30 de dez de 2010

Casualidade

    Tocava alguma música eletrônica que Luana nem conhecia, ela nem gostava dessas músicas; nem dessas festas; muito menos dessa gente esquisita. Por que, afinal, estava ali?  Um fim de namoro obrigou-a a sair, não que ela realmente quisesse, porém ficar em casa na companhia de seus livros não a distrairia completamente, não dessa vez. Contudo, naquele momento acreditava que seus livros pudessem a divertir mais que aquele agrupamento de gente insana.
   Quando finalmente se decidia por ir embora, percebeu a presença de uma garota sentada do outro lado do salão, demorou para se lembrar onde tinha visto aquele rosto curioso; era uma garota que havia saído com seu ex-namorado um tempo atrás, enquanto eles estavam juntos. Desde o dia em que ela descobrira a traição, ela nutria um tipo de cisma em não gostar dessa garota; agora se via encarando aquele rosto que a encarava de volta, tinha os cabelos compridos, negros e muito lisos; sua pele era de um tecido alvo; e os olhos de um tom de verde, rijos e penetrantes. A princípio, Luana pensou que a garota a olhava daquela forma por raiva, mas depois se lembrou que ela nem deveria saber de sua existência. Garota estranha, não é lésbica, mas as vezes fica com meninas para variar, se lembrou que seu ex-namorado mesmo contou isso, porém estranho era que já não sentia raiva, somente uma curiosidade sobre aquela menina tão branca e tão diferente, por que a encarava daquela maneira? Expressão de impossível leitura. Foi quando a garota se levantou, veio em sua direção e sentou-se ao seu lado em frente ao bar.
   - Tenho a impressão que lhe conheço, mas tenho certeza que é a primeira vez que vem aqui. - Disse a garota com a face ainda séria.
   - Acho que estudamos no mesmo colégio. - Luana respondeu rispidamente, querendo desvencilhar-se da conversa.
   - Está sentada a horas, me parece completamente perdida. - A garota parecia não desistir fácil.
   - Eu não estou legal. - Esta se limitava a cortes.
   - Tudo bem, não vou perguntar o que aconteceu com você, mesmo por que não tenho interesse nenhum na sua vida. - Disse isso a pegando pelo braço e a arrastando para a pista.
   Luana, mesmo perplexa, não recusou o convite obrigatorio; como se não percebesse o que fazia, viu-se na pista dançando com a garota esquisita, da qual pouco tempo atrás acreditava odiar. Passou muito tempo em que elas dançavam e durante todo o tempo, Luana evitou mirá-la nos olhos, sabe-se lá o porquê desse receio; Luana não a olhava.
    - Qual é o seu nome? - A garota perguntou, falando muito alto em seu ouvido por causa da música.
    - Luana e o seu? - Perguntou de volta, fingindo desconhecimento.
    - Daniele, como se isso importasse - Disse dando um sorriso travesso.
    Nesse momento, Luana a fitou nos olhos. Erro fatal. Daniele parecia perto demais. Tão perto, que não era Daniele, eram olhos verdes e... lábios. Daniele a beijou, que espantosamente retribuiu o beijo. No primeiro momento não se deu conta do que estava acontecendo, mas no instante seguinte, tendo a percepção de que estava agarrada a um corpo feminino, como o dela; tocando lábios macios, parecido com os seus; e usando de gestos delicados, ambas; preocupou-se com o que os outros pensariam se vissem, provavelmente já teriam o feito; então se afastou e mais espantosamente ainda, percebeu que ninguém notara, afinal, estava escuro, havia luzes piscando em seus rostos; não se notava nada. Luana transparecia certa inocência, um certo arrependimento e voltara a sua compostura retida; já Daniele com um ar de divertimento, percebendo o receio da outra, fez questão de continuar com o jogo, sem deixá-la em paz, era como um desafio.
    As duas garotas passaram, então, o resto da noite juntas; Luana, no primeiro momento, estava completamente confusa e receosa, porém logo soltou-se, era uma festa, não iria para o inferno por isso; nem sequer passaria de uma noite. Não eram lésbicas; Luana nunca sentira atração nenhuma por mulheres. Contudo, naquele momento não se importava com isso, aquela garota havia chamado sua atenção e foi recíproco. As mãos estavam juntas, naquela noite elas estavam juntas. Sem preocupações ou preconceitos. Eram apenas dois corpos atraídos e, por coincidência do irremissível destino, eram ambos femininos.

