31 de jan de 2011

Mais uma carta equivocada

   Mais difícil do que entender o que se passa em sua cabeça, é entender o que se passa na minha. Como se eu procurasse entender qualquer coisa. Não, não procuro entender absolutamente nada. Apenas penso; penso por pensar; penso em ti e literalmente só penso em ti. Como e quando isso foi acontecer? Como se eu pudesse saber quando exatamente eu me apaixonei. Porém sei do como, foi em algum segundo em que pude ouvir o que seus olhos queriam dizer-me, suplicantes. E suplicante eu me vejo neste segundo em que estou apaixonada e também no segundo anterior e no segundo próximo e em todos os outros segundos. E suplicante é minha aflição. E a sua aflição. Estamos aflitos. E suplicantes.

   O tempo acertou no instante em que nos colocou frente a frente; ocorreu no momento exato, acaso sucedesse em outra hora, nada feito, eu jamais teria lhe visto como vejo agora. Ah, e como vejo. Posso ver-lhe até em sua ausência - esta que é mais presente que sua presença. E a partir disso sinto tanto sua falta; sinto desde aquele momento exato, eu que nunca tive outro momento. Por tanto, nunca senti mais do que sua falta. Todavia me conformo, pois melhor sua falta do que nada.

   Seria capaz de sentir falta de sua falta se nem ela eu tivesse.

  Houve um equívoco: o tempo pecou em todo resto. Existe uma linha de fases que nos separa - linha do tempo. Me veem em um extremo dessa linha e você está no extremo oposto. E disseram-me que não poderia encontrar-lhe no centro dela. Porém eu nem sequer posso ver essa linha.

   Posso, então, encontrar-lhe em outro lugar?

   Queria mesmo lhe encontrar, antes que o caos afaste-nos e mate de vez o pouco que temos. Somos diferentes demais para sermos entendidos. Não que seja caso de entendimentos. Mas e se não nos compreenderem? O que faremos com todos aqueles versos incompreendidos? Eles não nos deixarão.

   Mas podemos deixar-nos se quisermos. Eu lhe deixo e você me deixa. Deixamos, por fim, o tempo. E o tempo que se acostume, afinal o equívoco foi dele.

29 de jan de 2011

Pinheiros do leste

   Nesta noite, em sua casa do leste, ele observa atentamente os pinheiros que dançam através de sua janela. Há vinte anos ele observa os mesmos pinheiros. Em cima de sua mesa vê-se alguns livros e por ali, espalhados, alguns discos. Há vinte anos ele lê e escuta os mesmos livros e discos. Sua casa tem uma decoração clássica, com seus móveis pesados, um carregado de detalhes rubros e castanhos. Há vinte anos ela é assim: clássica, pesada, rubra e castanha.
   A noite é fria e faz com que ele queira acender a lareira. Contudo as chamas que inundariam seus olhos e o calor que lhe invadiria o corpo lembraria-o de outros tempos que foram sonhados, com outro tipo de fogo. E como se ela adivinhasse seus desejos, aparece na porta - que permanece aberta, como se a esperasse. E espantando ele fica ao ver que ela realmente levou a sério o que ele dissera. Seus grandes olhos negros e seu sorriso malicioso diziam-lhe que sim, ela estaria entrando nos planos dele espontaneamente; bastava, agora, ele pegar as malas dela, colocá-las em seu carro, levá-la para longe dos pinheiros e viver com a moça dos olhos negros uma vida diferente dessa que vivia há vinte anos.
    No tempo que tem ele pensa, pensa muito. Olha essa moça que lhe entrega um destino em troca do seu. Olha os pinheiros lá fora. Olha o sorriso malicioso. Olha seus livros e discos. Imagina a aventura que lhe espera, uma vida nova e surpreendente. Recorda de toda as vezes que sonhou com isso contemplando os pinheiros. Por uma fração de segundo ele contempla a moça convidativa em sua frente que espera dele uma ação qualquer. Não, ele não falara sério. Como abandonar os pinheiros? Justo os pinheiros vizinhos dos quais ele já se acostumara. Seus companheiros de sonhos. Moça, vá embora, não perca seu tempo. Ele criou raízes, como os pinheiros.

