29 de abr de 2011

I know it's over

  - Eu não vou com vocês. Desistam e não percam seus tempos - com estas palavras eu protestava, praticamente bradava, que não iria despedir-me dele.
  - Vamos, ele vai embora, a gente compreende que vocês tiveram muitos problemas, mesmo não sabendo que problemas são esses. Mas o Fred é nosso amigo e está partindo hoje. Você precisa ir - Christian não desistia, contudo eu me recusava.
  - Deixem-no se ele não quer ir. Ele ficará bem, Fred também... eu espero - Julinha era a única que parecia entender-me.
  - O avião parte daqui a duas horas, é melhor irmos ao aeroporto. Além do mais, não podemos confiar nesse trânsito - Augusto, normalmente tão expansivo, agora se revelava impaciente e seco - e você - ele continuou, jogando uma verdadeira mágoa sobre mim - não vai ficar chorando pelos cantos, ou em meus ombros como sempre. Fred vai embora hoje, pense bem se não irá, mesmo, se despedir.

  Nós somos entre cinco amigos, estudamos na mesma universidade e moramos no mesmo edifício. Eu e Augusto nos conhecemos há uns cinco anos, quando me mudei para este prédio e o descobri meu vizinho. Pouco tempo depois, mudaram-se para cá Julinha e Christian, que eram um casal bastante unido, diria chato e maçante na verdade - não é ciúme de minha parte, juro -, porém com o carisma suficiente para formar conosco um quarteto de amigos fantástico. Saíamos sempre juntos, com gostos referenciais, adorávamos desde domingos frios em teatros a sábados quentes em bares - nas altas horas, sempre tínhamos que carregar um ou outro que caía bêbado em vexames. Contudo, tudo mudou, pelo menos para mim, em uma manhã de segunda, em que preparávamos um almoço para comemorar o aniversário de Augusto em sua casa, quando, de repente, aparece Fred à porta, com suas malas e um sorriso bobalhão no rosto. Desde então, passei a viver em conflito comigo mesmo, e Fred também. Nós não éramos homossexuais, pelo menos acreditávamos que não. Mas, então, o que estava acontecendo? Por que desde este dia nossos olhares sempre demoravam-se mais do que o necessário um no outro? Por que tínhamos tanta necessidade em permanecermos juntos? Por que eu sonhei com ele tantas e tantas vezes...? E por que ele contou que sonhou comigo também? Nós compreendíamos o que estava acontecendo, porém, de qualquer forma, estávamos muito assustados e quanto mais nos aproximávamos, mais queríamos afastarmo-nos. Não conseguíamos mais conviver com aquilo, sequer nos tocávamos; com os outros era natural, eu nunca havia sentido atração por nenhum outro homem e nem ele. E a cada dia tornávamo-nos mais íntimos. Ele passou a ir olhar filmes em meu apartamento, e eu almoçava no dele quase todos os dias. Os outros começaram a desconfiar desta amizade tão intrínseca, Julinha principalmente, com seus olhos de águia, que captam qualquer sinal, por mais irrelevante e mínimo que este seja. Por fim, optamos por desviar o rumo, e Fred apareceu com uma namorada. Eu me senti acabado, quebrado e dolorido. Jamais sentira dor assim, todavia, entendia que era o melhor a se fazer - nossa história nunca se concretizaria, éramos medrosos demais para enfrentar tudo que viria; todos os preconceitos e faces pasmadas. Contudo, guardei o sentimento, mesmo me tornando frio com ele e levando todas as pancadas que o próprio me lançava com o olhar e todo gesto; quem assistia a cena de fora, acreditava que nos odiávamos - e há quem diga que o ódio é um sentimento muito próximo do amor, nunca concordei com isto, mas quase confirmamos esta hipótese. Guardei o sentimento até hoje. E agora eles querem ir ao aeroporto. Ninguém nunca gostou de despedidas, contudo estas sempre foram precisas e obrigatórias na vida. Adeus Fred, gostaria de poder abanar daqui.

 E todos foram presenciar sua partida, e eu fui também. Agora me vejo aqui, completamente perdido sem saber o que fazer. Eu quase posso sentir o céu caindo sobre a minha cabeça e minha alma desmoronando e minha mente sendo lavada e levada e eu vou... mas não sei um lugar em que posso ir. É o fim, eu sei, está tudo quebrado e nada soa verdadeiro, porém é real. Fred realmente vai embora, para sempre. Vai para não voltar, eu sempre soube. E eu queria ter um lugar no qual ir, onde fosse; apenas não queria ficar aqui, assistindo a isso: Augusto, Julinha e Christian abraçam-no emocionados, lágrimas, lágrimas e mais lágrimas. E eu aqui, mantendo a distância necessária. De repente o pior acontece - não, não pode ser; eles não estão me chamando, estão? Merda!
  Estes estão sendo os segundos mais longos e cruciantes de minha vida. Não tenho alternativas senão ir até ele e assim faço.
   - Ei, Fred! - eu consegui dizer, apenas. Contudo, ainda bem, algo me silenciou. Creio que foram aqueles olhos verdes e luzentes, com uma lágrima quase se libertando, fitando-me como se fosse a última vez que o fariam - e talvez realmente fosse. Então, com um gesto inesperado, Fred abraçou-me, como nunca antes fizera. Meu mundo desabou de vez, só que com a diferença de tudo estar bem assim. Talvez, seja esse o lado bom do caos. E no meio de toda tormenta pude sentir pela primeira vez o aroma de seus cabelos tão macios e de sua pele tão sensível. Pude sentir sua pele e estava completamente sensível. Ele me apertou contra seu peito com uma força descomunal, e eu senti seu coração pulsando no ritmo do meu, acelerando-se cada vez mais. Eu senti sua respiração ofegante em meus cabelos, e neste momento desejei desaparecer eternamente. E o abraço demorou mais do que demoraria uma abraço comum. Então, olhei mais uma vez dentro de seus olhos, porém desta vez ele não pôde segurar as lágrimas e segurou meu rosto com ambas as mãos e me beijou demoradamente a testa, um gesto quase paternal e, por fim, me abraçou uma última vez. Quando me soltei, consegui, finalmente, ver a expressão chocada dos outros, porém, não me importava. Fred estava imóvel, encarando-me, lágrimas escorrendo e um sorriso triste na face. Sorriso inexistente no olhar melancólico, do qual observava o fim de algo que não havia começado. E permaneceu assim, até ser obrigado a embarcar. Ele foi e não voltaria.

  Era o fim e nem tivemos a chance de início. Tudo bem. É tão fácil despedir-se. É tão fácil esquecer-se. Eu sei que é o fim e parece ser tão fácil seguir em frente. Não, não é. Por que eu não sei aonde devo ir.

4 comentários:

  1. Retribuindo a visita e o comentário!
    Tenha um excelente domingo...

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  2. o texto é muito longo, mas eu li ele todo
    é muito bem escrito e o vocabulário muito bem usado o que impediu o texto de ficar muito cansativo
    senti falta de elementos ilustrativos

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  3. Seus textos são imenso... Não da pra ler tudo.. rs

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  4. Como vai, Pamela, lembra de mim?

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