27 de fev de 2011

Tetris político

Tétricos aceitamos todo esse despejo político
Como se fosse um jogo, Tetris talvez,
Edificando de qualquer modo,
Todo modo que deveria ser minucioso.
No entanto minúcias não interessam,
Os interesses deles são triviais.
Como se suas trivialidades não fossem banais.
De banalidades é que vivemos,
Se é que ainda chamamos de vida,
Mas se não é vida, o que é?
Não, não é vida.
É um apreço político por resíduos
Despejado sobre nós.
É um governo que joga Tetris
E joga, ainda, de olhos fechados.

25 de fev de 2011

Costela de Adão

  "Se não arranjar marido antes dos trinta anos, não arranjará mais!" - Minha tia sempre dizia. Mas penso, se não arranjo marido antes dos trinta, por que, diabos, hei de querer depois?
   "Vai morrer sozinha e com quarenta gatos!" - Me disse o profeta. Por mais que gatos sejam uma ótima companhia, o que será de mim sem um bom marido? Uma costela perdida por aí...
  "Minha filha tem talento... Vai arranjar um esposo rico" - Ah, tenho todos os requisitos para ter uma vida feliz, segundo minha mãe.
   Circunstância maçante, esta.

  Antes mesmo de eu nascer, assinaram por mim a petição da ordem de minha vida. O que poderia eu fazer agora, além de aceitar minha condição de costela de Adão?

  Reviro os olhos, melhor fechá-los e apertá-los com força. A sensação é melhor do que sorrir para a sociedade repugnante. Sou uma espécie de herege da ideologia que diz que a receita da felicidade está escrita no livro mais vendido do mundo, e sendo repassada por todas as gerações - de forma absurdamente mais distorcida do que poderia ser. Distorcem a distorção.

23 de fev de 2011

Quanto vale a vida? II

  O contato da pele fria com a xícara quente de café causou-lhe calafrios, já eram altas horas e a escuridão trazia consigo o frescor noturno. Dave havia trabalhado tanto naquele computador, durante o dia, que  se esquecera de todo resto: comer, tomar banho e, nesse instante, de dormir. Então, o fazia apressadamente e sobrecarregado de exaustão. No outro dia teria de acordar antes de ficar realmente dia, para novamente a mesma rotina; mas não reclama e, mesmo, gosta de sua condição.

  Ao chegar na filial em que trabalhava recebeu, de um de seus colegas admiradores e aspirantes, a notícia  de que o seu dirigente queria falar-lhe algo importante, e assim se direcionou prontamente à direção, como bom funcionário que era.

  - Tenho analisado seu excelente desempenho, seus apurados relatórios e toda a sua dedicação para com a empresa. Confesso que empregados como você são raros, Dave - disse o diretor.
  - É muita delicadeza de sua parte me engrandecer dessa maneira, porém isso tudo devo à estima que tenho por essa empresa e pelo meu trabalho - respondeu Dave enaltecido.
  - Realmente aprecia estar nesta companhia, sobretudo seu trabalho, estou correto?
  - Evidente! O ofício é de extremo valor para mim.
  - É notório, pois outros supervisores tem visto seu talento. Pois, então, quero promover-lhe, terá um cargo de maior importância, porém terá de abrir mão de feriados e de alguns finais de semana. Sua carga horária aumentará, proporcionalmente com seu salário, é claro - disse o diretor com um sorriso persuasivo.
  - Eu lhe afirmo que não se arrependerá - dave agradeceu contente a promoção.

  Passados alguns dias, Dave encontrava-se cada vez mais esgotado, no entanto acreditava que todo o seu esforço seria retribuído. Trabalhava mais e mais e mais. Abria e fechava a empresa. E chegando em casa, adiantava serviços, pois se via demasiado carregado na empresa. Passara o feriado trabalhando porque agora seus dias de folga se reduziam a somente um final de semana.

