28 de jun de 2011

8.6

  Esforcei-me para não lembrar, para não pensar, para não lhe ter em minha mente. Fiz de tudo para me desvencilhar da dor, para fugir da saudade e para não ter vontade. Por fim, vi que enquanto procurei seguir em frente, estava apenas estancada no mesmo lugar. Eu confundi fuga com superação. 

  Eu não superei absolutamente nada, não nego.

  Neste momento o carro corre, o vento bate na cara, a música soa atrevida pelos fones, eu admiro as montanhas verdes correndo ao lado da janela e a sensação de vida seria boa. Seria, veja bem. Se não estivesse tocando a música Angra dos Reis da Legião Urbana, se eu não olhasse para o céu e me lembrasse de seu sorriso puro e contido, se eu não provocasse a dor sentindo-lhe desta maneira, a sensação seria maravilhosa. 

  Provoco a dor, exatamente.

  Passaram-se semanas desde que me perdi de você, desde que fracassamos, desde que você foi embora. E durante essas semanas eu afastei toda a lembrança do nosso tempo, do que passamos, do que quase vivemos. Eu arranquei de minha mente a imagem de nós dois sonhando desvairados, desatinados e utópicos. Nessas semanas eu consegui o que queria: não senti sua falta por nenhum segundo. De qualquer forma eu não sentia nada. Acreditava que seguia em frente, removia as manchas e assim ia vivendo. 

  Contudo, não estava vivendo, confesso.

  Depois de refletir sobre o rumo que minha vida tomava, sobre a falta de sentido que eu encontrava em todo lugar, eu decidi que o melhor a fazer era, de uma vez por todas, lembrar da gente, do que não restou, do nosso tempo não vivido - me livrar da inibição da saudade e sentir, porque sentir é preciso. Então eu me lembrei das estrelas, do impacto de Júpiter, de eu o desarmando com meu sorriso, e lembrei do quanto eu amava o seu sorriso. Pude me distrair com o carro correndo e com céu - não existe nada no mundo que eu goste mais do que contemplar o céu, você sabe como é isso. E assim as lembranças chegam e vão tomando conta. E eu passo a sentir ainda mais você e toda dor. E pela primeira vez em dias eu pude me sentir verdadeiramente viva. 

  Sentir dor é estar viva.

  E aprendi da maneira mais difícil que evitar ler Caio e escutar Vinicius não adiantaria de nada. Pior ainda era esconder-me em livros de Kerouac e poesias de Leminski. Não pensar nas razões pelas quais tudo aconteceu. O porquê de eu evitar lágrimas com vodka, deixar a garganta ardendo, para não arder o peito - que lágrimas não se evitam, não se adiam e só fez prolongar o sofrimento. Não pensar que eu não estava sobrevivendo, como acreditava, e sim o contrário. E todos os meus erros, tentando apagar o que já está eternamente marcado, se foram quando tocou neste carro quente aquela música de Toe & Toki Asako, da qual você disse que falava em adeus, foi então que eu não fugi e enfrentei as lembranças que teriam de vir, algum dia. Enfrentei o que teria de enfrentar. E entendi, o que eu sentia não era a sensação de superação, e sim um vazio que não me deixava sentir a dor, e que não me deixava sentir nada. Talvez tenha chegado a hora de se desesperar, chorar compulsivamente, acalmar-se, derramar mais algumas lágrimas, cair mais uma vez, levantar como sempre e, finalmente, superar o que passou, realmente. E lhe ter sempre na memória, sabendo que fez parte de alguma parte de minha vida. E não pensar nos erros, nas promessas não cumpridas, nas mentiras e naquele sentimento cruelmente assassinado que tínhamos. Não pensar que quase morri, que quis morrer por um dia e que no outro jurei que você não era nada, que eu estava muito bem, sabendo que tudo isso era falso. Pensar apenas no quanto eu amei, que você amou mais ainda; pensar que eu gostava da maneira com que você sorria quando me olhava profundamente penetrando em todos os meus sentidos. Sentir saudade de você, saudade pura de quem vê o fim de algo não-começado, do que foi sentido em silêncio. Sentir a dor de sua ausência. A dor intensa da saudade.

  O caminho para o verdadeiro esquecimento é, antes de tudo, sentir intensamente a saudade.

26 de jun de 2011

Fantasmas do passado

  Em momentos como esse eu cismo se pode existir algo melhor do que sentir a brisa e admirar o nascer do sol através do oceano. Acredito com toda a força da alma que não, momentos de pura poesia valem mais que tudo. E na insistência dos pensamentos, eu me pergunto se Jim demorará para chegar com sua doçura agradável e me fazer companhia. De qualquer forma, neste exato instante eu preferiria ficar só. A presença de Jim tem me perturbado e o problema é que eu sei bem qual é o motivo. Posso lembrar-me perfeitamente da primeira vez que nos vimos, os olhares cruzando-se, os vazios misturando-se, os sorrisos abrindo-se timidamente e assim começou, como começa qualquer história. No entanto, eu jamais deveria ter iniciado qualquer relacionamento com ele, eu sabia que isso aconteceria, eu sabia que esse tipo de romance nunca foi para mim... apesar de que ele parecesse o cara certo, o único que poderia realmente me tirar daquele abismo onde eu me encontrava, mostrar-me a luz novamente. Ele parecia ser o único, no entanto, ele era o único do qual eu deveria ter me afastado desde o princípio. Agora estou perdida, não posso livrar-me dele, e não aguento mais olhar em sua face. Dói, dói, dói. Dói tê-lo, dói mais ainda não tê-lo... O certo seria ele me fazer bem, não? Por um momento eu acreditei fiel e cegamente que ele conseguiria - erro meu.
  - Estou contemplando esta vista encantadora há algum tempo - estremeci, eu odiava quando Jim proferia a palavra encantadora. - Não pude resistir de vir até aqui, te atrapalho?
  - Claro que não - eu respondi sorrindo, enquanto ele se sentava ao meu lado e abraçava-me. Eu estava morrendo aos poucos, era a pior tortura que eu já recebera na minha vida. Meu Deus, onde eu estava com a cabeça? Esse homem que está ao meu lado me causa dores infernais, e tudo é pior do que antes, quando eu caía cada dia mais naquele precipício.