28 de dez de 2010

Paraíso vermelho de cabeceira

    A primeira coisa que veio na cabeça de Ana Clara: Acabei de morrer e conhecer o céu. Nunca havia entrado em um lugar tão sedutor: As paredes eram de um vermelho vivo, quase reluzente; o teto era esplêndido; os pilares surgiam assombrosamente em diversos pontos; nenhum chão jamais fora tão lustroso, podia enxergar seu reflexo ao olhar para baixo; tudo feito milimetricamente para causar uma admiração espantosa. Era a maior biblioteca que ela já entrara, nunca vira estantes tão extensas, milhares que atravessavam toda biblioteca e tão altas, quase tocavam o teto; com pequenos espaços para trocar de corredor, formando um gigantesco labirinto. Não seria tolice se alguém se perdesse em seu interior, pois essa biblioteca, inclusive, dispunha de mapas. Próximo à parede oposta à entrada, havia uma única mesa, da qual poderia sentar-se observando a vista que a janela proporcionava: um lindo e enorme jardim, como para merecer a fantástica biblioteca. Entretanto, o que mais encantara a menina que descobrira aquele lugar maravilhoso, não se tratava da imagem perfeita, nem da grandeza incomum; se tratava dos livros, ela podia jurar que haviam ali todos - se não todos, quase todos - os livros do mundo; literatura, filosofia, psicologia, política, religião, biografias, etc. Levaria uma vida toda e não poderia ler tudo o que gostaria; o fascínio tomava conta de cada célula dela, a cada suspiro seu. Não era uma biblioteca apenas, era o paraíso do qual ela sonhara durante toda sua vida. Aliás, em sua vida, ela fora a amante mais devota aos livros, não tinha paixão maior, passava dias e dias lendo. Sempre sonhou com uma biblioteca particular, mas se contentava com as bibliotecas públicas de sua cidade e as livrarias, da qual gastava todo seu salário. Agora parecia que seu sonho se realizava, poderia ser fruto de sua imaginação, porém era tão real.
   Como ela fora parar ali? Foi quando ela enxergou, acima da porta de entrada haviam as seguintes palavras: Paraíso vermelho de Ana Clara. Nesse momento ela teve uma vertigem, estava realmente assustada, não mais eufórica, e sim com medo. Caminhou, então, até a porta, tentou abrí-la, porém estava trancada. Completamente atrapalhada, Ana saiu correndo pelo imenso labirinto de obras, mas nunca chegou ao fim; sem saber o que fazer, sentou-se em meio aquele corredor de livros e pegou algum para se distrair; no momento em que começou a ler um livro de mitologia grega, deu-se por conta de que o lugar em que se encontrava, transformava-se em algo estranho; depois de alguns segundo tentando entender o que acontecia, ela percebeu um barqueiro, um tanto esquisito, que vinha em sua direção sobre um rio que apareceu magicamente.
   - Por favor, pode me informar onde me encontro?
   - O que você faz aqui meio sangue? - E falava em Rio Styx, em tudo ao seu redor lembrava morte e ela ficava cada vez mais assustada.
   Rio Styx, Rio Aqueronte, pensou e olhou para o livro aberto em suas mãos. Então reconheceu o barqueiro, era Caronte, a personagem do livro; nesse instante fechou o livro e de maneira repentina tudo voltou ao normal (há quem considere normal uma biblioteca que contém livros que ganham vidas ao serem abertos).
    Ao entender a finalidade daqueles acontecimentos estranhos, ela procurou uma obra de alguém que pudesse fazê-la entender como sair dali; não poderia ser real, era um sonho, uma arte de sua mente; de qualquer forma ela se percebia presa.
    Procurou, então, algum livro sobre psicanálise, foi quando encontrou uma obra de Nietzche, não demorou para abrir o livro e ter o filósofo em sua frente. Ele não era como ela imaginava; de qualquer forma não demorou para enchê-lo com suas perguntas. Ele respondia apenas com citações de seus livros, dos quais muitos ela já conhecia.
 -   "Do mesmo modo que das duas metades da vida, a vigília e o sono, a primeira nos parece incompara­velmente mais perfeita, mais importante, mais séria, mais digna de ser vivida, se não a única vivida, assim também desejaria eu sustentar (por mais paradoxal que pareça) que o sonho das nossas noites tem importância análoga para a essência misteriosa da nossa natureza para a intimidade de que somos a aparência exterior."
   Ela, então, acordou de seu sonhos e se encontrou em seu quarto novamente, nada esplêndido, um pouco vermelho, porém sem aquele brilho. Ligou a luz e viu seu livro de cabeceira aberto em uma página da qual havia uma citação de Nietzche destacada: "É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela".