  Seus dias davam-se semelhantes, quase idênticos. Entretanto, em um dia distinto e raro em que saíra um pouco mais cedo do serviço para almoçar, fora acompanhado por um colega de outro departamento; esse ganhava um salário três vezes menor, contudo trabalhava três vezes menos que Dave.
  - Fiquei sabendo que também ganhou uma promoção - disse Dave para encontrar um assunto.
  - Ah, é verdade! Não no nível da sua, mas era uma boa promoção - respondeu o colega com uma expressão serena.
  - Sem querer me meter na vida alheia, mas por que não a aceitou? - Dave parecia realmente curioso.
  -  Eu teria de trabalhar mais do que já faço, assim diminuiria o tempo que tenho para a família e a vida.
  - Mas aumentaria seu salário e as chances de lhes dar tudo que desejam.
  - O salário que ganho não é nada estupendo, porém não deixo faltar nada à minha família... nem eu de fato.
  - E não deseja melhorar de vida?
  - A vida torna-se melhor quando se é verdadeiramente vivida.
  Dave passou o resto do dia pensando nessa conversa, deveras pensou o resto do mês. Trabalhava muito, comia pouco e pensava na tal conversa - "A vida torna-se melhor quando se é verdadeiramente vivida." Lembrava-se da ideia de felicidade de seu colega e pensava: "Coitado, aquele nunca entenderá a felicidade". Porém, à medida que corria o seu tempo, ele refletia se realmente estava sentindo-se bem consigo mesmo e, depois de cismar o suficiente, terminava por achar que era bobagem pensar nisso, afinal, seu salário era fantástico.

  É a terceira vez que o telefone toca, Dave se recusa a atender, pois sabe que a insistência é de sua filha, que lhe quer lá nesse feriado. Ela mora em outra cidade e espera sua visita; não entende o porquê de seu pai ter que trabalhar em seu dia folga; não entende que simplesmente não há folga. E apesar do fim de semana estar aproximando-se, Dave sabe que não poderá vê-la de qualquer forma porque além de reduzir seus dias de descanso, ele abriu mão do único feriado que teria no mês para ter um dinheiro extra - mesmo sem estar precisando.

  As semanas arrastam-se e a vida de Dave parece arrastar-se também. O trabalho toma-lhe todo o tempo e suga-lhe as forças. Ele não se lembra da última vez que teve um minuto livre para sorrir e fazer algo do qual realmente lhe apetecesse. Todavia, continua com o seu trabalho no topo - e em todo o resto - de sua hierarquia de relevâncias e prioridades. Seu único momento de felicidade sucede ao ouvir de seu patrão o quão admirável funcionário ele é. E isso lhe vale todo o esforço.

  Finalmente o fim do mês está próximo e com ele seu final de semana trazendo sua tão esperada folga. Tão esperada folga, mesmo. Dave começa a sentir uma certa inveja daquele seu colega que ganha menos - ah, como pode sentir inveja de alguém que ganha menos? Ele não sabe ao certo, mas sente. Seus dias se repetem e janta, sempre, sem sua família que vive em outra cidade; enquanto seu colega aparece sempre com um sorriso no rosto e uma novidade nova e reluzente, trazida de casa, ele nem vive naquela vida de pressa e correria da qual vive Dave. Contudo, tudo bem, tudo sob controle; o final de semana está chegando, verá logo sua mulher e filha, esta está fazendo aniversário exatamente no dia de sua folga, um bom motivo para comemorar, mais uma vez, a sua singular sorte.