27 de jan de 2011

Atrocidades

  Era apenas um garoto, Chucky era só mais um de milhões como ele.
  Mais um fim de tarde de um sábado qualquer e eu caminhava pelo meu quarteirão, eis que vejo Chucky caminhando apressadamente com seu rottweiler, ele tinha na expressão a imagem de alguém que tramava algo e conhecendo-o como eu conhecia poderia prever que não poderia ser nada bom. Tínhamos apenas nove anos, Chucky era o típico garoto "superior" da classe, era grandalhão e batia nos menores por diversão, eu sentia tamanha gana por dar-lhe uma lição. Ele nunca planejava nada que fosse para o bem, então naquela tarde de sábado eu o segui e ao seu cachorro com um péssimo pressentimento. De repente Chucky parou em frente à casa de minha vizinha e passou do lado de fora da cerca para dentro; vasculhando seu jardim, ele fitou curiosamente a árvore e em seguida subiu nela, quando desceu trazia junto o gato da senhora Collin; era um filhote, branquinho e delicado, tão lindo. Chucky saiu do jardim e seu rottweiler seguia-o - estranho o modo como aquele cachorro respeitava-o, não tirava os olhos furiosos do gato e mesmo assim não se aproximava mais do que o dono permitia-lhe. Depois de caminhar por um tempo, Chucky entrou em um beco com o gato e chamou o cachorro.
  - Venha Brutus.
  - Ei, o que está fazendo? - Pronunciei-me, completamente espantada.
  - Vou me divertir um pouco! - Ele disse, jogando o gato no fundo do beco. - Pegue o gato Brutus.
  - Não, pelo amor de Deus, não pode fazer isso, está louco? Por quê? Por que fazer isso com o gato...?
  Nesse momento ouvi um silvo alto - era o gato eriçando-se e imaginando como se defenderia - seguido de um miado angustiante que transparecia toda dor do animal. Então, me senti a pessoa mais impotente do mundo, eu queria entrar lá, chutar aquele cachorro e chutar aquele garoto e salvar a vida daquele gato. Mas o máximo que conseguiria seria uma perna arrancada. Ó como sofri pelo gato e por todos os outros gatos, como sofri naqueles minutos agonizantes e chorava e via o garoto rindo e dando palmadinhas satisfatórias em seu cão educado para ser um assassino - outro animal que não tinha culpa - e Chucky rindo cada vez mais alto, saía dali com uma expressão contente em seu rosto. O que para mim era maldade pura.
   Foi nesse dia, que presenciei uma barbaridade, que conheci a crueldade humana, atacando ainda na infância, como uma diversão comum de garotos sádicos.

   Hoje, presencio políticos roubando o dinheiro que salvaria a vida de diversas pessoas que morrem por não ter o que comer e, muitas vezes, não ter água para beber, para simplesmente ter tudo para si. O que chamam de corrupção que vem dos depravados; pode até ser, mas eu chamo de crueldade que vem dos bárbaros.

   Eu acumulei um ódio enorme dessas pessoas e de Chucky; um ódio tão, tão grande que me fez igual a eles. Mas eu não tenho culpa, ódio nesse mundo é um sentimento absolutamente normal. Amor que é raro, ou melhor, amor é impossível.

24 de jan de 2011

Nostalgia

   Caminhávamos pelo centro da cidade, indo para casa depois de um encontro com a turma da faculdade, de repente John colocou seus braços sobre mim, abraçando-me.
   - Olha quem vem ali. - Ele disse - O Renato, seu ex-cafajeste.
   Eu sorri e o beijei na face, John sempre se preocupando comigo, até em coisas triviais.
   - Venha, sente-se aqui. - Então ele sentou-se no meio-fio da calçada e convidou-me para sentar também.
   - Nesta esquina movimentada? - Eu ri e me assustei, difícil me acostumar com os ataques de loucura que ele tinha, mesmo sendo muito parecidos com os meus.
  - Senta logo. - Ele falou me puxando.
  E foi ali, naquele meio-fio que recebi a mais linda declaração de toda minha vida.
  - Olha que noite bonita, tem estrelas, luar e gente passando apressada pela gente, quase pisando em nossas cabeças. - Ele se divertia.
   - Realmente é uma noite linda. - Concordei - E você está bêbado.
   - Claro, saí com você. - Seu sarcasmo estava sempre presente.
   - Tinha me esquecido desse detalhe. - Olhei séria para ele - Sou sua má influência.
   - Sabe, minha garota, eu realmente gosto de você. - Ele disse mudando o tom extrovertido para algo mais sério - E se algum dia eu enlouquecer e inventar de casar, burrice eu sei, que seja contigo.
   - Está me pedindo em casamento, é isso? - Dessa vez era eu que me divertia - Sempre soube que me amava mais do que representava.
   - Sim, eu te amo e é isso que quero te dizer. - Me olhava, nesse momento, profundamente - Sabe, você é a única garota que me faz sorrir, a única que me faz ficar bem e mal, também. A única das únicas. - Sorriu, quebrando o clima tenso - Quando éramos crianças...
   - John e suas nostalgias. - Interrompi.
   - Sério, deixe-me falar, quando éramos crianças juramos que não nos separaríamos e passaram-se anos e cumprimos o juramento, entretanto, de qualquer forma, quero renovar o contrato. - Ao dizer isso, olhou-me com um inédito sorriso sério, primeira expressão de John que não conhecia - Juro que estarei sempre aqui por ti e por ti e só. É a minha melhor amiga, é a mulher de minha vida.
   - Eu também gosto de ti, mesmo bêbado!
   -Eu sei que eu também represento pra ti o que representa pra mim! - Disse voltando ao seu estado divertido de sempre - E é por isso que nunca te deixarei em paz. - Completou acendendo um cigarro.

   E hoje, seis anos depois, no dia do casamento de John, eu estou aqui apenas com a promessa de aparecer, porém bem longe dele.
   Não foi isso que juramos. Eu sempre soube que um dia me separaria dele, um dia ele encontraria uma mulher que fosse mais importante que sua melhor amiga. O dia chegou e estou aqui agora... sentada nesta calçada, com as estrelas, o luar, um cigarro e essa gente passando apressada, quase pisando em minha cabeça.

