12 de jan de 2011

Leões-marinhos

   Lindo leão-marinho, leão-marinho, leão-marinho. - Miguel, sentado no jardim, olhava a borboleta voando no jardim e a chamava por leão-marinho.
   Como pode navegar nesse rio de ares tão salgados, meu leão-marinho? - Então, Miguel levantava-se, como se cansasse da brincadeira, e pedia papéis para desenhar; quem via seus desenhos enxergava cálculos matemáticos que variavam entre sistemas simples e equações avançadas, também, equações químicas  e balanceamentos, algumas vezes foram vistas algumas fórmulas e teorias físicas que ele mesmo inventara e que faziam todo o sentido, mesmo julgadas inúteis. Miguel podia passar horas lendo livros de filosofia e depois discutir sobre tudo, com igualdade, com qualquer filósofo formado. Ele lia bastante; lia até ver sua borboleta-leão-marinho na janela, então saía correndo e gritando: leão-marinho, leão-marinho. Sim, ele era louco; era só mais um louco em um sanatório. Contraditoriamente, um louco-gênio, um louco que sabia que seu lar era um hospício e aceitava sua condição de demente.
   Às vezes, Miguel, era pego olhando o nada, absorto em seus pensamentos, então lhe perguntavam:
   - Por que tão distante, Miguel?
   - Distante do que exatamente? - Perguntou sem desviar o olhar de seu foco.
   - Está de novo com a mente longe do corpo.
   - Estou de novo nessa casa de doidos, só por que contei sobre a minha fantástica viagem a Júpiter. - e, então, fitou a enfermeira já conhecida e quase íntima - Por que, afinal, sempre voltam a me internar aqui?
   - Porque são ignorantes demais para lhe compreenderem.
  - Eu sei quando uma pessoa é sincera e quando fala apenas para amaciar. - Falava com um sorriso indiferente, como se não se referisse a enfermeira - Mas eu sinto em você um tipo de sinceridade macia, algo que vem do fundo do coração, porém ao mesmo tempo é dito sem a certeza do que diz.
   A enfermeira continuou em silêncio, sempre se espantava com os palpites sempre corretos daquele pseudo-insano.
   - Talvez meu erro seja gostar tanto de leões-marinhos, ou correr atrás deles, ou gritar por eles no meio da noite. Mas sabe, eu realmente amo os leões-marinhos. São tão frágeis e delicados e sensíveis e lindos e coloridos em minha janela que...
   - Talvez devesse apenas chamá-los de borboletas. - Ela interrompeu-o docemente.
   - ...eu queira pular a janela e navegar com eles. - Continuou- Mas eu odeio borboletas.
   - Talvez devesse parar de contar sobre suas viagens a outros planetas. - Ela fez mais uma tentativa.
   - Só porque vocês nunca foram lá... Por que não aceitam que alguém saiba mais que vocês? Tacham logo de doente mental ou de bruxos, como aqueles que foram queimados na fogueira na época de Da Vinci. É inaceitável que um pensamento seja diferente? É isso? Vejo pessoas maltratando animais; pessoas maltratando pessoas; pessoas matando pessoas; pessoa matando amores; pessoa amando frivolidades; pessoas colocando as coisas frívolas em primeiro plano... E essas mesmas pessoas vem me colocar na cabeça que eu sou o louco, apenas, porque vi um leão-marinho em minha janela. Bando de loucos que se acham normais!
   A enfermeira, desistindo, se levantou e foi fazer seu trabalho, porém, concordando com quase tudo que foi dito por Miguel. Já Miguel, continuou ali, olhando para o nada, imaginando se estaria ali porque eles eram ignorantes e não o entendiam ou se era porque ele era ignorante e não os entendia. Contudo, não importava, ele sabia que um pouco de loucura todos tinham, todavia, acreditava na sua e sentia-se feliz por se afastar daqueles loucos que insistiam em chamar os leões-marinhos de borboletas

2 comentários:

  1. Os gênios são sempre tomados por loucos. Como disse Einstein, "uma pergunta que me enlouquece: sou eu ou são os outros os loucos?"
    De qualquer forma, a sanidade total é supervalorizada. Sem um pouco de loucura a vida seria muito chata.

    Obrigada pelo comentário no meu blog (demorei, mas o que vale é a intenção), você também escreve muito bem! :)

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  2. MARAVILHOSA NARRATIVA. Me fez analisar friamente... Realmente quando existe alguém que sai da normalidade, logo a sociedade apedreja e a chama de louca.

    PARABÉNS!

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