30 de mar de 2011

Não mais

  O dia havia chegado, ele não choraria. O fim aconteceria de qualquer forma - e tudo acabaria como começou, no meio do silêncio a porta abriria-se, porém ao invés de ela entrar, estaria saindo. "O que fácil vem, fácil vai". Ele sabia, mas nunca tinha se preocupado. Agora permanecia com os punhos fechados sobre a mesa de costas para a porta.

  Ele não precisou olhar para trás, ele sabia que ela estava ali com suas malas feitas na mão. O dia havia chegado, era o que ambos esperavam.
  -  Vá! É isso mesmo que quer? - arriscou dizer ele.
  Silêncio.
  - Eu queria te mostrar muitas coisas, coisas alegres e estranhas que gostaria de conhecer, mas pelo jeito o que eu tenho para você já não te interessa - falava ele cada vez mais desnorteado.
   Silêncio.
  - Se é o que você quer, não hesite - persistia ele, querendo e não obtendo resposta. - Só não pense que poderá voltar.
  Silêncio.
 - Pelo amor de Deus, fale alguma coisa, qualquer coisa. Eu preciso ouvir o que tem a dizer... precisa ter algo a dizer - disse desta vez suplicando e virando-se em sua direção.
  Percebendo que ela não falaria nada; talvez por covardia, talvez por estar engasgada com a dor.
  - Então vá, mas sabendo que ninguém poderia ter te amado mais - as lágrimas lutavam para se libertar em seus olhos marejados.

  Ela, melancólica, com seu choro abafado, se foi de uma vez, de súbito, sem olhar pra trás, sem levantar a cabeça.
  - Ninguém poderia ter te amado mais - sussurrou ele para si mesmo, deixando finalmente as lágrimas caírem.

  "Você não poderia ter me amado mais." - estava escrito no bilhete que ela deixou na mesinha de telefone. Ele ficou sem saber se ela acertara ou errara no sentido da frase, no entanto, sabia que ele havia errado de alguma forma, e não poderia amá-la mais.

Um comentário:

  1. É por isso que eu sempre falo o que sinto, independente das consequências ou do que vão pensar de mim. Muitas das oportunidades da vida estão nesses momentos, e muitas vezes por medo, a gente deixa passar.

    No caso, a melhor opção foi o recomeço.
    Parabéns pelo texto, como sempre está muito bem escrito.

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