30 de mar de 2011

Não mais

  O dia havia chegado, ele não choraria. O fim aconteceria de qualquer forma - e tudo acabaria como começou, no meio do silêncio a porta abriria-se, porém ao invés de ela entrar, estaria saindo. "O que fácil vem, fácil vai". Ele sabia, mas nunca tinha se preocupado. Agora permanecia com os punhos fechados sobre a mesa de costas para a porta.

  Ele não precisou olhar para trás, ele sabia que ela estava ali com suas malas feitas na mão. O dia havia chegado, era o que ambos esperavam.
  -  Vá! É isso mesmo que quer? - arriscou dizer ele.
  Silêncio.
  - Eu queria te mostrar muitas coisas, coisas alegres e estranhas que gostaria de conhecer, mas pelo jeito o que eu tenho para você já não te interessa - falava ele cada vez mais desnorteado.
   Silêncio.
  - Se é o que você quer, não hesite - persistia ele, querendo e não obtendo resposta. - Só não pense que poderá voltar.
  Silêncio.
 - Pelo amor de Deus, fale alguma coisa, qualquer coisa. Eu preciso ouvir o que tem a dizer... precisa ter algo a dizer - disse desta vez suplicando e virando-se em sua direção.
  Percebendo que ela não falaria nada; talvez por covardia, talvez por estar engasgada com a dor.
  - Então vá, mas sabendo que ninguém poderia ter te amado mais - as lágrimas lutavam para se libertar em seus olhos marejados.

  Ela, melancólica, com seu choro abafado, se foi de uma vez, de súbito, sem olhar pra trás, sem levantar a cabeça.
  - Ninguém poderia ter te amado mais - sussurrou ele para si mesmo, deixando finalmente as lágrimas caírem.

  "Você não poderia ter me amado mais." - estava escrito no bilhete que ela deixou na mesinha de telefone. Ele ficou sem saber se ela acertara ou errara no sentido da frase, no entanto, sabia que ele havia errado de alguma forma, e não poderia amá-la mais.

28 de mar de 2011

Patience

  A lua nunca foi tão bonita. Ele admirava-a há horas; a lua é realmente o símbolo desatinado de apaixonados. Nesse momento, o que ela estaria fazendo? Ele não tinha como saber, então, tinha esperanças - ela estaria, também, contemplando a lua e pensando nele. Há um oceano de distância entre nós, mas toda distância do mundo não pode separar corações como os nossos. Ele pensava intensamente nela. E esperava, com certeza, que o dia deles chegaria. Esperava com paciência e uma fé cega no tempo.

  Ele não sabia, porém estava certo, ela, nesse momento, pensava nele também e admirava a mesma lua. Situação clichê de romances, mas o romance deles era realmente clichê. Um romance repleto de dificuldades e impossibilidades, uma história shakespeariana e eles aceitavam a condição, quase contentes por apenas terem um ao outro. O mundo desabava e eles mantinham-se inteiros; mantinham-se por sorrisos e lembranças; mantinham-se pelo amor.

  Os dois debruçados em suas janelas sussurravam os mesmos versos com o coração, viam a mesma imagem e tinham o mesmo sonho.

  - Toda noite quero te encontrar aqui, em meus sonhos. Falta pouco tempo, pouquíssimo tempo. Eu sei que sente minhas palavras e todo meu amor. Eu sei que está me esperando, como eu a você. O tempo se reduz cada dia mais, meu amor. O dia em que eu correrei para os seus braços está muito próximo, eu posso até sentir seu aroma. Eu não vou desistir, eu não posso desistir. Nossos corpos se encontrarão com nossas almas em algum lugar; nesse mundo imenso deve existir um lugar para gente. As flores desabrocham e me remetem a você; tudo me remete a você. Eu sonho com você e quero tornar isso real. Eu preciso tornar isso real. Eu preciso de você - lágrimas escorriam. - Eu sinto sua falta, amor, eu sinto tanto a sua ausência. Eu quase não aguento mais, mas eu tenho - por você - eu tenho toda paciência do mundo. E te espero, te esperarei pela eternidade se necessário. Espero para sentir o brilho de seus olhos e calor de sua pele. Espero para sentir você completamente. 
  "Eu queria pegar meu carro e dirigir até você, correr e ultrapassar os limites de velocidade e todos os outros limites existentes; eu queria, de qualquer forma, estar com você esta noite. Eu queria, mas preciso considerar que... Não há, mais, o que ser considerado. Porém, eu não posso estragar tudo dessa maneira. Paciência, precisamos dela. Paciência, falta pouco. Eu preciso... paciência.

