30 de nov de 2010

Déjà Vu

Ele abre a porta para ela,
Ela sorri antes de entrar em seu carro.
Ele sorri ao ver o sorriso dela.
Antes quem sorria era eu.

Eles escolhem uma mesa no mesmo nosso bar,
Ele puxa a cadeira para ela se sentar,
Ele a beija, como a mim, apaixonadamente.
E só minhas lágrimas caem em uma torrente.

As, minhas idênticas, flores em cima da mesa,
Me lembram, idênticas, noites de verão,
lembro do poesia, da lua, de sua canção.
Vejo, agora, fazendo a ela mesma surpresa

Quem sabe, ele não há ame de verdade,
Quem sabe, seja, apenas, para esquecer a antiga paixão.
Quem sabe, ela possa curá-lo de mim,
Quem sabe, já o tenha feito esquecer a traição.
Quem sabe, me tenha tirado, ardiloso, do coração.
Quem sabe, um dia ele me perdoe.

Mas os olhando, juntos, dessa forma,
Não espero, mesmo, que me retorne
O brilho foi devolvido aos olhos.
Sinto o amor em sua volta.

E quando ele me enxerga a distância,
Acena e sorri formalmente,
Então, seus olhos brilham intensamente,
E reparo na ligação existente,
Parecida com a que existia entre a gente,
Presente nele e em sua companhia.
Não, aquele brilho já não me pertence.

28 de nov de 2010

Ponto de paz

  E quando tudo que existe cai exatamente sobre nossas cabeças? Existem momentos em que isso acontece e nos vemos vivendo em uma completa desordem. Quando menos esperamos o caos está com a gente, de mãos dadas com a nossa sombra e, então, temos que aguentá-lo por um bom tempo, nesses momentos nos perguntamos: o que seria de nós sem os amigos? Não, não falo daqueles que estão sempre por perto durante a noite, nas festas, dividindo o dinheiro do táxi; não falo desses que se divertem com a gente e nos deixam em paz quando queremos, não que esses não sejam bons amigos, pelo contrário, são perfeitos em seus momentos. Contudo, estou falando dos amigos autênticos; aqueles que, clichemente falando, estão com a gente em todos os momentos, inclusive quando tudo cai exatamente em cima de nossas cabeças e o caos aparece parecendo que veio pra ficar; é justo nessa hora, em que nos vemos sozinhos e desamparados, que sentimos uma mão em nosso ombro e um empurrão sutil, gesticulando que precisamos continuar. Só isso. É o que precisamos para continuar. E continuamos.
   Eles estão ali ao nosso lado, esperando o momento certo de nos fazer sorrir, de nos fazer pensar; eles são literalmente mágicos, é incrível como compreendem, compreendem muito, desconfio que compreendam mais que a gente sobre a gente mesmo. E repreendem, também. Eles sabem, muito bem, diferenciar quando devem secar nossas lágrimas e quando devem deixá-las cair; sabem, mais ainda, quando devem ficar em silêncio e quando devem matar-nos de rir; e nunca, absolutamente nunca, nos deixam em paz. Sem eles não há paz, ou há, sei lá, mas seria uma paz ruim, uma paz vazia.

26 de nov de 2010

Menino dos olhos

   É como uma criança, ela pensava, enquanto o observava, olhando para o céu completamente distraído e admirado, encantada. Mas como uma criança pode ter músculos definidos e a barba crescida? É quase como uma criança, ele a convencia disto quando baixava os olhos para ela, deixando formar um sorriso bobo em seu rosto. Os olhos tinham aquele brilho grave do qual ela sempre procurara, tinham a tonalidade verde mais linda que ela já vira. Ele era o ser mais lindo que existia.
  Era inquietante o modo como ele levava a vida, seu jeito apaixonado, jeito de ver tudo como um grande mistério, uma aventura. Ele era diferente de tudo que ela teria imaginado, não havia comparação, ele era melhor. Não havia sentido, não havia motivos, não havia causas; havia apenas o fascínio por parte de ambos.  
  Quando ele brincava com seu cachorro como se não estivesse atrasado para o trabalho e como se ninguém estivesse olhando. Quando ele não conseguia segurar as lágrimas que vinham por tristezas ou alegrias. Quando deitava no colo dela e contava seus sonhos harmoniosos, de um modo terno, seus olhos brilhavam; então, dizia que a amava de uma maneira excessivamente doce e a fazendo rir logo em seguida; demonstrava embaraço e surpresa quando ouvia dela que o amava; em seguida segurava sua mão como se fosse a coisa mais importante para ele naquele momento; depois a olhava, de uma maneira desconcertante. Nesses momentos ele era, apenas, um garoto. Uma criança que passara dos trinta anos, mas ainda assim uma criança.