26 de dez de 2010

Noite feliz

  Então é Natal e como em toda noite de Natal que se preze, especiais natalinos igualmente chatos passam em todos os canais de televisão. Neste momento famílias dos quatro cantos do mundo comemoram, com algumas exceções religiosas (por mais que a maioria nem o faça pela crença em si). O que importa? Importa essa oportunidade de reunir a família, de espalhar felicidade fraternalmente e querer bem ao próximo; e isso, pode-se fazer qualquer um, pois são gestos que independem da crença. Contudo, qual é o sentido de eu estar refletindo sobre família reunida, fraternidade e tudo mais, quando eu mesma estou completamente só, olhando as mentiras desvairadas da TV, devorando um pote de sorvete no lugar da ceia? Estou só na noite de Natal, e perguntaram-me os mais chegados por telefone há uma hora atrás: "Passará o Natal sozinha por escolha própria ou por falta de ter com quem passar?" - "Sim e não", respondi - as pessoas das quais eu desejo de todo o fundo de meu coração estar perto hoje, estão a quilômetros de distância; entretanto, existem solitários, como eu, reunindo-se para passarem o natal juntos em uma casa de festas qualquer, para se sentirem, talvez, um pouco menos isolados. Mal sabem, os coitados, que um solitário no meio de milhões de outros solitários, não é menos isolado que alguém, que como eu, prefere ficar verdadeiramente só, aceitando sua real condição de se excluir do mundo exterior por algum tempo e que pelo contrário - a solidão tende a aumentar em meio à multidão.
  Eu, como perfeita bajuladora da solidão e de toda interiorização que sou, não me angustio nem sinto a melancolia que poderia dispor. Até posso respirar um ar de liberdade e de felicidade pura, ao saber que posso ser feliz sozinha, inclusive em datas como esta - e nem digo isso pelo fato de que a minha religião (que é a de não ter religião) não comemore o Natal, pois datas assim me deixam com vontade de comemorar com os outros, para me sentir, por um segundo, igual a todos - só por que não acredito no sentido literal do Natal, não quer dizer que não possa acreditar no que é lembrado: paz e amor a todos. Natal é uma data linda. E nada me impede de suspirar sobre os meus sonhos utópicos do mundo a sós comigo e eu. 
  E a todos meus colegas de solidão que estão divertindo-se na casa noturna da esquina e acreditam estar em melhores condições do que eu, saibam que eu também estou sorrindo muito, enquanto vejo a imensidão desta cidade, sem ser realmente grande. E enquanto sonho profundamente com a perfeição de uma vida.   
  Não estou aqui para julgar uma alma sequer, e por este motivo não quero que me julguem digna de dó e nem me tenham compaixão enquanto me observam pela janela, que não preciso disto. Estou perfeitamente bem, com minhas reflexões e liberdade. Estou tão bem ou mesmo melhor que vocês, pois já me acostumei com esta situação e me é completamente agradável.
  Acreditem, acreditem... que estas lágrimas que rolam sutilmente pela minha face de maneira nenhuma são de tristeza, ao contrário, é felicidade... é felicidade - o natal é lindo. E estes soluços? E todos estes lenços espalhados? É felicidade. O Natal é lindo. Tristeza? De forma alguma...