26 de mar de 2011

Decência

   Ele sentava-se na sala de espera com alguma esperança, algum otimismo; era a terceira entrevista de emprego naquele dia, porém ele não perdia o otimismo. Os minutos começavam a passar lentamente. Nada. E lentamente os minutos transformavam-se em horas. Nada. As horas começaram a pesar. Nada. Se arrastando, as horas passaram demais. Nada. A secretária olhava-o aborrecida, pousando seu olhar mais do que deveria em seus cabelos absurdamente compridos. Ele não desistiria? Ele decidiu-se, então, ir embora. Não que ele estivesse cedendo, mas já estava cansado; precisava de um bom banho frio.


   Enquanto caminha pela rua, ele percebia os olhares descarados voltados a ele; não que fossem inéditos, pelo contrário, ele já se acostumara com esse olhares que, na maioria das vezes, eram repreendedores. Contudo, pela primeira vez, ele sentia um certo desalento. Ele formara-se com as melhores notas em sua turma de direito e não conseguira emprego nem no escritório de advocacia de seu pai. Tudo isso era pelo seu namorado cabelo que chegava a cintura? Ou pelas suas tatuagens a mostra? Ou, mesmo, pelas suas roupas escuras com estampas de bandas de heavy metal e coisas esquisitas, das quais gostava? Sim, ninguém contrataria um advogado assim, somente algum louco e, apesar da ideia lhe agradar, ele não podia contar com isso.

   Ele era pego pelo mundo hipócrita de que sempre tentara escapar. Nesse momento, não adiantaria fugir ou mudar seu rumo, ele não tinha alternativas; estava sendo obrigado a entrar na vidinha banal e estúpida que sempre criticara; estava sendo obrigado a se adequar a alguém que não era, pela sociedade. Ele sabia disso, era repugnante e ele sabia.

  O sol batia-lhe consistentemente em sua face. Não estava tão forte quanto de manhã, mas de qualquer forma incomodava mais agora. Ele fracassara... fracassara em tudo - e agora se entregaria. Iria passar em casa, pegar algumas camisas "decentes" (que lhe tapassem as inúmeras tatuagens) emprestadas de seu irmão; ele tiraria seus piercings e o lápis preto dos olhos, porém, antes faria algo dificilmente importante - parou em frente à porta, hesitou, inspirou profundamente o ar e entrou.
  - Deixe o mais curto que puder - pediu ele ao cabeleireiro.

24 de mar de 2011

Hippies

  E se todos se despissem de tudo que lhes cobre a alma? E se todos largassem as armas e se dessem as mãos? E se todos trabalhassem menos e vivessem mais? E se todos preferissem sorrisos a bens materiais? E se todos jogassem fora todos os rótulos?  E se o único julgamento existente fosse: julgar que somos todos seres humanos? E se aceitassem que somos iguais e diferentes ao mesmo tempo? E se não houvesse dinheiro ou apenas este não tivesse tamanha importância?  E se roupas fossem realmente o que são: um pedaço de pano de pouca serventia? E se enxergássemos a beleza infinita da natureza? E se o amor fosse o nosso bem mais precioso? E se esse amor fosse completamente livre e não o escolhêssemos por classe, cor ou idade? E sem a relevância do sexo, apenas seres humanos... e só; apenas sentimentos; nenhum preconceito, nenhum receio. E se o mundo fosse doce e a vida muito mais simples? E se os corações fossem abertos e unidos? E se todos fossem todos e um só de uma vez? E se tirássemos os dias para ler livros e escutar músicas? E se a violência absolutamente desaparecesse e vivêssemos verdadeiramente... pela paz e pelo amor?  Então nos chamariam de sem-vergonhas-vagabundos-desocupados-e-drogados.

22 de mar de 2011

  Vivemos em um mundo no qual é essencial acreditarmos que tudo dará certo no fim; precisamos urgentemente do otimismo e da fé em algo poderoso - a fé é algo realmente belo e necessário. Esse mundo descoberto sem fé seria um choque; seria o início de uma anarquia.