24 de nov de 2010

Horizonte

   Quando eu estava aprendendo sobre tempo, lugares e espaços, eu não entendia bem o que realmente era o horizonte. Um dia meu pai me levou à praia, em um final de tarde lindo de se lembrar e foi, então, que ele me apontou o horizonte e eu achei aquilo tão lindo, quase tão lindo quanto aquela tarde com meu pai na praia. Nesse dia eu tive meu primeiro sonho: conhecer o horizonte. Eu iria até ele. Não entendia quando as pessoas me diziam que era impossível. Era impossível porque elas não sabiam o caminho. E eu iria.

    Passados alguns anos, eu ainda tinha o mesmo sonho, de chegar ao horizonte, era o único lugar que eu queria conhecer e o único que negavam me levar. Onde eu morava, existia um velho, do qual as pessoas julgavam louco, não no bom sentido de louco que eu gosto, no sentido de doido mesmo. Contudo ele chamava a minha atenção. E eu conversava com ele e nós dois olhávamos o horizonte e sorríamos sentados em um banco qualquer do parque. Então ele me disse, como se adivinhasse meus pensamentos, que eu chegaria ao horizonte, se eu caminhasse sem parar, sem olhar para os lados, sem esperar pelos outros, mas que eu caminhasse rapidamente para dar tempo e chegar logo, pois o horizonte era muito distante.

    E assim eu fiz, aquele foi o primeiro dia de todos os outros dias idênticos que eu comecei a ter. Eu caminhei durante cada parte da minha vida, dormia e comia com pressa para continuar caminhando. Não tive tempo para conhecer mais ninguém, nunca senti amor por nada, não olhava para os lados. Existia algumas pessoas que me acompanhavam por um tempo, mas andar com elas ao meu lado atrasava-me, então, eu as afastava e seguia minha jornada sozinha. Eu, absurdamente, nunca parei para admirar um pôr-do-sol, nem as aves, nem o mar. Eu só queria chegar lá, a todo custo.

   E hoje estou aqui, dei uma volta no mundo e não encontrei o tal horizonte, na verdade, a cada passo que eu dava ele se afastava um passo, talvez eu tenha entendido do que se trata, mas de qualquer forma não importa mais, perdi toda minha vida em uma busca inútil. Não conheci, não chorei, não senti, não amei, nem sequer aproveitei a caminhada por causa da pressa. Talvez se eu tivesse deixado alguém vir comigo, esse tempo na estrada tivesse sido válido, entretanto nem isso. Agora apenas lamento o tempo perdido. 
 
 

21 de nov de 2010

Vício antecipado

   Posso, pelo menos, aquietar minha visão, entregando-lhe sua imagem, amenizando a ardência. Entretanto, tenho mais quatro sentidos que queimam em brasas para, também, ter um pouco de você. Só que esses outros sentidos terão que ser aliviados com um genérico qualquer. E dói, e é angustiante porque dói, angustia dolorosa essa que sinto. Vejo-lhe, mas não lhe toco, não lhe sinto, não lhe tenho, mas tenho a vontade. A vontade, o desejo e eu vejo, que mesmo que só um pouco, mesmo que bem menor que a minha, vontade você também tem. Vontade nós dois temos. É tão urgente essa minha vontade, mais urgente que a sua, não há calma, não há paciência, não há futuro, não há medo, nem sentido, só uma urgência, uma carência. Carência de amor físico ou amor psíquico? Não sei, carência de você. É fome, é sede, é vontade de fumar, de beber, é tudo isso junto e elevado à quarta potência. E urge, enquanto me pede calma, urge mais, mais e mais. E o que faço é me controlar e esperar que você sinta essa urgência que sinto e venha nos tirar da abstinência. Abstinência, é exatamente isso. Deveria ter me avisado do vírus que tinham os seus olhos, que contagiaram os meus. Deveria ter me avisado que seu gosto era droga - droga que vicia sem provar, é que agora eu quero essa droga, como se tivesse me viciado antecipadamente.

