29 de dez de 2011

Integridade em pedaços

  É muito fácil viver atrás de máscaras; jogar toda a sujeira para baixo do tapete dos outros; posicionar-se dentro da moral e das estéticas, e esconder o que há de pior em si para conquistar as pessoas todos os dias sendo algo que você não é. É muito agradável negar todos os seus erros; mentir todo o seu passado, e tornar-se alguém completamente amável aos olhos dos outros. Não é uma má ideia deixar-se corromper; livrar toda a culpa de si mentindo para e sobre os outros. Ser sempre o homem de sorrisos incontidos, aparência impecável, melancolia inocente e a eterna vítima da história - o puro e bom samaritano. A sua única complicação é viver sem contradição em meio a tantas máscaras; é saber trocá-las de minuto em minuto, pois para cada pessoa aparece com uma face diferente, tentando agradar a todos, transformando-se, enganando, mentindo - ah! O velho e bom samaritano.
 
 No entanto, tudo isso é muito fácil, um modo de vida, eu diria, demasiado cômodo.

  O difícil é mostrar o que realmente é, assumir tudo o que fez, faz ou deseja fazer. É errar e aprender com o erro. É jogar fora tudo o que lhe cobre a pele. Ser o mesmo, o único e profundo "si-próprio" perante toda a gente. Vestir-se na própria sujeira. Por fim dizer: "este sou eu, e isto é o que fiz!".

 É um absurdo, é doloroso, é raro, é praticamente impossível ter unicidade; não se fazer em pedaços para agradar cada um; não ser um mero atrativo de simpatia; mostrar o lado mau, o lado feio e sujo; assumir-se em todas as circunstâncias; ser um para todos - ter integridade.

  Ah! Bom samaritano, cuidado, pois a hora de provar quem é quem sempre chega. As máscaras caem. Toda a sujeira é revelada. Seus  pedaços corrompidos serão para sempre perdidos - adeus, pseudo-integridade, ninguém lhe ama mais, pois ninguém jamais lhe amou pelo que realmente é.

27 de dez de 2011

Sufocando

Não me exija mais que uma análise
Não espere qualquer explicação
Apenas digo: ao que sinto não devo dar vazão
(ou razão)
É como em escuridão infinda
Você ainda se perder ao mar
Ao tentar fugir do fogo que é cuspido contra você
E o desespero de nada poder
E sofrer, descrer, morrer e salvar
Justo aquele que ao supor amar
Fechou o punho, os olhos, não ousou
E morrendo no abismo negro e congelante
Com a alma por ele a gritar
Vê muitos vindo de longe ajudar
Menos ele...
Menos ele...
Meu Deus, menos ele!

E na margem, encharcada e exausta, não pude levantar
E você, tal qual o grande rei,
Com tronco estendido estava o horizonte a fitar
Sem dar por mim, morta como um cão, virou-se e pôs-se a andar
E eu salgada ao pé do mar
Vi lentamente a escuridão me buscar
E me afogar

22 de dez de 2011

Look at the sky

Just look at the sky
What see you?
I see everything I need!

-

Eu preciso de um porto.
Deus, de um porto.
Céus, de um porto.
John, de um porto.
-

Eu preciso que pare de funcionar a minha cabeça.

19 de dez de 2011

Sujeira

  Um cidadão sem educação não é um bom cidadão. Uma sociedade sem bons cidadãos não é uma boa sociedade. Tampouco deveria chamar-se sociedade esta na qual vivemos hoje.
  As elites dominam a classe ignorante, que se trata da maioria, através de seu conhecimento nada inteligente e ao todo egoísta, ainda assim é conhecimento, e isto é para poucos porque é desse modo que eles o querem. Afinal, por que não iriam querer? O conhecimento, nesta terra, é o olho do rei na terra de cegos, mudar tal fato seria de um perigo extremo à hierarquia na qual vivemos, mais conhecida como desigualdade social.
  O descaso pela educação é absolutamente grave, pois impede a evolução de uma maioria, quem em sua ignorância é completamente inocente, deixando que evolua apenas os lucros elitistas.


  O descaso pela educação já se tornou algo comum em nosso dia-a-dia, os olhos fecharam-se para tal fato vergonhoso, pois hoje há sujeira maior: o abuso pela falta de educação.
  A cada esquina deparamo-nos com escancarado abuso e prepotência, deveras se tornou desnecessário sair de casa, basta que liguemos a televisão.
  Diariamente vemos os desastres que são feitos com a mente humana, o desespero das massas envoltas por sua carência e como os "sábios" poderosos lucram absurdamente com isso. É desonroso pensar que eles também são seres humanos.
  A população não tem para onde correr. Aqueles que poderiam oferecer ajuda fazem justamente o contrário: amedrontam ainda mais, com a sua vileza camuflada. E já não há fé nem esperança, apenas o conformismo de quem nasce na base da pirâmide: jamais subirá - "sirvam-se à vontade, vocês aí do topo."

17 de dez de 2011

Cinzas

  O coração dói de vez em quando, quebra, morre, renasce e continua vivendo por aí. Vivendo sempre, intensamente em sua dor. E vive pelo motivo de algo sem sentido. E vive, vive, vive e quanto mais vive, mais dói a vida. O coração faz morrer, viver, doer e tudo ao mesmo tempo. Sem pausa, pena ou redenção. E é quando dói que vivemos, e quando perecemos é que vivemos ainda mais. Sentir dor é estar vivo. Tão vivo. Tão vivo. Tão vivo. Tão vivo. Tão vivo... A minha vida me dói tanto, mas tanto, que vivendo quero morrer.
A minha vida te dói tanto que, de tanto eu viver, você quer morrer.

15 de dez de 2011

Hoje chove

A dor lateja, importuna
A dor tortura, a dor dói
E a chuva escorre em seu negro céu,
Chorando com a minha alma.
E a sede me traz uma taça de vinho,
E eu bebo como quem pede perdão
E agradece enquanto a dor é amenizada.
A chuva chove agora com pressa,
E a dor é negra de céu,
E os olhos são chuvosos de lágrimas,
E a fé que um dia em mim existiu
Eu sei que morreu
E chover é algo que me dói,
E a dor sempre vem com a chuva.
E que passe uma. E que passe outra.

12 de dez de 2011

Sempre ao seu lado

  Um tom raro de laranja invadia pouco a pouco o céu a oeste. E John, com lágrimas e cansaços nos olhos, não enxergava mais nada além das sombras de vastas árvores sobre o lago escarlate da Ilha de Mares Vermelhos. E o olhar grave e preocupado do qual tanto adorava não saía de sua mente.

  - Seu maluco, veste já esse casaco - bradava Anna desesperada, com os cabelos cheios cobertos de flocos de neve. Eles, vasculhando partes desertas da Ilha de Neves Brancas, haviam encontrado um lago muito belo e, até então, desconhecido por eles. - Sabe que se você se atirar nesta água morrerá congelado.
  - E o que você vai fazer? - ele perguntou desafiando-a, sem deixar de rir.
  Anna, tirando o casaco, respondeu ainda mais desafiadora, porém sem conseguir esconder completamente o pavor - eu vou me atirar também.
  - Você não ousaria... Por que faria isso? - perguntou John sem acreditar,
  - Se atira que eu me atiro! - respondeu Anna irritada o suficiente para cumprir tal promessa.
  Anna tinha a expressão muito séria, que se transformou totalmente em incredulidade e horror ao ver John pulando no lago quase congelado. Sem pensar, ela se jogou em seguida.
  A fúria tomou conta de cada célula de seu corpo ao perceber que John ria como um tolo, pois a água estava inacreditavelmente morna.
  - Eu não acredito - gritou Anna furiosa. - É um idiota!
  - Quem não acredita sou eu - disse John controlando-se para não rir tanto, saindo da água e vestindo seu casaco para não congelar verdadeiramente no frio seco de pleno inverno. - Você realmente pulou!
  - Como você sabia que o lago era quente... Ah, não importa - disse Anna fazendo o mesmo que ele.
  - Anna, sobre o lago, é um truque que aprendi a fazer, mas isso não faz diferença diante do que acabou de acontecer - disse John. - Você pulou atrás de mim, pulou acreditando que era um lago semi-congelado. E por quê?
  - Você faria o mesmo por mim - respondeu Anna sem hesitar.
  - Como pode ter tanta certeza? - perguntou John confuso e emocionado.
  - Não sei, apenas sinto -  respondeu Anna penetrando nos olhos verdes e vivos dele.

  E agora, beirando um outro lago, a universos de distância de Anna, literalmente, ele sentia-se falecendo aos poucos e muito dolorosamente. De quando em quando, podia sentir a presença dela. Sabia que ela igualmente o sentia. Porém, já não era o suficiente. Então, passara os seus intermináveis dias a pensar: como restaurar a conexão?

7 de dez de 2011

Intervalos

  Pra ser sincera eu não me limito a 8 ou 80. Na verdade, em todo o meu ser, eu sou um imenso meio termo.
  Não se trata somente de amor ou ódio, agora ou nunca, vermelho ou verde. É um pouco sim, um pouco não; meio mal, meio bem; aquela alegria melancólica naquele sorriso meio chorado
  Não, eu não tenho extremos. As certezas são raríssimas, e as dúvidas são constantes. Posso até ir ao limite por algo que eu queira, todavia, o que é que quero exatamente? "A dúvida é o preço da pueza" - já dizia Sartre. - "E é inútil ter certeza" - completou Humberto Gessinger.
  Eu não sei qual é o caminho, mas sigo. Eu não sei o que é certo, de qualquer forma eu faço. Eu não sei o que eu quero. Apenas sei que, nem sempre feliz, eu busco a felicidade - daquele meu jeito: entre amor e ódio há indiferença e simpatia; entre agora e nunca há o amanhã; entre o bom e o mau há o que me faz bem. Ou seja, nem sempre no limite, nem sempre nos extremos - entre 8 e 80 há 72 possibilidades.

28 de nov de 2011

Compra-se um Viver

  Semana passada, por volta das dez horas da manhã de uma primeira segunda-feira do mês, eu caminhava pela rua sentindo o calor do sol e a distância de todas as pessoas que cruzavam agitadas muito próximas de mim. Próximas o suficiente para que eu pudesse ler a aflição em seus rostos, todavia, tão distantes que havia uma barreira impedindo-nos de trocar algum sorriso ou um olhar mais profundo.
  Eu caminhei por mais alguns minutos, foi então que me deparei com uma aglomeração em volta de uma loja de eletrônicos. Parei para saber do que se tratava (como todo bom curioso); todos estavam pasmados, contemplando o novo produto que chegava, e pasmada fiquei eu ao descobrir qual era o motivo de tanto interesse, que tivera a capacidade de tirar as pessoas de sua pressa rotineira - o que vi foi uma espécie de "computador com vida própria" que respondia a todas as perguntas tolas que faziam. Nesse momento olhei melancolicamente para o céu e disse - veja o lado positivo, eles ainda não perderam o senso de admiração, mas eu ainda me admiro mais com o espetáculo de suas cores. - Foi quando ouvi alguém perguntar ao meu lado - o que será que falta ser inventado?
  - Algo que traga de volta o interesse das pessoas pela vida - eu respondi. - Eu queria ver mais parques, crianças deitadas na grama vendo desenhos em nuvens ou correndo com seus cães; pessoas valorizando o tempo para ler um livro (livro de verdade, com capa, papel e cheiro), sentir o bem que faz contemplar o céu num fim de tarde. Eu queria que inventassem algo que não deixasse ninguém esquecer, nem por um segundo, a importância da vida; a sua urgência em ser vida com fervor e paixão, mas sem pressa. O desejo de viver ardentemente cada estação, de se aproximar do outro; de conviver - com viver, com muito viver, quanto mais viver, melhor. É isso, falta inventar o viver.