  A fé deveria ser restrita à mente, pois é em nossa mente que encontramos o que precisamos e todas as forças necessárias. A fé na mente é a fé em nós mesmos; é acreditar que tudo pode acontecer pelo simples fato de você ter certeza disso - por mais que não venha a acontecer, você acreditando aumenta todas as suas chances. A fé na mente - a fé em Deus.

  No entanto fazer alguém entender que precisa sentir fé em si mesmo é algo bastante improvável. Seria desesperador para essa gente crer apenas em sim mesmos, eles sentiriam-se incapazes - sentem-se incapazes. Por tanto, eles têm a fé que precisam, mas não neles: em algo divino. Eu nada tenho contra quem acredita fielmente em algum deus, pois essa fé dará o que precisariam achar dentro de si. O que perturba é a religião (sem citar exemplos). Esta que abusa da fé das pessoas, anulando qualquer chance de algum dia elas virem a acreditar em si mesmas; anulando toda a verdade e o poder do pensamento próprio; alienando e alienando mais que o próprio governo faria.

  Que creiam no que quiserem, é sempre bom crer em alguma coisa. Contudo creiam em algo que os deixem viver; que os deixem pensar; e não decidam por vocês o que é bom e mau.

  Deve-se mudar a fé cega na maneira como interpretam o que está escrito na bíblia - a interpretação deveria ser livre, porém pensar por si custa muito mais.

20 de mar de 2011

Doce decisão

  O escuro engolia tudo ao redor e as manchas de sangue escorriam por todo seu corpo, em sua mão, apenas, uma faca velha que comprara em um bazar qualquer. Não, não era exagero pensar no suicídio. O suicídio era doce, nesse momento, era algo afável. Era isso que ele queria, era seu desejo persistente. Dar um fim naquilo tudo, dar um fim em sua estrada. Motivos? Muitos.

  Seus pais desesperariam-se, ele sabia, e mesmo assim a ideia de desistir não passou em sua cabeça nem por um segundo, pelo contrário, era uma força a mais. Não que ele odiasse seus pais, todavia, as circunstâncias levaram-no a isso.

  Joana, a garota peculiar do vestido preto e do batom vermelho, da festa de sábado passado, ela quase o fez mudar de ideia, quase... porém ela saíra de sua vida como todas as outras. O porquê?... Era inútil pensar nisso agora. Tinha coisas melhores para fazer.

  A dor causada pelos cortes provocados pela faca velha era agonizante, e ele a tinha como um tipo estranho de prazer. A morte viria em seguida, ele sabia. Prazer incomum - pressentir a morte, o seu fim.
  Ninguém se importaria, ele sabia disso, talvez nos primeiros meses houvesse algumas lágrimas de sua mãe e lamentações de seus pais, entretanto não pela dor de perder um filho, e sim por arrependimentos e vergonha. A procura por um sentido seria espantosa, ninguém entenderia: justo ele, todo alegre, submisso, inteligente e doce - como aquele suicídio naquele quarto escuro.

  O sentido permaneceria obscuro a muitos. Contudo, ela, entenderia. A garota, a mesma de anos. Ela entenderia, apenas ela... Quem sabe o que ela faria? Sim, ela faria algo. Ela se importaria. Por mais que fosse completamente fria, não chegaria ao ponto de ignorar tudo aquilo. Chegaria? Não. Quando ele disse que estava morrendo por ela, ele não falara brincando. E agora ele estava literalmente morrendo por ela. Ela não podia ignorar isso.

  Cada corte que provocava em sua pele, cada espasmo de dor, era seguido por um sorriso, que se tornavam cada vez mais intensos - os espasmos e os sorrisos. Ela saberia, ela choraria. Ela saberia, choraria e seguiria sua vida. Ele sabia que o desespero não duraria para sempre; porém ela carregaria a culpa pela eternidade. Era o suficiente, era só o que ele queria. Uma espécie invulgar de vingança.

  Podia, nesse momento, ver o sol nascendo. Chegara a hora. Ele entregaria-se, sim, entregaria-se. Contudo, não era fraqueza. Foi a atitude mais difícil que ele decidira tomar, foi preciso todas as suas forças. Ele estava simplesmente desistindo de tudo que podia acontecer-lhe de bom. Ele estava ciente de tudo que estava abrindo mão... Não, não era fraqueza, era um fim difícil, vil, doloroso. E apesar de tudo, ele sentia-se bem, sentia-se realizado e vivo - em seus últimos segundos sentia-se o cara mais vivo da Terra. E tudo era doce. A morte era extremamente doce.

