27 de jan de 2011

Atrocidades

  Era apenas um garoto, Chucky era só mais um de milhões como ele.
  Mais um fim de tarde de um sábado qualquer e eu caminhava pelo meu quarteirão, eis que vejo Chucky caminhando apressadamente com seu rottweiler, ele tinha na expressão a imagem de alguém que tramava algo e conhecendo-o como eu conhecia poderia prever que não poderia ser nada bom. Tínhamos apenas nove anos, Chucky era o típico garoto "superior" da classe, era grandalhão e batia nos menores por diversão, eu sentia tamanha gana por dar-lhe uma lição. Ele nunca planejava nada que fosse para o bem, então naquela tarde de sábado eu o segui e ao seu cachorro com um péssimo pressentimento. De repente Chucky parou em frente à casa de minha vizinha e passou do lado de fora da cerca para dentro; vasculhando seu jardim, ele fitou curiosamente a árvore e em seguida subiu nela, quando desceu trazia junto o gato da senhora Collin; era um filhote, branquinho e delicado, tão lindo. Chucky saiu do jardim e seu rottweiler seguia-o - estranho o modo como aquele cachorro respeitava-o, não tirava os olhos furiosos do gato e mesmo assim não se aproximava mais do que o dono permitia-lhe. Depois de caminhar por um tempo, Chucky entrou em um beco com o gato e chamou o cachorro.
  - Venha Brutus.
  - Ei, o que está fazendo? - Pronunciei-me, completamente espantada.
  - Vou me divertir um pouco! - Ele disse, jogando o gato no fundo do beco. - Pegue o gato Brutus.
  - Não, pelo amor de Deus, não pode fazer isso, está louco? Por quê? Por que fazer isso com o gato...?
  Nesse momento ouvi um silvo alto - era o gato eriçando-se e imaginando como se defenderia - seguido de um miado angustiante que transparecia toda dor do animal. Então, me senti a pessoa mais impotente do mundo, eu queria entrar lá, chutar aquele cachorro e chutar aquele garoto e salvar a vida daquele gato. Mas o máximo que conseguiria seria uma perna arrancada. Ó como sofri pelo gato e por todos os outros gatos, como sofri naqueles minutos agonizantes e chorava e via o garoto rindo e dando palmadinhas satisfatórias em seu cão educado para ser um assassino - outro animal que não tinha culpa - e Chucky rindo cada vez mais alto, saía dali com uma expressão contente em seu rosto. O que para mim era maldade pura.
   Foi nesse dia, que presenciei uma barbaridade, que conheci a crueldade humana, atacando ainda na infância, como uma diversão comum de garotos sádicos.

   Hoje, presencio políticos roubando o dinheiro que salvaria a vida de diversas pessoas que morrem por não ter o que comer e, muitas vezes, não ter água para beber, para simplesmente ter tudo para si. O que chamam de corrupção que vem dos depravados; pode até ser, mas eu chamo de crueldade que vem dos bárbaros.

   Eu acumulei um ódio enorme dessas pessoas e de Chucky; um ódio tão, tão grande que me fez igual a eles. Mas eu não tenho culpa, ódio nesse mundo é um sentimento absolutamente normal. Amor que é raro, ou melhor, amor é impossível.

Um comentário:

  1. Pamela, não sei se este conto é verídico ou muma narração. Mas posso afirmar que quando criança presenciei uma trocidade parecida. No caso, foi uma garota (calcule a garota) que chutou um filhote de cachorro e jogou no fio. Eu só pude assistir ele morrer. Nunca esqueci disso.

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