28 de dez de 2010

Paraíso vermelho de cabeceira

    A primeira coisa que veio na cabeça de Ana Clara: Acabei de morrer e conhecer o céu. Nunca havia entrado em um lugar tão sedutor: As paredes eram de um vermelho vivo, quase reluzente; o teto era esplêndido; os pilares surgiam assombrosamente em diversos pontos; nenhum chão jamais fora tão lustroso, podia enxergar seu reflexo ao olhar para baixo; tudo feito milimetricamente para causar uma admiração espantosa. Era a maior biblioteca que ela já entrara, nunca vira estantes tão extensas, milhares que atravessavam toda biblioteca e tão altas, quase tocavam o teto; com pequenos espaços para trocar de corredor, formando um gigantesco labirinto. Não seria tolice se alguém se perdesse em seu interior, pois essa biblioteca, inclusive, dispunha de mapas. Próximo à parede oposta à entrada, havia uma única mesa, da qual poderia sentar-se observando a vista que a janela proporcionava: um lindo e enorme jardim, como para merecer a fantástica biblioteca. Entretanto, o que mais encantara a menina que descobrira aquele lugar maravilhoso, não se tratava da imagem perfeita, nem da grandeza incomum; se tratava dos livros, ela podia jurar que haviam ali todos - se não todos, quase todos - os livros do mundo; literatura, filosofia, psicologia, política, religião, biografias, etc. Levaria uma vida toda e não poderia ler tudo o que gostaria; o fascínio tomava conta de cada célula dela, a cada suspiro seu. Não era uma biblioteca apenas, era o paraíso do qual ela sonhara durante toda sua vida. Aliás, em sua vida, ela fora a amante mais devota aos livros, não tinha paixão maior, passava dias e dias lendo. Sempre sonhou com uma biblioteca particular, mas se contentava com as bibliotecas públicas de sua cidade e as livrarias, da qual gastava todo seu salário. Agora parecia que seu sonho se realizava, poderia ser fruto de sua imaginação, porém era tão real.
   Como ela fora parar ali? Foi quando ela enxergou, acima da porta de entrada haviam as seguintes palavras: Paraíso vermelho de Ana Clara. Nesse momento ela teve uma vertigem, estava realmente assustada, não mais eufórica, e sim com medo. Caminhou, então, até a porta, tentou abrí-la, porém estava trancada. Completamente atrapalhada, Ana saiu correndo pelo imenso labirinto de obras, mas nunca chegou ao fim; sem saber o que fazer, sentou-se em meio aquele corredor de livros e pegou algum para se distrair; no momento em que começou a ler um livro de mitologia grega, deu-se por conta de que o lugar em que se encontrava, transformava-se em algo estranho; depois de alguns segundo tentando entender o que acontecia, ela percebeu um barqueiro, um tanto esquisito, que vinha em sua direção sobre um rio que apareceu magicamente.
   - Por favor, pode me informar onde me encontro?
   - O que você faz aqui meio sangue? - E falava em Rio Styx, em tudo ao seu redor lembrava morte e ela ficava cada vez mais assustada.
   Rio Styx, Rio Aqueronte, pensou e olhou para o livro aberto em suas mãos. Então reconheceu o barqueiro, era Caronte, a personagem do livro; nesse instante fechou o livro e de maneira repentina tudo voltou ao normal (há quem considere normal uma biblioteca que contém livros que ganham vidas ao serem abertos).
    Ao entender a finalidade daqueles acontecimentos estranhos, ela procurou uma obra de alguém que pudesse fazê-la entender como sair dali; não poderia ser real, era um sonho, uma arte de sua mente; de qualquer forma ela se percebia presa.
    Procurou, então, algum livro sobre psicanálise, foi quando encontrou uma obra de Nietzche, não demorou para abrir o livro e ter o filósofo em sua frente. Ele não era como ela imaginava; de qualquer forma não demorou para enchê-lo com suas perguntas. Ele respondia apenas com citações de seus livros, dos quais muitos ela já conhecia.
 -   "Do mesmo modo que das duas metades da vida, a vigília e o sono, a primeira nos parece incompara­velmente mais perfeita, mais importante, mais séria, mais digna de ser vivida, se não a única vivida, assim também desejaria eu sustentar (por mais paradoxal que pareça) que o sonho das nossas noites tem importância análoga para a essência misteriosa da nossa natureza para a intimidade de que somos a aparência exterior."
   Ela, então, acordou de seu sonhos e se encontrou em seu quarto novamente, nada esplêndido, um pouco vermelho, porém sem aquele brilho. Ligou a luz e viu seu livro de cabeceira aberto em uma página da qual havia uma citação de Nietzche destacada: "É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela".

Um comentário:

  1. Pâmela,seu conto é realmente instigante.Acredito que estar envolto de uma leitura que nos apetece é uma forma de sonhar, internalizar informações, viver personagens ou dialogar com eles.Fico muito feliz quando encontro um livro que me proporcione o prazer sonhar tacitamente no bem no meio das palavras, acordado, vivo e ávido por mais, mais e mais.

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