20 de nov de 2010

O reencontro

   - E no fim se casou com alguém milimetricamente contrária a mim. Loira, alta, olhos claros, meiga, paciente e que cozinha muito bem. - Ela disse em tom de zombaria.
   - Tinha que achar alguém que não me fizesse lembrar de você toda vez que a olhasse, alguém que não me fizesse chorar toda noite. - Ele respondeu fingindo inocência.

    Depois de muito tempo, estavam ambos com vidas distintas e distantes. Ele morava no sul do país, estava casado e tinha dois filhos. Ela morava no norte, ainda não se casara, mas tinha incontáveis casos. Agora ali, naquele evento que reunia os melhores jornalistas e publicitários do país, eles se reencontram - os olhos se reencontram. Incrível, o brilho era o mesmo, talvez com uma intensidade ainda maior. Eles se amavam, tiveram que perder a chance de ter um ao outro para, então, perceberem isso. Contudo eles se amavam, eles sabiam disso. Agora se encontravam do lado de fora do salão do hotel mais caro da cidade, onde ocorria a festa, olhando-se ardentemente, deixando visível todo desejo; provocando-se com sorrisos e gestos. Eles se desejavam.
  Ele pegou a mão dela e a arrastou para o carro; ela foi fingindo um protesto, como quem vai forçada. Por fim a levou ao hotel em que estava hospedado, abriu a porta com um pontapé enquanto a beijava. Ao entrar no quarto apenas continuava a beijá-la com uma sede feroz. Então a despiu e se perdeu no corpo dela, durante toda noite.
  No outro dia, pela manhã, percebeu seu celular vibrando, ao ver o número de sua esposa, desligou o aparelho, e continuou a admirar a beleza da adormecida mulher que estava em seu lado, na cama. A mulher - que sempre foi - de sua vida.

