23 de fev de 2011

Quanto vale a vida? II

  O contato da pele fria com a xícara quente de café causou-lhe calafrios, já eram altas horas e a escuridão trazia consigo o frescor noturno. Dave havia trabalhado tanto naquele computador, durante o dia, que  se esquecera de todo resto: comer, tomar banho e, nesse instante, de dormir. Então, o fazia apressadamente e sobrecarregado de exaustão. No outro dia teria de acordar antes de ficar realmente dia, para novamente a mesma rotina; mas não reclama e, mesmo, gosta de sua condição.

  Ao chegar na filial em que trabalhava recebeu, de um de seus colegas admiradores e aspirantes, a notícia  de que o seu dirigente queria falar-lhe algo importante, e assim se direcionou prontamente à direção, como bom funcionário que era.

  - Tenho analisado seu excelente desempenho, seus apurados relatórios e toda a sua dedicação para com a empresa. Confesso que empregados como você são raros, Dave - disse o diretor.
  - É muita delicadeza de sua parte me engrandecer dessa maneira, porém isso tudo devo à estima que tenho por essa empresa e pelo meu trabalho - respondeu Dave enaltecido.
  - Realmente aprecia estar nesta companhia, sobretudo seu trabalho, estou correto?
  - Evidente! O ofício é de extremo valor para mim.
  - É notório, pois outros supervisores tem visto seu talento. Pois, então, quero promover-lhe, terá um cargo de maior importância, porém terá de abrir mão de feriados e de alguns finais de semana. Sua carga horária aumentará, proporcionalmente com seu salário, é claro - disse o diretor com um sorriso persuasivo.
  - Eu lhe afirmo que não se arrependerá - dave agradeceu contente a promoção.

  Passados alguns dias, Dave encontrava-se cada vez mais esgotado, no entanto acreditava que todo o seu esforço seria retribuído. Trabalhava mais e mais e mais. Abria e fechava a empresa. E chegando em casa, adiantava serviços, pois se via demasiado carregado na empresa. Passara o feriado trabalhando porque agora seus dias de folga se reduziam a somente um final de semana.

  Seus dias davam-se semelhantes, quase idênticos. Entretanto, em um dia distinto e raro em que saíra um pouco mais cedo do serviço para almoçar, fora acompanhado por um colega de outro departamento; esse ganhava um salário três vezes menor, contudo trabalhava três vezes menos que Dave.
  - Fiquei sabendo que também ganhou uma promoção - disse Dave para encontrar um assunto.
  - Ah, é verdade! Não no nível da sua, mas era uma boa promoção - respondeu o colega com uma expressão serena.
  - Sem querer me meter na vida alheia, mas por que não a aceitou? - Dave parecia realmente curioso.
  -  Eu teria de trabalhar mais do que já faço, assim diminuiria o tempo que tenho para a família e a vida.
  - Mas aumentaria seu salário e as chances de lhes dar tudo que desejam.
  - O salário que ganho não é nada estupendo, porém não deixo faltar nada à minha família... nem eu de fato.
  - E não deseja melhorar de vida?
  - A vida torna-se melhor quando se é verdadeiramente vivida.
  Dave passou o resto do dia pensando nessa conversa, deveras pensou o resto do mês. Trabalhava muito, comia pouco e pensava na tal conversa - "A vida torna-se melhor quando se é verdadeiramente vivida." Lembrava-se da ideia de felicidade de seu colega e pensava: "Coitado, aquele nunca entenderá a felicidade". Porém, à medida que corria o seu tempo, ele refletia se realmente estava sentindo-se bem consigo mesmo e, depois de cismar o suficiente, terminava por achar que era bobagem pensar nisso, afinal, seu salário era fantástico.

  É a terceira vez que o telefone toca, Dave se recusa a atender, pois sabe que a insistência é de sua filha, que lhe quer lá nesse feriado. Ela mora em outra cidade e espera sua visita; não entende o porquê de seu pai ter que trabalhar em seu dia folga; não entende que simplesmente não há folga. E apesar do fim de semana estar aproximando-se, Dave sabe que não poderá vê-la de qualquer forma porque além de reduzir seus dias de descanso, ele abriu mão do único feriado que teria no mês para ter um dinheiro extra - mesmo sem estar precisando.