22 de jan de 2011

Dependência

   O som das batidas pesadas ecoavam no silêncio daquele prédio. Pete se negava a abrir a porta, porém aquele barulho já estava aborrecendo-o. Abriu, então, com má vontade. E a visão que teve: 1,65 de altura, cabelos lisos e loiros que mal chegavam aos ombros; olhos azuis que brilhavam como nunca, ou como sempre, em um rosto delicado de expressão suave e o sorriso mais lindo que ele já vira em toda sua vida. Era Alice em sua porta, a sua garota de volta.
    A visão de Alice: ao abrir a porta teve um relance do apartamento de Pete, viu roupas atiradas pelo chão, caixas espalhadas na sala e não pode definir mais nada, pois a bagunça e a sujeira eram demasiadas. Ao prestar atenção no rosto dele percebeu que não fazia a barba, nem cortava ou mesmo penteava os cabelos a quase um mês.
    - Pensei que chegaria somente daqui uma semana. - Ele disse enquanto fazia um gesto constrangido para ela entrar - Realmente não te esperava aqui hoje. - Acrescentou afagando a própria barba.
    - Vejo que não estava, mesmo, esperando alguém aqui hoje. - Ela disse com um misto de divertimento e receio, então olhou intensamente para ele - Eu quase morri de saudade, então resolvi que voltaria mais cedo para você.
    E o beijou, ele surpreendido correspondia o beijo com volúpia.
    - Meu amor, vou tomar um banho e dar um jeito nesta barba, sabe que está em casa. - Deu uma olhada em volta e como se tivesse acabado de percebesse a desordem em que se encontrava acrescentou - Eu iria arrumar tudo isso antes de você chegar, juro.
   - Tudo bem. - Ela disse divertindo-se e sentando-se na única cadeira que não estava ocupada com roupas sujas.
    Ela observou que sobre a mesa estavam os diversos livros de direito jogados e cobertos de pó. Ele não deveria ter lido-os nem mesmo trabalhado em seus casos durante todo esse mês que passou. Ao olhar todo o resto daquele apartamento, percebeu que ele não deveria ter feito, na verdade, nada durante este mês. Ela sempre soube que quando passava um tempo longe em suas viagens, ele ficava perdido e não tratava do lugar em que morava nem de si mesmo e só voltava a cuidar de si quando ela estava para chegar. Ela bem sabia disso, pois ele mesmo contava a ela, porém nunca tivera a oportunidade de ver ao vivo o estrago que causava sua ausência. Ao se dar conta disso, preocupou-se e decidiu que as coisas não podiam continuar dessa maneira.
    
   - Prontinho, minha vida. - Ele disse ao sair do banho radiante, completamente renovado com a barba feita - Onde vamos jantar essa noite? Aqui não, sem condições. - Acrescentou sorrindo. Como ela amava esse sorriso de zombaria que só ele tinha.
    - Pete, temos mesmo de conversar antes de sair. - A seriedade com que foram ditas essas palavras assustou-o - Preciso te fazer algumas perguntas.
    - Juro em nome da lei que responderei a verdade. - Ele brincou e ela não evitou o sorriso.
    - Você sabe que eu te amo e não pretendo lhe deixar, não sabe?
    - Sei sim, mas...
    - Então, por que entra em estado de total depressão quando eu vou, sabendo que vou voltar? Eu sempre volto Pete, sempre... Entenda que eu te amo e sei que me ama, mas não pode deixar de viver toda vez que eu estiver distante.
    - Alice, sabe que não vivo sem você. - Ele sempre a convencia com seu romantismo fora de hora, porém dessa vez só conseguiu irritá-la.
    - Escute - Ela falou calmamente, como se não quisesse assustá-lo - Eu sinto algo muito forte por você, algo que me impede de lhe deixar, mas você está me assustando com essa dependência toda. Por favor, não dependa assim de mim, pois quando dependem de mim eu... não permaneço.
    Pete virou a cabeça e olhou para a janela, disfarçando as lágrimas que viriam a cair. Ele sabia o quanto dependia dela, era quase doentio. Alice sem saber para onde olhar, apenas baixou os olhos. Ela sabia o quanto ele dependia dela, era quase doentio.

20 de jan de 2011

O amor é sempre maior

    As árvores corriam ao lado da estrada; o asfalto à sua frente se tornara um borrão. A velocidade com que dirigia seu carro apontava seu desespero. Ele andou por quilômetros em estado de total ansiedade, mas pelo motivo que o fazia, andaria mais milhões de milhas se preciso.