18 de nov de 2010

John, afetos e liberdade - 2ª parte

  Depois de muito esforço, conseguiu discar o número de John, queria desistir e cancelar a ligação, porém ele atendeu antes.
   - Eu sabia que você não me evitaria por muito tempo. - Disse ele, transparecendo sua euforia por falar com ela.
   - Você sempre soube cada passo que eu daria, antes mesmo de eu pensar em o fazer, não tinha esperanças que mudasse mesmo. - Ela aparentava felicidade, também, porém estava relutante.
  - De qualquer forma não esperava falar contigo hoje, não depois de tantas tentativas falhas.
  - Eu estou ligando por que o caso é urgente. Tenho que salvar um amigo de algo terrível. - Deu uma risada e continuou - É amanhã o grande dia, como está se sentindo?
  - Obrigado pelo aviso minha garota -  Ficou em silêncio por alguns segundos, era estranho chamá-la de "minha garota" diante de tal circunstância - Estou nervoso, preocupado, a beira de um ataque cardíaco e pensando em suicídio. E só ficarei melhor se me disser que virá.
  - John e suas chantagens. - Sua voz passara de entretida à tensa nesse momento. - Acho que vou pegar um avião amanhã cedo para estar aí no grande momento.
  - Vou agradecer-lhe com as duzentas e quarenta e oito canções que fiz para você, prometo. Não sabe o quanto isso significa pra mim.
  - Até parece que eu perderia o dia mais importante da vida do meu melhor amigo. - Tentava transparecer distração, contudo não podia esconder o abatimento.
  - Saiba que o melhor dia da minha vida, foi aquele em que entrou com suas malas no meu carro e planeamos nosso caminho pela primeira vez. - Ele dizia isto sorrindo, mas percebeu a melancolia na voz dela. - O que foi, fala com um tom desanimado? Não me venha com desculpas, sabe que lhe conheço melhor que seu diário.
  - Sabe, é estranho, você casando, entende?
  - Eu sei. - Falava, de repente, com vaga tristeza - Completamente estranho, mas não pude dizer-lhe, não atendia minhas ligações, queria fazer-lhe uma surpresa quando eu já soubesse o sexo e lhe falar já tendo escolhido o nome e tudo mais, seria BAM um grande choque. Não era assim que imaginei contar-lhe do filho que Beatriz, minha futura esposa, está esperando.
  - Queria e conseguiu me deixar em estado de choque! Nossa, John, vai ser pai? Meu Deus! Parabéns. Eu nunca imaginaria... - Disse sem manifestar a felicidade necessária.
  - É eu sei, foi tudo repentino. - Interrompeu-a como se estivesse desculpando-se.
Ela não entendeu o porquê de se sentir daquele jeito, como se tivesse levado um soco no estômago. E ele não entendeu por que se sentira tão mal ao ter que contar para ela.
  - Talvez eu não deva ir... sabe, tenho muitas coisas pra resolver por aqui. - Ela mentiu.
  - Por favor, não faça isso comigo, já são dois anos. - Revelava o desespero aos poucos. - Além do mais, tem que publicar seu livro e está na hora de sossegar um pouco, não acha? Olha, tem uma casa aqui perto que está venda, eu pensei em te mostrar, poderíamos ser vizinhos. Eu sempre disse que teríamos que passar toda nossa vida juntos. - Não segurou o riso tímido.
  - Eu realmente ando pensando em voltar, quero confessar-lhe algo - Baixou a voz, como uma criança que conta segredos. - Eu acho que quero um lar, um abrigo, alguém que me faça chocolate quente nos dias de frio. Eu quero permanecer. Eu descobri que a liberdade não é tão boa assim, não quando é a única coisa que se tem; não quando se tem ela toda para você.
  - Eu sempre soube que me casaria primeiro, sempre achei que você fosse livre demais para arrumar um marido. Contudo, sempre tive a certeza de que um dia você iria querer casar-se também. - Poderia ser impressão, contudo aparentava decepção. - Quem sabe você tenha uma filha e ela cresça com meu filho. Quem sabe eles formem-se juntos em um curso qualquer, façam uma viagem, escrevam um livro, tornem-se tão importantes um para o outro como nós somos.
  - Eu não pretendo ter uma filha tão cedo...
  - Quem sabe meu filho seja mais inteligente que eu e peça sua filha em casamento antes de engravidar outra mulher. Quem sabe... - Ele disse segurando um soluço.
  - John...
  - Eu tenho que desligar agora, por favor, esteja aqui amanhã.
  E desligou o telefone. Pela primeira vez ela teve a certeza de que o que se passava entre eles não era um amor de amigos ou de quase-irmãos, era amor amor. E ele sempre soube. Todavia, ele se casaria amanhã, com uma mulher que esperava um filho dele. E não, ela não iria aparecer. Seria melhor assim.

16 de nov de 2010

John, afetos e liberdade - 1ª parte

   Era o pôr-do-sol mais lindo que já tinha visto, ela nem podia acreditar que estava na Tower Bridge, sobre o rio Tâmisa, em Londres. Durante os últimos anos conheceu muitos lugares impecáveis pelo mundo, como esse, difícil dizer o que mais marcara. Marcado mesmo, ficaram os dois primeiros anos, dos quais ela viajara com John, seu melhor amigo.
  