  De modo esquisito, o diretor aproxima-se da mesa onde Dave realiza seu serviço. Esse estranha não ter sido chamado à sala de direção, para, ao invés disso, receber seu chefe em seu escritório.
  - Preciso ter uma conversa com você - disse o diretor de modo ameno.
  - Tudo bem - dave respondeu receptivo.
  - Quero primeiramente lhe parabenizar por ser o melhor funcionário que tenho aqui.
  - O senhor me deixa sem palavras.
  - É a pura verdade. E por isso que quero pedir-lhe a sua colaboração absoluta.
  - Tem toda a minha colaboração.
  - Estou ciente disso. Toda empresa está. Enfim, Haverá uma assembleia com os empresários mais importantes de nosso bloco econômico. Essa assembleia será muito importante e precisa de alguém competente para nos representar. Quero dar-lhe essa incumbência.
  - Nem sei como agradecer o prestígio - dave falava sóbrio, mas por dentro estava em uma explosão felicidade e orgulho - o farei com gosto - acrescentou.
  - Perfeito, a assembleia é nesse final de semana...
  - Perdão, mas é agora, nesse final de semana? - A felicidade desaparecia dele.
  - Sim, algum problema? - O diretor parecia confuso.
  - Não! - Pensou melhor - quer dizer, sim, nesse final de semana é minha folga...
  - Por favor, não vá me decepcionar agora, não assim. É só um final de semana. Terá outras folgas em sua vida. O trabalho é o mais importante no momento.
  - Eu sei, senhor, o caso é que é o aniversário de minha filha e faz mais de um mês que não vejo minha mulher - Dave sentia-se ruborizar.
  - É só uma data, depois com o dinheiro que ganhar pode comprar algo para a compensar e para sua mulher também. As mulheres perdoam facilmente por qualquer joia - zombou o diretor.
  Essas palavras e a lembrança da voz de sua mulher chorando pela saudade no telefone atingiram-no violentamente, não sabia se no estômago ou na alma.
  - Mas minha mulher quer mais de mim, não nos vemos há tempos...
  - Tempo é dinheiro. - Interrompeu o diretor perdendo a paciência.
  Dave não aguentaria ouvir mais uma palavra. A imagem de sua mulher e filha tomavam-lhe a mente.
  - Tempo é vida!
  Ao dizer estas últimas palavras, Dave se levantou e saiu. Todos do escritório ficaram estupefatos - não acreditavam no que viam. Apenas o colega que almoçara com Dave entendera perfeitamente.

21 de fev de 2011

Lembrança

   Absolutamente tudo nesta casa remete-me a você: o tapete japonês, a louça minuciosamente escolhida, essa planta na janela - essa mesma planta na janela. É tão encantadora e harmoniosa, como a sua voz que me falava do sol todas as manhãs. Todas as manhãs, eu tinha a você todas as manhãs. E agora desapareceu, deixando apenas uma carta e um quarto vazio. Não há sol, não há manhãs de sol. Não há você aqui com seu olhar acolhedor e seus braços protetores e seu perfume... Não há você, simplesmente. Sumiram suas roupas do armário e sua escova de dentes do banheiro. Acho que estou esquecendo-me de seu sorriso e tenho um medo descomunal disto. O seu retrato, aquele que fica ao lado da planta na janela, não cobre a dívida que deixou comigo ao partir; na verdade não cobre nada, não serve para nada, apenas para ocasionar toda lágrima. De qualquer forma não consigo retirá-lo dali, é a última lembrança que resta... e é uma pena não estar sorrindo.

