roy, este se tornaria, algum tempo depois, uma das pessoas que mais marcariam a vida de Van.
  Roy estava no bar do lado do posto onde o caminhoneiro gordo e simpático que dera carona ao Van deixara-o. Van percebeu a presença daquele homem que aparentava uns 24 anos, com o peito nu. Ele parecia completamente desnorteado, quase tomado pelo desespero.
  - Precisa de alguma coisa aí, cara? - aproximou-se Van desconfiado.
  - Você não vai acreditar - o homem começou a falar com aquele sotaque das pessoas do norte. - Eu estava voltando de uma viagem para a minha cidade e parei para abastecer nesse posto dos infernos - ele apontou nervosamente para o posto ao lado - e um filho da mãe me atacou, levou meu carro e tudo que tinha dentro. Levou minha carteira, levou até minha camiseta, o desgraçado. Perguntei se ele não queria a porra da minha cueca também - ele estava vermelho e seus olhos pegavam fogo. - Amigo, não sobrou uma moeda sequer pra mim ligar pra minha mulher que me espera em Detroit com a minha filha.
  - Espera aí, você disse Detroit? - Van hesitou e disfarçou o entusiasmo pela coincidência. - Eu vou pra lá também, mas nem posso lhe oferecer carona porque tô buscando uma também. E eu não tenho celular, mas tenho uma grana, se quiser emprestada para usar o telefone público - e deu uma moeda para o estranho. - Ah, pega uma camisa, para ter mais sorte com os caminhoneiros - e tirou uma cinza de dentro da bolsa e deu a ele.
  - Obrigado, salvou uma parte do meu dia. - Deu alguns passos a caminho do telefone, mas se deteve na metade e voltou-se - ah, meu nome Roy, Roy Phoenix.
  - Tranquilo, cara. Acaba de conhecer Van Nicholson Smith.

  Passados uns longos minutos, Van estava gastando com bebidas no bar, quando viu Roy entrar e sentar-se ao seu lado.
  - Vai à Detroit, então? - Van perguntou, oferecendo-lhe um copo de cerveja.
  - Sim, como você, não? - Roy aceitou o copo.
  - Pretendo, se não mudar os planos no meio do caminho. Saí do Arkansas...
  - Deixe-me adivinhar, você gosta de Jazz, tem um livro de Charles Bukowski em sua mochila, escreve enlouquecidamente sob os efeitos de anfetaminas ou, como deve preferir, benzedrinas?
  - Como você sabe? - Van espantou-se.
  - Sei muito sobre esses beat's deslocados de seu tempo.
  - Você tá certo, queria mesmo fazer parte da geração beat, mas eu só quero chegar de uma vez em Detroit, nem penso em passar em Denver - e os dois riram, dando início a uma rara amizade.
  - Acho que conseguiu uma companhia para ir à Detroit, a minha esposa não acreditou na história do roubo e se nega a me mandar dinheiro ou o meu número da conta do cartão pr'eu retirar alguma grana.
  - Sua mulher deve ser uma ótima pessoa, com um enorme coração - Roy disse sarcasticamente.
  - Ela é fascinante - Van respondeu com sinceridade.
  
  E os dois seguiram, assim, sua viagem. Pegaram carona em uma pick-up caindo aos pedaços. E foram deixados ao anoitecer, já próximos à Washington. Pegaram um ônibus velho e lotado que seguia para a capital, Van pagou a passagem dos dois.
  Ao chegarem em Washington, foram ao primeiro bar que encontraram, tomaram uma cerveja Blue Ribbon e o dinheiro de Van ia esgotando-se aos poucos. Roy foi ao banheiro, enquanto Van contemplava algumas meninas mexicanas que sorriam e olhavam do outro lado do bar, duas em especial estavam com a atenção toda voltada a ele, ambas morenas de cabelos compridos e olhares picantes, como o próprio chilli. Ele poderia ter uma noite extremamente agradável, se não fosse seu companheiro que, além de ser casado, parecia ter muita pressa para chegar em casa, para perder uma noite sequer em um hotel daquela cidade. Van, então, desviou o olhar das garotas ardentes por natureza e concentrou-se em sua cerveja, logo estariam pegando outra carona. 
  
  - Hei, Smith, você notou que aquelas garotas não tiram os olhos da gente? - Roy perguntou com um sorriso lascivo.
  - É, notei. São muitos gatas, não é? - Van teve um sobressalto, não percebeu a presença de Roy ali.
  - São demais, cara - e lançou um olhar sugestivo ao Van. - Há quanto tempos estamos na estrada? A gente precisa se divertir um pouco.
  Van espantou-se com a atitude do companheiro, já tão próximo. De qualquer forma não contestou nem fez questão de perguntar sobre sua mulher que o esperava. E assim tiveram sua noite apimentada com as lindas garotas mexicanas e de quebra ganharam um lugar para dormir, a casa em que elas moravam. 

