29 de abr de 2011

I know it's over

  - Eu não vou com vocês. Desistam e não percam seus tempos - com estas palavras eu protestava, praticamente bradava, que não iria despedir-me dele.
  - Vamos, ele vai embora, a gente compreende que vocês tiveram muitos problemas, mesmo não sabendo que problemas são esses. Mas o Fred é nosso amigo e está partindo hoje. Você precisa ir - Christian não desistia, contudo eu me recusava.
  - Deixem-no se ele não quer ir. Ele ficará bem, Fred também... eu espero - Julinha era a única que parecia entender-me.
  - O avião parte daqui a duas horas, é melhor irmos ao aeroporto. Além do mais, não podemos confiar nesse trânsito - Augusto, normalmente tão expansivo, agora se revelava impaciente e seco - e você - ele continuou, jogando uma verdadeira mágoa sobre mim - não vai ficar chorando pelos cantos, ou em meus ombros como sempre. Fred vai embora hoje, pense bem se não irá, mesmo, se despedir.

  Nós somos entre cinco amigos, estudamos na mesma universidade e moramos no mesmo edifício. Eu e Augusto nos conhecemos há uns cinco anos, quando me mudei para este prédio e o descobri meu vizinho. Pouco tempo depois, mudaram-se para cá Julinha e Christian, que eram um casal bastante unido, diria chato e maçante na verdade - não é ciúme de minha parte, juro -, porém com o carisma suficiente para formar conosco um quarteto de amigos fantástico. Saíamos sempre juntos, com gostos referenciais, adorávamos desde domingos frios em teatros a sábados quentes em bares - nas altas horas, sempre tínhamos que carregar um ou outro que caía bêbado em vexames. Contudo, tudo mudou, pelo menos para mim, em uma manhã de segunda, em que preparávamos um almoço para comemorar o aniversário de Augusto em sua casa, quando, de repente, aparece Fred à porta, com suas malas e um sorriso bobalhão no rosto. Desde então, passei a viver em conflito comigo mesmo, e Fred também. Nós não éramos homossexuais, pelo menos acreditávamos que não. Mas, então, o que estava acontecendo? Por que desde este dia nossos olhares sempre demoravam-se mais do que o necessário um no outro? Por que tínhamos tanta necessidade em permanecermos juntos? Por que eu sonhei com ele tantas e tantas vezes...? E por que ele contou que sonhou comigo também? Nós compreendíamos o que estava acontecendo, porém, de qualquer forma, estávamos muito assustados e quanto mais nos aproximávamos, mais queríamos afastarmo-nos. Não conseguíamos mais conviver com aquilo, sequer nos tocávamos; com os outros era natural, eu nunca havia sentido atração por nenhum outro homem e nem ele. E a cada dia tornávamo-nos mais íntimos. Ele passou a ir olhar filmes em meu apartamento, e eu almoçava no dele quase todos os dias. Os outros começaram a desconfiar desta amizade tão intrínseca, Julinha principalmente, com seus olhos de águia, que captam qualquer sinal, por mais irrelevante e mínimo que este seja. Por fim, optamos por desviar o rumo, e Fred apareceu com uma namorada. Eu me senti acabado, quebrado e dolorido. Jamais sentira dor assim, todavia, entendia que era o melhor a se fazer - nossa história nunca se concretizaria, éramos medrosos demais para enfrentar tudo que viria; todos os preconceitos e faces pasmadas. Contudo, guardei o sentimento, mesmo me tornando frio com ele e levando todas as pancadas que o próprio me lançava com o olhar e todo gesto; quem assistia a cena de fora, acreditava que nos odiávamos - e há quem diga que o ódio é um sentimento muito próximo do amor, nunca concordei com isto, mas quase confirmamos esta hipótese. Guardei o sentimento até hoje. E agora eles querem ir ao aeroporto. Ninguém nunca gostou de despedidas, contudo estas sempre foram precisas e obrigatórias na vida. Adeus Fred, gostaria de poder abanar daqui.

