30 de mai de 2011

Viagem

  A claridade perturbou-lhe os olhos ao abrir de uma só vez a veneziana. A quanto tempo Billie não via a luz do sol? Meses, talvez um ano, perdera as contas. Porém, hoje ele encontrou forças não sabe de onde para levantar de sua cama e dar uma olhada no mundo lá fora - deu sorte, era um dia lindo, o céu de um azul muito claro e nuvens brancas de belos desenhos, uma verdadeira obra de arte. Ele pôde ver toda a sua bagunça e toda a imundície daquele quarto, das quais ele daria um belo jeito, ele tinha forças agora. Contudo, antes de começar a faxina geral ele cuidaria de si, afinal foram meses mergulhado na mais pura escuridão acompanhado apenas de sua solidão. A depressão chegara e ficara e sabe-se lá de qual  buraco saíra, e, finalmente, agora ele estava mandando-a embora. Os seus amigos fizeram de tudo nas primeiras semanas, os mais fiéis tentaram pelos dois primeiros meses, entretanto, depois de enésimas ligações ignoradas, visitas em vão, todos desistiram e foram embora - Billie estava perdido. No início, ele próprio tentara ajudar-se; obrigou-se a sair, porém faltou vontade. Obrigou-se a ter vontade, porém faltou força. Esta que foi esvaindo-se de suas mãos lentamente e quando restava energia apenas para ler seus livros, essa também o deixou, e ele olhou desesperado para todos os lados e a visão que teve foi terrível: estava afundando em sua solidão. Ele fez a última tentativa - ele sorria, sorria muito e quanto mais sorria, mais afundava. Agora, estes pensamentos parecem tão distantes enquanto ele olha atentamente cada livro seu, tendo certeza de que todos estão ali, intactos e perfeitos - seus tesouros; eles os contempla como se fossem objetos alheios, como se quisesse conhecer melhor seu dono, acaricia-os querendo tirar deles suas essências. A felicidade e a vontade de viver estão de volta. O simples é o suficiente, mais uma vez. Ele consegue inclusive sorrir novamente e contempla esse gesto tão raro, na verdade inexistente nos últimos tempos, no espelho - diferente dos sorrisos forçados que antes tentava obrigar-se a abrir, que saíam feios, falsos e frios, esse era instintivo e demonstrava verdadeiramente o que sentia, por trás daquela barba enorme.
  De repente, ele percebe Oscar, seu peixe, ali, quase sorrindo por ele ou por ter, também, o sol de volta. Se Oscar não fosse um peixe viscoso, escorregadio e frágil, Billie abraçaria-o. Seu peixe, seu único amigo que permanecera com ele até o fim. No entanto, ele sabia que Oscar não era o único que se importava e preocupava-se. Havia outra pessoa, que jamais o deixaria, que enlouqueceria se algo grave lhe acontecesse.

  - Ei, mãe, - ele hesitou para não deixar transparecer o pranto - está tudo bem, sério. Só liguei para dizer que voltei daquela viagem...

28 de mai de 2011

Jack, o bom

  "O dia trouxe um céu azul, como sempre. E apenas hoje pude notar: como sempre. sempre. Os dias são tão iguais e repetem-se cruelmente. Não, essas não são mais palavras sobre saudade, falta, angústia. Talvez seja sobre falta de saudade e angústia.
  Queria que soubesse, não entendo o que se passou, e compreendo tudo. Não é falta de consciência, pelo contrário, a consciência cobre-me de maus tratos. Vi o amor partir, sempre soube; vi-o seguir em frente; e vejo-o sorrindo e cantando como outrora fizera. E eu vejo-me imóvel, pasmo, nunca o tinha feito. Não, a questão não é a dor, sequer a sinto. Não existem lágrimas nem motivos para caírem. Vejo você e posso, mesmo, sorrir. O que tem perturbado meus dias ensolarados é essa minha persistência em permanecer sobre esta linha que separa o seguir-em-frente-e-viver-minha-vida e o entrar-em-depressão-e-chorar-ouvindo-músicas-que-me-remetem-a-você. Simplesmente não sinto dor nenhuma, não digo que não esqueci o que senti. No entanto, também, não consigo ser o que fui antes; não consigo largar aquelas músicas; não deixo de pensar um minuto sequer em você - não se trata de sofrimento nem daquele amor que continua em um, enquanto morre no outro; trata-se de falta de sentido, vazio assolador, vontade de pensar em você para provocar dor e não sentir absolutamente nada.
  E eu apenas não queria continuar nesta situação; queria voltar a viver, mesmo que para isso eu tivesse que arder em dor, mergulhar na mais profunda depressão. Eu quero entender o que estou sentindo. Não é amor nem aflição. Porém, também não é paz. Não é bom nem ruim. Não é nada."

