13 de abr de 2011

Esgotado

  Primeiramente, é a ducentésima quadragésima oitava vez que eu tento dar um início a estas palavras - foram exatamente duzentas e quarenta e oito vezes, eu contei; e, assim, deixo claro que se foi meu caderno e todo o meu bom-senso - que nunca foi suficiente - para escrever algo digno da perda de toda tinta de caneta e de tempo. Entretanto não quero estender-me neste assunto, pois o tempo passa e a tinta da caneta chega ao fim.

  Quanta filosofia ainda passará por meus olhos e alma? E quantas madrugadas nascerão e morrerão em minha janela, tendo-me como plateia? A vida é uma espécie de peça brilhante, agora, como fora um dia. E faz tudo cintilar como deve, e cintilam as horas, em seguida os dias, as semanas e os meses - como se não passassem de um mesmo tempo, completamente alheios. Contudo, nada disto é outra coisa senão um futuro que tem a condição de estar sempre à frente, e nunca ao lado, aqui e agora. "Amanhã brilhará, mês que vem fará sol, no próximo ano tudo dará certo e depois deste século as coisas ficarão bem." Não, nunca é hoje; nunca o tenho. Suspiros de um futuro que decerto será sempre futuro. O tempo passa e não passa. As estações mudam e tudo permanece o mesmo. A tinta acaba e eu compro outra caneta idêntica.

  Tudo muda, o tempo todo. Mas nada, para mim, muda deveras. E carrego reles filosofias, um fado de ver sempre um mundo melhor e mais vermelho, e aromas suaves de doces que não fazem diferença se realmente existem. É tudo tão igual.

  É como acordar todo dia e todo dia ser dia doze de agosto de mil novecentos e noventa e quatro, porém, sem que nenhum dia repita-se. E as noites terem todas a mesma razão, absolutamente a mesma razão.

  Ó peso de viver o presente esperando por um presente que está por vir.
  Ó peso destas canetas falhas e esgotadas que carrego em meu bolso.
  Ó peso de se ter o mundo todo consigo, e nada se poder fazer.

2 comentários:

  1. Blog maneiro ^^
    to seguindo

    Segue tb ?
    http://aneurysmnanet.blogspot.com/

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  2. Poxa vida!
    Quantos textos bons eu perdi.
    Realmente, às vezes temos certos momentos em nossa vida, que parece que é sempre a mesma coisa. Por mais que as coisas ao nosso redor mudem, nós, continuamos sempre os mesmos. Isso faz parte da vida, creio eu, ser até um teste pra nossa paciência!

    A propósito, vou aproveitar para ler os textos que perdi.

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