18 de mar de 2011

O mundo é um sanatório

  Gente estranha; gente estranhíssima essa que se acha normal. Essa gente que julga gente; que repreende, oprime e violenta. Essa sociedade que não permite a entrada de caráter e de personalidade. E plantam árvores de ódio e rancor. Esses seres são tão excêntricos que querem crescer. E não poupam esforços nem forças, nem tempo e nem vida para evoluir e vão evoluindo e esquecendo-se de coisas realmente importantes. O desenvolvimento deixou a paz para trás, esqueceu-se do amor e perdeu-se da vida.

  Gente insana que fica contente com toda a sua infelicidade. A música dessa gente é produto, seu amor é marketing, sua vida é trabalho e seu sonho... dinheiro.

  Gente que cria deuses para reprimir e ideologias para subjugar. E desprezam toda arte e qualquer forma de expressão que fuja do modelo capital.

  Gente que faz guerra e destrói uns aos outros por motivos que julgam ser de mais importância que a vida.

  Gente que estabelece regras no amor e na forma de ser feliz. E esquecem-se do real significado da palavra liberdade. E se esquecem completamente de viver e os que vivem - que são raríssimos - são julgados pelos mortos que acham que entendem de vida.

  Gente que rotula, tacha e descreve todos em um só conforme. Absolutamente, são à mercê de banalidades. São frívolos, hipócritas e peritos em julgamento.
  É o que melhor fazem: julgar.

  Eu cheguei à conclusão de que o mundo é um gigantesco sanatório. E esse bando de loucos irá atear fogo em tudo.

14 de mar de 2011

Então vem

  - Vem meu amor, vem comigo para algum lugar da Grécia ou do Egito, vamos para o Alabama. Vamos viver no primeiro ou em qualquer outro mundo. Vem princesa, vem ser minha rainha; vem que te planto mil bromélias coloridas e se achar pouco te invento milhões de tulipas escarlates. Vamos juntos para a Pasárgada de Bandeira, é onde poderemos Caetanear. Ajude-me a escrever esse romance e teremos mais volumes vendidos do que qualquer outro escritor. Venha, abra tua janela para mim e me dá esse sorriso, dá-me todo esse sorriso. E, então, eu te prometo... prometo fazer-te sonhar sempre, antes de dormir e ao acordar, farei-te ver como posso tornar tudo real, o que quiser, meu amor. Eu quero você, mais do que isso, quero você sempre feliz e, para isso, faço tudo, tudo. É tão linda, tão linda e eu preciso que suba nesse trem, se preferir vamos de avião, ou voamos sem ele. Há um trailer esperando-nos em algum lugar do nosso destino para percorrermos o mundo e dormirmos, todas as noites, com as estrelas. Teremos tudo o que quisermos, minha vida. Ah, minha vida é toda sua, faça dela o que quiser. Nosso trailer terá uma biblioteca pessoal, terá um micro-ondas e nenhum fogão, porque não sabemos cozinhar. Contudo não importa. Nada mais importa. Só você, só você importa! Quer ver? Há uma ponte, eu vou correr e subir nessa ponte e me atirar por você; me atiro em qualquer lugar. Onde quer que eu me atire? Em você, eu me atiro em você! O que eu mais quero é me atirar em você; entrar em você e invadir sua mente, desejo morar lá, em sua mente... Não, não, o que eu mais quero, mais do que conhecer o íntimo de cada estrela e o pai do sol, muito mais do que viver para sempre, é você! Você é o que eu mais quero. Você, você, você, você... Você, assim, perdida e insana na primavera. E contente no inverno, sempre tão contente com o frio. E medrosa no escuro. Eu juro apagar todo escuro do mundo para você, amor. Eu quero você, eu quero você para sempre. Eu quero morar em você; morar com você. Casa comigo?

  E o pedido fora feito à maneira dele - a única maneira que ela diria sim.

