16 de nov de 2010

John, afetos e liberdade - 1ª parte

   Era o pôr-do-sol mais lindo que já tinha visto, ela nem podia acreditar que estava na Tower Bridge, sobre o rio Tâmisa, em Londres. Durante os últimos anos conheceu muitos lugares impecáveis pelo mundo, como esse, difícil dizer o que mais marcara. Marcado mesmo, ficaram os dois primeiros anos, dos quais ela viajara com John, seu melhor amigo.
  
    Era uma tarde de sábado, quatro anos atrás, estavam ansiosos, iriam receber os diplomas de Comunicação Social em algumas horas. Ela queria escrever para um jornal e mais ainda, escrever diversos livros; ele queria mesmo escrever músicas e fotografar. Tinham um sonho em comum, fazer uma viagem, um longa viagem e conhecer lugares novos e pessoas diferentes, a fome de cultura de ambos era fascinante. À noite, enquanto toda turma se divertia na festa de formatura, eles saíram mais cedo e foram para o bar preferido deles; eles eram melhores amigos desde a pré-escola.
    - Viu só, nos formamos, com a idade que disse que nos formaríamos. Vinte e dois anos, não falhamos minha garota.
   - Ah, John, sempre soubemos do nosso potencial, mas e agora? Qual é o próximo ato? - E o contagiou com um riso de euforia. - Nos embebedarmos?
   - Tudo bem, é o que fazemos de melhor, não? - Ficou sério, fazendo suspense - Porém, bêbados não podemos dirigir.
   - Hoje eu tenho dinheiro para o Táxi, aproveite, não é todo dia. - Continuava se divertindo.
  - Escute garota, não estou falando de dirigir para casa, chegou o dia de pegarmos meu carro e conquistarmos a América, lembra? Seu livro e suas reportagens; minhas fotos e meus documentários.
    Desde muito jovens eles costumavam traçar planos, um desses planos era se formar cedo e assim que pegassem o diploma, viajariam pela América e deixariam registradas suas aventuras, depois voltariam e publicariam esses feitos.
   - Passe lá em casa amanhã as duas da tarde, esteja com as malas prontas e leve suas economias. - E com um sorriso sugestivo, mostrou a seriedade daquelas palavras por cima do seu tom de brincadeira.
   Eles eram assim, corajosos e inconsequentes.


   Arrumaram as malas, colocaram gasolina e se foram pela estrada. Não tinham destino e o único plano era conhecer o máximo de lugares que pudessem e registrar tudo. Ela escrevia todas as noites, artigos, crônicas e começara seu livro, a estrada era sua fonte de inspiração. Ele fotografa, filmava, escrevia músicas e tocava para ela quando paravam em algum lugar estranho. Foram dois anos viajando pela América do Sul, dormindo em hotéis, comendo comidas esquisitas, conversando com pessoas estranhas, conhecendo lugares esquisitos, estranhos e bonitos; tudo muito interessante, completamente mágico. Eles paravam para admirar qualquer paisagem que encontrassem, se divertiam, iam à festas e se embebedavam. Na maior parte do tempo passavam na estrada, ouvindo clássicos do Rock ao som máximo. A sintonia deles era absoluta, se respeitavam, se protegiam, se entendiam pelo olhar e pelo sorriso e conheciam cada gesto um do outro, como códigos. Quem observava de fora não entendia o que eram. Eram namorados? Irmãos? Não poderiam ser simples amigos. Nem eles acreditavam que eram simples amigos, era um amor diferente de tudo. Contudo, eram apenas amigos, não poderia ser diferente, não poderiam ser um casal.


  Quando completaram dois anos de viagem, John decidiu-se que era hora de voltar para sua cidade de origem, ele publicaria suas fotos e ela seu livro. Assim fizeram: tanto as fotos quanto o livro foram um sucesso, eles conseguiram o dinheiro e o êxito esperado. Ele quis ficar, ter sua profissão fixa e comprar uma casa. John queria que ela ficasse também, porém, ele sabia que ela não ficaria quando dizia que não ficaria. Ela queria continuar sua viagem, mas dessa vez em outros horizontes, aumentar os limites, sair do chão e ir pelo ar. Queria descobrir outro continente: começaria pela Europa, pensava mais alto. - Por fim, ele ficou e ela foi. Ele prometeu milhares de músicas para quando ela voltasse e ela prometeu escrever para ele diariamente relatando como estava se saindo e descrevendo minuciosamente os lugares que conhecia.


    Agora ela apenas se concentrava nessas recordações, os dois primeiros anos deixaram as melhores lembranças que ela tinha, mesmo que nos dois últimos ela tenha conhecido lugares que eram como sonhos, os sonhos não eram tão bons sem John.
    Fazia dois anos que ela não o via. Na última vez que se corresponderam, exatamente três meses atrás, ele dissera que iria se casar, depois disso perderam o contato. O casamento seria amanhã. Ele tentava ligar para ela já havia uma semana e ela não atendia, pois sabia o que queria: que ela aparecesse no casamento. Não que ela fizesse alguma objeção ao casamento em si, mas a ideia lhe era estranha - John construindo uma família, uma vida da qual ela não participaria. Eles cresceram, passaram por dificuldade, realizaram sonhos, sempre juntos. E agora ela não poderia mais estar junto dele, não como antes. Havia, também, um problema maior, do qual ela tinha dificuldades de aceitar e assumir: ela percebia que, no fundo, também queria isso. Um lugar só dela, alguém que vivesse por ela. Ela queria permanecer. Essa vida peregrina se tornara cansativa. Havia um tempo em que ansiava por aventura e liberdade e agora só desejava ter alguém pra levá-la ao cinema, alguém que soubesse que ela não gosta de comer pipoca enquanto assiste ao filme.

3 comentários:

  1. Nossa, quanta expressão!

    Quanto sentimento, quanta liberdade...Logo depois: quanta nostalgia e saudade.

    Que bacana cara o seu conto, quando postar a segunda parte, por favor não deixe de me avisar...Quero saber que rumo essa história vai tomar.

    Bem que eles poderiam ficar juntos...Haha, ela podia chegar no meio do casamento e dizer que sentia falta dele e talz...iiii olha eu aqui, dando palpite e me metendo numa história que nem é minha...rsrs

    Me avise quando postar a outra parte, ahh e que bom que você gostou do meu post...É bacana saber que às vezes a gente pode tocar, mesmo as pessoas que tão longes e que a gente nem conhece, com simples palavras.

    Um beijo, M!sunderstood

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  2. Você me fez desejar que ela entrasse de supetão na igreja, assim como nos filmes, e desse a última palavra.Ela outorgaria a ele o poder de levá-la a qualquer lugar do universo com o tamanho do seu amor, ainda amorfo, indefinido.
    Adorei seu conto, estou esperando a segunda parte.
    )

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