  O homem que questionara olhava-me assustado e arrependido por ter falado qualquer coisa. Então, em minha última tentativa eu falei, mais alto dessa vez - segura a onda, humanidade, que essa gana de querer evoluir e lucrar constantemente ainda acabará por matá-la, estou avisando.
  - Ela está louca! Ela está louca! - apontavam para mim.

  Eu percebi que ninguém entendia nada, também já não sentiam, estavam mortos por dentro. Eles tampouco enxergavam o que era tão simples, tão belo, estavam todos cegos por causa de uma única coisa: aquilo que era para facilitar a vida e acabou dificultando.

26 de nov de 2011

Esquizofrenia Fantástica

  Anna riscou da lista: depressão, bipolaridade e esquizofrenia. Em que colocar a culpa? Frequentemente os próximos afastavam-se, e ela assistia a todos partindo, sem fazer qualquer esforço. Onde estaria a menina que outrora fora tão alegre? Ficara no universo imaginário, naquele seu mundo fantástico, no qual ela jamais poderia colocar os pés novamente. Tal fato aprisionava-a em sua constante infelicidade, pois era naquele lugar em que ela encontrava a sua chance de vida; seus gramados vivos e intensamente verdes, o cheiro suave da neve e o toque vivo de sol. Era apenas lá, no Universo Fantástico, que o John poderia existir. E ao pensar nele, Anna verdadeiramente acreditava que não podia ser real, que todas as coisas tão mágicas e belas que vivera não passavam de peças de sua imaginação. John com toda a sua perfeição, sua amabilidade e sensibilidade extrema, sua firmeza tão branda, sua inteligência incomum, seu humor sarcástico e revoltado, sua voz suave, toda a sua leveza no olhar perdido que fazia perder-se em tão belo tom de verde, contrastando com sua pele alva e cabelos negros, sim, ele só poderia ser inventado - sua melhor ideia de sonho.

  Anna esqueceu-se da vida em seus devaneios e perdeu-se do lugar em que se encontrava, apenas com os olhos absorvidos pela água da piscina que enxergava logo abaixo da sacada na qual se encontrava. Forçou um sorriso para alguém lá embaixo e ouviu vozes próximas - anda, converse com ela, quem sabe assim ela saia de sua bolha - e sorriu para si, pensando que nunca mais se obrigaria a ir a uma festa para fugir de sua solidão, pois naquele momento, envolvida por gente e música, não se sentia menos solitária e pensava se algum dia conseguiria sentir-se melhor, alegre como fora antes; se voltaria ao Universo Fantástico ou reveria John. Lembrou-se de seu último contato com o mar, do qual, ao ouvir o som das ondas e os sussurros do vento, pensara escutar a voz de John. Não poderia ser... Então, deixou que escapasse um longo suspiro que foi, no mesmo instante, acompanhado por outro ao seu lado, num sobressalto olhou para o lado e viu dois olhos verdes e brilhantes contemplando-a, soltou uma exclamação inaudível - John! - e ele apenas sorriu antes de desaparecer novamente. E em completo estado de choque, sem saber o que fazer ou pensar, Anna acrescentou novamente em sua lista - esquizofrenia.

19 de nov de 2011

Ser culto não é ser sábio

  Adquirir conhecimento, colecionar informações é algo irresistível e inevitável, contudo são raros aqueles que se dão por conta do mais importante, que é: o que você pode fazer com tais informações. Veja bem, inteligentes são todos, já os sábios são poucos.
  O crucial é compreender que ser intelectual não é ser sábio; que o conhecimento vem de fora, e a sabedoria vem de dentro, ou seja, o bom pensador não é aquele que possui a informação, e sim aquele que sabe agir corretamente quanto a ela.
  Os inconformados questionadores, repletos de dúvidas e perguntas sem respostas, são os mais sábios dos sábios, pois refletem sobre tudo, todo o tempo.
  Ser sábio é ser dócil, tratável e simples. É buscar em seu intrínseco o melhor de si para si e para os outros. É conviver e aceitar as pessoas como elas são; compreender sempre - e ser prepotente nunca. É ver a diversidade; analisar; admirar para ser admirado. Contemplar o novo; contemplar sempre. Perguntar-se, refletir, saber apaixonar-se pela vida e saber apaixonar-se pelo próximo. É saber exigir - e nunca o que o outro não poderá oferecer. Enfim, ser sábio vai muito além de ser culto, é ter o conhecimento na bagagem e saber exatamente em que lugar descarregá-lo.

15 de nov de 2011

Sound of the Sea

  Sentou-se na rocha mais alta, mais fria e solitária da praia. As ondas batiam impetuosas nas pedras menores, a escuridão da noite sem lua quase a cegava e Anna sentiu-se infinitamente superior ao mar. Contemplar aquela imensidão tornava igualmente imenso o seu vazio e talvez por isso ela sorria para si mesma - habituara-se muito bem ao vazio e já se sentia muito próxima do mar, única e inteira quando perto. Lembrava-se do sorriso dele e do som que fazia, não queria, todavia, lembrava. Os olhos dele a fitando tão demoradamente, com um interesse a mais, ela sentia e precisava urgentemente fugir disso. E fugia, como sempre, contudo o mar já não era o suficiente - deixava vazio o que era vazio, e o sentimento continuava em seu lugar. Anna precisava de todas as maneiras evitar, apagar, desaparecer com qualquer sentimento, pois já caíra em cortes profundos, dolorosos, feios e sujos demais, contudo o mar já não poderia ajudar. Ele, o dono dos brilhantes olhos castanhos claros, também sabia os truques da areia e das águas salgadas; conhecia a mágica de tudo que a rodeava, das flores no amanhecer, do gosto forte e amargo de café. Ela encontrava nele e com ele todas as cores do céu, principalmente nos fins de tarde -  azul, verde e laranja. Ele encontrou nela o que ela havia perdido para sempre, ele a encontrou no fundo do abismo, ele era perigoso. E agora, olhando a linha que separava o céu do mar, ela fazia uma prece - que o som das ondas levassem embora o som daquele riso que tanto amara, desde a primeira vez em que o ouvira.

12 de nov de 2011

Please tell me this is not for real...

  Karen observava seus pais atônita, eles a fitavam com lágrimas repletas de dor e angústia. Ela buscava em sua mente algo do qual ela tenha feito que carregasse tamanha gravidade, no entanto nada correspondia.
  Em meio à imensa confusão mental na qual se encontrava, ela foi surpreendida por um abraço pesado de sua mãe. - Minha filha... - dizia chorando sem disfarçar ou se controlar.
  - O que houve? - perguntava a menina impaciente. - Alguém poderia me dizer?
  - Karen - agora quem falava era seu pai, de modo mais contido do que a mãe. - Aconteceu algo terrível... - sem conseguir mais se controlar, deixou escapar um soluço, seguido de outro e mais outro e assim sucessivamente. E tentando achar um ponto de equilíbrio em meio ao pranto tempestuoso, ele prosseguiu - a sua irmã faleceu pela manhã.
  Nesse instante Karen teve a sensação de se transformar em fumaça. Ela esperou que eles consertassem o que acabara de ouvir, que desfizessem o engano, todavia, não o fizeram.
  Os pais piscaram e a menina já não estava mais lá. Ela correra para o quarto, em seguida se trancara em seu banheiro e ali permanecera, no canto, com a porta trancada, box fechado... e ela encolhida o máximo que seu corpo magro podia vergar-se. Não acreditava, tampouco se perguntava, pois realmente não acreditava. Não chorava ou respirava, não tinha força alguma. Apenas sentia, a pior coisa que já sentira na vida, chamar de dor não era o suficiente.Não queria recordar-se dos momentos vividos com a sua irmã mais velha, de todas as coisas fúteis que ela lhe ensinara, de todas as brigas tolas, de todas as críticas que faziam uma a outra por ciúme, por admiração oculta. Eram completamente iguais, contudo se obrigavam a ser totalmente diferentes. E tudo era sempre por amor.
  Karen não poderia controlar-se por muito mais tempo, exausta, deixou as lágrimas vencerem e os pensamentos tomaram-lhe conta. "Minha irmãzinha... não pode ser, por favor, não pode ser real" - ela sequer sabia a quem implorava, no entanto, implorava: que não fosse real - que a vida, naquele instante, não fosse real.

5 de nov de 2011

Paralelos

Olhos
Seus olhos
Meus olhos
Seus e meus olhos
Nossos olhos cruzaram-se
E no mundo nada mais existiu
Apenas nossos olhos cruzando-se
Minha poesia finalmente sumiu
Nossos olhos afastaram-se
Seus e meus olhos
Meus olhos
Seus olhos
Olhos

2 de nov de 2011

Sangrou, sangrou, sangrou e sorria como louca

  Perder-se de tudo e que esse tudo se afaste - o vácuo fica tão próximo que assusta. Aceitamos conformados o vazio intrínseco... ou não, ou nos rebelamos e buscamos de volta a ponta do cordão que quase escapou de nossos dedos porque na outra ponta há certa poesia que fugiu. Ver o pássaro tão de perto me fez bem por um momento, todavia, o momento acabou assim que ele se deu conta de meus olhos ávidos. E ele se foi, com o cordão no bico e a poesia nas penas verdes.
  É hora de se perder por aí, pé na estrada e fugir. Eu disse que o faria algum dia, sem ou com você, faz diferença e não importa. E agora eu vou, de peito aberto e coração protegido, pois se sangrei, já não sangro mais. E se chorei, se senti, se a saudade invadiu-me sorrateira e traiçoeira, não foi por querer, não foi por querer. Foi justamente por isso: por não querer. Não querendo, se tem o que não quer.
  Eventualmente eu vejo aquele pássaro, e quando acontece... é inevitável perder o cordão. É incontrolável, é um absurdo o modo com que eu perco o controle e perco a poesia. Eu perco a poesia o tempo todo. O tempo todo. E eu nunca quis perder, porém, sempre se tem o que não quer. Eu nunca quis sangrar, mas, sangrando eu consigo sorrir.

