18 de abr de 2011

E por falar em saudade

  O sol das cinco horas da tarde possuía ainda toda a intensidade, e eu estava na praça de sempre, sentada em meu banco favorito, protegida pela sombra de uma árvore que nunca soube o nome; como sempre, com um livro em mãos, mas a pausa na leitura era para me deixar seduzir pelos sons suaves e belos de Vinicius e Toquinho. Ao suspirar e fazer companhia a suas lamentações - "nesses mesmos lugares, na noite, nos bares... onde anda você?" -, tive uma, diria esperada, surpresa.

  - Esse sorriso de quem se entrega a uma canção - Eddie disse sentando-se ao meu lado - é meu conhecido há um certo tempo. Aposto que é Led Zeppelin, ou pela expressão apaixonada, pode ser o seu clássico: Cure.
  - Errou feio! - respondi sorrindo que era Vinicius.
  - Não acredito! De qualquer forma menos mal. Poderia ser pior - deu uma pausa, ficando sério e disse o nome de algo que tocava nas rádios no momento, e que já não me recordo.
  Apenas consenti sorrindo, andava ouvindo uma diversidade musical tão grande que nada surpreenderia.

  Ele descansou seus olhos por longos minutos em meu livro e disse em seguida:
  - Shakespeare? Essa serenidade toda está me espantando, menina.
  - Pois é, tenho andado mesmo diferente.
  - Estou vendo - disse ele pensativo.
  - De qualquer modo, certas coisas não mudam - disse eu mostrando meu bilhete para a sessão das seis e meia de um filme que olharia no cinema. - Meu programa solitário predileto. - E completei rapidamente - por isso estou aqui, matando o tempo até a hora do filme.
  Não, ele não poderia saber que era por sua causa que eu estava ali; que eu havia calculado o horário de saída de seu trabalho e esperado, realmente, que passasse naquele parque em seu caminho para casa. Ele definitivamente não podia imaginar que aquele encontro surpresa tivera sido, deveras, proposital. Eu não permitiria que ele enxergasse meu desespero.

  - Vou do fascínio à melancolia ao perceber que você é única. Dando-me por conta disso: nunca, no meio de tanta gente, encontrarei alguém como você, sinto-me imensamente triste. Sim, você é única, mas não deveria ser. E quando fosse embora, eu deveria achar outra que andasse da mesma forma e tivesse idêntico sorriso. Eu deveria olhar em outros olhos e poder enxergar a mesma alma. No entanto, não; vai embora sendo única. Para sempre única. E ao escutar certa música e contemplar o céu, justo você me virá à mente e mais ninguém. Simplesmente porque é única! - ele, então olhou para mim de um modo intenso; seus olhos penetraram em mim como numa mais haviam feito. Era exatamente este momento nosso, íntimo e de uma cumplicidade pura, que eu queria ter de volta. Entretanto, no segundo seguinte, ele baixou os olhos para sua mão direita e com espanto percebi que não era os seus dedos o que lhe prendiam a visão, e sim uma aliança. Uma aliança horrível, a pior que eu já havia posto os olhos.
  Percebendo que eu também contemplava aquele detalhe prata que não deveria estar no lugar em que estava, ele olhou para mim de modo ainda mais intenso e demorado. Tão profundo foi aquele momento que os olhos de ambos encheram-se de lágrimas - que lutaram, todavia, não escorreram.

  - Certas coisas não mudam - disse Eddie finalmente. - Muitas coisas não mudam, na verdade. No entanto, em oposição, outras coisas mudam demais.
  Eu fiquei sem saber o que dizer.
  - Desculpe atrapalhar sua leitura. Desculpe por muitas outras coisas - ele apertou os olhos rigidamente. - Deixe-me ir agora. Eu realmente tenho de ir.
  E foi.
  E eu fiquei ao som de Vinicius, sorrindo tristemente - sim, ele ainda me amava, entretanto já não era o que queria.

Um comentário:

  1. Lindo, diria...Perfeito.

    Tanto sentimento em suas palavras, quase que me enche os olhos d'agua aqui.

    Muito bom.

    Estou te seguindo, se puder dá uma passada no meu blog: O Infinita liberdade.

    Beijo, Misunderstood

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