24 de dez de 2010

Anseio

E o que sinto é tão carnal
Ah, meu amor, sei que sabes de meu desejo.
Embora tenha sido sempre real,
Só agora sentes e eu vejo.
Não apenas olhos e toda parte facial,
Vejo corpo e pele, quero toque e gosto.
Despertas em mim um lado animal
De um ser humano que é só e puro sentimento.
Te vejo, te sinto e preciso
Com urgência, com tempo, insisto
Que venha enquanto ainda por ti existo.

22 de dez de 2010

Oceano de fogo

Invento-me e refaço,
Preparo meus passos
Com autonomia e confiança
De quem exibe uma dança.
Às vezes pareço criança,
Às vezes acho que sou.
Observando o céu ao sul
Vejo um pássaro em pleno voo.
Às vezes acho que sei
Apreciar o imenso mar azul.
Lindo seria um mar vermelho
De sangue escarlate puro
Ou de chamas de um fogo vivo.
Um oceano para se queimar,
Recorda uma vida para se amar.

20 de dez de 2010

Linhas sagradas

   As palavras me consomem e eu devoro-as. Então crio um universo repleto de caos, pois me sinto bem em meio a uma desordem inventada. Estas palavras possuem um poder inacreditável, tão delas e tão meu. E todas as coisas reais que me agridem perdem seus sentidos pelas minhas linhas.
   Todas linhas que traço durante o dia fazem-me querer construir outras quando chego ao fim. Linhas sobre linhas. Linhas reais e linhas inventadas. Linhas cruentas e linhas invisíveis. Linhas por motivos sem algum sentido. Linhas que não se acabam.
   Estas linhas traçam-me tempestades afáveis, sonhos dissertados, vidas escarlates, sangramentos que não cessam, zero sobre zero, contraditoriedade convicta, segurança na escuridão... Todo irreal que sei que existe em algum lugar aqui dentro.
   As linhas levam-me ao sagrado que procuro.

18 de dez de 2010

Tantas voltas

E me vejo aos pedaços mais uma vez.
Vejo meu orgulho tão rebaixado, pisoteado e massacrado
E tão para baixo, tão, tão, tão no fundo
Que me vejo descendo junto.
Eles me ofendem tanto, agridem, humilham, pisam e sambam.
E é tanta gente; é tanto peso de tantas coisas bobas, pequenas, falsas.
Ah, como queria gritar,
Por toda tristeza que é sempre tão abafada.
Sou tão pequena, mas é tanta gana.
E o mundo dá tantas voltas
E é como se todas elas se voltassem contra mim.
E Júpiter é tão distante e tão quente e eu queria tanto viver lá.
Não vivendo eu crio tantos planetas e tantos universos
Que são tão inventados que de alguma maneira, também, me invento lá.
E gosto tanto deles, pois são tão estranhos
E tão para dentro que eu entro e não quero mais voltar.
Mas sempre volto, como se a realidade fosse meu lugar.
E voltando me sinto tão mais viva e até melhor,
Então acho uma forma de ficar.
Mas ficando, o mundo dá tantas voltas, dessas que tiram tudo do lugar.
E me afundo novamente,
Imersa em tantos sentidos que não fazem nenhum sentido e torno a sonhar.
E sonhando vou para dentro e cada vez mais para dentro,
Que se torna quase impossível voltar.
E tenho tanto medo que meus universos imaginários me deixem presa em meu interior.
Mas o interior é tão agradável e tão composto que dá mesmo vontade de ficar.
Por outro lado, o lado de fora é tão real, tão preciso e chama tanto por mim que tenho que enfrentar.
Mas esse mundo dá voltas e são tantas voltas...