31 de out de 2011

Ela, sempre Ela

  A moça correu, correu, enquanto a chuva molhava todo o seu corpo. Ele observou, há uma distância exata e calculada. Longe o suficiente - sempre longe o suficiente. Ele percebeu o momento exato no qual a moça decidiu-se parar e o momento exato no qual parou. E a chuva caía, levando para longe toda a esperança, toda a ingenuidade. Maldosa e precisamente. Ele quis afastar-se, porém o querer é sempre em vão diante de uma vontade intrínseca corroendo cada célula sanguínea, esbravejando inconsequente, exigindo ser atendida, exigindo, exigindo e de tanto exigir, enlouquecendo-o. Ele quis afastar-se, no entanto, ela quis aproximar-se. Ela, que estando sempre lá, não o deixava pensar em outra coisa. Ela o acompanhava por longos meses. Ela tornara-se parte de sua vida. Ela, a vontade.
  Sem intenção, sem sinal de livre arbítrio, ele foi à moça. Esta se encontrava imóvel defronte a um apartamento no centro da cidade. Melancólica, escondia as lágrimas com a chuva, ela olhava para todos os andares. Qual seria? Sentia-se observada de volta. Sentia-se terrivelmente tola. Tola em frente àquele prédio.
  Uma mão tocou um ombro. A moça não precisou olhar para trás, ela, a vontade, estava lá, finalmente.
  Um corpo recostou-se no outro. E mais nenhum movimento. A moça não tinha medo, tampouco estava assustada. Não sabia, todavia, sentia - bastava.
  Um lábio sussurrou em um ouvido e então tudo ficou claro - eu não estou lá em cima.
  Ele ainda quis afastar-se, contudo a vontade ainda estava lá, mais forte e intensa.
  Por fim, venceu, ele foi embora, mais rápido do que chegou.
 
  Ela inspirou seus lábios. Ela suspirou seu nome.
  Ela, apenas ela, a vontade.

25 de out de 2011

La Neige Danse

(Talvez, com "Claude Debussy - The Snow is Dancing" tocando, faça algum sentido)
 

  - Clair... Clair... - Fréderic gritava enquanto corria atrás dela pelo campo de girassóis. - Clair - ele falava rindo, abraçou-a com amor e giraram e giraram até caírem tontos.
  - Não podes ficar agindo como um doido - ela o repreendia rindo mais do que ele - vê, amassaste todo o meu vestido.
  Então ele calou-a beijando-lhe os lábios. Então, deitaram-se um ao lado do outro, permanecendo com as mãos enlaçadas, observando o céu em meio aos girassóis. O vestido azul de Clair espalhava-se pelo intenso tom amarelado e o perfume de seu cabelo inundava os pensamentos de Fréderic
  - O que teu pai diria se nos visse? - Ele perguntou sem tirar os olhos do céu.
  - Nada agradável - ela respondeu apertando as mãos dele.
  - O que teu pai diria se eu pedisse a tua mão? - Fréderic levantou-se abruptamente, inclinando-se.
   Ela pasma não soube o que responder de imediato - abria e fechava a boca sem emitir som nenhum. Levantou-se e beijou-lhe a face, a fronte, os olhos e, por fim, os lábios.
  - Ei, acalme-se senhorita, este é o comportamento de uma dama? - Fréderic falou rindo, com uma expressão divertida e séria. - Foi apenas uma hipótese.
  Clair enrubesceu e lançou-lhe um olhar irritado que se desfez quando ele tirou um anel do bolso e pôs-se de joelhos.
  - Clair Fontaine, aceita te casar comigo?
  - Aceito, Fréderic Simon.
 
  Lágrimas escorreram pelos olhos de ambos. Eles não podiam conter-se, riam e choravam como crianças apaixonadas em um campo de girassóis.

21 de out de 2011

Underneath the stars

  O som do mar era o que de mais belo existia para seus ouvidos - mais do que a própria música, mais do que o próprio mar, mais do que tudo - os som do mar falava-lhe o que somente ela poderia compreender. O som do mar remetia-a ao próprio John, jamais esquecido.
  Anna, sentada na rocha mais alta, fechou os olhos, inspirou profundamente a brisa marítima e pensou intensamente em John, quando ouviu os sussurros do mar.

  - Abra a sua janela, exponha toda a sua alma, estou aqui, não pode ver?
  - Abra a sua porta, levante os seus braços, estou aqui, não pode sentir?
  - Você já não entende o que eu digo, você já não me sente tão intensamente quanto antes.
  - Você precisa de mim o tempo todo e eu estou sempre com você... acontece que agora EU preciso de você.
  - Ouça os sussurros quando abrir a janela de sua alma. Ouça o que lhe digo. Não se perca de mim.
  - Veja o mundo girar através de sua janela aberta. Veja o quanto eu preciso de você agora. Por favor, não se perca de mim. Eu sinto você se afastando. Não me deixe agora.
  - Por favor, volte para mim.
  - Nossas almas sempre foram uma só, não pode ver?
  - Não me deixe aqui sozinho, desolado, abatido. 
  - Apenas me observe no mais fundo dos oceanos... Eu simplesmente preciso de você agora aqui, não pode entender?
  - Observe as ondas, elas nos levarão para um lugar melhor. Um lugar claro e só nosso. Todo nosso.
  - E a distância nunca teve importância. E o destino nunca existiu, no entanto é para acabarmos juntos no fim, está escrito. 
  - Eu assisti você ontem, o dia todo. Meu coração está quebrado, porém está aberto para você... por você.
  - Eu sofro com imensa mágoa ao ver que você chora. Não chore! Oh, eu preciso que se abra, abra sua mente e alma. 
  - Você nunca estará sozinha, eu não deixarei, eu não deixarei. As coisas acabam, mudam, morrem. Contudo o que sentimos jamais morrerá, será sempre eu e você, exatamente como somos. 
  - Observe o céu, observe as estrelas. Estamos em universos diferentes sob as mesmas estrelas.
  Então Anna ouviu seus amigos gritando seu nome. A conexão foi perdida. Pôde sentir sua face inchada e sussurrou ao mar, antes de partir: Eu jamais lhe deixarei.

15 de out de 2011

Segura a onda, HG

  O cara mais poderoso do país andou querendo despertar o meu desejo por "ser alguém na vida", e eu jamais contestaria isto - pronto, tornou-se minha verdade absoluta: serei alguém na vida. Contudo a imagem que passaram prematuramente de uma pessoa considerada "alguém na vida" era tal: um homem muito rico, usando terno e gel no cabelo, ponto. Tornou-se para mim o símbolo de todo sentido de existir, ser alguém. Mas sempre ficava um borrão. Todas as grandes verdades devem ser retratadas como obras de arte de Da Vinci, Soar como Chopin ao piano. Essa soava com ruídos. Um dia eu tive um sobressalto: ela não quer dizer nada!
  Eu conheci muitos "alguéns na vida" que adoravam mostrar que eram "alguéns na vida" - no entanto, eles não eram nada. Nada. Nada. Nada. Besouros na parede eram mais do que eles.
  
   Eu encontrei um hippie que conhecia muito bem a si próprio, não tinha muito e tinha tudo, era plenamente feliz. Ele era o maior "alguém na vida" que existia.

   Ser alguém não tem nada a ver com dinheiro ou poder, tampouco com status. Ser alguém é ter uma alma e saber do real valor de sua existência. Ser alguém é conhecer a própria mente. E dentro de si encontrar a liberdade. "Conhece-te a ti mesmo" - já dizia Sócrates.

10 de out de 2011

A boy I never knew

  Ela abriu os olhos e se deparou com a parede rubra de seu quarto e a janela com a veneziana inteiramente aberta, o modo como ela costumava dormir - com débil claridade, observando o céu negro sem estrelas, imaginando o infinito. Anna lembrou-se de tudo, do Universo Fantástico e de John, todavia, como se tivesse sonhado, como se fosse um absurdo irreal. Como se não passasse de sua imaginação. A carta que John escrevera-lhe estava aberta na mesinha ao lado da cama, todavia, no Universo Real a carta estava em branco. Ainda assim, ela lembrava-se de cada palavra que estava escrita na carta e perguntava-se. "Isso é real? Não pode ser." Não era normal, ela deveria estar ficando doente, no entanto ela sentia John. Ela sentia-o mais do que qualquer outra coisa. Ela sentia aquele outro mundo imaginário. Não sabia o que pensar, não sabia o que era certo e errado. Contudo ela sentia como nunca aquele garoto que jamais conheceu.

  Eu sinto você em minha volta. Sinto a sua perfeição. Eu daria qualquer coisa para ter você aqui verdadeiramente ao meu lado - qualquer coisa. Eu adoraria ver seu sorriso, se é como eu realmente imagino. Se o seu olhar é tão verde e brilhante como em meus sonhos. A sua imagem e perfeição movem-me por turbulências e obstáculos da vida. Tempestades incessantes me encaminham para o mar, onde eu poderia encontrar-lhe. Assistir as ondas, perder-me em ti. Meu desejo e sonho. Parece que sucedeu há anos passados, mas o sinto forte e intensamente, como a mim mesma.
  Você, garoto que eu jamais conheci, é minha alma e minha mente. É todas as minhas sensações. E o ar passando sobre mim, é o seu abraço. E o som do mar é a sua voz, falando-me para esperar. É minha esperança e todos os meus desejos. É tudo o que eu queria. Minha alegria, meu lar. Talvez eu esteja enlouquecendo e nada disso seja realmente real. Não é real. É a minha alma e meu coração. Meu corpo e meu sangue. Minha vontade e minha fé. E eu passarei a minha vida a esperar o homem que eu nunca conheci - nunca conhecerei.

8 de out de 2011

Eu quis você

  Meus olhos fixaram-se em você, como quando cansados fixam-se em um ponto qualquer da parede e assim ficam por horas, meus olhos fixaram-se cansados em você. Os minutos passaram-se e eles continuaram imóveis em você. Por quê? Porque eu quis você. Por quê? Eu não sei. Eu quis você! Não demorou tanto quanto eu gostaria, você olhou, você viu meu olhar no seu, você viu e não quis ver e eu não consegui parar de olhar e você desviou, fugiu e do mesmo modo eu continuei, sem querer continuar. Você desviou e olhou e viu de novo e provavelmente se assustou e do mesmo modo eu continuei e continuei e continuei e tive medo que levasse uma vida para parar e não parei e pensei: eu quis você. E pensei no quanto eu o quis e que eu tinha de parar, todavia, não conseguia. Era um absurdo incontrolável lastimável lamentável um erro terrível - e eu quis você, eu quis você, eu quis você, antes de dormir, o mundo caiu, o céu ficou roxo, eu gritei, estava cega, surda, e com um gosto ruim de cigarro na boca, eu não fumo, e fumei e fumei e fumei e no final era a mesma coisa: eu queria você eu queria você eu queria você, com álcool, com gosto, eu queria queria queria queria. Então uma lágrima caiu, o som dela tocando o solo foi ensurdecedor, eu acordei e pude então desviar o olhar. Não, eu não quero - eu quis você.

