10 de mai de 2011

Em frente

  Maldito curto tempo. Estou prestes a enlouquecer. E juro, se aquela copiadora não estiver funcionando hoje...
  - Para você? - pergunta-me atendente da gráfica fatigado. Esse era um bom exemplo de alguém que não era feliz em seu emprego.
  - Preciso de cinco cópias destas folhas e duas destas outras, e tem mais por aqui, só um minuto ele - esperava aborrecido, martelando os dedos na mesa, enquanto eu procurava atrapalhada as outras folhas dentro da bolsa com as escritas "Jornalismo", conquistada de forma tão sonhada.
  - E para você? - perguntou ele apressadamente para alguém que se encontrava ao meu lado.
  - Eu estou com a moça - ele respondeu e eu virei-me bruscamente para poder ver quem estava comigo, pois eu não me recordava de estar com alguém.
  Não acredito! - consegui pensar apenas. Simplesmente não acreditei: era o Tom. O que ele estava fazendo ali? Certamente não estava comigo. Ainda assim, continuei a fazer o que estava fazendo há muito tempo: ignorando-o.
  Peguei minhas cópias e saí apressadamente, quase fugindo. Ao chegar na esquina, percebi que havia esquecido a folha original na gráfica, teria de voltar. Voltando, dei de cara com Tom, que no momento em que eu mudava de direção ele resolvera mudar também; inclusive voltar a gráfica comigo, porém, sem entrar dessa vez - ficou esperando-me do lado de fora. Continuei caminhando e quanto mais andava, mais sentia a presença dele. Mudava a direção - ele mudava também. Parava com a desculpa de procurar algo na bolsa - ele parava também. E a perseguição continuou por um longo tempo, então me cansei.

  - Quer me dizer algo?
  Silêncio. Olhei para os lados e depois para o relógio, meu gesto de impaciência. Silêncio. Ele acariciou a barba, seu gesto hesitante. Silêncio. Olhei fixamente em seus olhos - vamos, diga. O silêncio permanecia. Ele baixou a cabeça. Silêncio total.
  - Tudo bem - virei às costas e caminhei sem olhar para atrás até sentir a mesma presença seguindo-me novamente.
  - Está me seguindo? Ficou louco? Vou ter que chamar a polícia? - Recuperei meu sangue-frio e tornei a falar mais calma - o que é, Tom?
  O silêncio dessa vez foi mais curto.
  - Eu não sei - ele conseguiu dizer. O que me fez preferir que ficasse calado.
  Percebendo que o silêncio continuaria, recordei-me de outros tempos, com outros silêncios. Era uma noite muito quente de uma quinta-feira qualquer, a campainha tocara e ao atendê-la, deparei-me com ele à porta, usando deste mesmo silêncio e apenas o interrompeu com um oi titubeado e um gesto entregando-me meu livro de Pessoa, que eu esquecera na casa dele. E foi embora sem dizer uma palavra a mais; depois me explicou que sempre ficava perturbado com a minha presença. Foram outros tempos e nestes tempos eu gostava. Porém eram outros tempos.
  Eu e Tom tivemos uma quase-relação, que apenas não se concretizou por que tudo que ele fazia era com lentidão. Eu fui muito apaixonada por ele, no entanto quando me dei por conta, já não sentia absolutamente nada e foi neste momento que ele decidiu agir. Era tarde. Eu segui em frente, ele não.

  Relembrando estes acontecimentos, percebi que já fazia dois meses e, ainda assim, tentei ser compreensiva.
  - Tom, pode falar. Sabe que sempre pode falar comigo - mudei completamente meu tom para algo mais afável.
  - Eu queria saber se na sexta você não quer sair, tomar uma cerveja e conversar um pouco - cuspiu ele de uma só vez.
  - Olha, eu não estou a fim de sair - com você, quis, mas não completei. - Sabe como eu sou: mais inverno do que verão; mais dentro de casa do que fora; melhor sozinha do que acompanhada.
  - Ok, entendi, não quer sair comigo.
  - Não, não é isso - claro que era. - Não é por sua causa, sou eu - eu e meu péssimo costume de não querer magoar a todo custo.
  - Sinceridade: algo que sempre faltou em você - disse ele derramando uma lágrima, porém com mais cólera do que tristeza.
  E, não sei se por orgulho ou por raiva, naquele momento decidi ser sincera, mesmo que suavemente.
  - Realmente, existe algo que há muito tempo quero lhe dizer e não consigo. Já passou dias, meses... você precisa seguir em frente, ao menos um pouco, ao menos tentar. Sabe, fazer um esforço. E não ficar me seguindo por aí; ficar contando o tempo para cruzar por mim propositalmente-sem-querer nas escadas. Você é bem grandinho para bancar o adolescente...
  E então ele derramou as outras lágrimas que tanto segurava e eram muitas. E, num gesto de puro reflexo sentimental, eu abracei-o.
  - Vai passar, vai passar. Você vai ver, querido, tudo ficará bem - sempre ouvi que mulheres amadurecem antes de os homens terem chance de pensar nisto, não acredito que isto aconteça em absolutamente todos os casos, porém, este é um bom exemplo. Tom e eu temos a mesma idade, contudo, nesse momento me senti maternal perto dele, o que não acontecia há dois meses.

  Ironias da vida: eu estava simplesmente consolando um cara que nutria um sentimento não recíproco por mim, como se fosse sua melhor amiga.
  - Passa mesmo? - perguntou ele, em meio aos soluços, enterrado em meu abraço.
  - Passa, sim!

Um comentário:

  1. é muito ruim alguem gostar e nao ser retribuido mas são coisas da vida.
    Gostou tem que falar logo se enrolar muito pode cair no esquecimento.
    Abraço
    http://uaimeu10.blogspot.com/

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