  Eu não pretendia envolver-me com mais ninguém, desde as inúmeras decepções que tive com Eddie. Aliás, enormes decepções. Eu me atirei na mais profunda depressão, porém eu seria forte o suficiente para me salvar sozinha e eu jurei para mim e para o mundo que nunca mais, nunca mais eu iria cair de novo. Nunca mais me apaixonaria, nunca mais me entregaria. As mágoas que tive bastariam para uma vida inteira. Contudo, Jim chegou com seu jeito tão doce, gentil e culto - exatamente como era Eddie - e eu fiz de tudo para resistir, porém, com o tempo se tornou impossível fazê-lo.
  Nós nos entendíamos muito bem, mesmos gostos musicais, mesmas preferências literárias; nós podíamos passar horas conversando sem parar sobre tudo. Tudo. Estávamos em perfeita sintonia - exatamente como era com Eddie - eu sabia que estava errada em continuar com aquilo, com aqueles encontros tão agradáveis e apaixonantes.
  Tudo em Jim lembrava-me Eddie, inclusive agora, enquanto ele tem os olhos fixos em mim e contempla-me de modo tão profundo que poderia me perder em seus olhos castanhos claros - uma das poucas diferenças, Eddie possuía olhos verdes, de qualquer forma a intensidade com que me fitavam era idêntica. Estava tudo errado, tudo errado, nada deveria ser assim. Eu deveria estar melhor com Jim, ele me fazia bem. Pelo menos, eu acreditava nisso. E neste exato instante, Jim me abraça e posso sentir sua barba tão macia, e penso que Eddie também tinha uma barba que deveria ser muito macia. Inferno! Tudo nele me lembra o outro e isso era a única coisa da qual eu não precisava.

  Jim percebeu minha tensão e sem perguntar o porquê, tentou me deixar relaxada distraindo-me com qualquer assunto bobo, que logo transformaríamos em grandes devaneios, tornando tudo poesia e filosofia. E ele prestava atenção em cada detalhe que saía de minha boca e toda vez que ele assentia com a cabeça seriamente ou abria o seu sorriso contido, quase tímido, eu desejava morrer - era exatamente como os gestos de Eddie. E toda dor voltava. Eu não conseguia livrar-me da angustia, a dor devorava-me toda vez que eu simplesmente olhava para ele. Pergunto-me: se é tamanha a dor e se no fundo eu sabia as coisas seriam desse jeito, por que, então, eu insisti nesta história estúpida? E a resposta chega no mesmo segundo: porque eu acreditei que Jim seria a cura perfeita para todas as feridas que Eddie deixou. Ele seria a cura perfeita com toda sua leveza, eu seria alguém melhor para nós dois. Entretanto, o efeito foi o contrário, ele abre mais ainda os cortes a cada vez que me deixa ouvir sua voz, com seu sotaque alemão - é quase o próprio Eddie falando.

  No fundo eu sabia que o que me atraía em Jim era o fato de que ele era extremamente parecido com Eddie, fisicamente e na própria personalidade. Com a sutil diferença de que Jim estava sendo sincero desde o início, que no nosso relacionamento não havia mentiras e que com ele era tudo real, não era errado, não era crime; com ele era correto, aceitável; era simples e não deveria doer. Com o Eddie tudo isso seria impossível. E por que não ficar feliz com isso? Não seria um bom prêmio, depois de tudo que passei, ter um amor real, um relacionamento concreto? Seria, se eu não soubesse que o homem que eu amava não era o Jim e sim a imagem viva de Eddie.

  E Jim disse de repente:
  - Estou vivendo meus sonhos aqui com você - e eu olhei em seus olhos, querendo arrancar dele sua essência, querendo enxergar Jim. JimJim e não Eddie, isso era ótimo. Poderia ser assim pelo resto de nossos dias, contudo eu não poderia apostar nisso, então decidi não fazer mais nada, senão aproveitar o momento.
  - E é real, não é Jim? - eu disse sentindo as lágrimas formando-se em meus olhos e vendo a expressão espantada dele com a minha pergunta, todavia, repleta de amor. - Dessa vez é de verdade, não é? - eu questionava como uma criança desconfiada.
  - Claro que é - ele não entendia as perguntas, contudo respondia ternamente, até que a minha lágrima venceu e escorreu e atrás dessa escorreram muitas outras em uma torrente, e eu já não me controlava e chorava compulsivamente. E, sem aguentar mais, Jim perguntou preocupado - o que está acontecendo meu amor? - e me abraçava, embalando-me, tentando acalmar-me.
  - Eu posso te ver. Eu posso te sentir. Eu posso acreditar em você.

  E nesse momento eu respirei todo o aroma de Jim, beijei seu rosto, e senti-o mais profundamente que pude. Pela primeira vez eu estava sentindo verdadeiramente o Jim. O meu Jim e mais ninguém. Eu estava livrando-me dos fantasmas do passado.

24 de jun de 2011

Incicatrizável

  - Ela é linda, você precisa conhecê-la. Ela é fascinante - Tom estava muito animado, contando sobre a garota que conhecera em uma festa em que tocara para seu primo. - Foi muita sorte mesmo, porque ela nem gosta de festas assim nem sei como ela gostou de mim que sou DJ. Mas ela é incrível, você vai ver, Eddie.
  Ela chegou com uns quinze minutos de atraso.
  - Ei, Tom, tudo bem? -  cumprimentou ela sorridente.
  E Eddie teve um sobressalto ao ver quem era a garota tão encantadora da qual Tom não parou de falar por nem sequer um minuto durante a tarde. O susto não se deu pelo fato dela chegar com seu jeans justo, seu all star preto, sua blusinha simples, também preta, com as escritas AC/DC em vermelho e seus óculos ray-ban aviator com aro dourado. Não era o fato dela ser absurdamente deslumbrante que o perturbava. Era por que ele já a conhecia. Ele tivera uma pequena e intensa história com ela. História que não acabara bem.
  - Oi, Anna, estou ótimo, ah, esse é o Eddie, meu primo - Tom nem podia imaginar o que se passou pela mente de ambos ao se olharem naquele momento. Ninguém poderia dizer qual dos dois era o mais congestionado.
  - E aí Eddie, quanto tempo, não? - disse ela tentando, sem muito sucesso, transparecer calma.
 Eddie não conseguia emitir nenhum som. Apenas pensava: não pode ser.
  - Então já se conheciam? ótimo, nos livramos do trabalho das apresentações sem graça - dizia Tom sem desconfiar de nada. - Sol chega daqui a pouco, não é Eddie? Ah, droga, esqueci minha carteira, vou lá no carro pegar, já volto.