16 de dez de 2010

Querido diário

   E o ego, já quase inexistente, desce mais um pouco. 
   
   É inadmissível que as críticas vindas de uma pessoa que funestamente olhou e não gostou, sem nem saber seu gosto, causem impactos maiores do que os elogios feitos pelas pessoas que sentem até sua alma. É inacreditável, porém acontece.
   
   Julgamento é algo do qual eu tenho convivido durante os últimos dias de toda a minha vida. 
   Contradição: Julga-se, erra-se, julga-se.

   Quando me refiro a julgamento, refiro-me como um sinônimo de rotulagem. Pode, porém não é necessariamente um sinônimo de uma crítica bem opinada; que seria o lado caridoso do julgamento. Pois críticas opinativas são necessárias e todos dispõem delas; sem nos esquecermos que esse tipo de "boa" crítica só é bem aplicado depois de analisar minuciosamente o criticado. Contudo, referindo-me ao ato de julgar, uso-o como um sinônimo de uma crítica de rótulo, ou algo muito próximo ao preconceito; que seria julgar uma pessoa pelo que ela fez ou é, sem tentar compreender a circunstância; ou, ainda, criar  uma concepção sobre alguém do qual nunca tenha tratado, apenas com a informação visual.
   Não se deve confundir o pré-julgamento, ou, mesmo, o julgamento de um feito exposto pela condição, com a crítica inteirada.
  
   É muito mais fácil apontar defeitos, criticar e ignorar as qualidades (principalmente quando se é inseguro). Contudo, conhecer, admirar (sempre há o que admirar), ver no outro algo bom que desfoque o que lhe desagrada é, afirmo, bem mais satisfatório.
     Erro: se conhece a imperfeição - julga.

   Era fast-food: Tudo instantâneo. Olha-se, analisa-se precariamente, voilá, está pronto para rotulagem: "É fútil, é ignorante, é hipócrita, etc."
   Hipocrisia: possui deformidades, sem enxergar o próprio reflexo - julga.
   
   Não se dirige a palavra; não se olha nos olhos: julga-se
   Julgam, rebaixam, agridem.
   Não conhecem teus sonhos; não escutam tuas músicas; não compartilham teus livros (ou conhecem, escutam e compartilham sem ter a percepção). Entretanto sabem perfeitamente de tuas limitações, ainda assim, se tornando incompreensivos.
   Incompreensão: julgamento.

   Posso assegurar que mesmo sendo difícil, não é impossível não julgar e eliminar qualquer pré-conceito da mente; basta tentar compreender e aceitar, sempre, as pessoas como são. A compreensão é a chave da união. É o fim da hipocrisia.