   Ao mesmo tempo em que dirigia, era tragado pela lembrança das outras vezes que dirigia pela mesma estrada, com a mesma pressa, porém não com aquele desespero. Era difícil entender, ele ainda não podia... não estava preparado. Há um mês atrás pegava seu carro e um whisky vinte anos de sua reserva especial, parte do seu plano perfeito de surpreendê-la; ela não gostaria mais de um vinho ou de champagne, whisky é perfeito - ela sempre dizia em seus momentos de embriaguez; momentos de êxtase para ele, pois estando com ela, encontrava-se em um êxtase singular. Instantes de uma perfeição absurdamente rara; instantes tragicamente proibidos. Ele morava em outra cidade, mas de tempos em tempos aparecia para visitá-la, como mandava seu inconsciente dominado pela sede de tê-la. E sempre a encontrava com aquele mesmo cativante e quase inocente sorriso, ao mesmo tempo em que era engolido pela malícia daqueles olhos. Ela tinha apenas catorze anos, contudo tinha o corpo e a mente de uma mulher madura e segura que ele, nos seus vinte e nove anos, jamais conhecera antes.
     Completamente consternado, mergulhava mais fundo em suas recordações. Ele fugiu por muito tempo, nunca ousara sequer tocá-la. Contudo o sentimento que tomava conta de ambos foi mais forte, não demoraram a se entregar um para o outro. Trocavam olhares, poesias e repartiam sonhos... Até que tiveram que acordar e se voltarem à realidade - ela era mais nova. Ela não havia completado quinze anos ainda, enquanto ele já se formara em direito. Segundo ela, seus pais nunca aceitariam. Ele nunca faltara com o respeito, nem faltaria; não faria absolutamente nada sem consultar os pais da moça que era tão nova, não se daria ao luxo de um relacionamento escondido, não apenas por repugnar aventuras errôneas, mas pelo fato de ter a concepção de que poderia ser acusado de um crime do qual não acreditava estar cometendo, afinal ela não era nenhuma criança, todavia, seus catorze anos condenavam-nos. 
  Quando ele recebeu uma proposta de um excelente emprego longe de sua cidade, não pensou duas vezes em ir; não pelo trabalho que lhe viria, e sim pela oportunidade de se afastar e se livrar daquela perturbação impetuosa. O que não deu certo, pois a saudade e a melancolia que a ausência dela o proporcionava fazia cada pedaço seu chamar, na verdade berrar, a todos os ventos o nome dela e ele atendia esse pedido pegando seu carro e correndo para vê-la, nem que fosse a distância. As poucas vezes que ficaram realmente juntos, foram os episódios dos whiskies, em que ele dava festas com o intuito de a convidar e tê-la por perto, mais do que poderia e menos do que gostaria.

    Agora se via correndo pela estrada para vê-la, mais uma vez, com a diferença de ir ao seu encontro em um hospital. Recebera  a notícia de seu acidente e não demorou para tomar essa atitude. Ao chegar no hospital, com o rosto lívido e abatido, viu os pais dela na sala espera, em um estado parecido com o seu. Eles voltaram-se a ele com um pouco de curiosidade. Quem seria esse rapaz tão debilitado? Quando ele decidiu-se falar com eles:
    - Por favor, eu preciso entrar naquela quarto, eu preciso vê-la enquanto...
    - Quem é você? - O pai perguntou desconfiado.
    - Me chamo Brian. - Ele disse abaixando os olhos.
    O pai deu-se por conta, então, que aquele era o Brian. O homem do qual ela tanto falava, o mesmo que ele fez objeção ao relacionamento. Agora esse homem, mais maduro que sua filha, demonstrava um sofrimento real; mais que isso, um amor real. Transparecia em seu rosto um desespero do qual nem tentava esconder.
    - Entre. - Concordou, mas em dúvida se fazia o certo, de qualquer forma não negaria aquele simples pedido, não naquela circunstância.
    Do lado de fora, observando pela vidraça, o pai dela viu Brian segurando a sua mão; se pudesse ouvir o que ele dizia, seria mais ou menos isso:
    - Por favor, apenas me diga que abrirá os olhos, que vai ficar bem. Eu prometo... eu juro que faço de tudo por nós. Eu nunca mais desisto, nunca mais vou embora, nunca mais te deixo. Abra os olhos, segure minha mão; vamos sair desse lugar, vamos para um lugar só nosso; ou podemos ficar aqui, mas abra os olhos, por favor, não pode fazer isso comigo. Lute, lute, lute... que eu lutarei por nós - As lágrimas lavavam seu rosto - Não me deixe sozinho e eu juro nunca mais te deixar sozinha.
    Os pais da menina que observavam de fora sentiram um misto de comoção e arrependimento. Viram naquele momento que o amor é sempre maior. Mesmo que eles ou o acaso tentasse impedir, o amor seria sempre maior.

18 de jan de 2011

Algo a ser sonhado e ser (talvez) vivido

 Ser, ser, ser, ser... sendo há tanto para ser.
 Ser alguém, ser ninguém, ser de uma vida e sonho.
 Viver para sonhar e sonhar para viver.
 Quando se é alguém existem tantas possibilidades
 Algo como ser acompanhante sozinho.
 Um eterno solitário vivendo pelos mares,
 Um eterno amante sonhando pelos mares.

Sonhar, sonhar, sonhar, sonhar... sonhando há tanto para sonhar.
Ilusões, devaneios, idealizações de uma vida e sonho.
Sonhar para viver e viver para sonhar.
Em meio aos devaneios vê-se tantas casualidades
Algo como muitas confirmações
De todos os sonhos dissolverem,
De todos os sonhos concretizarem.

Algo que sou.
Algo que sonho.
Algo que vivo.