  - Que situação! - exclamou Eddie angustiado.
  - Eddie, eu não sabia que ele era seu primo, se soubesse teria evitado - ela aparentava mais calma do que ele. - De todo modo, Sol, sua namorada está chegando, vamos procurar ficar menos tensos, você principalmente. Relaxa. O que passou, passou, já era. Não vai ser tão difícil assim.
  - Anna, por favor, ele é meu primo. Você sabe de tudo que passamos. Como quer que eu fique tranquilo? Não há como ficar tranquilo! - ele beirava o desespero. - Minha nossa, eu não estou acreditando. Você e meu primo?
  - Pare, não posso aguentar isso. O que você está pensando? Eu te esperei, Eddie, te esperei mais do que deveria. Mas vocês fez tudo errado e nem me surpreendo de continuar fazendo. Eu não esperava que isso fosse acontecer, te reencontrar assim, mas aconteceu e você vai ver, daqui a pouco a gente se acostuma com a situação e as coisas acalmam-se. Foi só o susto do momento - Anna parecia, porém, não estava sendo completamente sincera. - Afinal, acabou tudo, pelo menos pra mim - ela parou para refletir antes de prosseguir. - De qualquer forma, se a situação é complicada demais para você, eu posso dar o fora, ainda dá tempo, eu e Tom não estamos apaixonados e posso evitar isso. Afinal insistir em uma relação que tem tudo para não dar certo, isso eu não faço nunca mais - e lançou a ele um olhar repleto de insinuações e mágoas.

  Ao ouvir essas palavras árduas e secas, ele baixou a cabeça e refletiu. Lembrou-se do entusiasmo de Tom com Anna. Lembrou-se de que amava Sol. E pensou que realmente, Anna estava certa, tudo ficaria bem. Seria difícil, mas tudo ficaria bem.
  - Não, não. Você tem razão, está tudo bem. Eu estou sendo um imbecil - e forçou um sorriso, desculpando-se.
  Tom voltou e junto dele estava Sol.
  - Vamos?

  O início do jantar estava tenso, porém pouco tempo depois, sob os efeitos do vinho, todos estavam tranquilos. Os quatro divertiam-se como nunca. Riam e atraíam a atenção das mesas vizinhas. Contudo, chegou um momento em que as conversas tornaram-se sérias e intensas e nessas conversas, cheias de opiniões sobre política, religião, esportes, músicas, livros e também de teorias filosóficas e científicas, Anna e Eddie entendiam-se mais do que os outros dois. Eles se entusiasmavam com suas paixões idênticas e aprofundavam-se em assuntos distintos, deixando Tom e Sol para trás. Ao perceberem o clima que estavam causando, excluindo os outros dois de suas conversas, eles se resguardaram. E quando o jantar parecia estar restaurando-se, cada casal em seu devido lugar, o músico, que tocava ao vivo, iniciara uma canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, da qual, fez Eddie e Anna permanecerem em um completo e profundo silêncio. Refletindo. Pensando. E trocando olhares até então evitados. A música era bonita, mas a questão não era essa. A música lembrava certos momentos deles... E, assim, começaram de novo com o entusiasmo e foram mais longe, não dando fim aos olhares indiscretos. Tom e Sol estavam a cada minuto mais entediados e assim foi pelo resto da noite. Até que Sol quis ir embora e Tom concordou que estava tarde. E então se despediram e seguiram seus caminhos.

  No dia seguinte, Eddie encontrou tom cabisbaixo e melancólico, perguntou o que havia acontecido. Tom respondeu que Anna foi embora, que não poderia continuar por motivos que não podia contar. Ela queria distância completa de todos eles. Eddie entendeu. Todos entenderam.

22 de jun de 2011

Caindo na estrada (On the road)

  Olhava atentamente cada livro em sua estante, cada um tinha seu significado especial, escolhia alguns distintos e os acariciava suavemente - faziam uma grande parte de sua vida, e não poderia levar todos consigo. Por um momento de reflexão, o último para decidir finalmente qual caminho seguir, Van sentou-se em sua cama e com os olhos fechados respirou profundamente, tentando levar junto de si o aroma daquele quarto, tão desorganizadamente decorado com seus posteres e miniaturas de animes e de Bob Dylan que ele tanto adorava, como se fosse a última vez que estaria ali. Sem perceber o que estava fazendo, ele abriu o armário e pegou uma camiseta roxa, muito pequena para ser sua, era de Angel, sua garota que havia ido embora para algum canto do Mississipi, ele aspirou o cheiro daquela camiseta e as lágrimas logo vieram aos seus olhos; ele demorou para perceber o quanto amava essa garota impecavelmente linda com seus cabelos compridos, loiros e de cachos que caíam dançando perfeitamente, sua pele dourada pelo tempo que morara com ele na Califórnia e seus olhos ingênuos cor de mel. Ele era do tipo de cara durão que tratava todas as mulheres de forma igual - como vagabundas, mas era desproposital. Ele então sentiu raiva de Angel por ter ido embora e ter deixado aquela peça de roupa, seu lado animal desejou que fosse uma roupa íntima, seu lado homem quis chorar de raiva. Ela fugira com um soldado que lhe prometera vida melhor. Ela que vá para o inferno! - ele profere sempre que pensa nela: o tempo todo.

  Ele pegou tudo o que havia em sua caixinha de economias, o que era ao todo uns 248 dólares apenas, e uma mochila com o mínimo de pertences possível - um livro, umas camisetas e um canivete. Nada de fotos, nada de lembranças. Deixou inúmeras cartas enormes, escritas a base de benzedrina, na gaveta da cozinha, alguém leria algum dia; alguém que se preocupasse com ele e invadisse sua casa. 