2 de out de 2011

Scharlach

  Anna sentou-se no banco favorito dela e de John, no Jardim das Neves Brancas. Abriu a carta, como esperava não viu nada escrito, teria de dizer a palavra-chave para revelar as letras. Não poderia ser muito difícil para ela.
  - Memento Mori - não deu certo, seguiu tentando - Carpe Diem - filosófico demais, pensou, qualquer um do Universo Fantástico poderia adivinhar se fosse isso... já sei - vida - se não é vida, o que pode ser? John caprichou dessa vez.
  Alguma hora a resposta chegaria, ela sabia. Enquanto isso Anna observava a neve caindo incessante no jardim e sentia o aroma - sim, o aroma - esse era o mais incrível daquele lugar que infelizmente ela teria de deixar para sempre, como o próprio nome dizia, o Universo Fantástico era mesmo Fantástico, e o poder da mente era a lei principal dele, por isso era tão perigoso e fascinante ao mesmo tempo, todo desejo mais profundo do fundo do pensamento era realizado, como por exemplo, neves caindo em pleno verão em um jardim de uma instituição mágica - neves que tinham aromas. Anna estava lembrando-se da primeira vez que foram ali, não tinham nem dez anos de idade e descobriram tal fato, assustaram-se: "esta neve tem cheiro!" Eles exclamavam sem parar muito assustados e riam mais ainda, então o diretor Tarsch apareceu e explicou-lhes que "a neve exala o aroma daquilo que mais se gosta nos mundos." John disse que sentia o cheiro de flores silvestres e Anna disse que sentia o cheiro de grama molhada, com vergonha de assumir a verdade: sentia o aroma dos cabelos dele.
  Os anos passaram-se e o amor deles por aquele jardim aumentava cada vez mais, passavam horas sentados ali, observando a neve - nas quatro estações - e falando sobre qualquer coisa. Gostavam dos sons das palavras, Anna recordava-se do dia em que passaram horas pronunciando a palavra e cor preferida deles - escarlate, em várias línguas: "escarlata (espanhol), écarlate (francês), scarlatto (italiano), tulipunainen (finlandês), scarlet (inglês)" e o quanto era engraçado quando falavam em alemão: Scharlach. 
  - Scharlach - Anna pronunciou sem pensar em voz alta e percebeu que letras começaram a se revelar no papel em sua mão - A carta estava pronta para ser lida!
  
  "Anna, não imagina a falta que está fazendo. Não pensei que fosse tão terrível deixar uma parte minha para trás, quanta inocência carregamos em nossas mentes. Tarsch deve ter-lhe dito o quanto nossas mentes são especiais, tão especiais que não podem ficar próximas - ironia estúpida do acaso. Eu estou, como você já deve saber, na Ilha de Mares Vermelhos, você iria adorar este lugar, ele é bem mais quente que a Ilha de Neves Brancas, é claro, enquanto aí neva, aqui queima, você amaria isso aqui. Imagine admirar uma imensidão no fim da tarde, com o céu e solo vermelho, aqui é assim. Nas proximidades do colégio preparador de mentes daqui, existe um lago enorme de águas densas e escarlates, seus olhos encheriam-se com esta beleza, uns dizem que ele não tem fundo, outros me contaram que quando mergulhamos, se tivermos bons olhos e conseguirmos enxergar alguma coisa, vemos aquilo que desejamos, como vultos vermelhos - eu veria você ao meu lado. Isso me faz lembrar o jardim de Neves Brancas e o aroma da neve. Eu nunca lhe contei, entretanto, a neve tinha o cheiro de seu cabelo, para mim. 
  Minha garota, acredito que quando estiver lendo esta carta, Tarsch já terá dito-lhe que não podemos permanecer no mesmo universo. Isto é um absurdo, eu sei, mas não tive outra escolha, não depois de descobrir o que eu descobri. Nós somos especiais, sabia? Especial no pior sentido, pois se permanecermos fisicamente juntos, coisas terríveis aconterão. Eu não posso contar-lhe absolutamente tudo, pois apenas um de nós pode saber do segredo, o outro deve fazer a sua parte e tomar seu lugar no Universo Real - é a sua parte, e se você voltasse sabendo do segredo, enlouqueceria. Infelizmente para você, mais infelizmente para mim que fico, carregando esse peso sozinho, o peso de saber de tudo e não poder fazer nada. A verdade é que quem pode fazer alguma coisa é você que não sabe de nada, pois o real controla o imaginário/fantástico, apesar da verdade pertencer ao imaginário. É essa a questão, eu sei do segredo, mas a peça chave está em sua mãos, mesmo sem ter ideia do que seja. Quando Tarsch escolheu-me para ficar aqui, ele sabia que você era mais ligada à realidade do que eu, então seria mais fácil para você voltar à vida real. Olha, as Ilhas Negras e seu povo estão crescendo e ficando cada vez mais poderosos, você sabe o quanto eles são maus e usam o poder fantástico de suas mentes para fazer coisas terríveis nos dois universos, eles querem espalhar a treva, eu vou lutar aqui no Universo Fantástico contra eles, entretanto, a escuridão também já chegou no Universo Real, na Terra, em nosso país, em nossas casas. Todos eles estão tomados pela ignorância e pela vileza. Anna, é por isso que você tem de ir, você tem de combater isso, levando um pouco de nossa fantasia consigo, levando nossa clareza mental e boa filosofia. Nós somos os escolhidos, essa era profecia. Nós somos os escolhidos, nós temos a mesma alma, literalmente a mesma alma, por isso sempre nos assombramos com o fato de sabermos exatamente o que o outro sentia, e não acreditávamos quando penetrávamos um no intrínseco do outro (algo impossível para dois seres humanos), porém foi um erro termos nascido na mesma época, agora cada um tem de estar em seu lugar, em universos separados. Eu aqui no imaginário e você precisa voltar ao real, o quanto antes. 
  É inacreditável, não é? Há poucos anos atrás, conversávamos no mundo real, no quintal de sua casa, sob um pé de laranja, planejávamos montar uma banda em um futuro remoto, quando descobrimos o Universo Fantástico e começamos a passar mais tempo aqui do que na Terra, chegamos a pensar que poderíamos viver aqui para sempre - bom, eu vou, contudo o seu lugar não é aqui. Entretanto, você precisa saber que essa nossa separação é apenas física, afinal temos almas absurdamente interligadas e manteremos o contato sempre que você desejar isso profundamente, pois lembre que você controla a sua mente, logo... todo o imaginário e eu passarei a fazer parte desse. Você precisa manter o contato comigo e com o Universo Fantástico, para não ficar como as outras pessoas "reais". Não se perca de mim, por favor, é o que peço. Sabe o poder das estrelas... onde você olhará e me verá observando os principais momentos de sua vida. Sabe o poder do oceano... onde estarei, onde poderá encontrar-me quando desejar. Sabe o poder dos céus... é o nosso poder. Estarei com o corpo distante, e a mente logo ao seu lado - a distância não separa, as antenas parabólicas são a prova. Não fique paranoica... e pense sempre em mim que estarei com a alma sempre em você. Em breve, quando menos esperarmos, encontraremo-nos. E enquanto isso não acontecer, lembre: olhe-se no espelhos, seus olhos são meus olhos." 

  Anna secou as lágrimas, deixando a manga de sua blusa vermelha encharcada, quando sentiu uma mão em seu ombro - era Tarsch, ele também tinha os olhos molhados.  
  - Hora de ir para casa.

27 de set de 2011

Neves Brancas

  Anna observava a chuva forte através da janela, sentada em uma das poltronas do salão principal da Instituição da Ilha de Neves Brancas. Ela refletia sobre o Universo Fantástico, esse poderia ser o último ano em que ela permaneceria nele, pois ela teria de se decidir se voltaria ou não para o Universo Real (mais especificamente: para a Terra) definitivamente porque, segundo as tradições, quando alguém se forma na escola real e na escola fantástica, muda de fase em sua vida (transmuta da inocência infantil para uma vida adulta e séria e com menos inteligência) e não pode permanecer nos dois universos, então fica a grande questão: vida real ou vida fantástica? - Alguns trocam o termo "fantástico" por "imaginário". A maioria sempre escolhia a vida real, pouquíssimos conseguiam permanecer no Universo Fantástico, não se pode dizer que seja uma escolha própria, e sim questão de vocação: ter uma boa mente ou não - não foi definido de qual se trata a boa mente ainda, se a que escolhe ficar ou a que escolhe ir. Anna pensava nisso, todavia, não precisava - ela sabia muito bem o que queria e era continuar no mundo fantástico com... John!? Era exatamente esse o problema, ela não queria pensar nele, queria evitar lembrar o que ouviu pela manhã, em uma das aulas de filosofia (era só o que estudavam nesse Universo Fantástico: ciências humanas, principalmente a mente e todo seu fascínio).
  - Então, John, ganhou uma vaga pra estudar na Instituição da Ilha de Mares Vermelhos? Incrível. John é realmente dono do maior potencial que já vi.
  - Sim, ao que parece ele ganhou a vaga ano passado, mas não queria ir, não se sabe o motivo ao certo, mas eu, como muitas outras pessoas, acredito que seja por que... - Então, a menina que comentava olhou para Anna e não concluiu, não precisou.

  Anna sabia da vaga desde o dia em que ele ganhou. John não queria ir, pois a Inst. Mares Vermelhos, apesar de ser a melhor escola preparadora de mentes fantásticas daquele mundo, aceitava apenas rapazes, as meninas com potencial equivalente eram recrutadas para a Instituição da Ilha de Pedras Preciosas, Anna era uma delas. Contudo, eles não queriam separar-se, então permaneceram em Neves Brancas, sem contar que eles adoravam aquele lugar. Foi uma terrível surpresa ela descobrir que ele foi embora, sem se despedir dela, deveria haver alguma explicação. Enquanto permanecia perdida em seus pensamentos, os outros conversavam animadamente em sua volta, falando sobre suas férias no Mundo Real e como as coisas nunca mudavam por lá. Alguns diziam não achar graça nenhuma na vida da Terra e só encontrar a felicidade no Fantástico, outros diziam preferir lá e não sabiam o que ainda faziam ali, naquele mundo imaginário e estúpido (esses em breve iriam embora de vez para suas vidas reais e nunca mais voltariam), tudo se tratava de opiniões, cada mente era única.
  - Anna, o diretor Tarsch quer dar uma palavra com você - avisou Rose, a conselheira.