 E todos foram presenciar sua partida, e eu fui também. Agora me vejo aqui, completamente perdido sem saber o que fazer. Eu quase posso sentir o céu caindo sobre a minha cabeça e minha alma desmoronando e minha mente sendo lavada e levada e eu vou... mas não sei um lugar em que posso ir. É o fim, eu sei, está tudo quebrado e nada soa verdadeiro, porém é real. Fred realmente vai embora, para sempre. Vai para não voltar, eu sempre soube. E eu queria ter um lugar no qual ir, onde fosse; apenas não queria ficar aqui, assistindo a isso: Augusto, Julinha e Christian abraçam-no emocionados, lágrimas, lágrimas e mais lágrimas. E eu aqui, mantendo a distância necessária. De repente o pior acontece - não, não pode ser; eles não estão me chamando, estão? Merda!
  Estes estão sendo os segundos mais longos e cruciantes de minha vida. Não tenho alternativas senão ir até ele e assim faço.
   - Ei, Fred! - eu consegui dizer, apenas. Contudo, ainda bem, algo me silenciou. Creio que foram aqueles olhos verdes e luzentes, com uma lágrima quase se libertando, fitando-me como se fosse a última vez que o fariam - e talvez realmente fosse. Então, com um gesto inesperado, Fred abraçou-me, como nunca antes fizera. Meu mundo desabou de vez, só que com a diferença de tudo estar bem assim. Talvez, seja esse o lado bom do caos. E no meio de toda tormenta pude sentir pela primeira vez o aroma de seus cabelos tão macios e de sua pele tão sensível. Pude sentir sua pele e estava completamente sensível. Ele me apertou contra seu peito com uma força descomunal, e eu senti seu coração pulsando no ritmo do meu, acelerando-se cada vez mais. Eu senti sua respiração ofegante em meus cabelos, e neste momento desejei desaparecer eternamente. E o abraço demorou mais do que demoraria uma abraço comum. Então, olhei mais uma vez dentro de seus olhos, porém desta vez ele não pôde segurar as lágrimas e segurou meu rosto com ambas as mãos e me beijou demoradamente a testa, um gesto quase paternal e, por fim, me abraçou uma última vez. Quando me soltei, consegui, finalmente, ver a expressão chocada dos outros, porém, não me importava. Fred estava imóvel, encarando-me, lágrimas escorrendo e um sorriso triste na face. Sorriso inexistente no olhar melancólico, do qual observava o fim de algo que não havia começado. E permaneceu assim, até ser obrigado a embarcar. Ele foi e não voltaria.

  Era o fim e nem tivemos a chance de início. Tudo bem. É tão fácil despedir-se. É tão fácil esquecer-se. Eu sei que é o fim e parece ser tão fácil seguir em frente. Não, não é. Por que eu não sei aonde devo ir.

25 de abr de 2011

Coragem

  Quatro da manhã, eu e dois amigos andávamos pelo centro da cidade. Eu era a única quase-sóbria e apenas ria de todo tumulto que eles faziam.
  De repente, do outro lado da rua quase deserta, avistei o Eddie andando meio tonto - quase-sóbrio também. Depois de quase um ano ele ainda me causava os mesmo efeitos. E ao nossos olhares tocarem-se, pude ver que eu também mexia, ainda, muito com ele. Mesmo bêbados!

  Afastei-me de meus amigos desordeiros e fui ao seu encontro; ele foi logo abrindo o sorriso. Cumprimentamo-nos desajeitadamente e perdemos muito tempo falando sobre trivialidades - como sempre fizemos. Ele disse-me que deveria cuidar melhor de mim e não beber daquela forma; falei o mesmo a ele. Perguntei se ele iria à  Berlim no final do ano, ele respondeu que sim - eu sabia, contudo tinha esperança que dissesse que não. Ele convidou-me para tomar qualquer coisa da qual não recordo - como se não houvéssemos bebido o suficiente - e eu aceitei, sem pensar. Naquele estado, a última coisa que fazia era pensar. Falávamos alto e falávamos bobagens; os poucos transeuntes olhavam-nos espantados, e nós ríamos ainda mais alto. Era sempre divertido estar com ele, em qualquer situação. Demos dinheiros a um mendigo (percebi somente no dia seguinte que a quantidade foi grande). Cantávamos descontroladamente músicas horríveis. Não nos deixaram entrar em uma bar que tocava uma banda cover de AC/DC, apenas por que não tínhamos dinheiro - havíamos gastado com bebidas. Rimos, rimos, rimos. Sentamo-nos em uma escada e comemoramos nossa sorte de poder ver o dia amanhecer. Por fim, ele adormeceu em meu ombro e tive que chamar um táxi e o deixar em casa.

