28 de jun de 2011

8.6

  Esforcei-me para não lembrar, para não pensar, para não lhe ter em minha mente. Fiz de tudo para me desvencilhar da dor, para fugir da saudade e para não ter vontade. Por fim, vi que enquanto procurei seguir em frente, estava apenas estancada no mesmo lugar. Eu confundi fuga com superação. 

  Eu não superei absolutamente nada, não nego.

  Neste momento o carro corre, o vento bate na cara, a música soa atrevida pelos fones, eu admiro as montanhas verdes correndo ao lado da janela e a sensação de vida seria boa. Seria, veja bem. Se não estivesse tocando a música Angra dos Reis da Legião Urbana, se eu não olhasse para o céu e me lembrasse de seu sorriso puro e contido, se eu não provocasse a dor sentindo-lhe desta maneira, a sensação seria maravilhosa. 

  Provoco a dor, exatamente.

  Passaram-se semanas desde que me perdi de você, desde que fracassamos, desde que você foi embora. E durante essas semanas eu afastei toda a lembrança do nosso tempo, do que passamos, do que quase vivemos. Eu arranquei de minha mente a imagem de nós dois sonhando desvairados, desatinados e utópicos. Nessas semanas eu consegui o que queria: não senti sua falta por nenhum segundo. De qualquer forma eu não sentia nada. Acreditava que seguia em frente, removia as manchas e assim ia vivendo. 

  Contudo, não estava vivendo, confesso.

  Depois de refletir sobre o rumo que minha vida tomava, sobre a falta de sentido que eu encontrava em todo lugar, eu decidi que o melhor a fazer era, de uma vez por todas, lembrar da gente, do que não restou, do nosso tempo não vivido - me livrar da inibição da saudade e sentir, porque sentir é preciso. Então eu me lembrei das estrelas, do impacto de Júpiter, de eu o desarmando com meu sorriso, e lembrei do quanto eu amava o seu sorriso. Pude me distrair com o carro correndo e com céu - não existe nada no mundo que eu goste mais do que contemplar o céu, você sabe como é isso. E assim as lembranças chegam e vão tomando conta. E eu passo a sentir ainda mais você e toda dor. E pela primeira vez em dias eu pude me sentir verdadeiramente viva. 

  Sentir dor é estar viva.

  E aprendi da maneira mais difícil que evitar ler Caio e escutar Vinicius não adiantaria de nada. Pior ainda era esconder-me em livros de Kerouac e poesias de Leminski. Não pensar nas razões pelas quais tudo aconteceu. O porquê de eu evitar lágrimas com vodka, deixar a garganta ardendo, para não arder o peito - que lágrimas não se evitam, não se adiam e só fez prolongar o sofrimento. Não pensar que eu não estava sobrevivendo, como acreditava, e sim o contrário. E todos os meus erros, tentando apagar o que já está eternamente marcado, se foram quando tocou neste carro quente aquela música de Toe & Toki Asako, da qual você disse que falava em adeus, foi então que eu não fugi e enfrentei as lembranças que teriam de vir, algum dia. Enfrentei o que teria de enfrentar. E entendi, o que eu sentia não era a sensação de superação, e sim um vazio que não me deixava sentir a dor, e que não me deixava sentir nada. Talvez tenha chegado a hora de se desesperar, chorar compulsivamente, acalmar-se, derramar mais algumas lágrimas, cair mais uma vez, levantar como sempre e, finalmente, superar o que passou, realmente. E lhe ter sempre na memória, sabendo que fez parte de alguma parte de minha vida. E não pensar nos erros, nas promessas não cumpridas, nas mentiras e naquele sentimento cruelmente assassinado que tínhamos. Não pensar que quase morri, que quis morrer por um dia e que no outro jurei que você não era nada, que eu estava muito bem, sabendo que tudo isso era falso. Pensar apenas no quanto eu amei, que você amou mais ainda; pensar que eu gostava da maneira com que você sorria quando me olhava profundamente penetrando em todos os meus sentidos. Sentir saudade de você, saudade pura de quem vê o fim de algo não-começado, do que foi sentido em silêncio. Sentir a dor de sua ausência. A dor intensa da saudade.

  O caminho para o verdadeiro esquecimento é, antes de tudo, sentir intensamente a saudade.

3 comentários:

  1. Oi Pamela. Assista o filme e se quiser pesquise sobre a condessa. Tenho certeza que dá pra encontrar histórias, fatos e influências bem legais sobre essa figura histórica real. =)

    Sobre seu texto...
    " Sentir dor é estar viva".

    Essa é uma verdade bem dolorosa...


    http://www.empadinhafrita.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Adorei Aqui!!!

    estou seguindo..
    retribui??

    beijos
    http://pathyoliver.blogspot.com
    http://momentosdapathy.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. Não sei se é a forma com a qual você escreve, ou os temas que aborda. Tudo me parece tão interessante e poético, claro. Muitas vezes ficamos presos a determinada coisa, pessoa, lugar, ou enfim, e isso, só nos faz mal.
    Precisamos viver, isso sim. Viver intensamente, e aproveitar ao máximo e como dizia James Dean: " Sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã. "

    ResponderExcluir