25 de abr de 2011

Coragem

  Quatro da manhã, eu e dois amigos andávamos pelo centro da cidade. Eu era a única quase-sóbria e apenas ria de todo tumulto que eles faziam.
  De repente, do outro lado da rua quase deserta, avistei o Eddie andando meio tonto - quase-sóbrio também. Depois de quase um ano ele ainda me causava os mesmo efeitos. E ao nossos olhares tocarem-se, pude ver que eu também mexia, ainda, muito com ele. Mesmo bêbados!

  Afastei-me de meus amigos desordeiros e fui ao seu encontro; ele foi logo abrindo o sorriso. Cumprimentamo-nos desajeitadamente e perdemos muito tempo falando sobre trivialidades - como sempre fizemos. Ele disse-me que deveria cuidar melhor de mim e não beber daquela forma; falei o mesmo a ele. Perguntei se ele iria à  Berlim no final do ano, ele respondeu que sim - eu sabia, contudo tinha esperança que dissesse que não. Ele convidou-me para tomar qualquer coisa da qual não recordo - como se não houvéssemos bebido o suficiente - e eu aceitei, sem pensar. Naquele estado, a última coisa que fazia era pensar. Falávamos alto e falávamos bobagens; os poucos transeuntes olhavam-nos espantados, e nós ríamos ainda mais alto. Era sempre divertido estar com ele, em qualquer situação. Demos dinheiros a um mendigo (percebi somente no dia seguinte que a quantidade foi grande). Cantávamos descontroladamente músicas horríveis. Não nos deixaram entrar em uma bar que tocava uma banda cover de AC/DC, apenas por que não tínhamos dinheiro - havíamos gastado com bebidas. Rimos, rimos, rimos. Sentamo-nos em uma escada e comemoramos nossa sorte de poder ver o dia amanhecer. Por fim, ele adormeceu em meu ombro e tive que chamar um táxi e o deixar em casa.

  Não preciso descrever a ressaca do dia seguinte. No entanto, preciso muito dizer que a alegria de estar ao lado dele transformara-se em melancolia ao fechar a porta, escorar-me nela e me ver em casa. Afinal, aquele encontro promovido pelo Acaso só acontecera pelo fato de que estávamos bêbados - nossas vidas não teriam outro motivo para se cruzarem. E nem ao menos me lembro de termos dito algo relevante. Recordo-me apenas de ouvir dele que andava pensando na vida; pensando muito no que fizera e andava fazendo; pensando às vezes no futuro. E lembro vagamente de ter ouvido que pensava ainda em mim.
  Todavia não tenho certeza de nada  que lembro. Memória de bêbado é ilusão.

  - Coragem! - pensei antes de entrar embaixo da água fria que escorria do chuveiro, naquela manhã gelada de julho. Era necessário aliviar a ressaca.
  As primeiras gotas tocaram-me cruelmente, causando-me arrepios, que se transformavam em espasmos e uma terrível falta de ar, porém minha pele logo se acostumou com aquela sensação fria e pude, então, relaxar.
  A minha alma andava, também, acostumando-se com muitas friezas da vida.

  Aos poucos fui lembrando-me de outros detalhes da noite anterior:

  - Coragem! - disse ele segurando minha mão no táxi. - Será preciso toda coragem
  - Coragem! - repeti em pensamento.
  Ele, então, olhou para mim, a sobriedade aparecendo aos poucos em sua face.

  E não pude lembrar-me de nada mais.

  Desliguei o chuveiro. Bem melhor agora. Sentada sob a mesa, xícara em minhas mão: coragem, hora do café exageradamente amargo.

  E isso tudo me faz pensar, é preciso de muita coragem na vida, a cada amanhecer - para começar de novo, vida nova e cara limpa; para se livrar de manchas impregnadas na alma. Coragens que não tive.

  Coragem! - pensei pela última vez ao não atender uma chamada insistente dele.
  Fará um ano e nós dois ainda não aprendemos que a coragem de que tanto precisamos é para, na verdade, colocar um ponto final nesta história.

2 comentários:

  1. Voc~e sempre consegue descrever com maestria o seu interno... Gosto deste tom pessoal em seus textos!

    ;D

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  2. muito bom o seu blog , sinto que vem de algo profundo .
    http://marrieporrie.blogspot.com/

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