  Adeus, West Memphis! Michigan, aí vou eu, especificando: Detroit. É lá que o sol brilha. Van partia sorrindo e cantarolando pela estrada, esperando algum carro bondoso para lhe dar uma carona. E assim, de carona em carona, ele conheceu muitas pessoas e muitos lugares diferentes, no início sentiu falta de casa e dos antigos amigos, porém o que ele queria era aventura, o que ele não poderia encontrar sem sair de casa e nem poderia contar com a ajuda dos amigos que eram benevolentes demais. Então, simplesmente seguiu da mesma forma por quilômetros, até chegar em Nashville e foi lá que conheceu Roy, este se tornaria, algum tempo depois, uma das pessoas que mais marcariam a vida de Van.
  Roy estava no bar do lado do posto onde o caminhoneiro gordo e simpático que dera carona ao Van deixara-o. Van percebeu a presença daquele homem que aparentava uns 24 anos, com o peito nu. Ele parecia completamente desnorteado, quase tomado pelo desespero.
  - Precisa de alguma coisa aí, cara? - aproximou-se Van desconfiado.
  - Você não vai acreditar - o homem começou a falar com aquele sotaque das pessoas do norte. - Eu estava voltando de uma viagem para a minha cidade e parei para abastecer nesse posto dos infernos - ele apontou nervosamente para o posto ao lado - e um filho da mãe me atacou, levou meu carro e tudo que tinha dentro. Levou minha carteira, levou até minha camiseta, o desgraçado. Perguntei se ele não queria a porra da minha cueca também - ele estava vermelho e seus olhos pegavam fogo. - Amigo, não sobrou uma moeda sequer pra mim ligar pra minha mulher que me espera em Detroit com a minha filha.
  - Espera aí, você disse Detroit? - Van hesitou e disfarçou o entusiasmo pela coincidência. - Eu vou pra lá também, mas nem posso lhe oferecer carona porque tô buscando uma também. E eu não tenho celular, mas tenho uma grana, se quiser emprestada para usar o telefone público - e deu uma moeda para o estranho. - Ah, pega uma camisa, para ter mais sorte com os caminhoneiros - e tirou uma cinza de dentro da bolsa e deu a ele.
  - Obrigado, salvou uma parte do meu dia. - Deu alguns passos a caminho do telefone, mas se deteve na metade e voltou-se - ah, meu nome Roy, Roy Phoenix.
  - Tranquilo, cara. Acaba de conhecer Van Nicholson Smith.

  Passados uns longos minutos, Van estava gastando com bebidas no bar, quando viu Roy entrar e sentar-se ao seu lado.
  - Vai à Detroit, então? - Van perguntou, oferecendo-lhe um copo de cerveja.
  - Sim, como você, não? - Roy aceitou o copo.
  - Pretendo, se não mudar os planos no meio do caminho. Saí do Arkansas...
  - Deixe-me adivinhar, você gosta de Jazz, tem um livro de Charles Bukowski em sua mochila, escreve enlouquecidamente sob os efeitos de anfetaminas ou, como deve preferir, benzedrinas?
  - Como você sabe? - Van espantou-se.
  - Sei muito sobre esses beat's deslocados de seu tempo.
  - Você tá certo, queria mesmo fazer parte da geração beat, mas eu só quero chegar de uma vez em Detroit, nem penso em passar em Denver - e os dois riram, dando início a uma rara amizade.
  - Acho que conseguiu uma companhia para ir à Detroit, a minha esposa não acreditou na história do roubo e se nega a me mandar dinheiro ou o meu número da conta do cartão pr'eu retirar alguma grana.
  - Sua mulher deve ser uma ótima pessoa, com um enorme coração - Roy disse sarcasticamente.
  - Ela é fascinante - Van respondeu com sinceridade.
  
  E os dois seguiram, assim, sua viagem. Pegaram carona em uma pick-up caindo aos pedaços. E foram deixados ao anoitecer, já próximos à Washington. Pegaram um ônibus velho e lotado que seguia para a capital, Van pagou a passagem dos dois.
  Ao chegarem em Washington, foram ao primeiro bar que encontraram, tomaram uma cerveja Blue Ribbon e o dinheiro de Van ia esgotando-se aos poucos. Roy foi ao banheiro, enquanto Van contemplava algumas meninas mexicanas que sorriam e olhavam do outro lado do bar, duas em especial estavam com a atenção toda voltada a ele, ambas morenas de cabelos compridos e olhares picantes, como o próprio chilli. Ele poderia ter uma noite extremamente agradável, se não fosse seu companheiro que, além de ser casado, parecia ter muita pressa para chegar em casa, para perder uma noite sequer em um hotel daquela cidade. Van, então, desviou o olhar das garotas ardentes por natureza e concentrou-se em sua cerveja, logo estariam pegando outra carona. 
  
  - Hei, Smith, você notou que aquelas garotas não tiram os olhos da gente? - Roy perguntou com um sorriso lascivo.
  - É, notei. São muitos gatas, não é? - Van teve um sobressalto, não percebeu a presença de Roy ali.
  - São demais, cara - e lançou um olhar sugestivo ao Van. - Há quanto tempos estamos na estrada? A gente precisa se divertir um pouco.
  Van espantou-se com a atitude do companheiro, já tão próximo. De qualquer forma não contestou nem fez questão de perguntar sobre sua mulher que o esperava. E assim tiveram sua noite apimentada com as lindas garotas mexicanas e de quebra ganharam um lugar para dormir, a casa em que elas moravam. 