  Nessa noite eles se divertiram e notaram que tinham muito em comum, além de gostos musicais e literários, ambos tinham uma fome pela vida, pela loucura. Ambos queriam arder, queimar nos oceanos, subir aos céus e cair em alta velocidade de volta em um colo apimentado. Ambos queriam explodir e tornar-se estrelas terrestres que perambulam por aí, sem destino, sem motivo. Apenas para brilhar e queimar. Eles queriam fazer história, não para que alguém lesse e guardasse-os na memória; queriam apenas pela diversão que teriam.
  Muitas outras noites foram parecidas com essa e nem todas tinham mulheres, apesar da maioria ter deveras. Uma das noites ficou carinhosamente gravada na mente de Van Smith, foi a que eles foram largados em plena estrada deserta, no auge da escuridão noturna - o homem que lhes cedera carona em seu carro executivo, top de linha e sem nenhum arranhão, era inacreditavelmente maçante. Eles estavam agradecidos pela bondade da carona, todavia, o fato deles terem de permanecer calados perturbou-os profundamente. Eles queriam entrar em carros, mesmo que velhos, e ouvir Charlie Parker ao som máximo - o som suave do piano e do saxofone combinaria perfeitamente com as suas composições embriagadas e improvisadas sob as estrelas das quais eles gostavam de cantar bradando por aí, depois de muitas cervejas ou, em noites um pouco frias, uísques. Eles queriam demais para simples caroneiros, porém eles queriam demais quanto a tudo na vida. E nessa noite, eles simplesmente se sentaram no meio da rua, sem esperanças de passar uma alma sequer por ali e sem paciência para caminharem um pouco até o posto mais próximo - eles não faziam ideia de a quantas de distância encontrava-se o posto mais próximo, então apenas relaxaram e deram risada de tudo. Depois de passada um pouco a euforia, esperaram, entretanto não chegou o medo. E iniciaram uma conversa sobre suas vidas. Van contou o quanto sentia falta de seus pais, e que de qualquer forma eles nunca foram presentes; falou também sobre Angel e como acreditava que jamais a esqueceria; e terminou contando sobre sua paixão pela cultura japonesa e por escrever. Roy contou o quanto amava sua mulher, mesmo ela sendo espantosamente irritante na maior parte do tempo; falou do orgulho que sentia de sua filha de 13 anos, que era muito madura para sua idade, e sonhava em ser uma executiva respeitada por todo o país, como o pai. E nesse momento, Roy ficou pensativo.
  - Essa vida, de trabalhador respeitado e responsável, da qual todos da minha família sonharam e hoje admiram em mim... sabe, não era isso o que eu queria. Eu sempre fui o garoto inteligente e esforçado do qual todos se orgulhavam. Hoje eu repudio isso tudo, tenho asco de mim mesmo. O que eu queria para minha vida era isso, cara, correr estrada, viver a vida loucamente, ouvir meu Jazz, ouvir meu rock ao som máximo. Andar com sapatos velhos sem me importar e beber toda santa noite. Ter lindas e doces mulheres acariciando meus cabelos sob a luz de um abajur de um quarto de motel barato. Tudo simples, sabe. A única coisa grande, mesmo, seria o mar. 
  - E o céu também - completou Van. - Olha só esse céu - e apontava para o céu de uma escuridão negra que engolia o mundo, repleta de estrelas. Eles nunca tinham visto tantas estrelas juntas antes.
  - Exatamente, essa imensidão toda. Deitar sob esse infinito e acreditar que tudo isso me pertence. Sozinho ou na companhia de alguém legal como você - Roy parecia contente por Van compreendê-lo.
  
  Algumas noites estreladas depois, eles chegaram em Detroit. Por mais que tenham adiado a viagem negando caronas e a deixado mais lenta do que realmente seria, um dia ela chegaria ao fim. E esse dia acabara de chegar. Ao entrarem na cidade, dentro de um caminhão, na companhia de um motorista simpático, eles se despediram melancolicamente. Van passaria um tempo com seus amigos em Detroit, porém logo seguiria sua aventura sozinho ou com algum companheiro louco que encontrasse em um posto qualquer depois de ser assaltado. Roy iria finalmente para casa, com a recordação dos melhores dias de sua vida. O que ficaria guardado igualmente na mente de ambos, era a lembrança um do outro, da amizade que fizeram e da esperança de um dia encontrarem-se por essas longas estradas do Norte da América.

Um comentário:

  1. Curti muito seu blog e a forma como escreve.

    Estou te seguindo..se puder me segue também!

    http://www.empadinhafrita.blogspot.com

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