19 de mai de 2011

O velho e o bar

  Ontem, ele era apenas mais um filantrópico comunista preso em tempos de guerra. Hoje, é só mais um cara de idade avançada sentado em uma mesa, chorando as mágoas ao barman cansado e com dor de cabeça, que não aguentava mais ouvir as mesmas histórias de idênticos velhos bêbados; por mais que esse velho se diferenciasse pela bela história e pelo belo rosto poupado pelo tempo, que ainda arrancava muitos suspiros de moças jovens e risonhas, e também por ter uns olhos tão brilhantes e vivos, ele ainda não passava de um velho bêbado, como outros milhares que costumam perder suas madrugadas de sábado confessando seus pecados na mesa de um bar.

  No momento o músico toca alguma coisa semelhante à Nara Leão. No entanto, ele tinha, ainda, na cabeça o trecho "And I love her" de uma música qualquer que tocara antes, acreditava ser dos Beatles, porém a qualidade do músico era tão baixa que não tinha certeza se essa era a música certa. Todavia soava e soava em sua cabeça: "I love her...".
  - E eu a amo... - concluiu. - Eu a amo. Eu a amo. Eu a amo. A-a-mo! - e bebeu sua cerveja tão apaixonada e compulsivamente, que quem se viu assistindo à cena de fora acabou acreditando que ele se referisse ao próprio líquido.

  Ele deteve seus lamentos e confissões apenas para admirar o céu, como costumava fazer há um tempo atrás, quando o único entretenimento que tinha era olhar pela minúscula janela de sua cela. Nesse tempo em que esteve preso, ele pôde perceber o quão fascinante era o céu, notava suas constantes mudanças, quase invisíveis aos outros, e agraciava-se com sua beleza. "O céu é mesmo fascinante, com toda sua infinidade."

  Nesta noite não há uma sequer estrela, nem a lua iluminando; há apenas a imensidão negra apagando o horizonte, ainda assim é o que de mais belo existe - disse ele por fim ao barman antes de pagar a conta e ir embora. O barman, coitado, não prestou atenção em nenhuma palavra, e por mais que prestasse, jamais entenderia a sensibilidade daquele velho, tão bêbado.

Um comentário:

  1. Gostei dos seus contos...eu vivo ensaiando escrever alguns, mas a preguiça acaba me pegando pelo pé...parabéns!

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