  Não preciso descrever a ressaca do dia seguinte. No entanto, preciso muito dizer que a alegria de estar ao lado dele transformara-se em melancolia ao fechar a porta, escorar-me nela e me ver em casa. Afinal, aquele encontro promovido pelo Acaso só acontecera pelo fato de que estávamos bêbados - nossas vidas não teriam outro motivo para se cruzarem. E nem ao menos me lembro de termos dito algo relevante. Recordo-me apenas de ouvir dele que andava pensando na vida; pensando muito no que fizera e andava fazendo; pensando às vezes no futuro. E lembro vagamente de ter ouvido que pensava ainda em mim.
  Todavia não tenho certeza de nada  que lembro. Memória de bêbado é ilusão.

  - Coragem! - pensei antes de entrar embaixo da água fria que escorria do chuveiro, naquela manhã gelada de julho. Era necessário aliviar a ressaca.
  As primeiras gotas tocaram-me cruelmente, causando-me arrepios, que se transformavam em espasmos e uma terrível falta de ar, porém minha pele logo se acostumou com aquela sensação fria e pude, então, relaxar.
  A minha alma andava, também, acostumando-se com muitas friezas da vida.

  Aos poucos fui lembrando-me de outros detalhes da noite anterior:

  - Coragem! - disse ele segurando minha mão no táxi. - Será preciso toda coragem
  - Coragem! - repeti em pensamento.
  Ele, então, olhou para mim, a sobriedade aparecendo aos poucos em sua face.

  E não pude lembrar-me de nada mais.

  Desliguei o chuveiro. Bem melhor agora. Sentada sob a mesa, xícara em minhas mão: coragem, hora do café exageradamente amargo.

  E isso tudo me faz pensar, é preciso de muita coragem na vida, a cada amanhecer - para começar de novo, vida nova e cara limpa; para se livrar de manchas impregnadas na alma. Coragens que não tive.

  Coragem! - pensei pela última vez ao não atender uma chamada insistente dele.
  Fará um ano e nós dois ainda não aprendemos que a coragem de que tanto precisamos é para, na verdade, colocar um ponto final nesta história.

23 de abr de 2011

Pesa-nos pensar

  Inacreditável a maneira como os homens perdem-se de suas essências dentro de conformes ditados pela sociedade; a maneira com que eles moldam-se para entrarem no padrão descrito. Não vivem para si. Não realizam os próprios desejos mais intensos e internos, para realizarem todo o "desejo" que lhes é imposto. E às vezes, acredito, não se dão por conta de que estão sendo escravizados por seus modos de vida e por toda convenção social. E ainda exigem do outro que viva para a sociedade, também. Exigem quando são incompreensíveis e julgam - ninguém gosta de ser julgado ou sofrer preconceitos estúpidos, ninguém quer ser denominado insano; enfim, ninguém, sem muito esforço, consegue a coragem para fugir dos padrões. Entretanto eu tenho a certeza que fugir das escolhas prontas, do que já esperam de nós, para buscar aquilo que realmente queremos, que de tanto desejarmos faz vibrar algo desconhecido lá em nosso fundo intrínseco, é a única coisa que nos fará verdadeiramente felizes, pois seremos quem somos, finalmente.

