5 de abr de 2011

A chantagem

  Sete chamadas não atendidas em seu celular, ela acabara de ver estas quando seu pai entregou-lhe o telefone.
  - Ligação para você.
  - Deve ser o estúpido do João, ele acha que, depois do que fez ontem, eu vou querer falar com ele.

  - Alô, Paula? - falou Maria, sua sogra.
  - Oi, dona Maria. - respondeu ela desconfiada, pois a voz do outro lado do telefone parecia abatida.
  - Paula querida, preciso que venha aqui em casa. É importante.
  - A senhora precisa de alguma coisa, quer que eu leve...
  - Não, não. Sua presença basta... eu espero. - E completou aflita - mas venha com urgência.
  - Está bem - Paula estava ficando assustada. - O João está bem?
   ...
  - Ela desligou o telefone. - Paula falava consigo, muito preocupada com a atitude estranha de sua sogra.

  Não precisou bater mais de duas vezes na porta, Dona Maria a colocou para dentro com precipitação incomum.
  - Como vai a senhora? - Paula se intimidava cada vez mais com aquela situação. - E o joão, está...?
  - Sabe que dia é hoje? - adiantou-se a sogra.
  - Sei, é dia vinte e um de agosto... - interrompeu-se ao compreender o que se passava, era dia vinte e um de agosto, simplesmente. - Hoje está completando um ano.
  - Sim, o pai de João... morreu faz um ano - Dona Maria deixou-se desmoronar de vez.
  - Oh! Onde ele está? Preciso vê-lo - Paula ficou ainda mais preocupada depois de entender o motivo da atitude estranha de sua sogra.
  - É por isso que precisei que viesse, eu sei que brigaram ontem e isso o deixou arrasado, mais que o normal. E eu quero pedir-lhe para perdoá-lo, ao menos dessa vez. A sensibilidade faz de seu estado ainda mais crítico e ele precisa tanto de você, hoje então, ele sequer saiu daquele quarto para comer...

  Paula não ouviu mais nada, dirigiu-se, apenas, ao quarto de João; ao abrir a porta viu a imagem que sempre lhe tira toda e qualquer razão, ele estava dormindo e ressonava sossegadamente; estava tranquilamente lindo, e ainda assim aparentava dor. Ela inclinou-se sobre ele, ao lado de sua cama, e o beijou repetidas vezes de modo carinhoso na face, despertando-o. Este, ao acordar com a imagem dela, não pode conter o sorriso e o brilho nos olhos.

  - Bom dia meu amor! - disse ela.
  - Que maneira linda de se acordar - disse ele emocionando-se, o que sempre acontecia com qualquer gesto dela.
  - Tem algum espaço para mim? - disse ela livrando-se do casaco grosso. - Está frio aqui.
  Ele respondeu que sim com o gesto de puxar o cobertor para ela deitar-se ao seu lado.

   Deitados defronte, olhando-se intensamente nos olhos, assim permaneceram por longos e únicos minutos. Então, Paula aconchegou-se no peito de João e ficou imóvel, ouvindo os batimentos que aceleravam-se por ela e apenas por ela. Ela sentiu, neste momento, uma felicidade desconhecida e escassa; sentiu, também, a respiração dele em seus cabelos, seus lábios acariciando sua cabeça. Ao se voltar a ele notou um sorriso inundado de lágrimas; sem resistir afagou a barba que crescera rapidamente na última semana, e levou seus lábios suavemente aos dele e assim procedeu por instantes - eles sentiam-se, de modo intenso e profundo, mais que ao ar e todos os elementos da Terra. Eles pertenciam-se plenamente.

  - Eu te amo, mais do que qualquer coisa. E sei que precisa e por isso estou sempre com você, independente do que aconteça, e nunca se esqueça disso -  disse ela finalmente.
  - Eu preciso de você... tanto, tanto - excedia ele nas palavras e sentimentos, agarrando-se, ainda mais, a ela. E chorava, com toda fragilidade. 

  Eles estavam completamente unidos, inteiramente ligados - almas e corpos. Os dois corações batiam juntos, com a mesma frequência, em perfeita simetria. E, neste momento, sentir um ao outro era a única coisa que os importava.

  Depois de um longo tempo ela afastou-se e disse-lhe que precisava comer alguma coisa.
  - Me peça qualquer coisa. Me peça, mesmo, em casamento. Mas não que coma - disse ele oscilando entre divertimento e aborrecimento.
  Ela riu com aquele humor fora de hora e com seu jeito infantil de querer chamar atenção.
  - É sério! - completou ele ao notar que ela lançava-lhe um olhar incrédulo e reprovador. - Eu juro que tentei, mas nada me passa pela garganta.
  - Não me faça chantageá-lo - ameaçou ela.
  - Com mil beijos e todos os seus mais lindos sorrisos. Assim, eu adoraria ser chantageado.
  - Tudo bem, mil beijos e todos os meus sorrisos serão seus - ela esperou ver os olhos dele iluminarem-se para continuar - desde que coma, já, alguma coisa.
  Ele levantou-se de súbito, livrando-se de toda sua expressão melancólica.
  - Saiba que cobrarei - disse ele com uma estampa reluzente e desconhecida no rosto.
  Foi ela, então, que se levantou. E jogando os braços em seu pescoço e o fitando demoradamente, ela o beijou tão intensamente quanto desejavam-se.
  - Aqui está uma amostra da chantagem.

 E, como sua mãe previu, ele ficaria bem - com ela, ele ficaria bem.

2 comentários:

  1. Belos textos, Ja pensou em ir em um editorial ?
    http://sentimentares.blogspot.com/

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  2. Lindos esses seus textos!!! Estás de parabéns! Sou poeta e também tenho um blog. Tornei-me um seguidor do seu blog. Visitem-me também acessando (http://historiadeuniaopi.blogspot.com/) e torne-se uma seguidora. Ficarei honrado com sua ilustre presença.O nome do meu blog é "Olhos da Mente". Até mais.

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