  Jack, o bom. Assim ele era chamado, o cara que escreveu essa carta. O canalha da cidade, aquele que tinha a mulher que desejasse, mesmo nunca tratando mulher como mulher; tratava como bicho, era selvagem, com seus atos duros e gestos secos. Ainda assim elas queriam-no de qualquer jeito. Esse homem tão bruto ousou pegar uma caneta e escrever carinhosamente a uma mulher - fortes motivos impulsionam grandes ações.

  Nesta noite ele está no bar em que costuma ir, onde conheceu inúmeras mulheres de suas relações apenas sexuais e nada mais; onde conheceu essa que enviesou sua cabeça.
  Nesta noite ele bebe vinho acompanhado de seu cigarro. A solidão tem sempre a razão, e ele convive muito bem com ela. E depois da sétima taça ele cisma - "por que seguir só já não me convém? Nunca gostei de poetas com suas poesias de amor e morte. Para o amor eu não tenho motivos, mas para a morte... Se eu morresse aqui..."
 Nesta noite ele procura qualquer outra garota, mesmo sabendo que será para sempre e sempre somente ela. Ele tenta mudar o rumo de seus pensamentos, porém nunca deixará de ser totalmente sobre ela. Por mais que não exista dor, ela é única. Por isso o amor acabou e deixou essa marca - ele seguirá em frente, sem sair do lugar. Ele a esquecerá, entretanto um resquício de sua presença ficará. Nada mais o fará sorrir como o sorriso dela ao acordá-lo, nenhum outro cheiro irá proporcionar a ele um desejo tão intenso. Nada mudará sua condição de permanecer sobre a linha. Porque homens como Jack amam apenas uma vez na vida.

22 de mai de 2011

Oito anos

  Eu lembro de meus oito anos, dos joelhos esfolados, das brigas pueris, das guerras de comida, dos amores inocentes, dos doces e mimos de minha avó, de sentar sob as jabuticabeiras e passar a tarde mais colhendo do que comendo jabuticabas. Lembro de fazer amizade com todos e falar com os cachorros da mesma maneira que falo hoje, porém com a diferença de que antes eles me respondiam. Tenho belíssimas visões de campos muito verdes nos quais eu corria, corria, corria selvagem, com calças largas demais para uma menina. Meus pais - pobres castigados, eu era para eles um pequeno demônio, no masculino mesmo. Apesar disso, sempre me amaram sobre qualquer coisa.
  Já dizia o Casimiro de Abreu em sua poesia: Meus oitos anos - "Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!". Nos meus oito anos, a alegria constante acompanhava-me em todas as ruas, em cada calçada em que eu caminhava pulando, contente. Eu era tão contente. E sinto falta dessa felicidade espontânea e verdadeira, por isso, às vezes, me pego olhando fotos antigas - eu tinha olhos tão inocentes e brilhantes, apenas o mistério negro não mudou; não existia em mim nenhum medo da escuridão; mergulhava fundo sem receio de me afogar. Eu fui uma criança tão perdida, o que não se nota nas fotos e nem nas histórias de domingos à tarde na roda de chimarrão; eu fui completamente perdida em meus medos secretos, a chuva e os monstros do armário não me eram boa companhia, contudo isto foi algo que ninguém nunca soube. Lembro, também, de olhar as estrelas e pedir por coisas tão bobas, que valiam a minha vida de oito anos. Acreditava em estrelas-cadentes atendendo minhas súplicas singelas, em anjos, em tudo.
  Se eu pudesse apenas voltar no tempo, ou continuar vendo tudo como antes eu via, eu poderia satisfazer vontades adultas que sinto hoje; poderia não quebrar meu coração como foi feito e não chorar ao olhar estas fotos de alguém tão distante de mim, de dentro de mim. Eu apenas queria sentir como antes, sentir verdadeiramente meu coração, como se sente um sorriso, uma lágrima; um sentir sincero e puro, que só pode sentir a criança, sem a capacidade intelectual do homem maduro de poder rotular e julgar. Só queria sentir novamente como se sente de verdade.