   Uma boa teoria, é aquela que um homem afastado da civilização aprende a desenvolver seus sentidos mais íntimos e buscar seus desejos (que aqui se tornariam ocultos), através de seu instinto natural e, então, seria todo e somente pura essência.
  Uma pessoa torna-se o que o meio decidir impor-lhe. Ela nasce genuína, única e fascinante, porém, ao contrário do que acredita, o tempo não lhe faz inteligente, e sim um projeto da sociedade dominadora. Raros são aqueles que creem em suas mentes e no pensamento próprio, e que não fazem o que preguiçosamente muitos aconselham: fechar os olhos, cruzar os braços e seguir a multidão, seguir o caminho que está supostamente dando certo - se é que podemos chamar de certo o que anda acontecendo em nossa volta.
  O ciclo vida humana tornou-se tão previsível, que apenas  não comparo com os outros animais porque o ciclo deles ocorre por que seguem suas vontades, enquanto nós - tão humanos e superiores - seguimos uma vontade ditada e nada, absolutamente nada, vem realmente de nossos desejos. E esses  dominadores, que nos ditam toda nossa forma de vida, aparecem nos programas que gastamos tempo assistindo; no livro que lemos e relemos (aquele mais vendido do mundo); e nessa ideologia que fazemos questão de seguir.      
  Ideologias: sãos as formas de vidas das quais aceitamos viver e servir fiel e cegamente; sãos as nossas escolas, que têm como a principal preocupação em ensinar-nos a não pensar. NÃO PENSA! - É a primeira lição. Cobre tua visão e vai com os outros, fazendo o que é julgado melhor para nós, e não para ti. Dá-nos. dinheiro, dá-nos teu tempo, dá-nos tua vida - É a segunda lição.

  E depois os filósofos, que se dão ao trabalho de pensar, é que são loucos.

21 de abr de 2011

VIDA!

Não é simplesmente vida.
O correto é VIDA!
VIDA. V-I-D-A. Vida. 
Com letras maiúsculas e ponto de exclamação.
Para falar tem de puxar todo o ar do pulmão:
VIDA!

A violência mostra a tamanha loucura que existe na mente dos homens
                                                                                                  [normais.
E aderindo a violência eles sentem-se realmente normais.
E acham que são normais quando são apenas iguais.

E igualdade nunca foi normalidade.

18 de abr de 2011

E por falar em saudade

  O sol das cinco horas da tarde possuía ainda toda a intensidade, e eu estava na praça de sempre, sentada em meu banco favorito, protegida pela sombra de uma árvore que nunca soube o nome; como sempre, com um livro em mãos, mas a pausa na leitura era para me deixar seduzir pelos sons suaves e belos de Vinicius e Toquinho. Ao suspirar e fazer companhia a suas lamentações - "nesses mesmos lugares, na noite, nos bares... onde anda você?" -, tive uma, diria esperada, surpresa.

  - Esse sorriso de quem se entrega a uma canção - Eddie disse sentando-se ao meu lado - é meu conhecido há um certo tempo. Aposto que é Led Zeppelin, ou pela expressão apaixonada, pode ser o seu clássico: Cure.
  - Errou feio! - respondi sorrindo que era Vinicius.
  - Não acredito! De qualquer forma menos mal. Poderia ser pior - deu uma pausa, ficando sério e disse o nome de algo que tocava nas rádios no momento, e que já não me recordo.
  Apenas consenti sorrindo, andava ouvindo uma diversidade musical tão grande que nada surpreenderia.

  Ele descansou seus olhos por longos minutos em meu livro e disse em seguida:
  - Shakespeare? Essa serenidade toda está me espantando, menina.
  - Pois é, tenho andado mesmo diferente.
  - Estou vendo - disse ele pensativo.
  - De qualquer modo, certas coisas não mudam - disse eu mostrando meu bilhete para a sessão das seis e meia de um filme que olharia no cinema. - Meu programa solitário predileto. - E completei rapidamente - por isso estou aqui, matando o tempo até a hora do filme.
  Não, ele não poderia saber que era por sua causa que eu estava ali; que eu havia calculado o horário de saída de seu trabalho e esperado, realmente, que passasse naquele parque em seu caminho para casa. Ele definitivamente não podia imaginar que aquele encontro surpresa tivera sido, deveras, proposital. Eu não permitiria que ele enxergasse meu desespero.

  - Vou do fascínio à melancolia ao perceber que você é única. Dando-me por conta disso: nunca, no meio de tanta gente, encontrarei alguém como você, sinto-me imensamente triste. Sim, você é única, mas não deveria ser. E quando fosse embora, eu deveria achar outra que andasse da mesma forma e tivesse idêntico sorriso. Eu deveria olhar em outros olhos e poder enxergar a mesma alma. No entanto, não; vai embora sendo única. Para sempre única. E ao escutar certa música e contemplar o céu, justo você me virá à mente e mais ninguém. Simplesmente porque é única! - ele, então olhou para mim de um modo intenso; seus olhos penetraram em mim como numa mais haviam feito. Era exatamente este momento nosso, íntimo e de uma cumplicidade pura, que eu queria ter de volta. Entretanto, no segundo seguinte, ele baixou os olhos para sua mão direita e com espanto percebi que não era os seus dedos o que lhe prendiam a visão, e sim uma aliança. Uma aliança horrível, a pior que eu já havia posto os olhos.
  Percebendo que eu também contemplava aquele detalhe prata que não deveria estar no lugar em que estava, ele olhou para mim de modo ainda mais intenso e demorado. Tão profundo foi aquele momento que os olhos de ambos encheram-se de lágrimas - que lutaram, todavia, não escorreram.

