25 de fev de 2011

Costela de Adão

  "Se não arranjar marido antes dos trinta anos, não arranjará mais!" - Minha tia sempre dizia. Mas penso, se não arranjo marido antes dos trinta, por que, diabos, hei de querer depois?
   "Vai morrer sozinha e com quarenta gatos!" - Me disse o profeta. Por mais que gatos sejam uma ótima companhia, o que será de mim sem um bom marido? Uma costela perdida por aí...
  "Minha filha tem talento... Vai arranjar um esposo rico" - Ah, tenho todos os requisitos para ter uma vida feliz, segundo minha mãe.
   Circunstância maçante, esta.

  Antes mesmo de eu nascer, assinaram por mim a petição da ordem de minha vida. O que poderia eu fazer agora, além de aceitar minha condição de costela de Adão?

  Reviro os olhos, melhor fechá-los e apertá-los com força. A sensação é melhor do que sorrir para a sociedade repugnante. Sou uma espécie de herege da ideologia que diz que a receita da felicidade está escrita no livro mais vendido do mundo, e sendo repassada por todas as gerações - de forma absurdamente mais distorcida do que poderia ser. Distorcem a distorção.

3 comentários:

  1. Bom texto,parabéns pelo blog.Continue assim :D

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  2. A começar pela citação de Fernando Pessoa no seu perfil.
    Vendo o perfil, já imaginava a qualidade do seu texto.

    Parabéns!

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  3. "O que poderia eu fazer agora, além de aceitar minha condição de costela de Adão?".

    Muito bom. Gosto dos seus textos. Vou passar sempre por aqui, Pamela.

    Samuel

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