19 de mai de 2011

O velho e o bar

  Ontem, ele era apenas mais um filantrópico comunista preso em tempos de guerra. Hoje, é só mais um cara de idade avançada sentado em uma mesa, chorando as mágoas ao barman cansado e com dor de cabeça, que não aguentava mais ouvir as mesmas histórias de idênticos velhos bêbados; por mais que esse velho se diferenciasse pela bela história e pelo belo rosto poupado pelo tempo, que ainda arrancava muitos suspiros de moças jovens e risonhas, e também por ter uns olhos tão brilhantes e vivos, ele ainda não passava de um velho bêbado, como outros milhares que costumam perder suas madrugadas de sábado confessando seus pecados na mesa de um bar.

  No momento o músico toca alguma coisa semelhante à Nara Leão. No entanto, ele tinha, ainda, na cabeça o trecho "And I love her" de uma música qualquer que tocara antes, acreditava ser dos Beatles, porém a qualidade do músico era tão baixa que não tinha certeza se essa era a música certa. Todavia soava e soava em sua cabeça: "I love her...".
  - E eu a amo... - concluiu. - Eu a amo. Eu a amo. Eu a amo. A-a-mo! - e bebeu sua cerveja tão apaixonada e compulsivamente, que quem se viu assistindo à cena de fora acabou acreditando que ele se referisse ao próprio líquido.

  Ele deteve seus lamentos e confissões apenas para admirar o céu, como costumava fazer há um tempo atrás, quando o único entretenimento que tinha era olhar pela minúscula janela de sua cela. Nesse tempo em que esteve preso, ele pôde perceber o quão fascinante era o céu, notava suas constantes mudanças, quase invisíveis aos outros, e agraciava-se com sua beleza. "O céu é mesmo fascinante, com toda sua infinidade."

  Nesta noite não há uma sequer estrela, nem a lua iluminando; há apenas a imensidão negra apagando o horizonte, ainda assim é o que de mais belo existe - disse ele por fim ao barman antes de pagar a conta e ir embora. O barman, coitado, não prestou atenção em nenhuma palavra, e por mais que prestasse, jamais entenderia a sensibilidade daquele velho, tão bêbado.

16 de mai de 2011

Louco amor

  Depois de ir à casa da mãe de Rita e não encontrá-la, Ivan decidiu que seria melhor voltar ao seu apartamento. Essas brigas estavam tornando-se rotineiras, e ele já perdera a esperança de salvar seu casamento.
  Ivan assustou-se - ele não lembrava de ter deixado a porta de sua casa aberta. Contudo, susto maior ele teve ao entrar em seu quarto - a mulher que estava deitava em sua cama, com uma expressão leve e feliz, não se parecia em nada com aquela mulher que a menos de uma hora atrás saíra do mesmo quarto, chamando-o de homem-de-merda-filho-da-puta-broxa-do-caralho e o diabo a quatro. Porém, era a mesma.
  - Estava lhe esperando, querido! - disse ela terna, fazendo sinal para ele se deitar com ela.

  O susto que Ivan teve ao entrar no quarto não se comparava com o medo que estava sentindo no momento. "Ela surtou de vez, só pode! Meu Deus, meu Deus! Minha mulher enlouqueceu!" - Por mais que Ivan estivesse acostumado aos "ataques psicóticos" (modo como ele apelidara as inconstâncias de Rita), ultimamente ela andava passando dos limites e criando verdadeiros receios em sua volta. O dia em que Ivan percebeu percebeu a gravidade da situação, foi em uma noite na verdade, da qual ele se acordara e notara sua mulher em pé, ao lado da cama, a contemplá-lo com uma expressão esquizofrênica e bastante assustadora e, como se fosse algo absolutamente normal de se fazer - olhar assim, com os olhos esbugalhados e um sorriso assassino, seu marido dormir -, ela simplesmente se deitou, virou-se e dormiu como um anjo.

  Agora quem se via em pé, imóvel, contemplando sua mulher com os olhos esbugalhados era ele. "Aonde foi aquele ódio todo?".

