20 de mar de 2011

Doce decisão

  O escuro engolia tudo ao redor e as manchas de sangue escorriam por todo seu corpo, em sua mão, apenas, uma faca velha que comprara em um bazar qualquer. Não, não era exagero pensar no suicídio. O suicídio era doce, nesse momento, era algo afável. Era isso que ele queria, era seu desejo persistente. Dar um fim naquilo tudo, dar um fim em sua estrada. Motivos? Muitos.

  Seus pais desesperariam-se, ele sabia, e mesmo assim a ideia de desistir não passou em sua cabeça nem por um segundo, pelo contrário, era uma força a mais. Não que ele odiasse seus pais, todavia, as circunstâncias levaram-no a isso.

  Joana, a garota peculiar do vestido preto e do batom vermelho, da festa de sábado passado, ela quase o fez mudar de ideia, quase... porém ela saíra de sua vida como todas as outras. O porquê?... Era inútil pensar nisso agora. Tinha coisas melhores para fazer.

  A dor causada pelos cortes provocados pela faca velha era agonizante, e ele a tinha como um tipo estranho de prazer. A morte viria em seguida, ele sabia. Prazer incomum - pressentir a morte, o seu fim.
  Ninguém se importaria, ele sabia disso, talvez nos primeiros meses houvesse algumas lágrimas de sua mãe e lamentações de seus pais, entretanto não pela dor de perder um filho, e sim por arrependimentos e vergonha. A procura por um sentido seria espantosa, ninguém entenderia: justo ele, todo alegre, submisso, inteligente e doce - como aquele suicídio naquele quarto escuro.

  O sentido permaneceria obscuro a muitos. Contudo, ela, entenderia. A garota, a mesma de anos. Ela entenderia, apenas ela... Quem sabe o que ela faria? Sim, ela faria algo. Ela se importaria. Por mais que fosse completamente fria, não chegaria ao ponto de ignorar tudo aquilo. Chegaria? Não. Quando ele disse que estava morrendo por ela, ele não falara brincando. E agora ele estava literalmente morrendo por ela. Ela não podia ignorar isso.

  Cada corte que provocava em sua pele, cada espasmo de dor, era seguido por um sorriso, que se tornavam cada vez mais intensos - os espasmos e os sorrisos. Ela saberia, ela choraria. Ela saberia, choraria e seguiria sua vida. Ele sabia que o desespero não duraria para sempre; porém ela carregaria a culpa pela eternidade. Era o suficiente, era só o que ele queria. Uma espécie invulgar de vingança.

  Podia, nesse momento, ver o sol nascendo. Chegara a hora. Ele entregaria-se, sim, entregaria-se. Contudo, não era fraqueza. Foi a atitude mais difícil que ele decidira tomar, foi preciso todas as suas forças. Ele estava simplesmente desistindo de tudo que podia acontecer-lhe de bom. Ele estava ciente de tudo que estava abrindo mão... Não, não era fraqueza, era um fim difícil, vil, doloroso. E apesar de tudo, ele sentia-se bem, sentia-se realizado e vivo - em seus últimos segundos sentia-se o cara mais vivo da Terra. E tudo era doce. A morte era extremamente doce.

Um comentário:

  1. Assim como todos os outros textos que li aqui, este está muito bem escrito. Mas esse tema, essa coisa obscura e ... ao mesmo tempo doce, tornaram este texto único. Logo se vê que não tem dificuldade para escrever, seja sobre o amor, sobre a vida, sobre a morte, ou sobre qualquer outro assunto. São poucos assim, parabéns!

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