13 de mar de 2011

Conselhos

  Eu poderia aconselhar-lhe que não ligasse, sequer atendesse o telefone. Que ignorasse e olhasse apenas para si mesmo. Diria-lhe que fizeram muito mal a você e que só estará correndo o risco de sofrer ainda mais. Pediria-lhe que não chore na frente deles, pois não merecem suas lágrimas. Advertiria-lhe para nunca mais olhá-los nos olhos e evitasse qualquer sorriso sincero ou de zombaria. Falaria por horas e horas sobre todas as coisas ruins que eles são e lembraria todas as coisas maldosas que lhe fizeram. Faria-o recordar de absolutamente todos os vexames e opressões que lhe aplicaram. Eu impediria-lhe de esquecer todo sofrimento causado por eles e que não, jamais, deixasse de lado seu orgulho .

  Eu poderia fazer o contrário e dizer-lhe que fosse atrás; que procurasse entender o que está acontecendo; que pedisse as merecidas explicações. E que por qualquer motivo perdoasse, aceitasse que todos pecam. Diria-lhe sobre as coisas benevolentes e ressaltaria que perdoar é tão humano quanto errar. Pediria por sua complacência e que mostrasse o quanto é amável. Meus conselhos seriam sobre esquecer tudo que lhe incomoda e causa-lhe dor. Que a intenção de todos é estar bem, basta um pequeno esforço. Lembraria o quanto são especiais e que esses pormenores às vezes não merecem tanta atenção. O crucial é ser feliz e compreender a todos. E que mais importante que o orgulho é ser feliz sem pesar.

  No entanto, não farei nada disso, quem sou eu para julgar o que deve fazer? Quem sou eu para dizer o quanto seu orgulho deveria valer? Eu sou eu, essa é a questão. Jamais poderia entender o que sente. Jamais entenderei o que se passa aí dentro. Então, meu único conselho válido seria: faça o que sente profundamente que é melhor para você!

11 de mar de 2011

Fôrma modelo

  A sociedade deu-nos uma atrocidade maior do que aquela norma análoga e desumana de vida, da qual obedecemos sem contestação: o padrão de beleza.

  Foi o mais cruel que poderiam fazer, padronizar o que é belo. Atualmente o que mais vemos são pessoas inconformadas com o seu aspecto físico e à mercê de cirurgias plásticas - sem retrogradar, sou completamente a favor de cirurgias plásticas, pois todos têm o direito de querer mudar sua aparência. Ninguém  é obrigado a aceitar algo que lhe incomoda em seu corpo para não ser chamado de superficial. Entretanto, a questão é: o que anda causando esses incômodos com a  própria figura?

  Hoje em dia as pessoas para serem consideradas bonitas, devem participar da ordem de "fôrma modelo", que nada mais é do que se sujeitar ao protótipo de beleza induzido pela mídia e outros canais ironicamente valorizados.

  A nossa magnífica e formosa diversidade está perdendo-se, pois a maioria dos nossos estão aderindo a fôrma modelo. Logo, transformam-se os corpos - não por que realmente estivessem afetados com a sua aparência e quisessem mudar para si mesmos, mas por que estão fora dos padrões ditados e precisam mudar para os outros - e também as mentes, pois a superficialidade toma conta e se torna absurdamente impossível viver fora desse padrão tolo, pois a partir disso, temos a divisão entre os bonitos que passaram pela fôrma para entrar nos conformes e os feios que não tiveram condições (ou, na melhor opção, não tiveram desejos) e ficam completamente fora do modelo requerido.

  Por mais que repercuta aquela velha e verídica expressão: "gosto é gosto, cada um tem o seu", não se faz entender que a perfeição nunca existiu pelo simples fato de ninguém contemplar algo da mesma forma que ninguém. Nunca existiu perfeição = nunca existiu nada que agradasse igualmente a todos. Não se bastou padronizar os sonhos de vida - desde novos sonham com casas luxuosas, carros do ano, um marido/mulher, dois filhos estudiosos e carreira profissional com o único intuito de lucrar - como se todos fossem iguais (na verdade agora é como se realmente fossem com seus desejos absolutamente idênticos); tiveram, também, que padronizar o que nos atrai uns nos outros.

  Vamos lá, junte já seu dinheiro, pois silicone não é barato! Não esqueça de ajeitar esse nariz, por favor, nem parece com os narizes dos quais estamos habituados. Ah, dê um jeito de procurar uma profissional que faça uma boa escova progressiva, é importante ter cabelos impecavelmente lisos!  Conhece algum exercício para aumentar o bumbum?...
  
  Obs.: Isso é um aviso, prepare-se para ter padronizadas sua essência e sentimentos. A fôrma está chegando...

