26 de mar de 2011

Decência

   Ele sentava-se na sala de espera com alguma esperança, algum otimismo; era a terceira entrevista de emprego naquele dia, porém ele não perdia o otimismo. Os minutos começavam a passar lentamente. Nada. E lentamente os minutos transformavam-se em horas. Nada. As horas começaram a pesar. Nada. Se arrastando, as horas passaram demais. Nada. A secretária olhava-o aborrecida, pousando seu olhar mais do que deveria em seus cabelos absurdamente compridos. Ele não desistiria? Ele decidiu-se, então, ir embora. Não que ele estivesse cedendo, mas já estava cansado; precisava de um bom banho frio.


   Enquanto caminha pela rua, ele percebia os olhares descarados voltados a ele; não que fossem inéditos, pelo contrário, ele já se acostumara com esse olhares que, na maioria das vezes, eram repreendedores. Contudo, pela primeira vez, ele sentia um certo desalento. Ele formara-se com as melhores notas em sua turma de direito e não conseguira emprego nem no escritório de advocacia de seu pai. Tudo isso era pelo seu namorado cabelo que chegava a cintura? Ou pelas suas tatuagens a mostra? Ou, mesmo, pelas suas roupas escuras com estampas de bandas de heavy metal e coisas esquisitas, das quais gostava? Sim, ninguém contrataria um advogado assim, somente algum louco e, apesar da ideia lhe agradar, ele não podia contar com isso.

   Ele era pego pelo mundo hipócrita de que sempre tentara escapar. Nesse momento, não adiantaria fugir ou mudar seu rumo, ele não tinha alternativas; estava sendo obrigado a entrar na vidinha banal e estúpida que sempre criticara; estava sendo obrigado a se adequar a alguém que não era, pela sociedade. Ele sabia disso, era repugnante e ele sabia.

  O sol batia-lhe consistentemente em sua face. Não estava tão forte quanto de manhã, mas de qualquer forma incomodava mais agora. Ele fracassara... fracassara em tudo - e agora se entregaria. Iria passar em casa, pegar algumas camisas "decentes" (que lhe tapassem as inúmeras tatuagens) emprestadas de seu irmão; ele tiraria seus piercings e o lápis preto dos olhos, porém, antes faria algo dificilmente importante - parou em frente à porta, hesitou, inspirou profundamente o ar e entrou.
  - Deixe o mais curto que puder - pediu ele ao cabeleireiro.

Um comentário:

  1. É aquela coisa né ?
    Ou você se adequa a sociedade, ou não consegue nada na vida. A não ser ser ridicularizado por pessoas que não tem noção alguma das coisas.

    Considero isso um tipo de preconceito e pré-conceito também. Onde já se viu, julgar as pessoas pela aparência. Quem sabe um dia isso mude, não ?

    Um excelente texto, bem petulante, eu diria.

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