20 de jan de 2011

O amor é sempre maior

    As árvores corriam ao lado da estrada; o asfalto à sua frente se tornara um borrão. A velocidade com que dirigia seu carro apontava seu desespero. Ele andou por quilômetros em estado de total ansiedade, mas pelo motivo que o fazia, andaria mais milhões de milhas se preciso.

   Ao mesmo tempo em que dirigia, era tragado pela lembrança das outras vezes que dirigia pela mesma estrada, com a mesma pressa, porém não com aquele desespero. Era difícil entender, ele ainda não podia... não estava preparado. Há um mês atrás pegava seu carro e um whisky vinte anos de sua reserva especial, parte do seu plano perfeito de surpreendê-la; ela não gostaria mais de um vinho ou de champagne, whisky é perfeito - ela sempre dizia em seus momentos de embriaguez; momentos de êxtase para ele, pois estando com ela, encontrava-se em um êxtase singular. Instantes de uma perfeição absurdamente rara; instantes tragicamente proibidos. Ele morava em outra cidade, mas de tempos em tempos aparecia para visitá-la, como mandava seu inconsciente dominado pela sede de tê-la. E sempre a encontrava com aquele mesmo cativante e quase inocente sorriso, ao mesmo tempo em que era engolido pela malícia daqueles olhos. Ela tinha apenas catorze anos, contudo tinha o corpo e a mente de uma mulher madura e segura que ele, nos seus vinte e nove anos, jamais conhecera antes.
     Completamente consternado, mergulhava mais fundo em suas recordações. Ele fugiu por muito tempo, nunca ousara sequer tocá-la. Contudo o sentimento que tomava conta de ambos foi mais forte, não demoraram a se entregar um para o outro. Trocavam olhares, poesias e repartiam sonhos... Até que tiveram que acordar e se voltarem à realidade - ela era mais nova. Ela não havia completado quinze anos ainda, enquanto ele já se formara em direito. Segundo ela, seus pais nunca aceitariam. Ele nunca faltara com o respeito, nem faltaria; não faria absolutamente nada sem consultar os pais da moça que era tão nova, não se daria ao luxo de um relacionamento escondido, não apenas por repugnar aventuras errôneas, mas pelo fato de ter a concepção de que poderia ser acusado de um crime do qual não acreditava estar cometendo, afinal ela não era nenhuma criança, todavia, seus catorze anos condenavam-nos. 
  Quando ele recebeu uma proposta de um excelente emprego longe de sua cidade, não pensou duas vezes em ir; não pelo trabalho que lhe viria, e sim pela oportunidade de se afastar e se livrar daquela perturbação impetuosa. O que não deu certo, pois a saudade e a melancolia que a ausência dela o proporcionava fazia cada pedaço seu chamar, na verdade berrar, a todos os ventos o nome dela e ele atendia esse pedido pegando seu carro e correndo para vê-la, nem que fosse a distância. As poucas vezes que ficaram realmente juntos, foram os episódios dos whiskies, em que ele dava festas com o intuito de a convidar e tê-la por perto, mais do que poderia e menos do que gostaria.

    Agora se via correndo pela estrada para vê-la, mais uma vez, com a diferença de ir ao seu encontro em um hospital. Recebera  a notícia de seu acidente e não demorou para tomar essa atitude. Ao chegar no hospital, com o rosto lívido e abatido, viu os pais dela na sala espera, em um estado parecido com o seu. Eles voltaram-se a ele com um pouco de curiosidade. Quem seria esse rapaz tão debilitado? Quando ele decidiu-se falar com eles:
    - Por favor, eu preciso entrar naquela quarto, eu preciso vê-la enquanto...
    - Quem é você? - O pai perguntou desconfiado.
    - Me chamo Brian. - Ele disse abaixando os olhos.
    O pai deu-se por conta, então, que aquele era o Brian. O homem do qual ela tanto falava, o mesmo que ele fez objeção ao relacionamento. Agora esse homem, mais maduro que sua filha, demonstrava um sofrimento real; mais que isso, um amor real. Transparecia em seu rosto um desespero do qual nem tentava esconder.
    - Entre. - Concordou, mas em dúvida se fazia o certo, de qualquer forma não negaria aquele simples pedido, não naquela circunstância.
    Do lado de fora, observando pela vidraça, o pai dela viu Brian segurando a sua mão; se pudesse ouvir o que ele dizia, seria mais ou menos isso:
    - Por favor, apenas me diga que abrirá os olhos, que vai ficar bem. Eu prometo... eu juro que faço de tudo por nós. Eu nunca mais desisto, nunca mais vou embora, nunca mais te deixo. Abra os olhos, segure minha mão; vamos sair desse lugar, vamos para um lugar só nosso; ou podemos ficar aqui, mas abra os olhos, por favor, não pode fazer isso comigo. Lute, lute, lute... que eu lutarei por nós - As lágrimas lavavam seu rosto - Não me deixe sozinho e eu juro nunca mais te deixar sozinha.
    Os pais da menina que observavam de fora sentiram um misto de comoção e arrependimento. Viram naquele momento que o amor é sempre maior. Mesmo que eles ou o acaso tentasse impedir, o amor seria sempre maior.

Um comentário:

  1. OLÁ, PARABÉNS PELO BLOG! MUITO BEM ELABORADO!
    http://intelectu.wordpress.com

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