19 de fev de 2011

Partida

   O marcador do velocímetro elevava-se à medida em que enaltecia sua adrenalina. A janela, com um fresta aberta, deixava o ar balançar levemente seus cabelos encaracolados. E ele sorria ao ouvir AC/DC no volume máximo. Mesmo que aquele sorriso fosse apenas um disfarce para camuflar o que houve pela manhã; ao lembrar da mensagem que ela lhe deixara - dizendo as simples palavras: "Desculpe, eu não vou com você." - depois de terem planejado partir juntos em busca da liberdade de serem um do outro - ele fazia um enorme esforço para que não lhe escapassem as lágrimas. Ele não choraria por ela, ele sempre soube que ela não iria no fim; porém a mochila dele estava pronta e ele guardara um lugar no porta-malas para o uso dela; lugar que, como ele imaginara, permanecerá vazio. Todavia, ele iria - estava decidido, com ou sem ela. Ele iria e foi. Foi sem levar sequer um mapa nem um celular ou outro meio de contato qualquer. Levava apenas algumas roupas e uns dois romances que sabia que não leria; levava também a foto dela e, mais do que nunca, uma mente que ruminava questões - "Por que ela desistiu de última hora?" "Sempre foi tão corajosa, por que se acovardou assim?"
   O caminho do qual ele atravessava era farto de árvores, deixando tudo em volta com um tom de verde muito intenso. O sol finalmente ia pondo-se e ele estava próximo ao topo de um espinhaço que sempre o obrigava a pegar seu carro e dirigir até lá para simplesmente admirar a vista, esta que lhe passava uma sensação de calmaria. Ele decidiu aproveitar que não havia escurecido e contemplar sua segunda imagem favorita pela última vez. E tudo naquele lugar remetia a ela; o céu laranja lembrava seus cabelos suavemente ruivos, compridos e alegres; aquele clima cálido, que queimava sua pele, lhe dava a mesma sensação de quando ela, em sua entrega, ardia-o em seu incêndio facilmente inflamável; aquela vista, que era dividida por uma linha tênue entre o mundo verde das árvores logo abaixo e o universo laranja do céu ao levantar o olhar, era extraordinária, como tudo nela, tudo, inclusive suas sardas que a deixavam ainda mais estranhamente linda. Sim, sua primeira imagem favorita era ela, a garota estranhamente linda que usava camisetas ilustradas com a imagem do Che Guevara. Completamente deslocado de tempo e espaço, ele sentou-se sobre a rocha mais alta para sentir os raios solares com mais intensidade. E pegou a foto e nesse momento admirava mais aquela mulher tão branca e tão frágil que a vista verde e laranja. E continuava a se remoer com as mesmas perguntas. - "Por que ela não viera junto, como disse que viria, afinal?".
   Sucedeu naquele silêncio um barulho de um automóvel que se aproximava. Apesar de ser um lugar quase deserto, ele sabia que algumas pessoas tinham o prazer de o conhecer, todavia, nesse momento, vociferava contra quem interrompia seu momento sereno. Ele ouviu quando bateram a porta e os passos  aproximando-se, entretanto não esperava ouvir aquela voz.
  - Eu sabia que lhe encontraria aqui antes de partir definitivamente.
  - Eu pensei que não viria - ele disse escondendo a foto que tinha na mão.
  - Eu também pensei que não viria. Quer dizer, não vim... ou vim, mas não pretendo ir adiante, entende? - Ela deu um sorriso desculpando-se pelo embaraço.
  - Não, desculpe - ele disse rindo, já a conhecia bem e mais ainda o seu jeito de não conseguir expressar-se direito.
  - Estou aqui para deixar claro algumas coisas - ela disse hesitante. - Como o porquê de eu não partir contigo.
  - Ah, veio até aqui para me dizer isso? - Ele disse seco - Pensei que tivesse mudado de ideia.
  - Não, não é bem assim, não que eu não quisesse - ela se tornava abatida. - Você precisa saber, eu não posso porque...
  - Eu não quero saber, se não vem, não vem e pronto. Sigo sozinho e me conformo. Sua justificativas não mudarão os fatos, não há o que ser dito. Eu vou e você fica, pois quis assim. É a única coisa de que preciso saber. - Deu uma pausa para se acalmar e acrescentou - Tudo bem, tudo bem. Não entendo por que desistiu; não entendo por que sempre desiste das coisas, assim, em cima da hora. Mas já esperava por isso. E está tudo bem.
  - É que eu realmente não queria que pensasse o que sei que está pensando, deve mesmo saber o motivo de eu não ir contigo - ela disse suplicante.
  - Não, não. É melhor não. Por favor. O silêncio fala por si, tenha certeza disso. Não desperdice seu tempo nem o meu.
  Ela assentiu contrariada, então fez algo inesperado: pegou uma foto dos dois e partiu ao meio, guardou a metade dele e entregou a ele a outra metade que tinha ela.
  - Essa foto que esconde aí é antiga, ficamos com essa, pois tem um significado maior: partida.
  Ela lutando contra as lágrimas e sem se demorar voltou ao seu carro, sem, ao menos, olhar para trás e assim foi embora. Ele ficou estático, com as duas fotos na mão, tentando entender o que acabara de acontecer e quando voltou a si fez o mesmo e voltou ao seu carro.
   Depois de quase cinco horas de viagem, ele percebeu que não pensava em outra coisa: "Eu queria tanto saber o motivo de ela não ter partido comigo."

3 comentários:

  1. Agora você vai ter que me contar em off pq ela não foi. Não é justo fazer isso com o seu leitor, quem vai poder lidar com a minha curiosidade agora?rs
    Seu último comentário no meu blog é um prolongamento PERFEITO do texto que escrevi, sem dúvidas.

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  2. Gostei da sua narrativa metafórica ao falar da paisagem e da moça, da tristeza sentimental que envolve o personagem e do final aberto, que faz o leitor refletir.
    Seu texto é de qualidade! Estou seguindo,
    http://naparededoquarto.blogspot.com

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  3. Eu realmente amei o texto!
    espero retribuição: http://lollyoliver.wordpress.com/

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