3 de jan de 2011

Habitual

   E tão velha, sentada na varanda bebia chá. Admirava os pássaros e lia seus livros. Acumulava paciência para ler as notícias do dia no jornal e depois analisar o que seria dito no horário político. Sábados à noite limitava-se a escrever e escutar música; não tinha predisposição para lugares lotados de gente agitada dançando ao sons de músicas da moda que ela desconhecia. Ela absolutamente nunca conhecia as músicas da moda. Não havia no mundo algo que lhe causasse mais satisfação do que estudar, andava lendo loucamente tudo sobre psicanálise e outros campos psíquicos; tendo, sempre, tempo para a amante literatura. A única coisa que poderia ser comparada à literatura seria, talvez, a filosofia. No entanto, músicas não eram nunca deixadas de lado, dedicava dias a conhecer nova antigas músicas; antigas, pois não entendia quase nada das atuais. Filmes também tinham o seu espaço, preenchiam o vazio das noites de sextas. Paixões, essas eram suas paixões: Literatura, filosofia, música e cinema; talvez sua vida fosse baseada unicamente nesses itens e ao que lhe parecia, não sentia falta de mais nada. Ao que lhe parecia, só. Era tão sábia, quase idosa; muito culta e fechada. Vivia toda voltada ao seu interior, era toda para dentro. Não conhecia os lugares da noite, mas conhecia todos os títulos de seus autores preferidos. Estudava absurdamente tudo, tinha uma fome de conhecimento incomum. Nem terminara o ensino médio e já sabia boa parte do conteúdo do curso que faria. Foi a pessoa mais curiosa que já tive o apreço de conhecer; curiosidade por culturas, histórias e estórias. Contudo lhe faltava curiosidade pela vida exterior. Não sei exatamente quando ela perdeu a vontade pelas pessoas, lugares, estradas e sentimentos. Não posso lhe dizer precisamente o motivo pelo qual ela encerrou-se dentro de si. Apenas sei que é tragicamente fascinante, uma garota de dezesseis anos carregando uma mente bem mais velha; é algo exageradamente pesado para se carregar. Contudo, ela carrega e aceita a sua condição de ser assim; sem sequer se lamentar.

Um comentário:

  1. Não consideraria isso como um peso não. Ter 16 anos e pensar ou agir como alguém mais velho, é sinal de desenvolvimento e pensar a frente de seu tempo. Claro, tudo com muita clareza.
    Abraço

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