28 de mai de 2011

Jack, o bom

  "O dia trouxe um céu azul, como sempre. E apenas hoje pude notar: como sempre. sempre. Os dias são tão iguais e repetem-se cruelmente. Não, essas não são mais palavras sobre saudade, falta, angústia. Talvez seja sobre falta de saudade e angústia.
  Queria que soubesse, não entendo o que se passou, e compreendo tudo. Não é falta de consciência, pelo contrário, a consciência cobre-me de maus tratos. Vi o amor partir, sempre soube; vi-o seguir em frente; e vejo-o sorrindo e cantando como outrora fizera. E eu vejo-me imóvel, pasmo, nunca o tinha feito. Não, a questão não é a dor, sequer a sinto. Não existem lágrimas nem motivos para caírem. Vejo você e posso, mesmo, sorrir. O que tem perturbado meus dias ensolarados é essa minha persistência em permanecer sobre esta linha que separa o seguir-em-frente-e-viver-minha-vida e o entrar-em-depressão-e-chorar-ouvindo-músicas-que-me-remetem-a-você. Simplesmente não sinto dor nenhuma, não digo que não esqueci o que senti. No entanto, também, não consigo ser o que fui antes; não consigo largar aquelas músicas; não deixo de pensar um minuto sequer em você - não se trata de sofrimento nem daquele amor que continua em um, enquanto morre no outro; trata-se de falta de sentido, vazio assolador, vontade de pensar em você para provocar dor e não sentir absolutamente nada.
  E eu apenas não queria continuar nesta situação; queria voltar a viver, mesmo que para isso eu tivesse que arder em dor, mergulhar na mais profunda depressão. Eu quero entender o que estou sentindo. Não é amor nem aflição. Porém, também não é paz. Não é bom nem ruim. Não é nada."

  Jack, o bom. Assim ele era chamado, o cara que escreveu essa carta. O canalha da cidade, aquele que tinha a mulher que desejasse, mesmo nunca tratando mulher como mulher; tratava como bicho, era selvagem, com seus atos duros e gestos secos. Ainda assim elas queriam-no de qualquer jeito. Esse homem tão bruto ousou pegar uma caneta e escrever carinhosamente a uma mulher - fortes motivos impulsionam grandes ações.

  Nesta noite ele está no bar em que costuma ir, onde conheceu inúmeras mulheres de suas relações apenas sexuais e nada mais; onde conheceu essa que enviesou sua cabeça.
  Nesta noite ele bebe vinho acompanhado de seu cigarro. A solidão tem sempre a razão, e ele convive muito bem com ela. E depois da sétima taça ele cisma - "por que seguir só já não me convém? Nunca gostei de poetas com suas poesias de amor e morte. Para o amor eu não tenho motivos, mas para a morte... Se eu morresse aqui..."
 Nesta noite ele procura qualquer outra garota, mesmo sabendo que será para sempre e sempre somente ela. Ele tenta mudar o rumo de seus pensamentos, porém nunca deixará de ser totalmente sobre ela. Por mais que não exista dor, ela é única. Por isso o amor acabou e deixou essa marca - ele seguirá em frente, sem sair do lugar. Ele a esquecerá, entretanto um resquício de sua presença ficará. Nada mais o fará sorrir como o sorriso dela ao acordá-lo, nenhum outro cheiro irá proporcionar a ele um desejo tão intenso. Nada mudará sua condição de permanecer sobre a linha. Porque homens como Jack amam apenas uma vez na vida.

2 comentários:

  1. Eta!! Mais nunca nada e igual..tudo e diferente..maximo e que poode ser parecido,mais igual jamais.>!!!
    vlwwww

    Procure conhecer...tem videos das musicas no blog..abraços

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  2. Algumas pessoas se apaixonam uma única vez mesmo. Porém, na maioria das vezes, por alguma razão, nada dá certo. E então, passam a procurar em outras o que já encontrou naquela pessoa. Creio eu que muitos homens, mulheres ... já passaram por isso, e alguns casos, a história tem final feliz.Afinal de contas, não custa nada acreditar, não é mesmo?

    Excelente texto!

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