16 de jan de 2011

O farsante confiável

   - A contradição da voz dele é absurda. A contradição da vida dele é absurda. Como alguém diz algo e faz o contrário e ainda assim parece ser verdadeiro? Eu juro, juro que vejo a evidência dos fatos; juro que vejo o que está a um palmo de minha face; não é como se eu não aceitasse a realidade, eu aceito, sim! Aceito que tudo isso não passa de ilusões e enganações; ele se ilude e engana-se e quer iludir e enganar a mim também. Entretanto, a contestação está nos olhos dele. Como podem ser tão verdadeiros? Como podem suas palavras soarem com tanta autenticidade? - Ela parou de falar e foi absorvida em seus pensamentos por alguns segundos, em seguida continuou como se enxergasse a conclusão que entendia não entender - Ele inventou uma vida, uma falsa vida, do modo como ele sonhara viver. Ele inventou uma maneira de ser algo que não é, mas que gostaria de ser. Ele tenta acreditar nessa vida e nesse "ser" dele e quer que eu acredite também. Mas eu sei! Não é e não é e não é! Ele não é assim! Essa perfeição não existe. A única perfeição está naqueles olhos e só. Olhos tão brilhantes, tão vivos, tão verdes e lindos. Mas é só isso! Sim, são palavras perfeitas as palavras dele, porém não correspondem às suas ações. Ele tem uma maneira linda de ser... mas ele não é o que transparece.- Então olhou profundamente para sua amiga, com as lágrimas desenhando a linha de seus olhos - E eu acredito nele, acredito em cada palavra sua. - Deu uma pausa de repleta angústia - Eu daria minha vida por aquelas palavras. Eu sei que está errado, eu sei que não deveria. Mas eu daria, sim... porque estou, de modo absurdo, tragicamente apaixonada.

14 de jan de 2011

Na minha solidão

   Das mais de 6 bilhões de pessoas que existem no mundo, eu só preciso realmente de uma: Eu.

   A contradição de minha existência: tenho em mim a condição de ser sozinha. E assim sigo minha vida. Tenho pai e mãe,  os mais leais amigos, o mais cativante cachorro, as mais sedutoras paixões... tenho sempre um amor objetivado - na maioria das vezes correspondido. Mas sou o que chamam de solitária.
    Não, não confunda como um dia eu confundi, não é questão de ser antissocial; não é como se eu não me importasse, ou não gostasse de pessoas. Eu amo as pessoas! Posso ser tão justa quanto o sol e tão compreensiva quanto garoas de verão. Não desejo o mal; desejo o melhor, desejo tudo para mim e para todos. Vejo-me cada dia mais faminta por gente; conhecê-los, entendê-los, respeitá-los e admirá-los... há tanto para se admirar. Não sobreviveria sozinha, ou sobreviveria, porém seria absolutamente infeliz. Sim, as pessoas me trazem a felicidade. E, sim, eu sou sozinha.

   Quando me refiro a minha solidão, quero deixar claro e mastigado que faço questão de pessoas por perto. Contudo, sei que essas mesmas pessoas, em um dia qualquer de inverno, seguirão sua vidas sem  mim e eu seguirei a minha sem elas; não que não tenha significado nada, simplesmente as pessoas, como todo o resto, passam e vão em frente sem olhar para trás. É o que uns chamam de coisas da vida. É o que um dia acreditei ser a tragédia de minha biografia e que depois de perdas, lágrimas, leituras e novos sorrisos amarelos e tortos que sempre aparecem em fins de tarde, percebi que é a única coisa que faz sentido, realmente. Nem Marte, Júpiter, ou Mercúrio entenderiam. Entretanto, eu entendi que a imagem que vejo refletida em meu espelho é da única pessoa que vai me acompanhar durante toda minha marcha pela estrada da vida; poderá somente essa pessoa, tão absurdamente conhecida, entender cada lágrima e cada angústia e cada saudade...; ninguém mais lerá tão bem meus pensamentos e me conhecerá tão bem a mente. Não vejo quem possa me fazer melhor companhia. Antes eu comigo do que eu desamparada.

   E quando me ver falando com meus pés, com minhas mãos ou com meu cabelo não acredite na minha loucura (mesmo eu tendo certeza dela), pois eu falo, sim - e sempre que posso torno a falar - comigo mesma; nunca ouvi melhores conselhos ou consolações mais sinceras. Jamais me julgue por ter um amigo invisível. Jamais julgue meu amigo invisível, pois ele nada mais é que uma versão minha inventada por mim e se tiver a oportunidade de conhecê-lo (o que eu duvido) verá o quão diferente de mim ele aparenta ser, contudo não se engane, ele é eu - exatamente eu - porém com algo a mais; algo que eu sonho em ter pelo lado de fora, mas só encontro no interior. Ele é eu sem pôr nem tirar, só que não se parece comigo.

   Enfim, sou sozinha. Sou eu, meus pés, mãos, cabelos e meu amigo imaginário.
   Eu e meu reflexo ao mirar o espelho. Eu e minhas lágrimas ao chorar de rir. Eu e meu entendimento sobre todas as minhas hipocrisias. Eu e minha fuga de todo sentido. Eu e minha contraditória busca por motivos sem querê-los de fato. Eu e meus eus de cada dia. Eu e minha solidão.