  - Certas coisas não mudam - disse Eddie finalmente. - Muitas coisas não mudam, na verdade. No entanto, em oposição, outras coisas mudam demais.
  Eu fiquei sem saber o que dizer.
  - Desculpe atrapalhar sua leitura. Desculpe por muitas outras coisas - ele apertou os olhos rigidamente. - Deixe-me ir agora. Eu realmente tenho de ir.
  E foi.
  E eu fiquei ao som de Vinicius, sorrindo tristemente - sim, ele ainda me amava, entretanto já não era o que queria.

16 de abr de 2011

Embaixo da ponte

Embaixo da ponte dormia o mendigo.
Dormia o cachorro
Preso às plantas que haviam no abrigo.
Abaixo-me e vejo objetos
Esquisitos que um dia serviram de ornamentos.
Pasmo!
Embaixo da ponte havia um mendigo,
Havia um cachorro, plantas e ornamentos.
Embaixo da ponte era um feio bonito,
Embaixo da ponte era a casa de alguém.

13 de abr de 2011

Esgotado

  Primeiramente, é a ducentésima quadragésima oitava vez que eu tento dar um início a estas palavras - foram exatamente duzentas e quarenta e oito vezes, eu contei; e, assim, deixo claro que se foi meu caderno e todo o meu bom-senso - que nunca foi suficiente - para escrever algo digno da perda de toda tinta de caneta e de tempo. Entretanto não quero estender-me neste assunto, pois o tempo passa e a tinta da caneta chega ao fim.

  Quanta filosofia ainda passará por meus olhos e alma? E quantas madrugadas nascerão e morrerão em minha janela, tendo-me como plateia? A vida é uma espécie de peça brilhante, agora, como fora um dia. E faz tudo cintilar como deve, e cintilam as horas, em seguida os dias, as semanas e os meses - como se não passassem de um mesmo tempo, completamente alheios. Contudo, nada disto é outra coisa senão um futuro que tem a condição de estar sempre à frente, e nunca ao lado, aqui e agora. "Amanhã brilhará, mês que vem fará sol, no próximo ano tudo dará certo e depois deste século as coisas ficarão bem." Não, nunca é hoje; nunca o tenho. Suspiros de um futuro que decerto será sempre futuro. O tempo passa e não passa. As estações mudam e tudo permanece o mesmo. A tinta acaba e eu compro outra caneta idêntica.

  Tudo muda, o tempo todo. Mas nada, para mim, muda deveras. E carrego reles filosofias, um fado de ver sempre um mundo melhor e mais vermelho, e aromas suaves de doces que não fazem diferença se realmente existem. É tudo tão igual.

  É como acordar todo dia e todo dia ser dia doze de agosto de mil novecentos e noventa e quatro, porém, sem que nenhum dia repita-se. E as noites terem todas a mesma razão, absolutamente a mesma razão.

  Ó peso de viver o presente esperando por um presente que está por vir.
  Ó peso destas canetas falhas e esgotadas que carrego em meu bolso.
  Ó peso de se ter o mundo todo consigo, e nada se poder fazer.

10 de abr de 2011

Tudo passará

   Havia finalmente chegado a sua carta com a notícia de sua aprovação  na universidade. A felicidade com que contava a novidade ao seu namorado era absoluta. Aquele sorriso tatuado em sua expressão fazia-a ainda mais bonita. Amy era uma menina linda. Ela passou por muitas coisas em sua vida, etapas fascinantes e complicadas e tudo foi, sempre, simples e doce; como ela era.