19 de fev de 2011

Partida

   O marcador do velocímetro elevava-se à medida em que enaltecia sua adrenalina. A janela, com um fresta aberta, deixava o ar balançar levemente seus cabelos encaracolados. E ele sorria ao ouvir AC/DC no volume máximo. Mesmo que aquele sorriso fosse apenas um disfarce para camuflar o que houve pela manhã; ao lembrar da mensagem que ela lhe deixara - dizendo as simples palavras: "Desculpe, eu não vou com você." - depois de terem planejado partir juntos em busca da liberdade de serem um do outro - ele fazia um enorme esforço para que não lhe escapassem as lágrimas. Ele não choraria por ela, ele sempre soube que ela não iria no fim; porém a mochila dele estava pronta e ele guardara um lugar no porta-malas para o uso dela; lugar que, como ele imaginara, permanecerá vazio. Todavia, ele iria - estava decidido, com ou sem ela. Ele iria e foi. Foi sem levar sequer um mapa nem um celular ou outro meio de contato qualquer. Levava apenas algumas roupas e uns dois romances que sabia que não leria; levava também a foto dela e, mais do que nunca, uma mente que ruminava questões - "Por que ela desistiu de última hora?" "Sempre foi tão corajosa, por que se acovardou assim?"
   O caminho do qual ele atravessava era farto de árvores, deixando tudo em volta com um tom de verde muito intenso. O sol finalmente ia pondo-se e ele estava próximo ao topo de um espinhaço que sempre o obrigava a pegar seu carro e dirigir até lá para simplesmente admirar a vista, esta que lhe passava uma sensação de calmaria. Ele decidiu aproveitar que não havia escurecido e contemplar sua segunda imagem favorita pela última vez. E tudo naquele lugar remetia a ela; o céu laranja lembrava seus cabelos suavemente ruivos, compridos e alegres; aquele clima cálido, que queimava sua pele, lhe dava a mesma sensação de quando ela, em sua entrega, ardia-o em seu incêndio facilmente inflamável; aquela vista, que era dividida por uma linha tênue entre o mundo verde das árvores logo abaixo e o universo laranja do céu ao levantar o olhar, era extraordinária, como tudo nela, tudo, inclusive suas sardas que a deixavam ainda mais estranhamente linda. Sim, sua primeira imagem favorita era ela, a garota estranhamente linda que usava camisetas ilustradas com a imagem do Che Guevara. Completamente deslocado de tempo e espaço, ele sentou-se sobre a rocha mais alta para sentir os raios solares com mais intensidade. E pegou a foto e nesse momento admirava mais aquela mulher tão branca e tão frágil que a vista verde e laranja. E continuava a se remoer com as mesmas perguntas. - "Por que ela não viera junto, como disse que viria, afinal?".
   Sucedeu naquele silêncio um barulho de um automóvel que se aproximava. Apesar de ser um lugar quase deserto, ele sabia que algumas pessoas tinham o prazer de o conhecer, todavia, nesse momento, vociferava contra quem interrompia seu momento sereno. Ele ouviu quando bateram a porta e os passos  aproximando-se, entretanto não esperava ouvir aquela voz.
  - Eu sabia que lhe encontraria aqui antes de partir definitivamente.
  - Eu pensei que não viria - ele disse escondendo a foto que tinha na mão.
  - Eu também pensei que não viria. Quer dizer, não vim... ou vim, mas não pretendo ir adiante, entende? - Ela deu um sorriso desculpando-se pelo embaraço.
  - Não, desculpe - ele disse rindo, já a conhecia bem e mais ainda o seu jeito de não conseguir expressar-se direito.
  - Estou aqui para deixar claro algumas coisas - ela disse hesitante. - Como o porquê de eu não partir contigo.
  - Ah, veio até aqui para me dizer isso? - Ele disse seco - Pensei que tivesse mudado de ideia.
  - Não, não é bem assim, não que eu não quisesse - ela se tornava abatida. - Você precisa saber, eu não posso porque...
  - Eu não quero saber, se não vem, não vem e pronto. Sigo sozinho e me conformo. Sua justificativas não mudarão os fatos, não há o que ser dito. Eu vou e você fica, pois quis assim. É a única coisa de que preciso saber. - Deu uma pausa para se acalmar e acrescentou - Tudo bem, tudo bem. Não entendo por que desistiu; não entendo por que sempre desiste das coisas, assim, em cima da hora. Mas já esperava por isso. E está tudo bem.
  - É que eu realmente não queria que pensasse o que sei que está pensando, deve mesmo saber o motivo de eu não ir contigo - ela disse suplicante.
  - Não, não. É melhor não. Por favor. O silêncio fala por si, tenha certeza disso. Não desperdice seu tempo nem o meu.
  Ela assentiu contrariada, então fez algo inesperado: pegou uma foto dos dois e partiu ao meio, guardou a metade dele e entregou a ele a outra metade que tinha ela.
  - Essa foto que esconde aí é antiga, ficamos com essa, pois tem um significado maior: partida.
  Ela lutando contra as lágrimas e sem se demorar voltou ao seu carro, sem, ao menos, olhar para trás e assim foi embora. Ele ficou estático, com as duas fotos na mão, tentando entender o que acabara de acontecer e quando voltou a si fez o mesmo e voltou ao seu carro.
   Depois de quase cinco horas de viagem, ele percebeu que não pensava em outra coisa: "Eu queria tanto saber o motivo de ela não ter partido comigo."