  Nessa noite eles se divertiram e notaram que tinham muito em comum, além de gostos musicais e literários, ambos tinham uma fome pela vida, pela loucura. Ambos queriam arder, queimar nos oceanos, subir aos céus e cair em alta velocidade de volta em um colo apimentado. Ambos queriam explodir e tornar-se estrelas terrestres que perambulam por aí, sem destino, sem motivo. Apenas para brilhar e queimar. Eles queriam fazer história, não para que alguém lesse e guardasse-os na memória; queriam apenas pela diversão que teriam.
  Muitas outras noites foram parecidas com essa e nem todas tinham mulheres, apesar da maioria ter deveras. Uma das noites ficou carinhosamente gravada na mente de Van Smith, foi a que eles foram largados em plena estrada deserta, no auge da escuridão noturna - o homem que lhes cedera carona em seu carro executivo, top de linha e sem nenhum arranhão, era inacreditavelmente maçante. Eles estavam agradecidos pela bondade da carona, todavia, o fato deles terem de permanecer calados perturbou-os profundamente. Eles queriam entrar em carros, mesmo que velhos, e ouvir Charlie Parker ao som máximo - o som suave do piano e do saxofone combinaria perfeitamente com as suas composições embriagadas e improvisadas sob as estrelas das quais eles gostavam de cantar bradando por aí, depois de muitas cervejas ou, em noites um pouco frias, uísques. Eles queriam demais para simples caroneiros, porém eles queriam demais quanto a tudo na vida. E nessa noite, eles simplesmente se sentaram no meio da rua, sem esperanças de passar uma alma sequer por ali e sem paciência para caminharem um pouco até o posto mais próximo - eles não faziam ideia de a quantas de distância encontrava-se o posto mais próximo, então apenas relaxaram e deram risada de tudo. Depois de passada um pouco a euforia, esperaram, entretanto não chegou o medo. E iniciaram uma conversa sobre suas vidas. Van contou o quanto sentia falta de seus pais, e que de qualquer forma eles nunca foram presentes; falou também sobre Angel e como acreditava que jamais a esqueceria; e terminou contando sobre sua paixão pela cultura japonesa e por escrever. Roy contou o quanto amava sua mulher, mesmo ela sendo espantosamente irritante na maior parte do tempo; falou do orgulho que sentia de sua filha de 13 anos, que era muito madura para sua idade, e sonhava em ser uma executiva respeitada por todo o país, como o pai. E nesse momento, Roy ficou pensativo.
  - Essa vida, de trabalhador respeitado e responsável, da qual todos da minha família sonharam e hoje admiram em mim... sabe, não era isso o que eu queria. Eu sempre fui o garoto inteligente e esforçado do qual todos se orgulhavam. Hoje eu repudio isso tudo, tenho asco de mim mesmo. O que eu queria para minha vida era isso, cara, correr estrada, viver a vida loucamente, ouvir meu Jazz, ouvir meu rock ao som máximo. Andar com sapatos velhos sem me importar e beber toda santa noite. Ter lindas e doces mulheres acariciando meus cabelos sob a luz de um abajur de um quarto de motel barato. Tudo simples, sabe. A única coisa grande, mesmo, seria o mar. 
  - E o céu também - completou Van. - Olha só esse céu - e apontava para o céu de uma escuridão negra que engolia o mundo, repleta de estrelas. Eles nunca tinham visto tantas estrelas juntas antes.
  - Exatamente, essa imensidão toda. Deitar sob esse infinito e acreditar que tudo isso me pertence. Sozinho ou na companhia de alguém legal como você - Roy parecia contente por Van compreendê-lo.
  
  Algumas noites estreladas depois, eles chegaram em Detroit. Por mais que tenham adiado a viagem negando caronas e a deixado mais lenta do que realmente seria, um dia ela chegaria ao fim. E esse dia acabara de chegar. Ao entrarem na cidade, dentro de um caminhão, na companhia de um motorista simpático, eles se despediram melancolicamente. Van passaria um tempo com seus amigos em Detroit, porém logo seguiria sua aventura sozinho ou com algum companheiro louco que encontrasse em um posto qualquer depois de ser assaltado. Roy iria finalmente para casa, com a recordação dos melhores dias de sua vida. O que ficaria guardado igualmente na mente de ambos, era a lembrança um do outro, da amizade que fizeram e da esperança de um dia encontrarem-se por essas longas estradas do Norte da América.

18 de jun de 2011

Sinceridade x Simpatia

  Abomino aquele que tem o costume de ir guardando mágoas para depois de um tempo jogá-las todas em você.
  Às vezes, em momentos de bom senso perdido, falamos/insinuamos/fazemos coisas antes de pensar, logo nos arrependemos ou nos esquecemos; acreditando que o outro, por ter ficado calado, esqueceu-se também. No entanto, espantamo-nos ao ver a cólera em seus olhos e aquela junção de acontecimentos passados sendo vomitada em nossa frente - não, ele não havia esquecido, absolutamente.
  Talvez, por isso, eu tenha preferência por gente que diz o que pensa; fala horrores na cara, na hora; que se ofende e deixa claro que foi ofendida, por mais que faça isso ofendendo de volta. Porém, não nos deixa com esperanças de que superou o que ainda vai ruminar por muito tempo, deixando de dizer o que sente e acumulando pesares até não poder mais aguentar. Gente nem um pouco simpática e considerada por muitos desagradável.
  Pessoas que não possuem o poder de medir as palavras são, para mim, as mais sinceras. Pessoas grosseiras, que não têm sorriso oferecido, que não levam desaforo para casa - são essas que vão lhe dar a certeza da verdade; são essas que quando se encontrarem ao seu lado, estarão realmente ao seu lado; são essas as pessoas dignas de confiança.
  Entretanto, não podemos confundir essa sinceridade instantânea com maldade - falar o que lhe perturba e de como se sente, é sinceridade. Falar o que bem entende, sem ser questionado, sem ser ao menos provocado, é maldade. E não ser simpático não quer dizer não ser gentil. Não suporto simpatias hipócritas, sorrisos forçados, gente efusiva fora de hora. Porém, gentileza é algo que eu prezo - a arte de praticar o bem através de palavras afáveis e doces e, é claro, com sinceridade.

11 de jun de 2011

Anna e o mar

   A questão - eu disse - não é estar só, é ser só. Todos somos sós, porém a maioria das pessoas ignora o fato de todos sermos como uma ilha, únicos e com almas de acesso negado. Essas pessoas vivem em busca de companhia e não conseguem conviver bem com a solidão. Eu não sei se tenho pena delas ou as invejo. Aceitei tanto ser sozinha que vejo nos outros uma forma de entender melhor a mim mesma. Enxergo-os como realmente são: totalmente alheios a mim, nada a acrescentar, nada a mudar. Não, eu não tenho pena delas, e sim de mim - perdi meu olhar no infinito que se seguia em minha frente e suspirei contente pelo momento. -  Você, sim, você também é alheio a mim, porém é exatamente como eu, recheado de um vazio imensurável. Solitário por natureza, como todos, mas sem ignorar isso nem sofrer ao pensá-lo. Veja bem, eu me vejo em você.
   