   Ninguém poderia entender aquela carta deixada no chão de seu pequeno quarto, com manchas de um sangue que encharcava seu corpo, vazando pelo buraco que havia no estômago e que se espalhava colorindo o cômodo de um escarlate podre e sujo, no entanto belo - como a morte escancarada aos olhos espantados e curiosos de almas que contemplavam, com mais curiosidade do que espanto, aquela cena que falava por si, deixando, então, nada claro. Contudo havia a carta que poderia tudo esclarecer . "Havia uma carta" - todos cochichavam enquanto voltavam para suas vidinhas pacatas e toscas, solicitando o direito a lê-la - direito merecido de almas fofoqueiras, cruéis e baixas.

   Entretanto, como todo mistério existe para ser revelado, o pai banhado nas próprias lágrimas abriria a carta; satisfazendo o desejo de toda uma quase-humanidade, e não o próprio que era não ter de abri-la.

  " "O fim é o princípio do início, é aquele que abre as portas ao novo". Lembro-me de ter ouvido isto ontem, mas estava tão bêbada que nem sei se ouvi, ao certo, ou imaginei, ou entendi errado. De qualquer forma, esse é o sentido que busquei. Essa foi a filosofia de todas as poesias e as minhas poesias tiveram o mesmo fim... Não, eu nunca quis isso; contudo queria retornar ao início, que me abrissem as portas de novo; ver se não erraria mais uma vez... Porque tudo estava errado e já não havia tempo para recomeçar. A vida foi amaldiçoada pela liberdade de escolhas que existem em uma lista curta, tornando o infinito limitado, e quando me diziam "você está no caminho certo!", eu simplesmente sabia que estava tudo errado..."

  O final da carta estava prejudicado por sangue e lágrimas - impossibilitando a leitura. No entanto, não era pelas últimas palavras que faltavam, era por causa daquelas que puderam ser lidas que nada daquilo poderia ser compreendido.

7 de abr de 2011

Tocando em frente

  Às vezes temos de perceber qual é a hora de seguir em frente e deixar um passado profundo para trás. Entender que certas coisas não farão parte de nossa vida para sempre - e já não fazem. Encerrar capítulos e entender os fins, sem ficar lamentando-se o tempo todo. Coragem, desapego, dar um fim em qualquer esperança de continuação - às vezes é disto que precisamos. E por mais que pareça a coisa mais difícil a se fazer - esquecer algo que um dia foi-nos de uma importância absurda - é, na verdade, mais fácil que ficar remoendo-nos com lembrança inúteis.
  Palavras duras sempre foram mais consideráveis que palavras afáveis, essas possuem aquela sinceridade corajosa e inquestionável que não existe em toda esquina. Acordar para realidade, seja levando um beliscão ou um tapa, é importante - por mais que sejam importantes, também, os sonhos - não podemos viver de ilusões, não por muito tempo. A vida não deve permanecer estática, os segundos são sucessivos e assim temos de nos adaptar. E aquele passado que fora, um dia, tão importante e que agora não passa de algo sem nenhuma relevância, deve tornar-se o que é: algo sem nenhuma relevância. Passado é passado - por mais que faça parte de sua vida, não faz parte de seu presente. Passado é passado - deve tratá-lo como tal.
  Não querer esquecer o que já não faz sentido em sua vida é torturar-se e torturar qualquer próximo. Seguir em frente é, e sempre foi, a lei da vida. Quem se imobiliza cria a própria morte. Entregar-se é o gesto mais puro de covardia - em todos os sentidos e quase nunca é bom.

5 de abr de 2011

A chantagem

  Sete chamadas não atendidas em seu celular, ela acabara de ver estas quando seu pai entregou-lhe o telefone.
  - Ligação para você.
  - Deve ser o estúpido do João, ele acha que, depois do que fez ontem, eu vou querer falar com ele.

  - Alô, Paula? - falou Maria, sua sogra.
  - Oi, dona Maria. - respondeu ela desconfiada, pois a voz do outro lado do telefone parecia abatida.
  - Paula querida, preciso que venha aqui em casa. É importante.
  - A senhora precisa de alguma coisa, quer que eu leve...
  - Não, não. Sua presença basta... eu espero. - E completou aflita - mas venha com urgência.
  - Está bem - Paula estava ficando assustada. - O João está bem?
   ...
  - Ela desligou o telefone. - Paula falava consigo, muito preocupada com a atitude estranha de sua sogra.