12 de jan de 2011

Leões-marinhos

   Lindo leão-marinho, leão-marinho, leão-marinho. - Miguel, sentado no jardim, olhava a borboleta voando no jardim e a chamava por leão-marinho.
   Como pode navegar nesse rio de ares tão salgados, meu leão-marinho? - Então, Miguel levantava-se, como se cansasse da brincadeira, e pedia papéis para desenhar; quem via seus desenhos enxergava cálculos matemáticos que variavam entre sistemas simples e equações avançadas, também, equações químicas  e balanceamentos, algumas vezes foram vistas algumas fórmulas e teorias físicas que ele mesmo inventara e que faziam todo o sentido, mesmo julgadas inúteis. Miguel podia passar horas lendo livros de filosofia e depois discutir sobre tudo, com igualdade, com qualquer filósofo formado. Ele lia bastante; lia até ver sua borboleta-leão-marinho na janela, então saía correndo e gritando: leão-marinho, leão-marinho. Sim, ele era louco; era só mais um louco em um sanatório. Contraditoriamente, um louco-gênio, um louco que sabia que seu lar era um hospício e aceitava sua condição de demente.
   Às vezes, Miguel, era pego olhando o nada, absorto em seus pensamentos, então lhe perguntavam:
   - Por que tão distante, Miguel?
   - Distante do que exatamente? - Perguntou sem desviar o olhar de seu foco.
   - Está de novo com a mente longe do corpo.
   - Estou de novo nessa casa de doidos, só por que contei sobre a minha fantástica viagem a Júpiter. - e, então, fitou a enfermeira já conhecida e quase íntima - Por que, afinal, sempre voltam a me internar aqui?
   - Porque são ignorantes demais para lhe compreenderem.
  - Eu sei quando uma pessoa é sincera e quando fala apenas para amaciar. - Falava com um sorriso indiferente, como se não se referisse a enfermeira - Mas eu sinto em você um tipo de sinceridade macia, algo que vem do fundo do coração, porém ao mesmo tempo é dito sem a certeza do que diz.
   A enfermeira continuou em silêncio, sempre se espantava com os palpites sempre corretos daquele pseudo-insano.
   - Talvez meu erro seja gostar tanto de leões-marinhos, ou correr atrás deles, ou gritar por eles no meio da noite. Mas sabe, eu realmente amo os leões-marinhos. São tão frágeis e delicados e sensíveis e lindos e coloridos em minha janela que...
   - Talvez devesse apenas chamá-los de borboletas. - Ela interrompeu-o docemente.
   - ...eu queira pular a janela e navegar com eles. - Continuou- Mas eu odeio borboletas.
   - Talvez devesse parar de contar sobre suas viagens a outros planetas. - Ela fez mais uma tentativa.
   - Só porque vocês nunca foram lá... Por que não aceitam que alguém saiba mais que vocês? Tacham logo de doente mental ou de bruxos, como aqueles que foram queimados na fogueira na época de Da Vinci. É inaceitável que um pensamento seja diferente? É isso? Vejo pessoas maltratando animais; pessoas maltratando pessoas; pessoas matando pessoas; pessoa matando amores; pessoa amando frivolidades; pessoas colocando as coisas frívolas em primeiro plano... E essas mesmas pessoas vem me colocar na cabeça que eu sou o louco, apenas, porque vi um leão-marinho em minha janela. Bando de loucos que se acham normais!
   A enfermeira, desistindo, se levantou e foi fazer seu trabalho, porém, concordando com quase tudo que foi dito por Miguel. Já Miguel, continuou ali, olhando para o nada, imaginando se estaria ali porque eles eram ignorantes e não o entendiam ou se era porque ele era ignorante e não os entendia. Contudo, não importava, ele sabia que um pouco de loucura todos tinham, todavia, acreditava na sua e sentia-se feliz por se afastar daqueles loucos que insistiam em chamar os leões-marinhos de borboletas

10 de jan de 2011

(In)Sanidade

Esta noite é noite de estrelas
E vou dedicando todas a minha vida
Com doce maneira de viver
E todas as minhas palavras
Não se igualam às legendas
Inútil torna-se a fala
Quando todo julgamento cala
Cala por si e cala por todos
E todos nunca sabem o que falam
Mas falam e falam
Como se soubessem.

E entendem e deixam impressões
Impressões de expressões,
Vistas, ouvidas e menosprezadas. 
Falsa impressão da expressão
É a crítica perfeita.

E não julgo ao certo?
Ou quem julga é errado?
E se julgar que julgue certo.
Como afirmar o que é correto?

Aquele louco era um gênio
Completamente insano disse que o certo é entender que o errado
É, também, certo quando se pensa que certo é;
Então, nunca ninguém, ou sempre alguém, foi certo ou errado.
Aquele maluco insano só poderia ter a razão.
- Sim, um maluco dono da razão e das certezas.
O que faz dele louco, então?
O que faz um homem que sabe o que diz tornar-se um demente?
Pois sim, a doença mental dele é contrária à minha doença mental.
Não seria eu, então, a insensata?
Quem disse que existe um linha dividindo o louco do gênio?

Os sãos designam os loucos de doentes.
E os loucos não pensam que doentes são os sãos?

E qual, afinal, é o louco e o são?
Ou são todos loucos e todos sãos?
A quem, no fim, pertence a razão?

Desconhecendo a finalidade racional,
Afirmo apenas que todo louco é coberto de certezas
E todo certo está mais perto, ainda, da loucura.