   Ele olhou e eu olhei. Ele chamou e eu fui. Eu senti e ele sentiu. E foi isso.

  Foi o suficiente. No momento em que ele me acolheu em seus braços, eu me entreguei completamente. E perdi-me na imensidão daquele olhar ora azul, ora verde, ora negro. Pela primeira vez em toda a minha vida eu pude sentir-me verdadeiramente inteira, tão entregue e contente. Nossas eternas solidões misturaram-se. Nossas almas tão impenetráveis uniram-se.

  - Eu sonhei com você por toda minha vida - eu disse. Ele permaneceu em seu silêncio, no entanto, eu senti.
 
  E fui fundo, bem fundo. Quando tentei, por orgulho, desvencilhar-me, voltar a mim, em mim, à terra firme e seca, onde eu estaria só novamente, ele me puxou com uma intensidade maior. Puxou-me ainda mais fundo. E eu afundei, afundei e já não conseguia sair, salvar-me. Eu não queria sair, salvar-me, deveras. E ali eu permaneci, na minha paz finalmente encontrada. E lá no fundo, no mais fundo dos fundos dos fundos, eu sussurei: "Eu sei, o tempo todo eu soube, a real entrega é assim, não é?"

Coração, meu coração

  "Se o ama, liberte-o" - dizia-me a voz. Oh! Então vai, inconsequente meu. Vai enquanto há chances. Eu não te sigo mais. E não te espero. Foge, que não ouso segurar-te. Foge, enquanto há tempo. Nunca precisei de ti, e tu nunca precisaste de nada, todavia, sempre desejaste tudo. E logo eu não quis mais que um segundo para respirar, olhar estrelas e respirar, como qualquer ser humano possuidor de sentimentos. Contudo, se tu fores, não possuirei mais algo tão digno - digno de ser denominado alma. Vai e deixa-me só e sangrando; sangue podre e sujo como o sangue de hipócritas. Hipócritas, eles todos são. Hipócrita, eu sou também. Sou tanto quanto ou pior que eles. Pior que eles. Vendi minha alma à hipocrisia, em troca quis não sentir mais dor. Oh! Coração meu, vai aqui não há mais espaço para ti, só ao fingimento, interior em ruínas. Vai coração, meu coração. Salva-se e deixa-me sangrar sem dor. Vai coração, meu coração.

9 de jun de 2011

Elo invisível

  A porta abriu-se em um estrondo, no estado em que eu me encontrava nem me assustei, o mundo poderia desabar e eu continuaria ali, olhando o nada, com os olhos encharcados e o livro do Pequeno Príncipe na mão - meu livro favorito e que também era o favorito de minha mãe, única coisa em comum. Olhei para trás calmamente para ver quem invadia meu apartamento, era o John, eu já sabia, ele era o único, além de mim, que tinha as chaves. Ele se sentou ao meu lado na cama, sondou-me rapidamente e desviou o olhar para o chão; ficamos contemplando o nada por longos minutos. Somente depois de um tempo eu pude perceber  que ele estava vestindo um pijama e um moletom vermelho e velho, reparei na sua barba matinal não feita - como se tivesse pulado da cama rapidamente, vestido a primeira coisa que viu e nem tivesse parado para jogar uma água no rosto. De fato, ele havia feito isso, ele não precisava me dizer. Eu sabia que ao receber a minha ligação dizendo o que aconteceu, ele não pensaria em mais nada e viria correndo me ver. De qualquer maneira, eu me espantei, pois não era comum vê-lo atormentado e mal-vestido ao invés de sorridente, exibindo a camiseta do Paul McCartney que eu lhe dera. John importava-se comigo como ninguém nunca o fez, e eu me importava igualmente com ele.
  - É bom ter você aqui - eu quebrei o silêncio.
  - Eu não sei o que dizer, talvez devesse perguntar como você está, mas seria muito fingimento convencional de minha parte - ele me olhou profundamente com os olhos rasos d'água, quase se desculpando. - Não sei exatamente como é perder uma mãe porque eu não tive, você sabe. Mas quando eu perdi meu pai, eu não soube onde pisar, não sei como sobrevivi todo esse tempo sem o sorriso orgulhoso dele ao olhar para mim, não sei, mesmo. Ele era muito novo para morrer, eu era muito novo para o perder. Eu ainda precisava muito dele, apesar de que ele não fosse meu pai biológico, mesmo sangue e todas essas coisas, eu o amava como tal. Porém ele se foi, em um belo dia de manhã ele beijava minha testa antes de ir ao trabalho, dizendo que eu estava de férias, mas não precisava acordar à tarde por isso - John sorriu sem perceber nesse momento - e ao entardecer, diferente dos outros dias, ele não voltou com aquele semblante cansado, de pai que cria uma filho sozinho, perguntando o que eu tinha feito durante o dia. De manhã eu o tinha e à noite não mais. Ele não voltou, no lugar dele veio meu avô materno e me levou com ele para sua casa, e lá passei o resto de minha infância, em meio aqueles retratos de minha mãe, pelo menos dessa maneira ela foi presente. - Ele parou de repente e fitou-me demoradamente antes de prosseguir - sei que falei demais, mas o que eu quis dizer é que eu sei como é perder pessoas especiais. Seus pais sofreram no acidente e lutaram naquele hospital, mas eles não aguentaram e não vou dizer que aconteceu o que tinha de acontecer nem que eles foram para um lugar melhor, pois sei que não acredita nessas coisas, mas quero que saiba, se hoje estou aqui, se superei, foi por que de algum lugar eu tirei forças para seguir em frente e amadurecer e tenho certeza de que isso também acontecerá com você, pois sempre foi mais forte do que eu. Mas não precisa fazer isso imediatamente, por enquanto basta saber que eu estou aqui, ao seu lado, deixando suas lágrimas correrem. Completamente inútil, mas estou aqui.
  Eu sabia que John no fundo estava coberto de razão, como sempre. Eu seguiria em frente, tinha certeza disso, porém não agora, não hoje. No momento a única coisa da qual eu precisava era ficar quieta, absorta em minha dor. E assim ficamos, eu e John, parados, olhando o nada; era como se John sentisse a minha aflição, porém, poderia ele sentir a minha aflição? Acredito sinceramente que sim. Apesar de eu ter a concepção de que ninguém é capaz de sentir exatamente o que se passa dentro do outro ou mesmo entender o que acontece, por mais que chegue perto disso, John parecia realmente sentir o que eu sentia e isso vinha de longa data. Ele sempre me entendia perfeitamente, como só eu mesma poderia.