 Anna entrou na sala da direção, era muito aconchegante, fresca e com uma janela enorme, com vista para o jardim. Ela e John adoravam aquele jardim, o Universo Fantástico tinha as quatro estações muito bem definidas e agradáveis, porém o jardim das Neves Brancas permanecia durante todo o ano coberto por neve, como um infinito inverno rigoroso. No ápice do calor veranil, Anna e John não saiam do jardim. Pensar nisso a deixou triste.
  - Neste momento já deve estar sabendo sobre John, certo? - O diretor Tarsch falou calmamente com sua voz suave. Ele tinha os olhos azuis, os cabelos e barba espessos e brancos, o rosto rosado e redondo. Lembraria um duende se não fosse tão grande e gordo. Anna achava-o parecido com o Papai Noel, apenas John concordava.
  - Sim, já.
  - Quero que saiba que fui que o persuadi a ir embora daqui - Anna olhou-o assustada, estranho ele dizer isso a ela, daquela maneira. - Mas preciso explicar-lhe meus motivos, já me basta o que fiz antes. Chega de mentiras por aqui - Tarsch era conhecido pela ótima direção e por manter a paz constante em sua instituição, o que era muito difícil naquele Universo em que o poder vinha completamente da mente e todos poderiam tornar realidade seus pensamentos mais profundos e intensos. Tarsch era admirado inclusive pelos diretores de outras ilhas. Contudo, muitas vezes ele conseguia o que queria mentindo ou ocultando alguns fatos. Ele mesmo dizia que "nem sempre a verdade é bem-vinda  e nem todos a merecem." E por pensar assim, no ano interior ele mentiu para Anna e John e escondeu fatos muito importantes, que acabou afastando os dois, causando estragos piores do que se eles permanecessem juntos. - Aprendi que você e John estão prontos para a mais difícil sinceridade, são merecedores de toda honestidade e, de qualquer forma, é impossível ocultar algo de vocês por muito tempo. Não com essas mentes perspicazes que possuem.
  "Anna, você e John simplesmente não devem, não podem ficar juntos. - Antes que ela pudesse questionar, ele continuou - há uma profecia que fala de vocês dois, trata vocês como uma promessa, uma grande promessa de acabar com toda a escuridão do Universo Fantástico e, assim, do Universo Real também. Porém, nessa profecia vocês não apareciam no mesmo lugar, tampouco na mesma geração, entende? O tempo errou com vocês, fez de vocês amigos íntimos, quando deveriam ser completamente distantes. Vocês são como um só, e não deveriam ser. Não existe lugar para uma coisa assim em universo nenhum, duas pessoas que sejam como uma só, não como amantes, almas gêmeas e todos esses mitos, e sim como uma só alma literalmente. Isso sempre foi algo impossível, até vocês surgirem. Anna, vocês não devem ficar juntos.
  - Mas o que de tão terrível aconteceria? - Anna estava confusa.
  - Eu não posso dizer-lhe, sinto muito. - Vendo que ela parecia perturbada, continuou - eu contei ao John, ele entendeu e decidiu trocar de ilha, estudar sua mente em outro lugar, para tornar as coisas mais fáceis para você. Não pense que ele foi embora sem muito pesar, sem hesitar, ele não queria ir, mas depois do que eu contei a ele, ele não teve escolha. É um ótimo rapaz, dono de uma mente fascinante e fez o que era melhor para todos. Entenda, apenas um de vocês poderia saber o segredo e continuar aqui, o outro deveria ir para o Universo Real sem ter conhecimento nenhum sobre isso.
  - Está dizendo que é isso que eu devo fazer? Voltar a minha vida real? deixar o meu mundo fantástico, pois eu e John não podemos ficar no mesmo universo?
  - Exatamente, desculpe.
  - E por que diabos John tem de ficar e eu ir? Por que não é o contrário? - Anna estava muito abatida, era informação demais. E a vida real não era exatamente o que ela chamava de vida.
  - Na verdade, poderia ser qualquer um, dependeria apenas de quem soubesse do segredo. Se eu contasse o fato para vocês dois e deixasse que decidissem entre si quem permaneceria nesse Universo e quem deixaria tudo isso para trás, eu tenho certeza que seria muito penoso para ambos, pois a dor de se separarem já seria imensa e não chegariam a acordo nenhum. Então eu fiz a escolha por vocês, posso ter errado, mas fiz o que deveria ser feito, John também o fez, falta você, pois ninguém pode obrigá-la a nada, eu só estou dizendo-lhe as condições.
  - Se John, que sabe desse segredo e toda a verdade que eu não sei, achou que o melhor seria separarmo-nos, então confiarei nele como sempre. Irei embora, sem vontade nenhuma de deixar esse lugar, mas voltarei definitivamente para a minha vida real, meu país, meus pais, entrarei numa universidade e terei uma vida normal.
  O modo com que ela proferiu a palavra "normal" penalizou o diretor e o fez pegar uma carta na gaveta de sua secretária.
  - John deixou comigo para que eu lhe entregasse, confesso que pensei em não o fazer, pois o fato de John ter entendido e feito o que fez sem contestar deixou-me aliviado, e eu tive medo do conteúdo desta carta mudar o rumo certo do qual as coisas estão tomando. Mas acho que não posso controlar as coisas desse jeito, não quando se trata de Anna e John - a maneira com que disse seus nomes, fez Anna sorrir pela primeira vez naquele dia; um sorriso triste, ainda assim, sincero.
  - Diretor Tarsch - disse Anna pegando a carta e observando que estava lacrada -, quero deixar claro que caso o senhor não me entregasse a carta, eu compreenderia, pois o senhor quer e faz sempre o melhor para esta instituição e, se puder, por todo Universo Fantástico. Mas como o senhor confiou em mim o suficiente para entregar algo do qual não faz parte de seu conhecimento, correndo o risco de revelar coisas que não deveriam ser reveladas, saiba que minha admiração pelo senhor triplicou, mesmo que isso não tenha importância agora, um dia poderá ter: o senhor é umas das pessoas mais admiráveis que conheço.
  Ela se levantou e já ia pedir-lhe licença quando ele falou.
  - Anna, estou olhando dentro de seus olhos negros e eu juro é uma coisa absurda e incrível ao mesmo tempo, vi isso apenas ao olhar dentro dos olhos verdes de John, enxergo a alma de ambos, ela é limpa, completamente pura, é a coisa mais fascinante que já vi. Segurei-me para dizer isso desde que vocês pisaram em Neves Brancas: vocês têm uma mente brilhante. É invejável. E eu realmente me sinto péssimo por ver vocês dois se separarem, acredite, estou pior do que pareço. Entretanto, é necessário. Anna, sobre o fato de você compreender, eu não esperava outra coisa. Agora, ter a sua admiração é uma das melhores coisas que já ouvi, espero não lhe decepcionar.
  Eles trocaram um sorriso contido de pura compreensão e ela se retirou para o jardim. Ela tinha de se despedir antes de deixar o Universo Fantástico para sempre - era estranho pensar assim, pois ela nem sabia o motivo disso tudo, apenas confiava na decisão de John e na única certeza: não poderia ficar perto dele.

19 de set de 2011

Até o fim

  - Você deveria continuar a tentar levantar-se - insistia Nick.
  - Você diz "de novo"? - Joana perguntava incrédula. - Acho que já tentei demais e caí todas as vezes, ando caindo o tempo todo.
  - Deveria continuar tentando - ele tentava ser persuasivo com seus olhos castanho-esverdeados e sua voz penetrante. - De novo e de novo e de novo e de novo.
  - Eu já excedi nos recomeços, sinto muito lhe decepcionar - Joana o fitou demoradamente, para mostrar que não absorvia seus efeitos persuasivos e ele baixou os olhos. - Eu simplesmente não posso mais.
  - O que pretende, desistir? - Nick perguntou com falsa indiferença, e em seguida olhou-a novamente, com maior intensidade e continuou - acredita mesmo que conseguirá alguma coisa desistindo?
  - Não conseguirei de qualquer forma - Joana respondeu áspera.
  - Está enganada. Se eu desejo encontrar algo que vale a minha vida e busco uma vez, não acho e desisto de procurar, então nunca encontrarei e terei chegado ao fim, finalmente, e de mãos vazias. No entanto, se eu continuar procurando, sem nem pensar em desistir, não importa que a busca torne-se incessante, que demore ou que eu nunca encontre o que procuro; o que realmente importa é que eu não terei me entregado nem chegado ao final, pois estou lá, indo à luta, pagando pra ver, para um dia poder realmente ver.
  "Afinal, você quer desistir pra quê? Para ter a certeza de nunca conseguir? O que você conseguirá com isso? Você pensa que a sua vida acabou, que nada mais vale a pena. Depois de tudo, quer abandonar o barco agora e infelizmente você tem esse direito, todavia, saiba que desistindo tudo estará perdido, acabado, desaparecido, no fundo do mais profundo do abismo dos oceanos, com a esperança socada e afogada.

  Joana refletiu sobre todas as palavras ditas por Nick. Ela estava convicta de que sua vida estava arruinada, o pior acontecera, era realmente o fim de tudo. Ela queria entregar-se. Contudo, se era realmente o fim, o que fazia com que ela não desejasse a própria morte? Ela não sabia ao certo, porém ainda existia uma certa vontade de viver. Talvez Nick estivesse com a razão e o sentido da vida fosse continuar tentando, levantando-se, subindo sem se importar em chegar ao topo, apenas subir. Ela, como qualquer outra pessoa, é muito mais capaz do que imagina. E não passou por tantas situações para ceder assim. Enquanto houvesse um pouco de vida, ela não se entregaria, iria até o fim sem desistir.