8 de jan de 2011

Terapia do foda-se

    Rumino meus pensamentos, quase enlouqueço. Pensar e pensar e pensar, não chegar em nenhuma conclusão, voltar a pensar e entender que não entendo nada. Contradições por toda parte. Convicções sem sentido, perdidas em qualquer lugar. Porquês dando voltas em minhas cabeça. Questões me matando lentamente. É o fim? É o fim? O que ele pensa? O que eu penso? O que ele quer? E eu quero? Teria solução? Seria tão fácil, tão fácil! Por que, então, não é? Dói, dói tanto. Mas por que dói? O que dói? Lembranças de tempos antigos, de tempos que viriam e de qualquer outro tempo. Dói, também, lembrar das promessas e dos desejos. Das palavras usadas em vão. Então, por que lembrar? Deleta-se uma recordação? Não, não há como simplesmente excluir algo assim do pensamento. Sensação de uma quase explosão. Faço, então, o que quero, o que tenho entalado dentro de mim: jogo tudo para o ar; deixo o que incomoda para trás. Já era, já era.
    Sinto presas em minha garganta as seguintes palavras: Vá para o inferno e leve junto suas promessas de outros tempos, tire da minha frente suas palavras cuspidas em vão. Não quero mais ter convivência com esse sentimento teatralmente hipócrita. Dane-se suas indecisões e medos, seu sentimento errado e findo. Não há mais paciência para promessas em excesso e atitudes zero. Me esgota essa alternância, de estar aqui e não estar. Contar com você e não contar. Que se dane se o que me disse ontem é o contrário do que me disse hoje, se a importância que eu tinha acabou-se tão rapidamente. Não vale a pena ficar remoendo-me com isso. Estou mandando para bem longe todos os sonhos que tive, que tivemos, se é que teve também. E não só quanto a você, e sim quanto a tudo que tem me inquietado, me tirado a paz, me causado transtornos; estou prestes a explodir: FODA-SE.

6 de jan de 2011

Curto perdurável

  Há, ainda, a imagem do outro em você; da mesma forma perfeita, congelada. Contudo, a sensação que tinha quando a pensava, já não existe.
   Era ela a garota mais linda que seus olhos já viram, completamente linda, encantadora, deslumbrante e todos os adjetivos que existem pertenciam a ela. Hoje ela é só uma garota bonita.
   Aquela pessoa, que iluminava sua mente pela manhã e te inspirava os sonhos ao anoitecer, hoje raramente se encontra em sua memória.
   Eram absurdos os efeitos que lhe causavam aquele olhar, era algo extraordinário. Atualmente são apenas dois olhos, com duas pupilas, que te olham de vez em quando; como qualquer outro.
   Aquela voz tinha o poder de lhe tirar do normal, fazer vísceras saírem do lugar. Agora se tornara tão repetitiva.
   O sentimento que sentia era ardente, furioso, imediato e tudo que possa ser usado como sinônimo de intenso. Depois de um certo tempo, se tornara adiável e comum.
   A relação cair tragicamente na rotina seria fatal. Logo, a relação cai na rotina.

  É triste o fim da paixão, depois de sugar tudo que pode do outro; depois que esse já não lhe causa efeito nenhum. O que fazer? Encontrar esses efeitos novamente, nem que para isso tenha que procurar em outra pessoa.
   Esse sentimento da conquista, da descoberta, é realmente muito agradável. Esse caos causado em nosso interior é fascinante, por isso a incessante procura por algo novo. Por isso permanecer é algo impossível. É tão monótono... Mas, é mesmo impossível? Seria tão ruim assim criar raízes? É claro que a euforia do primeiro encontro, da primeira declaração, do primeiro beijo e de todas as primeiras experiências acaba um dia, afinal, o primeiro não é eterno. Entretanto, por mais que se acabe aquela sensação de afobação e todo esforço da conquista - agora que finalmente já tem o outro em suas mãos - será que se acaba, mesmo, tudo?

  Não é uma má ideia dedicar um tempo conhecendo alguém, aproveitando essa pessoa e depois que perceber que já conhece o suficiente dela ir conhecer um outro qualquer e começar tudo de novo. Não é algo ruim de se imaginar, é divertido, há um ar de aventura nesse jogo e lhe deixa sentindo que nunca irá desgastar-se. Porém, um dia, quando você terminar o quinto relacionamento daquele ano, sem contar com os anos passados, você vai sentir-se só e desgastado! Vai sentir uma nostalgia por alguém que no passado sabia suas manias e cozinhava o que gostava; vai sentir saudade daquela velha cumplicidade e de ter alguém do seu lado. E espantado, irá perceber uma pontada de desânimo; uma falta de disposição para achar um novo alguém, pois dá muito trabalho conhecer e se deixar entregar novamente, para no fim acabar da mesma forma que os relacionamentos anteriores.

   Então, vai finalmente entender, com maturidade, que depois que o fogo inicial se apaga, não quer dizer que necessariamente tenha chegado ao fim; pelo contrário, é o início de uma segunda etapa que por incrível que pareça é maior. Certamente, essa fase será mais difícil, terá de se esforçar ao máximo para surpreender, pois já terá passado o momento de descobrir. Contudo, surpreendendo e batalhando para não cair nas garras na rotina, terá uma relação plena e nova. Terá alguém sempre ao seu lado. E uma busca infinita de conhecimento pela outra pessoa, pois vai compreender que pode passar toda sua vida se dedicando a saber mais do parceiro e, ainda assim, irá perceber apenas que não sabe nada. E o sentimeno se inovará todo dia. E terá alguém para compatilhar muito mais do que uma simples chama que logo se apaga. Terá alguém para compartilhar uma vida.