    Era uma tarde de sábado, quatro anos atrás, estavam ansiosos, iriam receber os diplomas de Comunicação Social em algumas horas. Ela queria escrever para um jornal e mais ainda, escrever diversos livros; ele queria mesmo escrever músicas e fotografar. Tinham um sonho em comum, fazer uma viagem, um longa viagem e conhecer lugares novos e pessoas diferentes, a fome de cultura de ambos era fascinante. À noite, enquanto toda turma se divertia na festa de formatura, eles saíram mais cedo e foram para o bar preferido deles; eles eram melhores amigos desde a pré-escola.
    - Viu só, nos formamos, com a idade que disse que nos formaríamos. Vinte e dois anos, não falhamos minha garota.
   - Ah, John, sempre soubemos do nosso potencial, mas e agora? Qual é o próximo ato? - E o contagiou com um riso de euforia. - Nos embebedarmos?
   - Tudo bem, é o que fazemos de melhor, não? - Ficou sério, fazendo suspense - Porém, bêbados não podemos dirigir.
   - Hoje eu tenho dinheiro para o Táxi, aproveite, não é todo dia. - Continuava se divertindo.
  - Escute garota, não estou falando de dirigir para casa, chegou o dia de pegarmos meu carro e conquistarmos a América, lembra? Seu livro e suas reportagens; minhas fotos e meus documentários.
    Desde muito jovens eles costumavam traçar planos, um desses planos era se formar cedo e assim que pegassem o diploma, viajariam pela América e deixariam registradas suas aventuras, depois voltariam e publicariam esses feitos.
   - Passe lá em casa amanhã as duas da tarde, esteja com as malas prontas e leve suas economias. - E com um sorriso sugestivo, mostrou a seriedade daquelas palavras por cima do seu tom de brincadeira.
   Eles eram assim, corajosos e inconsequentes.


   Arrumaram as malas, colocaram gasolina e se foram pela estrada. Não tinham destino e o único plano era conhecer o máximo de lugares que pudessem e registrar tudo. Ela escrevia todas as noites, artigos, crônicas e começara seu livro, a estrada era sua fonte de inspiração. Ele fotografa, filmava, escrevia músicas e tocava para ela quando paravam em algum lugar estranho. Foram dois anos viajando pela América do Sul, dormindo em hotéis, comendo comidas esquisitas, conversando com pessoas estranhas, conhecendo lugares esquisitos, estranhos e bonitos; tudo muito interessante, completamente mágico. Eles paravam para admirar qualquer paisagem que encontrassem, se divertiam, iam à festas e se embebedavam. Na maior parte do tempo passavam na estrada, ouvindo clássicos do Rock ao som máximo. A sintonia deles era absoluta, se respeitavam, se protegiam, se entendiam pelo olhar e pelo sorriso e conheciam cada gesto um do outro, como códigos. Quem observava de fora não entendia o que eram. Eram namorados? Irmãos? Não poderiam ser simples amigos. Nem eles acreditavam que eram simples amigos, era um amor diferente de tudo. Contudo, eram apenas amigos, não poderia ser diferente, não poderiam ser um casal.


  Quando completaram dois anos de viagem, John decidiu-se que era hora de voltar para sua cidade de origem, ele publicaria suas fotos e ela seu livro. Assim fizeram: tanto as fotos quanto o livro foram um sucesso, eles conseguiram o dinheiro e o êxito esperado. Ele quis ficar, ter sua profissão fixa e comprar uma casa. John queria que ela ficasse também, porém, ele sabia que ela não ficaria quando dizia que não ficaria. Ela queria continuar sua viagem, mas dessa vez em outros horizontes, aumentar os limites, sair do chão e ir pelo ar. Queria descobrir outro continente: começaria pela Europa, pensava mais alto. - Por fim, ele ficou e ela foi. Ele prometeu milhares de músicas para quando ela voltasse e ela prometeu escrever para ele diariamente relatando como estava se saindo e descrevendo minuciosamente os lugares que conhecia.


    Agora ela apenas se concentrava nessas recordações, os dois primeiros anos deixaram as melhores lembranças que ela tinha, mesmo que nos dois últimos ela tenha conhecido lugares que eram como sonhos, os sonhos não eram tão bons sem John.
    Fazia dois anos que ela não o via. Na última vez que se corresponderam, exatamente três meses atrás, ele dissera que iria se casar, depois disso perderam o contato. O casamento seria amanhã. Ele tentava ligar para ela já havia uma semana e ela não atendia, pois sabia o que queria: que ela aparecesse no casamento. Não que ela fizesse alguma objeção ao casamento em si, mas a ideia lhe era estranha - John construindo uma família, uma vida da qual ela não participaria. Eles cresceram, passaram por dificuldade, realizaram sonhos, sempre juntos. E agora ela não poderia mais estar junto dele, não como antes. Havia, também, um problema maior, do qual ela tinha dificuldades de aceitar e assumir: ela percebia que, no fundo, também queria isso. Um lugar só dela, alguém que vivesse por ela. Ela queria permanecer. Essa vida peregrina se tornara cansativa. Havia um tempo em que ansiava por aventura e liberdade e agora só desejava ter alguém pra levá-la ao cinema, alguém que soubesse que ela não gosta de comer pipoca enquanto assiste ao filme.