17 de fev de 2011

Superescritor

   Não há no mundo ser mais potente que um escritor, este cria universos que fascinam a muitos e personagens - com suas características notáveis - que nos fazem identificarmo-nos e nos prendem à leitura, como uma autêntica mágica. Aqueles que escrevem poesias são os mais astuciosos, pois seus versos ficam para o resto interminável dos tempos, arrebatando suspiro de várias gerações com suas frases complexamente simples que se cruzam e unem-se com rima e métrica perfeitas - ah, como os invejo. Aqueles traquinas filósofos sabem realmente como nos fazer pensar e deixam-nos suas conclusões estranhamente certas para nos entreter em dias de chuva ou nos confundir um pouco mais, de qualquer forma é válido, filosofia é sempre válida. O poder que existe em uma simples tinta de caneta é inacreditável. A liberdade de criar é uma sensação digna de páginas e páginas escritas com vontade. Todo romance, ensaio ou poesia tem sua identidade e valor. O escritor é realmente uma pessoa superpoderosa, pois é dono do poder inacreditável de entrar em nossas mentes.
   O mundo é uma constante mutação, porém o que é deixado escrito permanece com a mudança. Fica o escritor, então, como o único que possui o poder de eternizar.

15 de fev de 2011

Baby it's you

 O quarto dele era repleto de cartazes, discos, biografias e fotografias da dupla Lennon/McCartney. Depois da conversa que tiveram na cafeteria, da qual passaram horas incontáveis discutindo sobre os Beatles, assunto que agradava aos dois, ele a imaginou absolutamente encantada, olhando para tudo em seu quarto com fascínio. Contudo, enquanto mexia em seus brinquedos de beatlemaníaco, sua expressão era absurdamente maçante.
 - Não há nada do Ringo?
 - Ah, claro, deve haver algo por aqui. - E se pôs a procurar impacientemente.
 - Vi muitas coisas de John, de Paul e algumas de George, porém não há nada sobre o Ringo.
 - Ah, como dizia o Paul "Ringo é o Ringo...
 - ...o melhor baterista do universo". - Ela completou sorrindo. - No entanto um beatlemaníaco menospreza-o.
 - Não, claro que não. - Ele disse corando. - Podemos ir à sua casa para poder me mostrar o que você tem dele. - Completou em tom ameaçador, divertindo-se.
  Ela, que tinha a expressão séria, riu ruidosamente.
 - Ok, você venceu! Nós beatlemaníacos menosprezamos o Ringo.
 - Espere eu tenho algo aqui. - Ele quis dar um ar suspense, enquanto revirava seus discos e escolhia um para tocar.

 E ao som de Baby it's you de Ringo Starr, eles se beijaram pela primeira vez.

 Hoje, depois de quatro anos juntos, eles se lembram desse episódio, enquanto organizam seu apartamento novo.
 - Perfeito. - Ela inferiu abraçando-o.
 - Calma, falta um último detalhe, um toque especial. - Ele falou buscando um quadro; ao compreender sua atitude ela sorriu concordando.
 - Ele é o melhor.
 - Apenas porque sempre me remete a você. O menosprezado agora é o nosso extraordinário.

E a casa deles foi decorada por uma tela enorme da qual retratava Ringo Starr.