14 de set de 2011

Carta I - o adeus que faltou

  Eu realmente precisava saber que tipo de homem você é hoje. E mostrar-lhe a mulher que estou me tornando. Talvez você se orgulhasse ou, ao menos, compreendesse.
  Eu ainda me recordo perfeitamente, era 2002, tínhamos sete anos de idade quando você entrou naquela sala de 2ª série daquela pequena escola. Era incrível como éramos tão iguais e desiguais ao mesmo tempo. Compartilhávamos desde muito cedo a paixão feroz por livros, animes e novelas de vampiros. E lembro de momentos singelos, eu e você subindo árvores, cantando Faroeste caboclo, Era um garoto e Anna Julia, e pergunto-me se você ouve Legião, Engenheiros ou Los Hermanos. Pergunto-me o que você deve estar ouvindo agora, talvez ópera, parece estranho, mas nós gostávamos de ópera quando não havia nada passando na televisão nas tardes sem aula. Mais estranho ainda, era você cantando ópera e eu nunca consegui dizer que você cantava tão bem quanto uma mulherzinha, Júnior, eu achava engraçado, umas das poucas coisas com que você conseguia fazer-me rir - já que a piadista sempre fui eu. Nós éramos terríveis com os professores, a culpada sempre era eu, claro, porém era você que fazia tudo o que eu queria. Nós éramos realmente uns diabinhos, e, inacreditavelmente, sempre fomos os melhores alunos da classe, lembra? Você era o melhor em história e eu em matemática. Entretanto, as coisas sempre mudam, pois eu aprendi a gostar de história e hoje entendo que é muito fácil ser boa na matemática... do ensino fundamental - e gostaria de saber o quanto você mudou.
  Nós dois tínhamos gostos extremamente parecidos, lembra que reluzíamos em dias de ir à biblioteca? E depois sentávamos no banco sob as árvores e líamos juntos a mesma página. No entanto, sempre fomos opostos um ao outro. Eu era uma menina muito durona e você um garotinho muito sensível. Recordo-me, infelizmente muito bem, daquela vez em que eu lhe bati, e você saiu derramando lágrimas, não sabe, pois eu não lhe disse, o quanto eu me arrependi, você era tão frágil e possuía olhos gigantes e puros. Você era tão inocente, quando eu aparecia toda racional e lógica. Você diversas vezes me irritou por ser tão correto, bonzinho e educado, eu nunca gostei de pessoas certinhas, e posso até prever o que você diria se me visse hoje: "Você não pode beber tanto assim, olhe o que está fazendo contigo mesma, está estragando tudo. Não pode ficar torturando-se assim por uma vida inteira só pelo que aconteceu, as coisas passam, mudam e você tem de crescer e não se fechar dentro de si e ficar bêbada toda noite e se comportar como uma qualquer e não deveria falar assim com seus pais também..." mas a verdade é que você sempre foi muito mais inteligente do que eu, e muito melhor, em todos os sentidos, e eu sempre admirei demais tudo em você, o problema é que eu nunca lhe disse isso. Eu nunca lhe agradeci.
  Sabe, garoto, falta pouco tempo para os nossos 17 anos e eu estava lembrando-me de seis anos atrás, em uma de nossas conversas, na qual você disse que "quando fizermos nosso 17º aniversário, se tudo correr bem e não falharmos, estaremos entrando na universidade juntos." E, sabe, eu não sei se conseguirei entrar na universidade, por mais que eu esteja esforçando-me para isso, eu simplesmente não sei. De qualquer forma, por enquanto eu não falhei, evitei os vermelhos e passei longe de qualquer exame, como eu prometi, como nós prometemos, eu não saí do rumo e queria saber se as coisas estão dando certo para você. Queria saber qualquer coisa sobre você. Por isso comecei a escrever esta carta, com a certeza de nunca poder entregar-lhe.
  Eu queria saber o que você pensou quando eu fui embora, quando você percebeu que eu não voltaria, por quanto tempo você lamentou, pois eu sonhei com você por semanas e semanas infindáveis. Júnior, eu nunca tive culpa, eu simplesmente não sabia e me pergunto todos os dias o que você pensa disso tudo, hoje, se é que pensa. Eu pressenti naquele dia - quando eu pedi para você aceitar meu presente e ficar mais um pouco, você deveria ter aceitado e ficado, por uma briga boba entre duas crianças você foi embora mais cedo do que eu esperava, e eu simplesmente pressenti, você deveria ter pressentido também. Eu ressalto aqui: eu não tive culpa alguma. Foi algo muito cruel da parte de meu pai, veja bem, eu entrei no carro e ele disse: "Se despediu dos seus colegas?" "Não, por quê?" "Porque pra essa cidade, a partir de amanhã, você não volta mais." Júnior eu caí, foi um soco profundo, fundo, fundo. E foi isso, e eu queria explicar-lhe o que aconteceu, dizer-lhe adeus, ao menos - não tive chance. E desde esse dia nasceu uma imagem em minha mente, que aprecio muito, apesar de triste, que é de você ouvindo Yesterday dos Beatles e perguntando-se se um algum eu voltarei. E desde esse dia eu me pego ouvindo Patience da banda Guns N' Roses e prometendo que voltarei a essa cidade, baterei à porta da oficina de seus tios e perguntarei por você, para ao menos lhe dizer o adeus que faltou.
  Nós éramos apenas crianças, sim, eu sei, o drama é desnecessário, no entanto, o tempo fez de mim uma pessoa extremamente dramática e sentimental, inacreditável, não? Nós não passávamos de duas crianças e tudo o que eu dissesse na época seria apenas tolices infantis. Contudo, o tempo passou e hoje eu posso afirmar com convicção: o que eu senti era amor, simples, sincero e puro - o que só pode acontecer em corações ingênuos. Agora vejo o meu interior: nada ingênuo, nada puro. Talvez se eu lhe encontrasse novamente, então, eu pudesse ressuscitar o que há muito morreu em mim.
  Júnior, eu não falei pra mais ninguém sobre o John - até tentei, porém eles nunca demonstraram compreender verdadeiramente o que era o John. Só você.
  Só você. E eu sinto sua falta e das coisas estúpidas que fazíamos. E eu olho uma foto que eu tenho contigo, você fantasiado de príncipe e eu de bruxa - daquela peça da qual participamos - "A Bela Adormecida", se não me engano. E eu sorrio ao olhar esta foto. Eu sorrio ao lembrar de você. Éramos apenas crianças e isso não importa, pelo contrário, faz tudo ser ainda mais especial e mágico. Você sempre caía nas minhas "mágicas" falsas. Você sempre foi o ingênuo e eu sempre cruel. E eu sempre lhe amei, meu amigo.
  Eu prometo a mim mesma que um dia vou encontrá-lo por aí, em qualquer esquina e convidá-lo para tomar uma cerveja e ouvir Led Zeppelin, sem saber qual seria a sua resposta, sem saber se você bebe ou que estilo musical você gosta - sem saber que tipo de homem você se tornou. E quer saber? Não importa, eu sempre quis a sua companhia, independente de tudo. Eu sempre precisei de você para crescer e tornar-me uma pessoa melhor e agora... eu não cresço mais.

8 de set de 2011

O dia de minha utopia

Ei, está havendo uma crise de sentimento
Não sei mais
Quem é
O que é
Como é que se sente.

Hitler revelou seu pensamento
E era justamente sobre sentimento
E falou que se casaria
E falou "eu me sinto doente"
E perguntaram "o quê? Casamento?"
(E ninguém questionou a doença)
"Sim, e ela se chama Judia"
E todos assombrados olharam
E os narcisistas o acusaram
Seu crime era o arrependimento
E Hitler falou "é verdade!"
E seus olhos encheram-se de bondade
E ele morreu no outro dia

O dia de minha utopia.

7 de set de 2011

Borboletário

Inspira: corpo de volta à superfície. Expira: imerges, como sentes.
Inspira: sobes. Expira: Desces
Inspira. Expira.
Inspira.
Expira.
Respira.

A água entorpece meu corpo
Como ninguém mais o faria.
E a borboleta que beija meu rosto,
Sente meu gosto
E tão vazia,
Que voa.
Tão leve, vazia, vadia
Voa.

3 de set de 2011

Um novo jornalismo é possível

 Nossa terra é rica, sim senhor, e não estou falando em cultura, não. O Brasil tem muito dinheiro, estamos cientes disso, apesar de ser uma coisa distante da maioria de nossa gente. E o dinheiro rola e rola solto a todos que têm a sorte de colocar suas mãos ávidas nele. Sorte ou perspicácia? Descaramento! Todos nós estamos cheios disso, desse descaso dentre os poderosos. Fala-se diretamente de políticos? Falar-se-ia se não fosse algo tão repetitivo. Portanto, é do poder que a mídia exerce sobre nós que se fala agora.
 Então, todos se lembram do famoso termo: "alienados" e é exatamente esse o ponto. Os políticos são os reis dos alienados, e os reis nunca carregaram a culpa de toda a sujeira sozinhos.
 Há muito tempo atrás, buscando apoio na história, nós, o povo, a duras penas conseguimos o direito de votar. Para isso, nossos antepassados esforçaram-se ao máximo e sofreram de modo absurdo. E, por fim, conseguimos - homens, mulheres, pobres ou não, todos votamos diretamente em quem desejamos que nos represente. Então, já fazemos o que temos de fazer, votamos e não temos culpa se não há um mísero vivente que seja honesto para agir como nos confiou que agiria, diante de tal fato estão certos os que votam nulo - este é um grande e absurdo engano. Trata-se daquele conceito falso e preguiçoso de que "todo político é corrupto" -  no fundo sabemos que não é bem assim. De qualquer forma, aquele que vota nulo ainda é menos ignorante do que aquele que vota na mais bela propaganda ou no melhor discurso, caindo nas garras da mídia; ou aquele que vota em um palhaço por "protesto". Ainda assim, existem outras possibilidades.
 O primeiro grande passo: lutar contra a mídia. Sim, a mídia e os políticos corruptos fazem parte da mesma corja - um ajuda o outro e o resto que se dane. Os políticos com o dom da desviação de verba pública conseguem um ótimo tempo no horário político e não sofrem, como os outros políticos que acabam tornando-se anônimos, aquela distorção de tudo o que falam, e, se tudo "correr bem", grande parte da verba desviada pára nas mãos que controlam a mída - muito espertos. E os jornalistas, que estão lá para representar-nos e deixar-nos cientes de tudo o que acontece, deixam o dinheiro falar mais alto e os mais "respeitáveis" nunca citam nada sobre os escândalos que prejudicaria o protegido corrupto - os atos secretos continuam secretos. Infelizmente as coisas são realmente assim, os jornalistas deixam-se corromper. Muitos deles acreditam fazer um grande trabalho em seus programas de fofocas perseguindo celebridades - mesmo que a maioria dos famosos (recuso-me a usar banalmente a palavra "artista") realmente goste de ter sua vida exposta a toda população, se assim não fosse, não existiria Big Brother Brasil (nada concretamente contra este programa, apenas o meu bom senso).
 Portanto, cabe a vocês, jornalistas, não deixar-se vender; lembrar-se de seu papel: são os representantes do povo, este povo é cego e vocês são nossos olhos. Veja bem, enxergamos aqui o que nos mostra lá dentro. Vocês têm o acesso, o poder de seus microfones e da câmera ao vivo, o reconhecimento e o respeito, então, avante soldado. Do contrário, continuarão raros aqueles que fazem uma pesquisa relevante antes de votar, analisando tudo que foi feito antes pelo candidato e não acreditando cegamente em tudo que vê na televisão; muitos aqueles que por falta de opção votam nulo, desperdiçando a chance de tentar mudar alguma coisa; em demasia os ignorantes que votam no que já foi eleito há muito tempo pela mídia.
 Se um novo jornalismo é possível, um novo governo também o é - e está dito.

28 de ago de 2011

Jupiter's lament

     Alexandra e Kate mais riam do que conversavam, radiantes por finalmente chegarem à praia. Estavam esperando por Anna no quiosque, esta ficara para trás olhando detalhadamente tudo do local, cada rocha, cada pedaço de areia, cada onda, sempre fascinada com tudo. Então Alexandra viu à mesa ao lado um grupo com três homens e reconheceu um deles, o mais velho, ao que parecia.
     - Olha quem está ali - Alexandra apontou discretamente para o homem de boné, barba e camiseta azul-marinho. - Eddie.
     - Ah, não, Anna não vai gostar nem um pouco de vê-lo quando chegar.
     - Não, acho que não terá problema algum. Ela própria me contou que a poucas semanas atrás conversou civilizadamente com ele e se entenderam.
     - Mas ela não me disse nada e, sinceramente, eles podem ter se entendido, mas eu não acredito que esteja tudo bem entre eles, não realmente, se é que me entende, depois de tudo que aconteceu...