14 de nov de 2010

Amando um vampiro

Me tira o coração e ainda quer minha alma,
Suplico que devolva minha sanidade e a fome,
E o que faz é solicitar uma última lágrima de sangue,
E eu peço, com humildade, pela última dança,
E dança como se fosse gente, fosse quente, e some.

Injeto de volta todo sangue que te dei
E minto pra mente que da cabeça te tirei,
Mas pra alma não se mente, ela sabe que eu sei,
Que não esquece quando se ama do jeito que te amei.
Pesa saber que não houvesse o que fazer, então eu desejei.

Certa até do dia, sei que vai voltar
E tenho medo, pois volta, mas só pra me roubar.
Volta e bebe o sangue que eu iria precisar,
Toma minhas forças, tira tudo do lugar.
Como sempre, vai embora e eu fico a desejar.

E desejar desse jeito, acabará por me matar,
Mas eu desejo e não entendo, como ainda posso amar
Aquele que me suga, me quebra, me parte, me deixa sangrar
E enquanto sangro, bebe meu sangue, sentindo prazer.
E sinto prazer ao ver-te beber, ao ver-te morder, ao ver-te sugar.
Teu corpo frio em meu corpo quente, bebe, morde, suga,
Me tira tudo que puder tirar.

12 de nov de 2010

Entregar-se

Abrindo os olhos, calando o coração
Vê-se a causa das palavras ditas,
Assusta-se com a falta de razão
E falta razão quando se entrega aos sentimentos
Ou se entrega aos sentimentos quando se perde a razão.
Não abandono a sensação de isolamento
Muito simples, não posso, então finjo
Finjo muito bem que consigo deixar o sentimento
De lado e seguir, mesmo sentindo-me um mendigo
O que eu faço é apenas ir e ir indo, 
Solicitando liberdade, mas a alma implorando abrigo
Abrigo é o que se quer e o que não se pede
Não se pede, nunca se pede
Vai achar quando achar que deve,
Antes disso, olhos abertos, coração aberto
Tens que ser livre, mas se permitir entregar
Terás liberdade e alguém poderá te guardar.
 

10 de nov de 2010

Ensaio da normalidade

   O mundo é repleto de pessoas normais. Eis a consternação.
   É normal trabalhar para conseguir dinheiro e descontente, trabalhar ainda mais para conseguir ainda mais dinheiro e ainda descontente, trabalhar mais que viver para conseguir mais dinheiro que vida. É normal ver mulheres sonhando em se casar com homens lindos e ricos, pois tendo apenas esses dois requisitos, certamente terão encontrado "o amor" de suas vidas. É normal gastar dinheiro, sem pensar, com o sapato da marca da moda que muda toda semana, e não pensar no dinheiro negado à criança que o pediu para comer, pois já não comia a uma semana. É normal demais seguir a tendência e deixar de lado a sua verdadeira preferência. É absurdamente normal maltratar os animais e se esquecer que eles possuem uma alma mais pura que a nossa. É tão normal reclamar dos políticos, não entender nada de política e reclamar mais um pouco da situação, então resolver continuar a não fazer nada e ir olhar algum reality show. É muito normal julgar as pessoas por algo que elas fizeram, fazem ou um dia irão fazer, enfim, é normal julgar. É a coisa mais normal do mundo colocar as pessoas em uma linha invisível e compará-las como se fossem iguais. E agredir, ofender e difamar para descarregar sua raiva, é algo absolutamente normal.
  Todos querem, obviamente, encontrar o caminho mais curto para a felicidade, porém, o que seria essa felicidade? Os normais responderiam - Riqueza e fama, e sinceramente eu não concordo. A felicidade para mim está nas pessoas, nos instantes e principalmente nos sentimentos; nos amores.  "Menos é mais". Então, a pessoa mais normal do mundo chegaria a seguinte conclusão e me diria: - Garota, você não é normal. E eu daria o melhor sorriso que tenho e responderia: - E faço o impossível para não ser.