4 de jan de 2011

Jogos paradoxais

   Bastou uma única vez, em que aqueles olhos se puseram em mim, para que eu iniciasse minha busca por aquelas pupilas; tais me engoliam, enquanto me denunciavam os gestos.
   Esses mesmos olhos, que me chamavam com fervor, jogavam algo com os meus.
   Dois pares de olhos brincando com o infinito; brilhando enfeitiçados.
   Há quanto tempo jogavam assim? E por quanto tempo ainda jogariam? Afinal, como se contaria esse tempo? Como definir um eterno-temporário?
   Não existe jeito de se medir qualquer tempo quando tais retinas remetem-se dessa maneira. A verdade é que nessa situação já não existe nada; os olhos apenas. Olhos insubmissos que falam e ouvem por si, ignorando toda ordem racional. Olhos como servos malcriados de corpos rigorosos. Corpos separados por um mundo de preceitos, ignorando qualquer súplica das almas. Almas unidas em corpos separados: triste parodoxo.

3 de jan de 2011

Habitual

   E tão velha, sentada na varanda bebia chá. Admirava os pássaros e lia seus livros. Acumulava paciência para ler as notícias do dia no jornal e depois analisar o que seria dito no horário político. Sábados à noite limitava-se a escrever e escutar música; não tinha predisposição para lugares lotados de gente agitada dançando ao sons de músicas da moda que ela desconhecia. Ela absolutamente nunca conhecia as músicas da moda. Não havia no mundo algo que lhe causasse mais satisfação do que estudar, andava lendo loucamente tudo sobre psicanálise e outros campos psíquicos; tendo, sempre, tempo para a amante literatura. A única coisa que poderia ser comparada à literatura seria, talvez, a filosofia. No entanto, músicas não eram nunca deixadas de lado, dedicava dias a conhecer nova antigas músicas; antigas, pois não entendia quase nada das atuais. Filmes também tinham o seu espaço, preenchiam o vazio das noites de sextas. Paixões, essas eram suas paixões: Literatura, filosofia, música e cinema; talvez sua vida fosse baseada unicamente nesses itens e ao que lhe parecia, não sentia falta de mais nada. Ao que lhe parecia, só. Era tão sábia, quase idosa; muito culta e fechada. Vivia toda voltada ao seu interior, era toda para dentro. Não conhecia os lugares da noite, mas conhecia todos os títulos de seus autores preferidos. Estudava absurdamente tudo, tinha uma fome de conhecimento incomum. Nem terminara o ensino médio e já sabia boa parte do conteúdo do curso que faria. Foi a pessoa mais curiosa que já tive o apreço de conhecer; curiosidade por culturas, histórias e estórias. Contudo lhe faltava curiosidade pela vida exterior. Não sei exatamente quando ela perdeu a vontade pelas pessoas, lugares, estradas e sentimentos. Não posso lhe dizer precisamente o motivo pelo qual ela encerrou-se dentro de si. Apenas sei que é tragicamente fascinante, uma garota de dezesseis anos carregando uma mente bem mais velha; é algo exageradamente pesado para se carregar. Contudo, ela carrega e aceita a sua condição de ser assim; sem sequer se lamentar.

1 de jan de 2011

VIVENDO em 2010

  2010 ficará marcado como o ano de minha descoberta. Olhei finalmente a minha alma e por um momento vi alguém que não saía, não saía, não soltava: era eu, soltei. Olhei ao meu redor e vi o mundo sob meus pés e, uou! Ele era imenso. Olhei para a estrada, que seguia infinita e enxerguei a minha VIDA e era eterna - enquanto não me provarem o contrário, será eterna. Olhei a tudo isso e não pude acreditar no que vi: liberdade. Liberdade de ser dona de meu tempo, e não servir a ele; a liberdade de seguir meu caminho e fugir da sociedade quando eu quiser e voltar e fugir e voar. Liberdade de ser o justo o que queria ser.
  Eu sou o que quero ser - Ao descobrir isso quis explodir.

  - 2010 foi o pior ano de minha vida. - Quando ouvi isso, senti-me tentada a dizer que para mim, pelo contrário, foi o melhor. O mais trágico, no entanto, o melhor.

  Surpreendi-me. Encontrei-me. Orgulhei-me de mim. E todos os fatos trágicos serviram para me mostrar o quão grande e superior sou. Enganaram-me; sem ter a certeza de quem, enganaram-me muito. E eu que não enganei a ninguém. Caluniaram-me. Agrediram-me a alma e todo o resto. E enfrentei; lutei como nunca e como pude. Contudo, meus ideais não se concretizaram e, no fim, percebi que eram falsos e inválidos. Todavia não me arrependo - tudo vale a pena, já dizia o Pessoa. Tamanha foi minha capacidade de superação, que me orgulhei de mim, de novo, e de todo meu equilíbrio perdido nessa insanidade.
  Capacidade de superação - algo revelado.

  O que sou; o que quero de mim; o que busco para a minha vida - está e esteve sempre em minha alma, bastava encontrar-me. E finalmente me encontrei. Finalmente encontrei um sentido para tudo isso - o sentido é puxar todo o ar dos pulmões, antes de proferir a palavra: VIDA e então viver como se deve.