  Nosso silêncio foi quebrado pelas batidas na porta, era Luke, meu namorado, obriguei-me a ligar para ele, depois de John acalmar-me com sua presença. Ao entrar ele me abraçou intensamente, quase me penetrando e desculpou-se pela demora. Estava de banho tomado, bem vestido, usando sua jaqueta de couro e cheirando a loção de barba, o que era costumeiro. Seus cabelos de cachos compridos caíam sobre os ombros e eu os amava, era bom sentir o cheiro dele, mesmo naquela situação. De qualquer forma, a sua presença, ao contrário da de John, não melhorava em nada minha disposição de espírito, eu preferia, mesmo, que ele fosse embora; isso era crueldade de minha parte, afinal ele estava muito abatido e preocupado por minha causa e eu entendia isso, então fiz o melhor que pude para demonstrar falsamente que ficava aliviada com ele ao meu lado. Ele demorou para notar John ali, porém ao fazê-lo, lançou-lhe um olhar aborrecido; quanto a isso, eu e John já estávamos habituados e podíamos entendê-lo, pois sempre tivemos esse problema em todos os nosso relacionamentos: as namoradas de John morriam de ciúmes de mim e a relação chegava ao fim toda vez que ela mandavam ele escolher entre elas e eu, e o meus namorados desconfiavam de tanta proximidade, tanta união, com Luke não seria diferente.
  - Meu amor, Como você está? Ah, que pergunta. Como eu estava preocupado - dizia Lukedesgrudar de mim. - Tudo vai passar, vai passar. Eles estão em um lugar melhor agora...
  - Luke, por favor, poupe-se e poupe-me das palavras de consolos. Desculpe, mas eu só queria o silêncio agora - as lágrimas escorriam descontroladamente pelo meu rosto, lógico que qualquer um vendo esta cena não ficaria quieto, sem pronunciar nenhuma palavra de conforto. Luke era qualquer um, esse era o problema. Eu não precisava de qualquer um, precisava apenas de John.
  - Tudo bem - disse Luke transparecendo sua mágoa. Como ele ousa ficar magoado? Meus pais faleceram esta madrugada por causa de um acidente de carro estúpido, e ele fica magoado por que eu mandei ele calar a boca?
  John quebrou o silêncio a contragosto.
  - Agora que Luke chegou, vou deixar vocês dois a sós. Mas qualquer coisa me ligue, estarei...
  - Não, John! - Luke interrompeu-o. - Ela precisa de você mais do que a mim - eu percebi a dor e a aversão de Luke ao falar isso; foi difícil para ele assumir o fato de que a ligação existente entre eu e John era maior do que qualquer outra coisa imaginável. Porém ele disse e o que ele fez em seguida foi uma grande prova de amor - ele abriu mão de zelar por mim, para me entregar a quem eu mais precisava: John.
  Ficamos os três ali, em silêncio, Luke tinha os olhos estáticos em mim; John olhava o chão, raras vezes olhou para mim e nesses momentos meu coração enchia-se de paz, era como se eu enxergasse naqueles olhos verdes e únicos a minha própria alma.
  De repente, Luke levantou-se para atender o celular que chamava e foi para outro cômodo, ao voltar disse:
  - Meu pai ligou e está precisando de mim. Desculpe, eu já venho - dizendo isso ele beijou minha testa amorosamente e despediu-se de John com as palavras "obrigado, cara", sem nenhum sinal de ressentimento, pelo contrário, um agradecimento verdadeiro.

  Eu ainda não sei se naquele dia ele foi embora por que realmente precisava ou se foi sensível a ponto de me deixar sozinha, o que era melhor para mim. O que sei, é que depois que ele foi e eu fiquei a sós com John, fui voltando ao normal e, aos poucos, os pensamentos foram estabilizando-se. O caos estava desaparecendo.

  - Sabe John, o que me entristece não é o fato de eu não demonstrar o que sentia por eles, pois eles sabiam o quanto eu era fechada e não exigiam muito de mim nesse ponto. O que faz com que eu queria me atirar de uma ponte é essa sensação de desamparo. Estou me sentindo completamente só. Chego a acreditar que teria sido melhor que não tivéssemos tido uma relação tão boa e tão unida, pois talvez eu não sofresse tanto como agora. Não consigo me imaginar sem eles. Estou sozinha agora... completamente só.
  - Ei, não diga isso, nunca mais - John falou muito sério. - Como pode dizer isso? Aceito todas as lágrimas que quiser derramar, respeito os dias, meses e até mesmo os anos de depressão, se você precisar deles. Mas, de jeito nenhum, posso aceitar você supondo a completa solidão. Não posso acreditar que por um momento, uma fração de segundo, passou pela sua cabeça que irá ficar sozinha. Olhe para mim - nesse momento ele segurou minha face com as duas mãos, forçando-me docemente a olhar em seus olhos. - Grave uma coisa em sua cabeça: eu nunca vou te deixar. Aconteça o que acontecer. Eu-nun-ca-vou-te-dei-xar. Preciso repetir quantas vezes?
  Eu abaixei a cabeça, ele continuou.
  - Garota, minha garota. Não posso ficar longe de você e nem você pode ficar longe de mim. Precisamos um do outro. Conhecemos um ao outro. Estou em seu interior, sabe o que eu quero dizer, só você sabe - ele parou de falar para me olhar como se quisesse arrancar de meus olhos se eu estava realmente entendendo o que ele queria dizer com tudo aquilo. - Ninguém no mundo poderá penetrar sua alma como eu e o inverso também.  - Ele praticamente sussurrou - somos o intrínseco um do outro.