  As semanas arrastam-se e a vida de Dave parece arrastar-se também. O trabalho toma-lhe todo o tempo e suga-lhe as forças. Ele não se lembra da última vez que teve um minuto livre para sorrir e fazer algo do qual realmente lhe apetecesse. Todavia, continua com o seu trabalho no topo - e em todo o resto - de sua hierarquia de relevâncias e prioridades. Seu único momento de felicidade sucede ao ouvir de seu patrão o quão admirável funcionário ele é. E isso lhe vale todo o esforço.

  Finalmente o fim do mês está próximo e com ele seu final de semana trazendo sua tão esperada folga. Tão esperada folga, mesmo. Dave começa a sentir uma certa inveja daquele seu colega que ganha menos - ah, como pode sentir inveja de alguém que ganha menos? Ele não sabe ao certo, mas sente. Seus dias se repetem e janta, sempre, sem sua família que vive em outra cidade; enquanto seu colega aparece sempre com um sorriso no rosto e uma novidade nova e reluzente, trazida de casa, ele nem vive naquela vida de pressa e correria da qual vive Dave. Contudo, tudo bem, tudo sob controle; o final de semana está chegando, verá logo sua mulher e filha, esta está fazendo aniversário exatamente no dia de sua folga, um bom motivo para comemorar, mais uma vez, a sua singular sorte.

  De modo esquisito, o diretor aproxima-se da mesa onde Dave realiza seu serviço. Esse estranha não ter sido chamado à sala de direção, para, ao invés disso, receber seu chefe em seu escritório.
  - Preciso ter uma conversa com você - disse o diretor de modo ameno.
  - Tudo bem - dave respondeu receptivo.
  - Quero primeiramente lhe parabenizar por ser o melhor funcionário que tenho aqui.
  - O senhor me deixa sem palavras.
  - É a pura verdade. E por isso que quero pedir-lhe a sua colaboração absoluta.
  - Tem toda a minha colaboração.
  - Estou ciente disso. Toda empresa está. Enfim, Haverá uma assembleia com os empresários mais importantes de nosso bloco econômico. Essa assembleia será muito importante e precisa de alguém competente para nos representar. Quero dar-lhe essa incumbência.
  - Nem sei como agradecer o prestígio - dave falava sóbrio, mas por dentro estava em uma explosão felicidade e orgulho - o farei com gosto - acrescentou.
  - Perfeito, a assembleia é nesse final de semana...
  - Perdão, mas é agora, nesse final de semana? - A felicidade desaparecia dele.
  - Sim, algum problema? - O diretor parecia confuso.
  - Não! - Pensou melhor - quer dizer, sim, nesse final de semana é minha folga...
  - Por favor, não vá me decepcionar agora, não assim. É só um final de semana. Terá outras folgas em sua vida. O trabalho é o mais importante no momento.
  - Eu sei, senhor, o caso é que é o aniversário de minha filha e faz mais de um mês que não vejo minha mulher - Dave sentia-se ruborizar.
  - É só uma data, depois com o dinheiro que ganhar pode comprar algo para a compensar e para sua mulher também. As mulheres perdoam facilmente por qualquer joia - zombou o diretor.
  Essas palavras e a lembrança da voz de sua mulher chorando pela saudade no telefone atingiram-no violentamente, não sabia se no estômago ou na alma.
  - Mas minha mulher quer mais de mim, não nos vemos há tempos...
  - Tempo é dinheiro. - Interrompeu o diretor perdendo a paciência.
  Dave não aguentaria ouvir mais uma palavra. A imagem de sua mulher e filha tomavam-lhe a mente.
  - Tempo é vida!
  Ao dizer estas últimas palavras, Dave se levantou e saiu. Todos do escritório ficaram estupefatos - não acreditavam no que viam. Apenas o colega que almoçara com Dave entendera perfeitamente.

Um comentário:

  1. Apesar de ser um conto existe muitas pessoas assim, se dedicam tanto ao trabalho que acabam não vivendo, deixando de lado a família e os amigos.

    http://janioquadrosnoticiasblogspot.com

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