9 de mar de 2011

Erros cruciais

Erros, acertos e desperdícios,
Fizeram de mim o que agora sou
Não me arrependo de nada,
Simplesmente não posso arrepender-me de nada.
Senão não seria o que hoje sou.

Sou hoje um produto
Das reações que teve meu passado.
Errei
E sei que poderia não ter errado,
Mas se errei
Foi por que o certo era errar.
Esqueci
De coisas cruciais,
Mas se esqueci
É por que não tinham tamanha importância.

Não, eu não me arrependo.
E se alguma vez me arrepender
Será por ter me arrependido.

7 de mar de 2011

Maravilho-me com tudo

Maravilho-me com tudo.
Contudo é um grande problema:
Maravilhar-me com tudo.

Inocentemente me ponho às maravilhas:
Maravilho-me com o mistério,
Maravilho-me com a inocência,
Maravilho-me com a vida,
Maravilho com o mundo,
Maravilho-me com o mistério inocente das vidas desse mundo.

Maravilho-me com tudo
E tudo sempre me põe às maravilhas.
Contudo, esse é meu problema
Maravilhar-me com tudo.

5 de mar de 2011

Algo novo

  Olho pela janela, vejo a mesma vista pela trincentésima nonagésima quarta vez. Entediei-me com esta vista, cansei deste lugar. Permaneci mais do que deveria, logo eu, uma viciada em mudanças.
  Neste momento são três horas da manhã, três em ponto. Acho muito estranho olhar no relógio e ver o horário redondinho, assim. Tenho achado muita coisa estranha ultimamente. Os sorrisos diminuem e os olhos fecham-se, a cada hora que passa. E cada segundo ouvindo Caetano Veloso parece mágico. As coisas simples me alegram muito mais agora. Como se eu tivesse perdido o emprego, meus amigos, minha casa e na falta do que fazer eu contemplasse feliz uma violeta - algo ainda valeria a pena, veja bem. No entanto desta vez eu não sei o que pode ser bom, além de Caetano. Nem violetas, nem girassóis, nem papoulas, nem nada, de qualquer forma, tudo nesse lugar é igual e tudo me aborrece.
  Os mesmos livros de anos enchem-se de pó em minha estante. Cansei de ler sempre as mesmas linhas. E de olhar essa mesma vista, tudo se torna absurdamente insuportável. Passei toda minha vida indo de um lugar a outro e agora não sei mais aonde posso ir. Preciso de aromas novos, gente desconhecida e um céu colorido de forma inédita. Preciso de irregularidades e seres incomuns. Preciso tirar umas férias em algum manicômio, quem sabe. Preciso fazer algo que nunca fiz - de novo. Preciso recomeçar - mais uma vez.

3 de mar de 2011

Poesia embriagada

Por favor, pode calar esse silêncio
E responder minha prece muda?
Pode soltar esse ar e desfazer essa cara detestável?
Adoraria que deixasse de querer ser tão cruel.
Sei que não é, não é cruel...
Não é cruel!
É apenas um doce amargo.

Por que me deixar horas esperando
Que venha, para desaparecer logo em seguida?
Como alegria que pouco dura
E sorrisos facilmente se dissolvendo
Dando lugar a uma gota d'água
Confundida com lágrima.
Ah, eles confundiram com lágrima aquela gota de mar
Gota cínica de mar.

Eu bebi daquele mar,
Não me pareceu nada salgado.
Não me pareceu nada demais.
Deixou, deveras, algo de azedo
Ainda assim, eu quis mais e bebi mais.
Me embebedei com a água do mar,
Inebriada faço uma prece,
Pois o mar calou-se em seu silêncio.

1 de mar de 2011

Incompreensão

Eu me vi sozinha, naquele mesmo lugar.
Eu me vi sozinha, um vácuo no espaço
Entre o coração e a mente.
Eu e meu coração
Não sabemos nada sobre amor.

Há muito tempo, pensando sobre futuro
Eu pude ver o que se escondia
Entre a mente e o coração. 
Eu e minha mente
Fugimos da prisão.

A prisão era a própria razão
Que confundia a mente
Ao contradizer o coração.

Tenho um coração que não conhece o amor,
Tenho uma mente que não compreende a razão,
Tenho uma insanidade presente e constante.
Racionalidade contra passionalidade
E a loucura venceu.