     Calaram-se ao ver Anna aproximar-se reluzente e corada, ainda mais radiante do que as duas, esse tipo de passeio fazia muito bem a ela.
     - E aí, meninas - disse Anna sorridente. - Lindo este lugar, esta praia é maravilhosa. Adorei principalmente aquela parte ali - apontou para o lugar mais distante e isolado, onde findava a praia e iniciava-se um deslumbrante verde com a precedência de algumas rochas.
     - Você! sempre preferindo o que é deserto e fugindo do movimento - disse Kate divertindo-se. - Justo o movimento que é o mais importante.
     Ela olhou para Alexandra, as duas estavam apreensivas, não sabiam como falar que Eddie estava logo ali, ao lado. Anna poupou-as do constrangimento, pois a viram olhando repentinamente na direção dele e ficando imobilizada. E de modo mais estranho, ele olhara ao mesmo tempo e teve a mesma reação que ela. As duas assistiam constrangidas os dois fitando-se com a face surpresa e os olhos fixos um no outro. Então, Anna voltando ao normal primeiro, fingiu que não vira nada e olhou-as completamente perdida.
     - Eu esqueci... tenho de ver uma coisa na pousada, eu volto mais tarde - ela hesitou quando percebeu que as suas amigas sabiam o que estava acontecendo e que podia confiar nelas. - Eu não quero ficar aqui agora, quero dar uma volta, admirar um pouco mais o mar. Vocês entendem...
     As duas concordaram compreensivas e ela foi ao encontro das sublimes águas salgadas que tanto amava. Estava assombrosamente encantadora molhando seu vestido de uma cor idêntica a do mar; o vestido misturava-se às águas e só era diferenciado pelos desenhos amarelos e levemente alaranjados de girassóis. De repente Eddie também se levantou e foi em direção ao mar, mais especificamente, em direção à Anna. As duas amigas olhavam estupefatas, pensando que ele iria falar com ela, todavia, ele parou com alguns metros de distância dela. Ele ficou um certo tempo assim, contemplando-a enquanto ela contemplava o infinito que se seguia à sua frente. E veio em sua mente pensamentos turbulentos: "será que as coisas poderiam ter sido diferentes? Se eu tivesse me entregado ao desconhecido, como sei que ela faria...? Eu poderia ter ao menos tentando. Não, não posso acreditar sinceramente nisso. Nada que quiséssemos seria permitido. Simplesmente não era permitido... " Ele refletia tristemente, com um sorriso tolo no rosto e um brilho intenso nos olhos. Então, como se ela sentisse que estava sendo vigiada, olhou subitamente para trás e nesse momento a expressão de antes voltara e os dois permaneceram quietos, olhando-se entorpecidos e assombrados. Contudo as feridas que ele mesmo deixara nela, agora cicatrizadas, fizeram dela forte, por isso, ela foi a primeira a retornar a si. Cumprimentou-o com um simples "olá" e forçou inultimente um sorriso amável, virou-lhe as costas e foi embora. Deixando-o abismado, arruinado como muitas vezes o fizera.
 Eddie não pôde mover-se por longos segundo e, então, caiu de joelhos com as lágrimas suavemente escorrendo em seu rosto, amenizando a dor. Observou-a afastando-se cada vez mais, deixando marcas na areia branca e em seu íntimo. Viu-a ir cada vez mais longe, como a gravidade, o ar e tudo que o rodeava. Sabia que já tinha perdido seu corpo, que nunca tivera, de vez e para sempre, porém ainda acreditava ter sua alma. Agora sabia, não a tinha mais. "Nós nos perdemos pela eternidade, e eu já não tenho meus segredos. Então você vai partir, sim, cada vez mais distante." Ele não controlava seus pensamentos, não cessava suas lágrimas, não se movia, mal respirava. Acompanhado pelo som do mar. De joelhos, acompanhado apenas pelo mar.
     De repente vislumbrou alguém vindo ao seu encontro, na mesma trilha que ela fora, agora voltava. Ela estava voltando, lentamente, balançando o corpo e a cabeça com seu jeito de andar. Uma segunda chance, ele não seria mais tão estúpido e perguntaria logo que ela chegasse: "O que é aquilo?" - E apontaria para o imenso e belo infinito do horizonte - "É o que nos espera!" Ela parou em sua frente, ele olhou para cima, ainda de joelhos, pelos olhos inchados não podia enxergar com clareza. Ele esperou que ela se lamentasse, pedisse que ele fosse embora, que não a surpreendesse mais daquela forma, que a deixasse em paz de uma vez por todas, agora que ela conseguira, finalmente, seguir em frente sem rancor. Contudo, ela não o fez, pelo contrário, se ajoelhou em sua frente, olhando diretamente em seus olhos. Ela tocou seu rosto, era a primeira vez que EddieAnna, e sim a Sol.
     - O que está fazendo? - ela perguntou com um sorriso, tentando esconder o espanto.
     "Não é a Anna", foi o primeiro pensamento, "é a Sol". Então olhou por um minuto seu sorriso, era realmente lindo e seus olhos castanhos, levemente mais claros do que os de Anna, eram grandes e brilhantes. Ela era sua e isso o deixava contente.Sol tinha tanta personalidade quanto Anna, porém era muito mais doce e um pouco mais madura. E, principalmente, podia estar com ele. Era permitido.
     - Estava pensando em você - disse beijando-a uma vez - e em como eu agradeceria a Deus, se acreditasse - e beijou-a novamente - por você ter voltado depois de tudo que eu fiz - beijou-a pela terceira vez.
     - Eu sei que Anna está aqui - Sol disse afastando-se um pouco e de repente. 
     Eddie fingiu não ter ouvido ou não ter dado a mínima importância e disse de súbito - eu te amo! - Sol acreditou na sinceridade de tais palavras, entretanto ela sabia exatamente em que ou, especificamente, em quem ele estava pensando antes. De qualquer forma, não evitou outro sorriso. Os dois levantaram-se e de mão dadas foram encontrar o mar. Juntos, como deveria ser.

     Havia alguns metros dali, Anna observava a cena com os olhos repletos de lágrimas, um misto de ternura e tristeza em sua face e um sorriso sincero. "Tudo ficará bem para todos. Tudo ficará perfeitamente bem." Ela falava consigo mesma. E era exatamente dessa maneira que as coisas tinham de ser. E o céu estaria sempre ali por ela, e o mar estava verde.

22 de ago de 2011

Em linha reta

     Aquela cafeteria poderia não ser um lugar muito agradável, no entanto, tinha o melhor café do mundo e Anna saboreava-o lentamente, não querendo sentir o tempo passar. Não, ela não estava esperando ninguém, apesar de ter falado a Eddie que se ele quisesse realmente conversar, como dissera pela manhã, ela estaria ali, naquela cafeteria, naquele horário. Não, ela não estava esperava que ele fosse, pelo contrário, ela aprendera a não esperar nada dele. 
     Anna dissera que estaria lá às seis horas da tarde, o seu horário de sempre, e já eram quase sete horas, ele não aparecera, como ela imaginara. Então, levantou-se tranquilamente para ir embora e ao se virar deparou-se com Eddie olhando-a completamente imóvel.
     - Olá - disse ele num sobressalto.
     - O que está fazendo parado aí? - perguntou Anna assustada.
     - A gente combinou de se encontrar aqui, se esqueceu? - Eddie parecia nervoso em seu sarcasmo.
     - Sim, mas às seis horas, já são sete e eu estou indo embora - disse Anna sorrindo e desculpava-se, por mais que o erro do atraso fosse dele.
     - Perdão. Eu tive um problema - Eddie parecia ainda mais nervoso. - Não pode ficar por mais uma meia hora? Eu realmente estava contente com a ideia de poder falar com você... como antes.
     - Tudo bem, acho que mais um café não irá me fazer mal.
     Os dois sentaram-se à mesa na qual ela estava ocupando.

     - Não vai pedir seu café? - Anna perguntou rindo. - O que está fazendo? - Eddie estava absorto em seus pensamentos, olhando-a maravilhado, de forma quase tola, pensando em como ela estava diferente, alegre, sem ressentimentos ou mágoas, não era a Anna de um mês atrás, e sim a Anna de um ano atrás.
    - Claro, claro, desculpe - respondeu Eddie rindo e pediu o café.
    Tomaram os primeiros goles em silêncio e a tensão tornava-se a cada segundo mais acentuada, apesar da amabilidade de ambos. Eles sabiam o que os levara até ali, o que precisavam conversar e principalmente, sabiam de seu passado.

     - Você parece muito bem - Eddie quebrou o silêncio e sem obter resposta prosseguiu - quase não acreditei quando me disse sorrindo que não via problema algum em conversar comigo.
     - Não vejo problema algum, mesmo - retrucou Anna tornando-se séria de repente, querendo demonstrar toda a veracidade de suas palavras. - Existe algum problema para você, Eddie? - e, dizendo isto, lançou-lhe um olhar bastante significativo.
     - Não, não... acho que não - então, olhou-a com a expressão levemente triste. - E acho que você sabe muito bem o que quero dizer. Há muitas coisas que queria falar e que já tentei muitas vezes, mas nossas conversas nunca tomavam um bom rumo.
    - É verdade, mas você sabe, era muito difícil para mim. Mas agora passou e peço-lhe desculpas pela minha imaturidade.
    - Como é que é? Você não tem de pedir desculpas, eu é que tenho e queria justamente fazer isso.
    - Eu sei que não tenho de pedir e você também não.

     Os dois olharam-se profundamente, querendo entender um ao outro, sem muito sucesso. Então Eddie sorriu angustiado e olhou para baixo.
    - Você me odeia, não é? Sei que tem todos os motivos para isso, eu menti para você, da pior maneira possível, menti sobre quem eu era e o que eu fazia, menti sobre ter mentido e tornei a mentir. Você com certeza me odeia, mas é muito boa para assumir tal sentimento. E tenha certeza de que não era isso o que eu queria, eu te admiro demais, demais e me sinto péssimo por ter errado com você, por ter sido tão infame e detestável - Eddie hesitou e observou-a olhando-o paciente, esperando que concluísse, então balançou a cabeça sôfrego e continuou - como não odiaria? Certamente me julga vil, no pior sentido da vileza.
     - Então é só você que é vil e errôneo nesta terra? - Anna perguntou e os dois sorriram incontidos com a aquela citação de uma poesia de um de seus escritores favoritos. - Com certeza Álvaro de Campos concordaria comigo que não, absolutamente.
    - Há poucos dias eu achei que você ficaria feliz com a minha cabeça em uma bandeja e agora recebo esse maravilhoso sorriso.
    - Como eu disse antes, eu estava sendo imatura, mas em algum momento temos de crescer, concorda? - e olhou-o insinuante.
    - Não posso crer que tenha sido mais imatura do que eu - disse Eddie.
    - Eu também não - os dois riram livrando-se definitivamente do que sobrara de suas tensões. - O que eu quero dizer é que aprendi muito com tudo o que aconteceu.
    - Aprendeu exatamente o quê?
    - O básico, aquilo que todos deveriam saber, que eu acreditava que sabia e percebi muito tarde que não, pois eu fiz justamente o contrário do que minha consciência prega: eu não compreendi e... julguei. Logo eu que detesto julgamentos...
    - Você teve suas razões - Eddie interrompeu-a.
    - Talvez... mas não é justificável - Anna hesitou, tomou seu café e escolheu bem as palavras que diria a seguir, apesar de tudo e de todo o tempo que se passara, ela ainda gostava de impressioná-lo com o que falava, era um prazer inexplicável. - Quando as pessoas nos enganam e mentem sobre toda a sujeira que escondem, nossa primeira reação é chamar-lhes de "canalhas" ou de coisas piores, falar todas as coisas horríveis que nos vêm à mente e depois sair por aí difamando-as, dizendo que não são dignas de confiança, que são umas filhas-da-puta-mentirosas e o diabo a quatro. Nós acreditamos na verdade falsa de que somos as "vítimas" e que quem mentiu para nós são os "vilões". E o mais engraçado de tudo é que quando descobrem uma mentira nossa, e temos de escutar todos essas coisas que dizemos quando somos as "pobres-inocentes-enganadas", não acreditamos realmente que somos tão terríveis quanto ouvimos que somos, tampouco que eles são tão vítimas assim, pelo contrário, achamos que somos bons o suficiente para arrepender-nos de nossos atos e que eles são excessivamente dramáticos por julgar-nos tão miseráveis. O caso é que nós nos conhecemos o bastante para saber que não somos pessoas más, que mentimos apenas por que somos humanos e errar é inevitável. E isso está certo, o que está errado é que em alguma outra hora nós julgamos que é sem caráter aquele que está sendo infame conosco. Nós nos esquecemos que em outros momentos nós é quem fomos os sujos, mentirosos, abusadores do uso de máscaras das quais escondem toda a podridão; esquecemo-nos que também desfrutamos da vileza. Nós, os "bons samaritanos" deste instante, não lembramos sequer de checar o nosso prazo de validade antes de apontar o dedo e falar: você não presta. E é um absurdo tudo isso, é muito hipócrita; somos todos grandes hipócritas, eu vejo, você não vê? Somos hipócritas profissionais - ela tomou o último gole de café que restara, já estava frio, mas não importava. - A grande verdade humana: todos nós mentimos e nenhum mentiroso tem o direito de julgar o outro.
     - Perfeitas palavras, quando eu acho que não poderia, você vem e me surpreende - Eddie conseguiu dizer apenas.
     - E ao fim de tudo eu só tenho, ainda, uma única queixa de você - Anna lamentou, sem conseguir parecer realmente sentida.
     - E qual é? - Eddie perguntou repentino, sem demonstrar desapontamento.
     - De todos os seus erros, o único que eu acredito ser incompreensível foi o fato de dizer que era pra sempre algo que não poderia ser previsto. Mas é claro, não pôde evitar - Ele apenas abaixou a cabeça e, então, ela continuou - o resto não foi sua culpa, parece um absurdo eu dizer isso, mas são coisas que acontecem. Você achou outra pessoa, uma oportunidade de amor possível, contrária da nossa e não soube como me avisar nem como lidar com isso. As outras mentiras sobre a bebida, sobre as outras coisas também devem ter a sua explicação, sempre há. Eu compreendo, ao menos tento, e mesmo que eu esteja errada sobre minhas concepções e seus motivos terem sido outros, não importa, nada importa - ela hesitou - apenas que a admiração que sentia por você está de volta e que por trás de todos os resíduos do que aconteceu existe algo mágico e especial. E quando eu penso bem, consciente e segura, eu chego a seguinte conclusão: foi bom, não interessa o resto, foi bom.