14 de fev de 2011

Quanto vale a vida?

   Olho para o céu e depois para as ruas e sinto uma liberdade enorme. Em cada face que passa por mim, há diversas ambições. E encaro-as como se quisesse descobrir o lado B, o sentido essencial de tudo. Vejo, naqueles rostos brilhantes, vontades inúteis e ilustrações de riquezas. É tanta, tanta gente vivendo sem entender como é que se vive. E trabalham em excesso, em algo que não lhes agradam, pelo luxo que procuram; mal sabem, os desventurados, que o maior luxo é fazer o que se gosta. E fazem tanto por obrigação, e fazem nada por gosto. E se preocupam tanto com materiais e aparências, e esquecem-se por completo das sensações; não se sentam na calçada nem sentem o sol; não sorriem para as estrelas nem choram com uma canção, tampouco ouvem canções. Alguns possuem uma fé em qualquer coisa que encha suas mentes de promessas e certezas incertas - se tornando fiéis mais devotos à doutrina do que a própria família. Contudo, não depositam fé nenhuma em si mesmos. Acreditam que o melhor caminho é aquele bem julgado; deveriam saber que o melhor caminho é aquele em que não existe o julgamento.
   Eu posso mesmo não saber o sentido essencial, porém sei o sentido existencial. Gosto da condição de ser sozinha e não precisar de ninguém, entretanto sei amar as pessoas e aceitá-las com seus jeitos estúpidos e fascinantes. Aprecio o mistério e gosto de não saber os sentidos, sinto-me livre por não os saber e não tendo a certeza de absolutamente nada sou completamente feliz. A minha liberdade é plena - sou livre de todo preceito. Vivo por viver e entendo que é assim que deve ser. Isso é a real liberdade, ser dono do próprio caminho e aprender que antes que a vida acabe você tem de viver de verdade.

12 de fev de 2011

Cinzas

Mastiga-me as carnes
(Não te aproxima)
Devora-me a mente
(Vai embora)
Ocupa-me o tempo
(Deixa-me)
Despe-me a alma
(Devolve-me)
Arruina-me a vida
(Não te preocupe)
Beija-me os olhos
(Olha-me os olhos)
Olha-me a boca
(Beija-me a boca)

10 de fev de 2011

Permaneço em movimento

Não vejo o que fazer quando simplesmente vais embora,
Pois vais quando te quero presente.
Sempre te quero presente, sempre vais embora.
Então aqui permaneço porque sei de tua volta.
Vai e volta. Vai e volta. Vai e volta.
Foi assim durante todo o nosso tempo,
Creio que será assim enquanto eu estiver aqui.

Não vejo o que fazer quando simplesmente eu vou embora,
Pois vou para não voltar.
Quando já não quero a minha presença encostada a tua.
E vou sem contar tempo e muito menos dores, perdas, ou danos.
Vou para continuar permanecendo, permaneço sempre em outro lugar.
Assim fui e assim sou: eu me conservo
E vou conservando-me a cada dia de nova comuta.
Conservo-me no mundo. Permaneço em movimento.
Minha vida de permanência é uma grande deslocação.
E isso serve para todos os campos,
Na área de residência e na área do coração.

