8 de dez de 2010

Here today

  Estou sentindo uma imensa falta de alguém que não está aqui. Nunca esteve aqui deveras. Entretanto, a aflição que sinto com essa ausência é maior do que poderia imaginar, e hoje, logo hoje... Se você estivesse aqui agora, o que será que me diria? Como eu me sentiria?...
  No entanto, o ciclo da vida segue; segue belo e segue bem. E eu permaneço aqui, onde você nunca esteve e nunca poderá estar. E eu apenas queria vê-lo, por um minuto, de novo e pela primeira vez. Não em meu sonho, não em meus sonhos. E se você estivesse aqui hoje? Talvez minhas lágrimas não caíssem com esta sensação de sempre tarde demais. Mas nada é real. Nada é real, em seus campos de morango. Nada é real. Embora que para mim tenha sido sempre verdadeiro. Porém, logo hoje... Eu vejo a realidade dos fatos. Não é natural, não acreditar assim; não sentir assim. E eu sinto. E eu posso me lembrar e sentir o aroma e o vento em meus cabelos dos eternos campos de morango. Lembro-me de você levando-me lá, eram belos demais para realmente existirem. Mas não para mim.
  Hoje, logo hoje... Eu espantei-me, há meia hora que estou admirando a mesma vista pela mesma janela, imaginando os campos de morango e o nosso lugar tão sonhado - aquele que imaginamos, onde não existe guerra e violência. E ninguém, absolutamente, fará algo contra nós. Ninguém atirará com suas mãos sujas e podres em nosso peito. Assombrei-me ainda mais. Nada disso é real. Mas e se você estivesse aqui hoje? Não, não seria real. Como nunca foi, e eu que acreditei, agora pasmo - nada foi real. Mas, então, como descrever todas as vezes em que me ouviu em meu silêncio e me emprestou suas palavras, tão doces e duras ao mesmo tempo; realmente sinceras. Como explicar o que vi e o que senti e o que sinto, ainda, agora, sempre? Lágrimas, lágrimas que escorrem alegremente, compactuando com o sorriso formado tristemente - e meu rosto torna-se, aos poucos, uma espécie absurda de melancolia satisfeita. E fico feliz o suficiente, para não ser tão triste, ao perceber: um dia você existiu; ainda assim, não aqui, não como imaginei e sonhei... Imagine... Meus sonhos sempre foram seus e sempre foram reais - mesmo não sendo - não são - não serão - eu sei. Apesar disto, eu continuo sonhando, por você e pelo que me disse em suas canções.
  Hoje está sendo um dia difícil, a noite ainda mais, e eu tenho vivido como uma condenada, porém, você me fez sorrir, chorando eu sorri. E tudo que tenho passado nesses últimos meses, os piores e mais intensos de minha vida, em que enfrentei a tudo de cabeça erguida (mesmo desejando, apenas, abaixá-la e chorar compulsivamente), não me entreguei, não... Entretanto, tem sido tão tão tão difícil. Se você ao menos estivesse aqui hoje. Se você realmente estivesse aqui hoje... bastava-me olhar para você, no fundo de seus óculos esquisitos de aro redondo e sei que assim tudo ficaria bem. Se você estivesse aqui hoje.
  Hoje faz trinta anos. Trinta anos de sua ausência, e eu mal tenho a metade disto, ainda assim não sei o que fazer nem o que pensar. E os fatos tornam-se somatórios, e já não sei onde pisar; como não despedaçar as flores e os morangos? Como desviar o caminho? Não, não há como; se esse é o ciclo natural, se esse é o rumo a ser tomado, então eu sigo sem escolha.
  Eu só queria dizer que lhe conheço bem, mesmo não conhecendo nada. Eu realmente lhe conheço. E por mais que boa parte de você seja produto de minhas sensações mórbidas e de meu mais profundo obscurecimento, entenda...  I really love you, John.

Um comentário:

  1. Seu texto me trouxe a lembrança de uma obra de Vinicius de Moraes que muito me agrada, digo isso por essa manifestação tão confusa de amor, pairando equilibrado sobre a linha divisória entre o campo dos sentimento e da realidade.Moraes sintetiza da seguinte forma:

    "Ah, quem me dera
    Ir-me contigo agora
    A um horizonte firme, comum
    Embora amar-te
    Ah, quem me dera amar-te
    Sem mais ciúmes
    De alguém em algum lugar
    Que nem presumes
    Ah, quem me dera ver-te
    Sempre a meu lado
    Sem precisar dizer-te
    Jamais cuidado
    Ah, quem me dera ter-te
    Como um lugar
    Plantado num chão verde
    Para eu morar-te
    Ah, quem me dera ter-te
    Morar-te, até morrer-te"

    O mais-que-perfeito

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