8 de fev de 2011

Adultério

   Nunca me esquecerei daquela cena: ele olhava-a incredulamente enquanto ela transluzia indiferença debruçada na janela. Não aconteceu como ele imaginou que ocorreria quando ela descobrisse; ela não estava gritando e quebrando pratos, nem sequer fumava aparentando o nervosismo. Ela estaria, mesmo, nervosa? Não poderia saber, ela permanecia de costas.
   Ela não perguntaria o nome da mulher causadora da traição? Não questionaria o motivo? E se ele acharia-a estupidamente idiota?
   Ele conservou-se imóvel e em pé, com as mãos soltas e mortas; sem saber como agir, um impotente absoluto. Era realmente uma situação terrível. E a situação piorou quando ela voltou-se a ele: seu rosto era de um vermelho pungente, as lágrimas escorriam de modo despudorado, sua boca não pronunciou uma única palavra, como se quisesse apenas mostrar a ele sua dor, de modo silencioso e trágico. Nesse momento ele levou suas mãos ao rosto e desabou seus prantos.
   O fim seria inevitável, os dois sabiam disso. Os dois sabiam e sofriam sem nenhuma discrição. Ele se entregara a luxúria em outro corpo, cedera aos encantos libidinos de uma outra mulher. E mesmo negando desenfreadamente, ele sabia que tivera, sim, um significado, aquele seu ato. O fim de seu casamento era visível e certo. Contudo a pior visão era a de sua mulher completamente desintegrada que o olhava inacreditavelmente sem nenhuma manifestação de ódio, apenas dor e a dor escorria por seu peito, seus braços, suas mãos, descia até suas coxas que tremiam e ela toda tremia, menos os seus olhos. Seus olhos fitavam-no intensamente, quase tão intensamente como quando se apaixonaram; há muito tempo não o olhava daquela maneira, como se o engolisse, como se quisesse tê-lo para si a súbitas. E era por isso, por não transparecer ódio nem mesmo raiva, que ele compreendia que chegava ao fim. Por ver apenas dor e todo o amor que fora edificado em anos arruinando-se através dos olhos em minutos. E doía, doía demais ver todo aquele amor naqueles olhos, os olhos mais compreensivos que já pusera suas retinas, agora demonstrando uma compreensão indesejada seguida de uma imensa dor.
   Ninguém falaria uma só palavra. Como na primeira vez que haviam se visto, apenas se contemplariam de modo intenso, pois seria a última vez que se veriam. O casal aniquilado sabia disso - viam-se mortos um pelo outro. O amor perecia aos poucos, era torturado estando vivo, esvaindo-se.
   O adúltero arriscou pensar em uma forma de se arranjar novamente, de conseguir o perdão e a vida de volta; ele a amava e sabia de seu amor desmedido, porém nada que falasse ou fizesse adiantaria. Magoara a mulher que mais amou na vida. Fizera a única coisa da qual sabia que ela jamais perdoaria - traíra sua confiança, logo a ela que sempre lhe dera tanto crédito e dedicara-lhe a vida.
   Através dessas paredes pude ver e pude mesmo sentir o amor que transbordava entre os dois; amor que teve seu término obrigatório por um erro de impulso carnal. Eu não queria contar esta história de modo consternado. Entretanto, aqueles dois tinham algo, quando juntos, que me era delicioso de assistir: um amor que transbordava pelos olhos e caia nos sorrisos e em suas vidas alegres. E presenciar o fim desse romance é algo realmente trágico.
    Eu já não aguentaria mais um minuto assistindo aquela troca de olhares, era angustiante; um repleto de acusações e outro de súplicas. Os dois absolutamente torturados, falecendo. Ele não aceitava seu próprio ato, ela não acreditava neste. Naqueles instantes agonizantes, tive a certeza de que se houvesse qualquer coisa a ser feita para salvar aquele matrimônio, eles fariam-no, mas o estrago estava ali, podre e resplandecente. Uma marca irredutível.
   Ele, sentindo-se o pior animal da Terra, virou as costas e saiu quase correndo pela porta, sabendo que ao anoitecer, quando voltasse, ela não estaria em casa e não haveria um bilhete, uma roupa, tampouco um sinal dizendo que ela passou por ali e pela sua vida. Ele a perdera da pior forma possível - perdera-a para sempre. Ele perdeu-se de si mesmo. Perdeu a si. Perdeu-a.

Um comentário:

  1. Nossa que históriaaa!

    nOssa tantos casais passam por issO!
    É uma pena ele não colocarem o amor e a lealdade a frente do desejo carnal e da luxuria...
    Beijão!

    ResponderExcluir