22 de jan de 2011

Dependência

   O som das batidas pesadas ecoavam no silêncio daquele prédio. Pete se negava a abrir a porta, porém aquele barulho já estava aborrecendo-o. Abriu, então, com má vontade. E a visão que teve: 1,65 de altura, cabelos lisos e loiros que mal chegavam aos ombros; olhos azuis que brilhavam como nunca, ou como sempre, em um rosto delicado de expressão suave e o sorriso mais lindo que ele já vira em toda sua vida. Era Alice em sua porta, a sua garota de volta.
    A visão de Alice: ao abrir a porta teve um relance do apartamento de Pete, viu roupas atiradas pelo chão, caixas espalhadas na sala e não pode definir mais nada, pois a bagunça e a sujeira eram demasiadas. Ao prestar atenção no rosto dele percebeu que não fazia a barba, nem cortava ou mesmo penteava os cabelos a quase um mês.
    - Pensei que chegaria somente daqui uma semana. - Ele disse enquanto fazia um gesto constrangido para ela entrar - Realmente não te esperava aqui hoje. - Acrescentou afagando a própria barba.
    - Vejo que não estava, mesmo, esperando alguém aqui hoje. - Ela disse com um misto de divertimento e receio, então olhou intensamente para ele - Eu quase morri de saudade, então resolvi que voltaria mais cedo para você.
    E o beijou, ele surpreendido correspondia o beijo com volúpia.
    - Meu amor, vou tomar um banho e dar um jeito nesta barba, sabe que está em casa. - Deu uma olhada em volta e como se tivesse acabado de percebesse a desordem em que se encontrava acrescentou - Eu iria arrumar tudo isso antes de você chegar, juro.
   - Tudo bem. - Ela disse divertindo-se e sentando-se na única cadeira que não estava ocupada com roupas sujas.
    Ela observou que sobre a mesa estavam os diversos livros de direito jogados e cobertos de pó. Ele não deveria ter lido-os nem mesmo trabalhado em seus casos durante todo esse mês que passou. Ao olhar todo o resto daquele apartamento, percebeu que ele não deveria ter feito, na verdade, nada durante este mês. Ela sempre soube que quando passava um tempo longe em suas viagens, ele ficava perdido e não tratava do lugar em que morava nem de si mesmo e só voltava a cuidar de si quando ela estava para chegar. Ela bem sabia disso, pois ele mesmo contava a ela, porém nunca tivera a oportunidade de ver ao vivo o estrago que causava sua ausência. Ao se dar conta disso, preocupou-se e decidiu que as coisas não podiam continuar dessa maneira.
    
   - Prontinho, minha vida. - Ele disse ao sair do banho radiante, completamente renovado com a barba feita - Onde vamos jantar essa noite? Aqui não, sem condições. - Acrescentou sorrindo. Como ela amava esse sorriso de zombaria que só ele tinha.
    - Pete, temos mesmo de conversar antes de sair. - A seriedade com que foram ditas essas palavras assustou-o - Preciso te fazer algumas perguntas.
    - Juro em nome da lei que responderei a verdade. - Ele brincou e ela não evitou o sorriso.
    - Você sabe que eu te amo e não pretendo lhe deixar, não sabe?
    - Sei sim, mas...
    - Então, por que entra em estado de total depressão quando eu vou, sabendo que vou voltar? Eu sempre volto Pete, sempre... Entenda que eu te amo e sei que me ama, mas não pode deixar de viver toda vez que eu estiver distante.
    - Alice, sabe que não vivo sem você. - Ele sempre a convencia com seu romantismo fora de hora, porém dessa vez só conseguiu irritá-la.
    - Escute - Ela falou calmamente, como se não quisesse assustá-lo - Eu sinto algo muito forte por você, algo que me impede de lhe deixar, mas você está me assustando com essa dependência toda. Por favor, não dependa assim de mim, pois quando dependem de mim eu... não permaneço.
    Pete virou a cabeça e olhou para a janela, disfarçando as lágrimas que viriam a cair. Ele sabia o quanto dependia dela, era quase doentio. Alice sem saber para onde olhar, apenas baixou os olhos. Ela sabia o quanto ele dependia dela, era quase doentio.

2 comentários:

  1. Refuto o "quase".Era doentio, não se pode projetar o findar da solidão na figura do outro, na presença do outro, na vida do outro.Seu conto deixa essa situação de entrega extrema bem patente e isso me lembra um poema de Pessoa:

    Enquanto não superarmos
    a ânsia do amor sem limites,
    não podemos crescer
    emocionalmente.

    Enquanto não atravessarmos
    a dor de nossa própria solidão,
    continuaremos
    a nos buscar em outras metades.
    Para viver a dois, antes, é
    necessário ser um.

    Fernando Pessoa

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  2. Bem bacana seu blog, estou seguindo, se puder retribuir. http://caiiosoouza.blogspot.com/

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