  Não precisou bater mais de duas vezes na porta, Dona Maria a colocou para dentro com precipitação incomum.
  - Como vai a senhora? - Paula se intimidava cada vez mais com aquela situação. - E o joão, está...?
  - Sabe que dia é hoje? - adiantou-se a sogra.
  - Sei, é dia vinte e um de agosto... - interrompeu-se ao compreender o que se passava, era dia vinte e um de agosto, simplesmente. - Hoje está completando um ano.
  - Sim, o pai de João... morreu faz um ano - Dona Maria deixou-se desmoronar de vez.
  - Oh! Onde ele está? Preciso vê-lo - Paula ficou ainda mais preocupada depois de entender o motivo da atitude estranha de sua sogra.
  - É por isso que precisei que viesse, eu sei que brigaram ontem e isso o deixou arrasado, mais que o normal. E eu quero pedir-lhe para perdoá-lo, ao menos dessa vez. A sensibilidade faz de seu estado ainda mais crítico e ele precisa tanto de você, hoje então, ele sequer saiu daquele quarto para comer...

  Paula não ouviu mais nada, dirigiu-se, apenas, ao quarto de João; ao abrir a porta viu a imagem que sempre lhe tira toda e qualquer razão, ele estava dormindo e ressonava sossegadamente; estava tranquilamente lindo, e ainda assim aparentava dor. Ela inclinou-se sobre ele, ao lado de sua cama, e o beijou repetidas vezes de modo carinhoso na face, despertando-o. Este, ao acordar com a imagem dela, não pode conter o sorriso e o brilho nos olhos.

  - Bom dia meu amor! - disse ela.
  - Que maneira linda de se acordar - disse ele emocionando-se, o que sempre acontecia com qualquer gesto dela.
  - Tem algum espaço para mim? - disse ela livrando-se do casaco grosso. - Está frio aqui.
  Ele respondeu que sim com o gesto de puxar o cobertor para ela deitar-se ao seu lado.

   Deitados defronte, olhando-se intensamente nos olhos, assim permaneceram por longos e únicos minutos. Então, Paula aconchegou-se no peito de João e ficou imóvel, ouvindo os batimentos que aceleravam-se por ela e apenas por ela. Ela sentiu, neste momento, uma felicidade desconhecida e escassa; sentiu, também, a respiração dele em seus cabelos, seus lábios acariciando sua cabeça. Ao se voltar a ele notou um sorriso inundado de lágrimas; sem resistir afagou a barba que crescera rapidamente na última semana, e levou seus lábios suavemente aos dele e assim procedeu por instantes - eles sentiam-se, de modo intenso e profundo, mais que ao ar e todos os elementos da Terra. Eles pertenciam-se plenamente.

  - Eu te amo, mais do que qualquer coisa. E sei que precisa e por isso estou sempre com você, independente do que aconteça, e nunca se esqueça disso -  disse ela finalmente.
  - Eu preciso de você... tanto, tanto - excedia ele nas palavras e sentimentos, agarrando-se, ainda mais, a ela. E chorava, com toda fragilidade. 

  Eles estavam completamente unidos, inteiramente ligados - almas e corpos. Os dois corações batiam juntos, com a mesma frequência, em perfeita simetria. E, neste momento, sentir um ao outro era a única coisa que os importava.

  Depois de um longo tempo ela afastou-se e disse-lhe que precisava comer alguma coisa.
  - Me peça qualquer coisa. Me peça, mesmo, em casamento. Mas não que coma - disse ele oscilando entre divertimento e aborrecimento.
  Ela riu com aquele humor fora de hora e com seu jeito infantil de querer chamar atenção.
  - É sério! - completou ele ao notar que ela lançava-lhe um olhar incrédulo e reprovador. - Eu juro que tentei, mas nada me passa pela garganta.
  - Não me faça chantageá-lo - ameaçou ela.
  - Com mil beijos e todos os seus mais lindos sorrisos. Assim, eu adoraria ser chantageado.
  - Tudo bem, mil beijos e todos os meus sorrisos serão seus - ela esperou ver os olhos dele iluminarem-se para continuar - desde que coma, já, alguma coisa.
  Ele levantou-se de súbito, livrando-se de toda sua expressão melancólica.
  - Saiba que cobrarei - disse ele com uma estampa reluzente e desconhecida no rosto.
  Foi ela, então, que se levantou. E jogando os braços em seu pescoço e o fitando demoradamente, ela o beijou tão intensamente quanto desejavam-se.
  - Aqui está uma amostra da chantagem.