     Ele tinha os olhos marejados, nenhum dos dois descreveriam o que sentiam naquele instante de forma diferente: uma imensa paz, finalmente, haviam encontrado a paz que procuraram durante todo aquele período turbulento do qual passaram.

     - Eu não acredito que deixei que você escapasse. É única no mundo - disse Eddie. - Se eu tivesse outra chance de retornar ao passado... 
     Anna controlou seu corpo inteiro, todas as sensações e pensamentos. Sabia que ele não deveria ter falado isso, porém, mais uma vez, compreendeu-o 
     - Eu tenho de ir embora. Nos falamos - Anna levantou-se e se foi. Eddie ficou. Ninguém faria nada. Não havia o que fazer quando tudo acabava dessa forma - bem.

20 de ago de 2011

Memento Mori

 - Sabe que eu adoro gatos em geral, mas o meu, por ser meu, vale mais que todos - Anna dizia a John enquanto olhavam admirados o gato perseguindo sua caça, uma inofensiva cigarra. - E o meu principal motivo de voltar pra casa todos os dias é essa bola de pelos com gigantes olhos amarelos.
 - É um lindo motivo. Eu também sou apaixonado por esse gato. Contudo, já está na hora de melhorar a situação com seus pais, não acha? - John falava com sincera preocupação, mesmo sabendo que de nada adiantaria, ele mesmo concordava com o fato de que não tinha como aceitar os erros dos pais dela.
 - Eu amo meus pais e não há mais nada que eu possa fazer. Eu sei que não concordo com eles, mas os compreendo, ao menos. Eles poderiam me aceitar também. Eles são especiais para mim, mas as atitudes que eles tomam nas horas mais sensíveis são repugnantes. O apoio todo se dissolve quando eu realmente preciso. O orgulho que eles sentem é na verdade uma imensa cobrança em cima de mim. E eu já não posso suportar - ela olhou para o John arqueando as sobrancelhas, insinuando o que ele já sabia. - Essa última de meu pai foi o fim, sabe...
 - Realmente, terei de concordar, eu não esperava que fosse capaz de tal ato - John sempre a compreendia, mesmo tendo vontade de repreendê-la às vezes. - Porém, Anna, fim é um exagero, não acha?
 - É, mas não me expressei mal, não dessa vez. É o fim da admiração que eu sentia. E isso valia muita coisa pra mim... - ela olhou para baixo, demonstrando pela primeira vez desde o início da conversa a sua real tristeza. - Ele não criticou com palavras horríveis algo que gosto ou que eu esteja fazendo. Ele se referia, mesmo sem saber, a quem eu sou, entende? Ele acha que estou assim. Mas não, sou assim. E é tão ruim, John? Eu sou realmente uma pessoa ruim?
 - Claro que não. Você sabe, ele te ama, só não compreende. Ele tem muito orgulho de você, olha o que ele fala de você para todo mundo que vê. Você é a melhor coisa da vida dele. Ele só perde o controle por não conseguir te entender completamente. Você é especial demais; demais pra cabeça dele; demais pra todo mundo. E, sinceramente, acredito que só eu não me surpreenda. Só eu te conheço perfeitamente, Anna. E por favor, não mude por ser minoria. Você é rara, mas não está, de forma alguma, errada.
 - É pra isso que conto contigo, John. Eu estou crescendo, você está vendo. Apenas, por favor, não me deixe me tornar como eles, você sabe, adultos sérios e preocupados. Eu quero fugir disso. Eu só quero ser feliz, só isso.
 - Eu sei - disse ele sorrindo. - É por isso que eles não te compreendem. Eles nunca compreenderão gente como você, como nós. A gente tem de fugir disso, dessa vida imposta e aceitável, tornando-se cada vez mais detestável. Seremos felizes pelo resto de nossas vidas. Seremos o que somos, eternas crianças, eu e você e se encontrarmos alguém como nós, salvaremos também. Não temos de nos importar com os outros, com o resto...
 - Isso talvez seja um tanto egoísta - disse Anna refletindo.
 - Egoísta com eles? E se fossemos egoístas com nós próprios? Acredito que seria pior - John já estava salvando-a, aos poucos. Jamais deixaria que ela se entregasse. Ela não era normal, como ele. E John faria mais do que o possível para ela nunca o ser. Ele tinha mais percepção da realidade do que muita gente e sabia que ela também. Nunca a deixaria para trás. - E não é nada ruim, nem você, nem eu. Eles é que estão julgando a gente, querendo trilhar o nosso caminho. E mesmo assim nós os compreendemos, por isso somos melhores. Infelizmente não podemos salvá-los, mas já é um grande passo que nos salvemos. Continuamos assim, certo? Vivendo cada dia como se fosse o único, dentro de nossas infâncias, amando cada árvore, cada planta, animais, céu e mar.
 - E pessoas também - completou Anna, sentindo-se bem novamente.
 - Claro, é o mais importante. Todo o universo será nosso, sabe como. Em busca da Terra do Nunca, minha garota.
 - Memento Mori, John - Anna sorria como ele, agora. - Não vamos nos esquecer.
 - De jeito nenhum - ele ficava feliz por conseguir impedi-la de cair no abismo que os aguardava faminto. Ele ficava verdadeiramente feliz, como só uma criança de alma profunda poderia. E seus olhos brilhavam enquanto ele a olhava. Ela era a única, além dele, que poderia compreender o significado de tudo: "a vida tem de ser vivida como se cada dia fosse o último." Esta frase tornou-se tão comum que perdeu o grau de intensidade, e são raros os que lhe dão digna importância. Exatamente como aconteceu com a concepção de que um dia todos realmente irão morrer, e, por isso, morrem mais depressa, morrem estando vivos. - Só vamos enxergar o escuro quando formos finalmente engolidos por ele, por enquanto contemplemos a luz e todas as cores. E esqueçamos aqueles que em meio a toda luz apenas veem a escuridão, acreditando que é no fim que tudo fica bem; sem saber que o fim, como o próprio nome diz, é quando tudo acaba. E mais nada.

14 de ago de 2011

Jupiter crash

  As ondas sabem como carregar para longe e para o fundo um homem doente por um coração. E é assim mesmo. É exatamente desta forma, ele se foi, levando o que tinha de melhor para mim, deixando o melhor de mim. E no fundo do oceano eu posso ouvir o que ele tentou explicar-me com seus olhos verdes de mar. Atração fatal de algo impossível. E todas as distâncias que um dia nos separaram e que desapareceriam, como nossas almas, aumentaram milhões de milhas. E há milhões de milhas, se olharmos para o céu, para sentirmos as estrelas, e elas sempre estiveram lá. "E o que é assim? O que é exatamente desta forma?" - eu perguntava quando você o seguiu ao fundo do oceano sem contestar, com aquele sorriso dizendo "finalmente chegou a minha hora." E eu senti a sua falta, como você sempre sentirá de algo que não conhecemos. E eu sinto a sua falta. E vejo tudo parado ao meu redor, flutuando nas teorias sobre o fim do mundo. E por um momento eu posso acreditar, é o fim do mundo. "Calma, anjo, é só o fim do mundo, não é o fim do amor" - você me diria tão quente em sua frieza como se soubesse realmente que estava mentindo. E todas as noites e dias que se passaram até aqui, eu chorei por você, como eu disse, como você sabia que eu faria. Porém nunca lhe disse nada, jamais o farei. Então eu vejo você partindo, onda após onda após onda, cada vez mais longe, até que se perca no horizonte, até que eu não possa mais enxergar. Afundando em todo amor que senti e agora as águas salgadas engolem você. E na rocha brilhante, iluminada pela lua, com uma lágrima estúpida preenchendo o oceano, eu posso sentir você, sentir como você nunca me sentiu. Tão quebrado sobre mim. Tão mal feito em sua beleza. Sim, sempre foi tudo para mim. "Então é isso? É isso o que você procurava? A estrela mais distante, as águas mais irritadas? Nunca encontraria em mim!" - eu gritei ao vento, então escorregue ao fundo e não volte nunca mais. Eu fui atrás dele, como uma tola esperançosa. E foi isso, ele me deixou chorando, enquanto eu implorei a Júpiter que o trouxesse de volta. E cai no mar para ouvir o som sedativo na morte. A lua assistiu, temendo que o pior acontecesse - que eu voltasse a respirar. "Não, nunca foi isso! O que eu procurava era você! Na estrela mais distante, nas águas mais irritadas. E eu me encontrei em você" - eu ouvi ele dizer no fundo verde do oceano e por um momento acreditei que estivesse dentro de seus olhos, onde sempre quis estar. "Por favor, pare por um momento. Eu amei você... todavia, era atração fatal de algo impossível. Há milhões de milhas que nos separam, apenas respeite a linha" - foram as últimas palavras que ouvi dele antes de me ver de volta em terra firme, há milhões de milhas de distância das águas verdes. E eu voltei a respirar.