  - Onde você esteve? - Ivan supreendeu-se com a própria voz, esta saíra esganiçada de pavor. - Fui à casa de sua mãe atrás de você, não imaginei que pudesse voltar tão rápido - em resposta, ela apenas abriu um sorriso insinuante que o deixou ainda mais nervoso.
  - Tudo bem, tudo bem! - Ele disse mais a si próprio do que a ela.
  - Amor, vou comprar algo para comermos - disse ela levantando-se. - E aproveito e trago seu cigarro favorito - ouvir estas palavras o fez sorrir, estava tudo bem agora.
  De qualquer forma, ele não conseguiu emitir som nenhum - estava tudo bem, mas ele ainda estava pasmado.

   -

  Ao voltar para casa, Rita teve  a visão da qual julgava ser a do inferno: Ivan fumando na sacada - "não acredito que aquele porco imundo está fumando de novo." - e foi ao seu encontro encher-lhe de desaforos, enquanto deixava cair no chão o maço de cigarro que comprara a ele.

14 de mai de 2011

Don't stop believing

  Os sonhos surgem em meio às tempestades quando contemplamos as estrelas taciturnos, com a visão confusa, pelos olhos ensanguentados de dor. Assim, com a alma coberta por manchas, sonhamos. Viajamos por pastos verdejantes, céus infinitos e todo além. Vemo-nos aléns e vivos e fortes quando olhamos uma vista e sonhamos. E uma estrela sussurra-nos ao longe: Não deixe de acreditar. E essa frase persegue-nos pelo resto da noite e as visões tornam-se imensamente belas, apesar da dor. Pequenas palavras de pequenas estrelas fazem toda a diferença. Olhamos para o lado, não vemos nenhum deus, nenhum amor que se diga digno; vemos, sim, fé em nada. Entretanto, existem esses mínimos astros que deixam com seu brilho curto, porém gigante a fim de paz, que iluminam toda vista de toda janela de imensa escuridão, que há no outro lado. E tudo fica bem, os segundos crescem, tornando-se horas, dias e séculos. E tudo fica bem. Por todas estrelas e continuamos a vê-las mesmo depois de completarem sua jornada. Elas se vão e continuam aqui, por nós. Dentro de nós. Não há como voltar no tempo, mas no tempo eterno elas permanecem, por nós. E ontem, quando nada tinha a brilhar aonde quer que olhássemos, tivemos um tempo nublado e triste em todo intrínseco e nosso casulo fechara-se completamente. Por fim percebemos o quanto nossa vida necessita de esplendor, para começarmos e recomeçarmos todo dia, de hora em hora. E precisamos e podemos e fazemos o que sozinhos não conseguiríamos. A chama grita, ilumina e se faz visível, real e verdadeira. O fogo arde, o corpo queima e agradecemos por isso, por sentir de novo, por encontrarmos a força que precisávamos para rasgar o casulo. Não deixe de acreditar, dizem-nos o tempo todo e mesmo quando ignoramos, não deixamos de acreditar. Porque, mesmo que nada seja real, nessa vida não podemos deixar de acreditar.

10 de mai de 2011

Em frente

  Maldito curto tempo. Estou prestes a enlouquecer. E juro, se aquela copiadora não estiver funcionando hoje...
  - Para você? - pergunta-me atendente da gráfica fatigado. Esse era um bom exemplo de alguém que não era feliz em seu emprego.
  - Preciso de cinco cópias destas folhas e duas destas outras, e tem mais por aqui, só um minuto ele - esperava aborrecido, martelando os dedos na mesa, enquanto eu procurava atrapalhada as outras folhas dentro da bolsa com as escritas "Jornalismo", conquistada de forma tão sonhada.
  - E para você? - perguntou ele apressadamente para alguém que se encontrava ao meu lado.
  - Eu estou com a moça - ele respondeu e eu virei-me bruscamente para poder ver quem estava comigo, pois eu não me recordava de estar com alguém.
  Não acredito! - consegui pensar apenas. Simplesmente não acreditei: era o Tom. O que ele estava fazendo ali? Certamente não estava comigo. Ainda assim, continuei a fazer o que estava fazendo há muito tempo: ignorando-o.
  Peguei minhas cópias e saí apressadamente, quase fugindo. Ao chegar na esquina, percebi que havia esquecido a folha original na gráfica, teria de voltar. Voltando, dei de cara com Tom, que no momento em que eu mudava de direção ele resolvera mudar também; inclusive voltar a gráfica comigo, porém, sem entrar dessa vez - ficou esperando-me do lado de fora. Continuei caminhando e quanto mais andava, mais sentia a presença dele. Mudava a direção - ele mudava também. Parava com a desculpa de procurar algo na bolsa - ele parava também. E a perseguição continuou por um longo tempo, então me cansei.

