6 de jan de 2011

Curto perdurável

  Há, ainda, a imagem do outro em você; da mesma forma perfeita, congelada. Contudo, a sensação que tinha quando a pensava, já não existe.
   Era ela a garota mais linda que seus olhos já viram, completamente linda, encantadora, deslumbrante e todos os adjetivos que existem pertenciam a ela. Hoje ela é só uma garota bonita.
   Aquela pessoa, que iluminava sua mente pela manhã e te inspirava os sonhos ao anoitecer, hoje raramente se encontra em sua memória.
   Eram absurdos os efeitos que lhe causavam aquele olhar, era algo extraordinário. Atualmente são apenas dois olhos, com duas pupilas, que te olham de vez em quando; como qualquer outro.
   Aquela voz tinha o poder de lhe tirar do normal, fazer vísceras saírem do lugar. Agora se tornara tão repetitiva.
   O sentimento que sentia era ardente, furioso, imediato e tudo que possa ser usado como sinônimo de intenso. Depois de um certo tempo, se tornara adiável e comum.
   A relação cair tragicamente na rotina seria fatal. Logo, a relação cai na rotina.

  É triste o fim da paixão, depois de sugar tudo que pode do outro; depois que esse já não lhe causa efeito nenhum. O que fazer? Encontrar esses efeitos novamente, nem que para isso tenha que procurar em outra pessoa.
   Esse sentimento da conquista, da descoberta, é realmente muito agradável. Esse caos causado em nosso interior é fascinante, por isso a incessante procura por algo novo. Por isso permanecer é algo impossível. É tão monótono... Mas, é mesmo impossível? Seria tão ruim assim criar raízes? É claro que a euforia do primeiro encontro, da primeira declaração, do primeiro beijo e de todas as primeiras experiências acaba um dia, afinal, o primeiro não é eterno. Entretanto, por mais que se acabe aquela sensação de afobação e todo esforço da conquista - agora que finalmente já tem o outro em suas mãos - será que se acaba, mesmo, tudo?

  Não é uma má ideia dedicar um tempo conhecendo alguém, aproveitando essa pessoa e depois que perceber que já conhece o suficiente dela ir conhecer um outro qualquer e começar tudo de novo. Não é algo ruim de se imaginar, é divertido, há um ar de aventura nesse jogo e lhe deixa sentindo que nunca irá desgastar-se. Porém, um dia, quando você terminar o quinto relacionamento daquele ano, sem contar com os anos passados, você vai sentir-se só e desgastado! Vai sentir uma nostalgia por alguém que no passado sabia suas manias e cozinhava o que gostava; vai sentir saudade daquela velha cumplicidade e de ter alguém do seu lado. E espantado, irá perceber uma pontada de desânimo; uma falta de disposição para achar um novo alguém, pois dá muito trabalho conhecer e se deixar entregar novamente, para no fim acabar da mesma forma que os relacionamentos anteriores.

   Então, vai finalmente entender, com maturidade, que depois que o fogo inicial se apaga, não quer dizer que necessariamente tenha chegado ao fim; pelo contrário, é o início de uma segunda etapa que por incrível que pareça é maior. Certamente, essa fase será mais difícil, terá de se esforçar ao máximo para surpreender, pois já terá passado o momento de descobrir. Contudo, surpreendendo e batalhando para não cair nas garras na rotina, terá uma relação plena e nova. Terá alguém sempre ao seu lado. E uma busca infinita de conhecimento pela outra pessoa, pois vai compreender que pode passar toda sua vida se dedicando a saber mais do parceiro e, ainda assim, irá perceber apenas que não sabe nada. E o sentimeno se inovará todo dia. E terá alguém para compatilhar muito mais do que uma simples chama que logo se apaga. Terá alguém para compartilhar uma vida.

Um comentário:

  1. A causa da perda do brilho você mesma relatou, talvez sem querer, são males do imediatismo do amor.Males do tempo.Males de tudo que vai perecendo, esvaziando as águas profundas ainda desconhecidas que pertencem ao outro e finda com a ROTINA.

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