30 de dez de 2010

Casualidade

    Tocava alguma música eletrônica que Luana nem conhecia, ela nem gostava dessas músicas; nem dessas festas; muito menos dessa gente esquisita. Por que, afinal, estava ali?  Um fim de namoro obrigou-a a sair, não que ela realmente quisesse, porém ficar em casa na companhia de seus livros não a distrairia completamente, não dessa vez. Contudo, naquele momento acreditava que seus livros pudessem a divertir mais que aquele agrupamento de gente insana.
   Quando finalmente se decidia por ir embora, percebeu a presença de uma garota sentada do outro lado do salão, demorou para se lembrar onde tinha visto aquele rosto curioso; era uma garota que havia saído com seu ex-namorado um tempo atrás, enquanto eles estavam juntos. Desde o dia em que ela descobrira a traição, ela nutria um tipo de cisma em não gostar dessa garota; agora se via encarando aquele rosto que a encarava de volta, tinha os cabelos compridos, negros e muito lisos; sua pele era de um tecido alvo; e os olhos de um tom de verde, rijos e penetrantes. A princípio, Luana pensou que a garota a olhava daquela forma por raiva, mas depois se lembrou que ela nem deveria saber de sua existência. Garota estranha, não é lésbica, mas as vezes fica com meninas para variar, se lembrou que seu ex-namorado mesmo contou isso, porém estranho era que já não sentia raiva, somente uma curiosidade sobre aquela menina tão branca e tão diferente, por que a encarava daquela maneira? Expressão de impossível leitura. Foi quando a garota se levantou, veio em sua direção e sentou-se ao seu lado em frente ao bar.
   - Tenho a impressão que lhe conheço, mas tenho certeza que é a primeira vez que vem aqui. - Disse a garota com a face ainda séria.
   - Acho que estudamos no mesmo colégio. - Luana respondeu rispidamente, querendo desvencilhar-se da conversa.
   - Está sentada a horas, me parece completamente perdida. - A garota parecia não desistir fácil.
   - Eu não estou legal. - Esta se limitava a cortes.
   - Tudo bem, não vou perguntar o que aconteceu com você, mesmo por que não tenho interesse nenhum na sua vida. - Disse isso a pegando pelo braço e a arrastando para a pista.
   Luana, mesmo perplexa, não recusou o convite obrigatorio; como se não percebesse o que fazia, viu-se na pista dançando com a garota esquisita, da qual pouco tempo atrás acreditava odiar. Passou muito tempo em que elas dançavam e durante todo o tempo, Luana evitou mirá-la nos olhos, sabe-se lá o porquê desse receio; Luana não a olhava.
    - Qual é o seu nome? - A garota perguntou, falando muito alto em seu ouvido por causa da música.
    - Luana e o seu? - Perguntou de volta, fingindo desconhecimento.
    - Daniele, como se isso importasse - Disse dando um sorriso travesso.
    Nesse momento, Luana a fitou nos olhos. Erro fatal. Daniele parecia perto demais. Tão perto, que não era Daniele, eram olhos verdes e... lábios. Daniele a beijou, que espantosamente retribuiu o beijo. No primeiro momento não se deu conta do que estava acontecendo, mas no instante seguinte, tendo a percepção de que estava agarrada a um corpo feminino, como o dela; tocando lábios macios, parecido com os seus; e usando de gestos delicados, ambas; preocupou-se com o que os outros pensariam se vissem, provavelmente já teriam o feito; então se afastou e mais espantosamente ainda, percebeu que ninguém notara, afinal, estava escuro, havia luzes piscando em seus rostos; não se notava nada. Luana transparecia certa inocência, um certo arrependimento e voltara a sua compostura retida; já Daniele com um ar de divertimento, percebendo o receio da outra, fez questão de continuar com o jogo, sem deixá-la em paz, era como um desafio.
    As duas garotas passaram, então, o resto da noite juntas; Luana, no primeiro momento, estava completamente confusa e receosa, porém logo soltou-se, era uma festa, não iria para o inferno por isso; nem sequer passaria de uma noite. Não eram lésbicas; Luana nunca sentira atração nenhuma por mulheres. Contudo, naquele momento não se importava com isso, aquela garota havia chamado sua atenção e foi recíproco. As mãos estavam juntas, naquela noite elas estavam juntas. Sem preocupações ou preconceitos. Eram apenas dois corpos atraídos e, por coincidência do irremissível destino, eram ambos femininos.

Um comentário:

  1. Pamela

    Tem presentes pra você em meu Blog.
    Grande Abraço.
    Bons Ventos!!

    Excelente fim de Ano!!

    http://bloginoportuno.blogspot.com/p/selos.html

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