14 de dez de 2010

Infinito futuro

   A lua cheia ornamentava o céu naquela noite, da qual ela ouviu assobios vindos do lado de fora, próximos à sua janela - era ele, com sua jaqueta de couro preta, escorado em seu carro. Ao se verem abriram instantaneamente os sorrisos, como se fosse um gesto ensaiado. Ela não hesitou em pular a janela e correr para abraçá-lo e ele beijava sua testa suavemente. Ele a convidou para dar uma volta e ela foi, mesmo nervosa, pois seus pais não poderiam descobrir que ela saíra de casa com ele, ela nem deveria vê-lo. Entraram no carro, se olharam profundamente e os olhos brilhavam, brilhavam como a lua cheia, brilharam ainda mais quando sentiram o toque das mãos.
   Ele a levou para assistir o espetáculo das ondas na praia, só eles sabiam o quanto gostavam disso, admirar aquela imensidão infinita do mar e sonharem com um futuro parecido, mesmo nunca tendo o feito juntos. Ele a apertou em seus braços, seus sentidos pareciam gritar e todo o resto do mundo parecia sumir. levando junto todo e qualquer empecilho que os impedisse de estarem ali, juntos. Nada mais importava. Caminharam beirando o mar, falaram e riram; encontravam-se em um estado de embriaguez e era tanta, que faltavam palavras sensatas no meio de tantas coisas ditas; não importavam estas coisas ditas, importavam os olhos brilhando e os momentos em que se tocavam propositalmente sem querer; falavam muito sobre nada e era tão bom. Contudo, algo que foi dito teve um sentido em meio a toda exaltação: ele disse que tudo daria certo e por isso ela acreditava que realmente daria. Talvez não devesse depositar aquela fé cega nas palavras dele, mas não havia como questionar aquele brilho dos olhos e aquela voz tão aprazível.
   O mar cooperava para aumentar a sede de ambos; sede que sentiam um pelo outro e a cada segundo que passavam perto sentiam a boca cada vez mais seca. A vontade que tinham de beber dessa água se tornava descomunal, porém resistiam, quase sem forças; resistiam ao desejo, pois não queriam perder a razão, não naquele momento. As coisas deveriam acontecer com calma, do jeito certo. Eles tinham certeza que a espera seria recompensada. Contudo, naquela noite, nada disto era relevante; somente as estrelas, os olhos, os sorrisos, a poesia e o amor; amor não consumado, ainda assim um amor imenso e infinito, comparável aos oceanos.
    No fim da noite, ela já voltara ao seu quarto, evidentemente sonharia; sonharia com os olhos brilhantes, a voz terna e os gestos doces; sonharia com o infinito e com o mar.

12 de dez de 2010

Ponte do Paraíso Vermelho

Atravessando a Ponte do Paraíso Vermelho,
Encontrei o lugar que não conhecia escuridão,
Não havia pressão, somente o mar rúbido,
paz, luz, calor e imensidão. 
E por toda noite conheceria o céu, conheceria o inferno
E a lembrança do sonho trágico vem com doce decisão:
O certo seria voltar a Terra,
O erro seria continuar no Paraíso Vermelho
Eu queria ficar no meu sonho escarlate,
Contudo, deparava-me assistindo meu embate
Teria que voltar e enfrentar minha guerra.
Meu doce sonho, afogueado, onde me encontrava imerso
E o mágico lugar senhor do céu e senhor do inferno,
Deu um jeito de prender minha atenção,
Trazendo minha inspiração, mostrando-me um lugar de amor
De fortuna, caos, chuva e confusão,
Mas chega a hora da decisão de um sonhador,
Ele chega, eu digo "bem vindo ao Paraíso Vermelho".
Ele chega e diz  "Ao lugar rubro, belo desordenado lugar de amor.
Diga adeus ao Paraíso Vermelho,
É a hora de esquecer a fantasia, a luz solar."
Mas como não querer o lugar que conquista devagar,
Com melodia, luz, sol, cor e luar.
E o que me resta é voltar ao meu lugar.
Então, tarde, eu atravesso a Ponte do Paraíso Vermelho,
Acordo do sonho naquele lugar escuro, não querendo acordar.
Sabendo que nem que eu quisesse poderia voltar
Ao lugar sonhado, não havia mais como atravessar
A Ponte do Paraíso Vermelho.