  - Quer me dizer algo?
  Silêncio. Olhei para os lados e depois para o relógio, meu gesto de impaciência. Silêncio. Ele acariciou a barba, seu gesto hesitante. Silêncio. Olhei fixamente em seus olhos - vamos, diga. O silêncio permanecia. Ele baixou a cabeça. Silêncio total.
  - Tudo bem - virei às costas e caminhei sem olhar para atrás até sentir a mesma presença seguindo-me novamente.
  - Está me seguindo? Ficou louco? Vou ter que chamar a polícia? - Recuperei meu sangue-frio e tornei a falar mais calma - o que é, Tom?
  O silêncio dessa vez foi mais curto.
  - Eu não sei - ele conseguiu dizer. O que me fez preferir que ficasse calado.
  Percebendo que o silêncio continuaria, recordei-me de outros tempos, com outros silêncios. Era uma noite muito quente de uma quinta-feira qualquer, a campainha tocara e ao atendê-la, deparei-me com ele à porta, usando deste mesmo silêncio e apenas o interrompeu com um oi titubeado e um gesto entregando-me meu livro de Pessoa, que eu esquecera na casa dele. E foi embora sem dizer uma palavra a mais; depois me explicou que sempre ficava perturbado com a minha presença. Foram outros tempos e nestes tempos eu gostava. Porém eram outros tempos.
  Eu e Tom tivemos uma quase-relação, que apenas não se concretizou por que tudo que ele fazia era com lentidão. Eu fui muito apaixonada por ele, no entanto quando me dei por conta, já não sentia absolutamente nada e foi neste momento que ele decidiu agir. Era tarde. Eu segui em frente, ele não.

  Relembrando estes acontecimentos, percebi que já fazia dois meses e, ainda assim, tentei ser compreensiva.
  - Tom, pode falar. Sabe que sempre pode falar comigo - mudei completamente meu tom para algo mais afável.
  - Eu queria saber se na sexta você não quer sair, tomar uma cerveja e conversar um pouco - cuspiu ele de uma só vez.
  - Olha, eu não estou a fim de sair - com você, quis, mas não completei. - Sabe como eu sou: mais inverno do que verão; mais dentro de casa do que fora; melhor sozinha do que acompanhada.
  - Ok, entendi, não quer sair comigo.
  - Não, não é isso - claro que era. - Não é por sua causa, sou eu - eu e meu péssimo costume de não querer magoar a todo custo.
  - Sinceridade: algo que sempre faltou em você - disse ele derramando uma lágrima, porém com mais cólera do que tristeza.
  E, não sei se por orgulho ou por raiva, naquele momento decidi ser sincera, mesmo que suavemente.
  - Realmente, existe algo que há muito tempo quero lhe dizer e não consigo. Já passou dias, meses... você precisa seguir em frente, ao menos um pouco, ao menos tentar. Sabe, fazer um esforço. E não ficar me seguindo por aí; ficar contando o tempo para cruzar por mim propositalmente-sem-querer nas escadas. Você é bem grandinho para bancar o adolescente...
  E então ele derramou as outras lágrimas que tanto segurava e eram muitas. E, num gesto de puro reflexo sentimental, eu abracei-o.
  - Vai passar, vai passar. Você vai ver, querido, tudo ficará bem - sempre ouvi que mulheres amadurecem antes de os homens terem chance de pensar nisto, não acredito que isto aconteça em absolutamente todos os casos, porém, este é um bom exemplo. Tom e eu temos a mesma idade, contudo, nesse momento me senti maternal perto dele, o que não acontecia há dois meses.

  Ironias da vida: eu estava simplesmente consolando um cara que nutria um sentimento não recíproco por mim, como se fosse sua melhor amiga.
  - Passa mesmo? - perguntou ele, em meio aos soluços, enterrado em meu abraço.
  - Passa, sim!

6 de mai de 2011

Acordes esculpidos

Amo o escuro,
Como quem ama o frio de inverno sem sair defronte à lareira.
Sinto a vida,
Como quem sente estrelas e astros sem sentir nada de fato.
Vejo o mundo,
Enxergando o colorido de todo raio de sol,
A maneira de tudo se tornar sépia.
Invento canções de ninar,
Que mais assustam crianças.
Todas em um tom sincero menor,
Mentindo nos detalhes bemóis,
Como quem exagera em verdades.