8 de fev de 2011

Adultério

   Nunca me esquecerei daquela cena: ele olhava-a incredulamente enquanto ela transluzia indiferença debruçada na janela. Não aconteceu como ele imaginou que ocorreria quando ela descobrisse; ela não estava gritando e quebrando pratos, nem sequer fumava aparentando o nervosismo. Ela estaria, mesmo, nervosa? Não poderia saber, ela permanecia de costas.
   Ela não perguntaria o nome da mulher causadora da traição? Não questionaria o motivo? E se ele acharia-a estupidamente idiota?
   Ele conservou-se imóvel e em pé, com as mãos soltas e mortas; sem saber como agir, um impotente absoluto. Era realmente uma situação terrível. E a situação piorou quando ela voltou-se a ele: seu rosto era de um vermelho pungente, as lágrimas escorriam de modo despudorado, sua boca não pronunciou uma única palavra, como se quisesse apenas mostrar a ele sua dor, de modo silencioso e trágico. Nesse momento ele levou suas mãos ao rosto e desabou seus prantos.
   O fim seria inevitável, os dois sabiam disso. Os dois sabiam e sofriam sem nenhuma discrição. Ele se entregara a luxúria em outro corpo, cedera aos encantos libidinos de uma outra mulher. E mesmo negando desenfreadamente, ele sabia que tivera, sim, um significado, aquele seu ato. O fim de seu casamento era visível e certo. Contudo a pior visão era a de sua mulher completamente desintegrada que o olhava inacreditavelmente sem nenhuma manifestação de ódio, apenas dor e a dor escorria por seu peito, seus braços, suas mãos, descia até suas coxas que tremiam e ela toda tremia, menos os seus olhos. Seus olhos fitavam-no intensamente, quase tão intensamente como quando se apaixonaram; há muito tempo não o olhava daquela maneira, como se o engolisse, como se quisesse tê-lo para si a súbitas. E era por isso, por não transparecer ódio nem mesmo raiva, que ele compreendia que chegava ao fim. Por ver apenas dor e todo o amor que fora edificado em anos arruinando-se através dos olhos em minutos. E doía, doía demais ver todo aquele amor naqueles olhos, os olhos mais compreensivos que já pusera suas retinas, agora demonstrando uma compreensão indesejada seguida de uma imensa dor.
   Ninguém falaria uma só palavra. Como na primeira vez que haviam se visto, apenas se contemplariam de modo intenso, pois seria a última vez que se veriam. O casal aniquilado sabia disso - viam-se mortos um pelo outro. O amor perecia aos poucos, era torturado estando vivo, esvaindo-se.
   O adúltero arriscou pensar em uma forma de se arranjar novamente, de conseguir o perdão e a vida de volta; ele a amava e sabia de seu amor desmedido, porém nada que falasse ou fizesse adiantaria. Magoara a mulher que mais amou na vida. Fizera a única coisa da qual sabia que ela jamais perdoaria - traíra sua confiança, logo a ela que sempre lhe dera tanto crédito e dedicara-lhe a vida.
   Através dessas paredes pude ver e pude mesmo sentir o amor que transbordava entre os dois; amor que teve seu término obrigatório por um erro de impulso carnal. Eu não queria contar esta história de modo consternado. Entretanto, aqueles dois tinham algo, quando juntos, que me era delicioso de assistir: um amor que transbordava pelos olhos e caia nos sorrisos e em suas vidas alegres. E presenciar o fim desse romance é algo realmente trágico.
    Eu já não aguentaria mais um minuto assistindo aquela troca de olhares, era angustiante; um repleto de acusações e outro de súplicas. Os dois absolutamente torturados, falecendo. Ele não aceitava seu próprio ato, ela não acreditava neste. Naqueles instantes agonizantes, tive a certeza de que se houvesse qualquer coisa a ser feita para salvar aquele matrimônio, eles fariam-no, mas o estrago estava ali, podre e resplandecente. Uma marca irredutível.
   Ele, sentindo-se o pior animal da Terra, virou as costas e saiu quase correndo pela porta, sabendo que ao anoitecer, quando voltasse, ela não estaria em casa e não haveria um bilhete, uma roupa, tampouco um sinal dizendo que ela passou por ali e pela sua vida. Ele a perdera da pior forma possível - perdera-a para sempre. Ele perdeu-se de si mesmo. Perdeu a si. Perdeu-a.

