18 de nov de 2010

John, afetos e liberdade - 2ª parte

  Depois de muito esforço, conseguiu discar o número de John, queria desistir e cancelar a ligação, porém ele atendeu antes.
   - Eu sabia que você não me evitaria por muito tempo. - Disse ele, transparecendo sua euforia por falar com ela.
   - Você sempre soube cada passo que eu daria, antes mesmo de eu pensar em o fazer, não tinha esperanças que mudasse mesmo. - Ela aparentava felicidade, também, porém estava relutante.
  - De qualquer forma não esperava falar contigo hoje, não depois de tantas tentativas falhas.
  - Eu estou ligando por que o caso é urgente. Tenho que salvar um amigo de algo terrível. - Deu uma risada e continuou - É amanhã o grande dia, como está se sentindo?
  - Obrigado pelo aviso minha garota -  Ficou em silêncio por alguns segundos, era estranho chamá-la de "minha garota" diante de tal circunstância - Estou nervoso, preocupado, a beira de um ataque cardíaco e pensando em suicídio. E só ficarei melhor se me disser que virá.
  - John e suas chantagens. - Sua voz passara de entretida à tensa nesse momento. - Acho que vou pegar um avião amanhã cedo para estar aí no grande momento.
  - Vou agradecer-lhe com as duzentas e quarenta e oito canções que fiz para você, prometo. Não sabe o quanto isso significa pra mim.
  - Até parece que eu perderia o dia mais importante da vida do meu melhor amigo. - Tentava transparecer distração, contudo não podia esconder o abatimento.
  - Saiba que o melhor dia da minha vida, foi aquele em que entrou com suas malas no meu carro e planeamos nosso caminho pela primeira vez. - Ele dizia isto sorrindo, mas percebeu a melancolia na voz dela. - O que foi, fala com um tom desanimado? Não me venha com desculpas, sabe que lhe conheço melhor que seu diário.
  - Sabe, é estranho, você casando, entende?
  - Eu sei. - Falava, de repente, com vaga tristeza - Completamente estranho, mas não pude dizer-lhe, não atendia minhas ligações, queria fazer-lhe uma surpresa quando eu já soubesse o sexo e lhe falar já tendo escolhido o nome e tudo mais, seria BAM um grande choque. Não era assim que imaginei contar-lhe do filho que Beatriz, minha futura esposa, está esperando.
  - Queria e conseguiu me deixar em estado de choque! Nossa, John, vai ser pai? Meu Deus! Parabéns. Eu nunca imaginaria... - Disse sem manifestar a felicidade necessária.
  - É eu sei, foi tudo repentino. - Interrompeu-a como se estivesse desculpando-se.
Ela não entendeu o porquê de se sentir daquele jeito, como se tivesse levado um soco no estômago. E ele não entendeu por que se sentira tão mal ao ter que contar para ela.
  - Talvez eu não deva ir... sabe, tenho muitas coisas pra resolver por aqui. - Ela mentiu.
  - Por favor, não faça isso comigo, já são dois anos. - Revelava o desespero aos poucos. - Além do mais, tem que publicar seu livro e está na hora de sossegar um pouco, não acha? Olha, tem uma casa aqui perto que está venda, eu pensei em te mostrar, poderíamos ser vizinhos. Eu sempre disse que teríamos que passar toda nossa vida juntos. - Não segurou o riso tímido.
  - Eu realmente ando pensando em voltar, quero confessar-lhe algo - Baixou a voz, como uma criança que conta segredos. - Eu acho que quero um lar, um abrigo, alguém que me faça chocolate quente nos dias de frio. Eu quero permanecer. Eu descobri que a liberdade não é tão boa assim, não quando é a única coisa que se tem; não quando se tem ela toda para você.
  - Eu sempre soube que me casaria primeiro, sempre achei que você fosse livre demais para arrumar um marido. Contudo, sempre tive a certeza de que um dia você iria querer casar-se também. - Poderia ser impressão, contudo aparentava decepção. - Quem sabe você tenha uma filha e ela cresça com meu filho. Quem sabe eles formem-se juntos em um curso qualquer, façam uma viagem, escrevam um livro, tornem-se tão importantes um para o outro como nós somos.
  - Eu não pretendo ter uma filha tão cedo...
  - Quem sabe meu filho seja mais inteligente que eu e peça sua filha em casamento antes de engravidar outra mulher. Quem sabe... - Ele disse segurando um soluço.
  - John...
  - Eu tenho que desligar agora, por favor, esteja aqui amanhã.
  E desligou o telefone. Pela primeira vez ela teve a certeza de que o que se passava entre eles não era um amor de amigos ou de quase-irmãos, era amor amor. E ele sempre soube. Todavia, ele se casaria amanhã, com uma mulher que esperava um filho dele. E não, ela não iria aparecer. Seria melhor assim.

2 comentários:

  1. Ahhh Deus, que triste o conto...Mas nem sempre as histórias de amor terminam com um "e foram felizes para sempre"...Muitas vezes, a gente só percebe o amor quando o mesmo já se foi, ou quando o mesmo está fora do nosso alcance. Achei bonito o gesto dela de não ir ao casamento (mesmo que eu estivesse torcendo para que ela fosse). Porque ela não estragaria a vida da noiva. Ela sabe que se aparecesse e pedisse ao John para desistir, ele desitiria. Muito bom Pamela, e obrigada pelo elogio em dizer que eu escrevo bem...rsrs.

    Às vezes eu preciso me expressar, e nada faz isso melhor do que uma caneta, um papel e as minhas palavras. É muito bom saber que as pessoas gostam do que a gente escreve.

    Um beijo.

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  2. Nossa.... perfeito!!!!
    Ameei...deu até um aperto no peito
    :)

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