  Eu me levantei e fui fumar na sacada, ele foi atrás. John conseguiria me dar as forças necessárias, eu não tinha dúvidas quanto a isso. Depois de algumas tragadas, eu disse por fim:
  - Nós temos um elo invisível - falei sem fitá-los nos olhos, não precisava. Ele também, não tirou os olhos da Tabacaria do outro lado da rua.
  - Nós temos um elo invisível - repetiu ele concordando, antes de se despedir. - Vou lhe deixar agora, daqui a pouco o Luke volta e sei que você precisa de um tempo seu. Me ligue assim que sentir que deve - e abraçou-me fortemente antes de virar as costas e ir embora.

  John era realmente parte de mim, eu pude refletir antes de Luke chegar.

5 de jun de 2011

Acampamento em família

  O relógio desperta antes das 8h em pleno sábado; causando espanto, todos da casa levantam sem reclamar e cada um vai para um lado arrumar suas coisas: o pai apronta o carvão para o churrasco e confere a cerveja; a mãe olha todos os detalhes que ninguém julga importante, mas no fim, como mães sempre sabem, acabam fazendo toda a diferença - o filtro solar na bolsa, talheres e copos para todos, casacos para o caso de esfriar, etc. O irmão mais velho vai ajudando o pai a checar o carro. A irmã adolescente, com suas crises, só sai se levar sua melhor amiga junto e não desgruda do telefone. O irmão mais novo sai atrás de todos pela casa brincando de homem-voador com o seu boneco na mão. Enquanto todo caos acontece, eu procuro calmamente um livro em minha estante e coloco na minha bolsa, ansiosa pelo contato com a natureza. Ninguém vê a hora de chegar no acampamento.

  Depois de 50 minutos de estrada chegamos em nosso destino. Finalmente paz e sossego... claro, até você sair do carro, uma bola bater em sua cabeça, sete crianças cruzarem por você enlouquecidamente, passar em seguida uma mãe desesperada: "Jeremias, Juca, Jonathan, José, Janaína, João e Jurema, voltem aqui para passar repelente", e para finalizar bonito, o som dos acampamentos vizinhos explodem de uma vez em uma poluição sonora sem tamanho. Então, suspiramos - Ah, o verão.

  Sem demora, todos ocupam seus postos: o pai salga a carne, conversando sobre o roubo do juiz no grenal de ontem com meu irmão mais velho; a mãe passa filtro solar em cada um de seus amados e bem cuidados filhos; a irmã e sua amiga acham sua turma e desaparecem para fazer qualquer coisa mais divertida do que ficar com a família; o irmãozinho endiabrado chora porque esqueceu sua boia e o rio não está raso, e eu sento na melhor sombra com meu mp3, admiro a bela paisagem e sinto o delicioso aroma natural - protetor fator 30, carne assando e lixo estupidamente jogado no chão, na verdade. A turma do lado troca o som agudo, por um pagode ao vivo. Pelo menos, ainda posso contemplar o céu e os pequenos animais que chegam perto por causa da comida.

  O fim da tarde vem chegando arrastado, e todos estão muito cansados e satisfeitos com o belo dia. Meu irmão menor dorme na barraca, meu pai e meu irmão maior jogam qualquer jogo de cartas, minha mãe com seu complexo de limpeza junta tudo sem parar - louças, peças de roupa, brinquedos, etc, e minha irmã está longe com seus amigos legais.
   Os acampamentos vizinhos começam a se desfazer e o som estridente cessa de vez - paz, finalmente. Descalça, sentindo a grama fresca e macia entre meus dedos, dirijo-me lentamente à beira do rio e sinto de leve o líquido morno, enquanto sento em uma pedra para ouvir o barulho das águas correndo; posso sentir o cheiro das árvores, agora. E o céu alaranjado deixa tudo ainda mais bonito, enquanto a brisa beija-me o corpo com tanta delicadeza que sinto espasmos de prazer. Sinto-me tão próxima da natureza, assim, tão próxima de mim. Posso ir embora, agora, satisfeita como os outros.

3 de jun de 2011

Epitáfio de um sábio

  Não quero ver escrito em meu túmulo: "aqui jaz o grande sábio, aquele que teve uma vida magnífica, devido à sua mente brilhante" - pois toda minha sabedoria teve pequena utilidade, e não me sentirei nem um pouco enaltecido. E quando o louco disse-me que o verdadeiro problema dos homens era o fato de eles terem uma mente e desejarem desenvolvê-la, porque a graça de viver estava em toda sua ignorância, eu tive uma pena profunda dele. Hoje, vendo minha doença prover-se de meu corpo e o final de minha vida tão próximo, tenho pena de mim; queria olhar para trás e dizer o quanto vivi, todavia, não posso - não vivi! Obtive todas as faculdades, fui homem das ciências e da filosofia, engrandeci-me a cada leitura; a cada elogio, estes me eram constantes. Entretanto, não obtive uma gota de insanidade, um gole sequer de meus sonhos instintivos. Eu fui realmente sábio, conhecedor de todas as teorias, porém, onde esteve meu caráter empírico?
  Eu tive sonhos? Sim e todos foram realizados, meus ideais propostos. Fui homem grandioso perante a humanidade, o que mais eu poderia querer? Realizei sonhos e muitos, e faz diferença não serem meus por instinto? Não me venha falar de livre arbítrio, já ouvi o bastante nas palavras daquele louco. Tive a liberdade de escolhas, que importa que a lista de escolhas não tenha sido escrita por mim, afinal?
  Eu fui feliz? Sim, segundo a humanidade, pois segui dentro dos conformes e não decepcionei a ninguém - há no mundo algo que pudesse me fazer mais contente? Há e muito, respondeu-me o louco, perturbando-me novamente, basta olhar seu Eu interior, aquele que oculta dentro de si e que nunca recebeu chance de manifestar suas vontades.
  Ah, as vontades, eu nem sei se as que tive foram realmente minhas de fato. Contudo, de que me adianta pensar nisso agora que a doença devora-me aos poucos?
  Nos últimos de meus dias cheguei a seguinte conclusão: fiz de minha vida algo inútil, pois faltou-me a loucura - fundamental grandeza dos homens.