 E, como sua mãe previu, ele ficaria bem - com ela, ele ficaria bem.

3 de abr de 2011

Ao fim de tudo

  Palavras duras, secas e árduas que permaneciam por dias agarradas à garganta foram ditas nesse dia. Não consigo lembrar-me de nada mais, a não ser as palavras proferidas com cólera, ele virar as costas, ir embora e deixar-me a falar sozinha. Depois daquele dia, nunca mais. Enchemos, enchemos, enchemos... Ele encheu-se de mim e eu enchi-me dele.
   Eu caminho com passadas largas e rápidas, contudo sem deixar de prestar atenção na folhas secas das quais vou demolindo e no som agradável que isso causa. Imagino se eu pudesse esmagar, assim, prédios e automóveis e no estrondo que teria; imagino qualquer coisa que tire meu pensamento da imagem de você indo embora e deixando-me apenas com aquelas palavras áridas. No entanto, eu deixei-lhe com palavras idênticas, bom motivo para me arrepender; seria o suficiente para voltar e pedir desculpas. No entanto isso, só, em outros tempos.
  Já não enxergo as folhas, nem ouço estampidos imaginários. As lágrimas cobriram meus olhos e todo meu rosto. E sua imagem abarrotou minha mente. O ar parece sufocar, engasgar e, mesmo, queimar a garganta, esta que deveria ter segurado melhor aquelas palavras. Não, não há como voltar atrás; instantes que não regressam são tão cruéis. Logo eu, que nunca me arrependo de absolutamente nada, estou aqui, chorando por algo que não deveria ter feito.
  Entretanto, não posso me permitir, não posso perder a razão, sigo, então, enxugando todas as lágrimas, levantando minha cabeça e me fazendo fria e arrogante. Logo será noite e logo será amanhã e logo mês que vem, quando eu ver passou um ano e, então, tudo se foi. E verei que todos os valores serão trocados e nada disso terá qualquer importância, apenas um passado que ficou marcado por alguém que, em um belo dia, foi embora.

1 de abr de 2011

Nictofobia

  Despertei subitamente, a escuridão pegou-me de surpresa; por extinto eu dei um pulo da cama e comecei a tatear a parede, procurando acender alguma luz - algo raro, pois o escuro tinha o poder de me deixar completamente paralisada - porém não achei nenhum sinal de qualquer interruptor.

  O meu quarto, de repente, tornou-se enorme e eu não consegui mais achar a minha cama. Andando em círculos, naquele lugar repleto de breu, acabei perdendo meu equilíbrio e vi-me no chão. Já não podia levantar. A escuridão tragava-me e eu via-me mergulhando ainda mais no desespero. Eu sentia-me engolida, imóvel, pasma.

  Então, dispersei-me de mim e penetrei pouco a pouco na atmosfera, fosse pelo desespero ou por súbita coragem, que seja, tornei-me uma nuvem negra. E lá do alto, eu vi emergir da escuridão meu próprio corpo afogado, como uma alma alheia. De modo absurdo não me assustei. Era apenas eu observando-me de outro patamar e ridicularizando meu próprio medo. Ó que tolo é o medo da escuridão. Como nuvem, eu não precisaria mais de medo nem de emoção alguma. Vagar pelo ar, sem ter no que pensar, era só o que eu queria. Contudo, o que fazer com meu corpo lá embaixo temendo o escuro, refletindo o pavor nos olhos? Não podia matar-me, deixei-me, então, para trás. No meio do caminho fundi-me com outras nuvens - éramos todas apenas o mesmo céu transformando-se em tempestade. Eis que me lembrei, o eu lá debaixo também tinha problema com tempestades.

  O dia, por fim, chegou claro e as nuvens foram embora. Eu acordei do mesmo modo do qual adormeci, porém confusa, sem saber o que era eu, realmente. Senti o cheiro de morango exalando de minha roupa e reconheci-me ao ver as manchas de caneta em minhas mãos - sim, sou eu mesma.