6 de fev de 2011

Catástrofe

  Aceitei, simplesmente, essa condição da qual me torna seca, árida. Comecei, mesmo, a gostar de ser assim, completamente solitária. Carreguei uma sensação de liberdade tão ampla que pesou quando imaginei algum dano a ela. Essa solidão me fez ficar muito próxima de algum eu lírico que sabia que deveria ter em algum lugar aqui por dentro. Transformei-me em uma pessoa inconsequentemente segura também; acostumei-me a não olhar para os lados ao atravessar a rua. Confiei em mim, gostei de andar só. Carreguei meu universo nos ombros porque ele sempre foi todo e só meu. No meu mundo pleno eu vi meus livros, minhas músicas e nada mais objetivo. O sol pertencia-me e, então, eu era feliz. Ao idear minha vida, percebi um futuro repleto de mim mesma e nada mais. E senti-me bem, muito bem; nada poderia acabar com isso. Eu tinha o sol e o que mais quisesse. Eu não precisava de ninguém. Eu tinha a mim e era completamente minha. E era feliz. Eis que surge: você. E tudo isso se converteu de uma maneira descontrolada. Como se não me conhecesse tão bem como antes; perdi meu domínio sobre mim. Então, eu fugi, mas não adiantou. Não, eu não quero isso. Só quero que vá embora. Vá embora, eu suplico. Eu sou irônica, eu faço drama e eu peço que me deixe em paz; e peço toda noite quando olho as estrelas. E repito para mim que não quero invadam minha privacidade emocional e importunem minha liberdade; não quero dividir meu universo. É uma catástrofe, até avistar seus olhos - é o mal dos meus dias, basta vê-los e pronto: você vale a pena, mais que a mim.

4 de fev de 2011

Lento

  Passo a mão suavemente por teus cabelos e olho em teus olhos, tão profundos. Tua expressão é algo tão difícil de ser lida, me perco em cada linha de teu rosto, tentando decifrar-te, penetrar-te. Teus detalhes são minha incessante busca, meu universo a ser desvendado. A cada dia te descubro um pouco, avanço um limite. Vamos com calma, devagar, um jeito inédito de sentir, tão lento, lento... quero aproveitar cada pedaço desse nosso tempo; então despedaço tudo, vamos por partes e partes. Todas as tuas partes, eu quero. Eu te quero, é necessário. Se tornou necessário, culpa tua. E tudo ocorre tão lentamente; um olhar que dura uma eternidade e um sorriso que me faz parar no tempo. E teu gosto, teu cheiro, teu calor - ainda não cheguei lá, já disse: com calma; por partes. Teu gosto, teu cheiro, teu calor - Eu sonho. E o sentimento é suave e brando; e a dor se dá lenta. Saudade, falta e ausência. Então, tudo é lento demais. Demais!

2 de fev de 2011

Liberte-se

  Somente quem já se sentou na calçada de uma avenida movimentada, fechou os olhos e sentiu o sol quente e o movimento dos carros sabe o que é sentar-se em uma avenida movimentada, fechar os olhos e sentir o sol quente e o movimento dos carros. Apenas quem conhece seu interior sabe como é estar dentro de si mesmo. Aquele que caminhou sem rumo por uma estrada qualquer, em uma tarde qualquer, e esqueceu-se de olhar as horas por horas e horas sabe o que ter um momento de liberdade plena de tempo - você que entende que é necessário ter o tempo e não servir a ele sabe viver. E nesse momento, do esquecimento e da despreocupação, você compreende a autoindependência. E esse instante todo seu, todo quente e liberto, é algo que vai entrando, entrando e entra cada vez mais. E vai tomando conta, tomando conta e quando você vê está em outro universo, algo maior e mais profundo; algo que só encontra internamente. Porém, para chegar nesse espaço interno precisa de mais que um grande esforço; precisa, antes de tudo, de paciência - não apenas para esquecer das horas, mas para esquecer todo e qualquer pensamento; tudo aquilo que está deixando sua mente exausta. Então, relaxando a cabeça e esquecendo-se do resto do mundo, terá a reflexão que precisa, sobre qualquer coisa; e assustar-se-á ao perceber: pensar não dói.