10 de dez de 2010

Coração condenado

  Você perder-se do amor, é uma sensação pior do que ver seu amor perder-se de você. É como se o fim fosse sua culpa. E vê-lo implorar para que esse não seja o fim, vê-lo fazer isso com os olhos, é algo torturante. Neste momento quem pede é você; pede a ele uma chance; chance de seguir em frente sozinha.
     O problema é que isso acontece continuamente com você. Então, concluiu que o amor e a sua vida não andam na mesma linha. Você não consegue criar vínculos com alguém. Você ama-o furiosamente hoje e sabe que amanhã poderá ser diferente; tem medo por isso, tem medo por ele. O fato de ter a certeza de que um dia irá acordar e ver que simplesmente já não sente nada a impede de se entregar totalmente a alguém, pois sabe muito bem quem vai sair ferido no final e não será você.
   É esse coração indomável, que se rebela fora de época, que faz de você um condenado. O amor não poderia ser como é para todo mundo, algo duradouro? Por que para você ele se torna fatalmente algo temporário?
   Não é que queira ser assim, eu sei, é a sua condição. O amor é o seu carma; ama ardentemente; ama sabendo do tempo esgotável de sua chama; ama esperando pelo fim. E quando chega ao fim, vê-se trancada em um quarto acompanhada por bebidas e lembranças, tentando sentir alguma coisa, apenas, para perceber que já não sente absolutamente nada.
   É estranho não sentir nada, tão estranho que dói. E até faz uma força para sentir, eu sei, entretanto, de nada adianta qualquer força quando o coração torna-se vazio.
   Eu sei o quão infeliz é essa vida de desamores, acredite, eu sei.

8 de dez de 2010

Here today

  Estou sentindo uma imensa falta de alguém que não está aqui. Nunca esteve aqui deveras. Entretanto, a aflição que sinto com essa ausência é maior do que poderia imaginar, e hoje, logo hoje... Se você estivesse aqui agora, o que será que me diria? Como eu me sentiria?...
  No entanto, o ciclo da vida segue; segue belo e segue bem. E eu permaneço aqui, onde você nunca esteve e nunca poderá estar. E eu apenas queria vê-lo, por um minuto, de novo e pela primeira vez. Não em meu sonho, não em meus sonhos. E se você estivesse aqui hoje? Talvez minhas lágrimas não caíssem com esta sensação de sempre tarde demais. Mas nada é real. Nada é real, em seus campos de morango. Nada é real. Embora que para mim tenha sido sempre verdadeiro. Porém, logo hoje... Eu vejo a realidade dos fatos. Não é natural, não acreditar assim; não sentir assim. E eu sinto. E eu posso me lembrar e sentir o aroma e o vento em meus cabelos dos eternos campos de morango. Lembro-me de você levando-me lá, eram belos demais para realmente existirem. Mas não para mim.
  Hoje, logo hoje... Eu espantei-me, há meia hora que estou admirando a mesma vista pela mesma janela, imaginando os campos de morango e o nosso lugar tão sonhado - aquele que imaginamos, onde não existe guerra e violência. E ninguém, absolutamente, fará algo contra nós. Ninguém atirará com suas mãos sujas e podres em nosso peito. Assombrei-me ainda mais. Nada disso é real. Mas e se você estivesse aqui hoje? Não, não seria real. Como nunca foi, e eu que acreditei, agora pasmo - nada foi real. Mas, então, como descrever todas as vezes em que me ouviu em meu silêncio e me emprestou suas palavras, tão doces e duras ao mesmo tempo; realmente sinceras. Como explicar o que vi e o que senti e o que sinto, ainda, agora, sempre? Lágrimas, lágrimas que escorrem alegremente, compactuando com o sorriso formado tristemente - e meu rosto torna-se, aos poucos, uma espécie absurda de melancolia satisfeita. E fico feliz o suficiente, para não ser tão triste, ao perceber: um dia você existiu; ainda assim, não aqui, não como imaginei e sonhei... Imagine... Meus sonhos sempre foram seus e sempre foram reais - mesmo não sendo - não são - não serão - eu sei. Apesar disto, eu continuo sonhando, por você e pelo que me disse em suas canções.
  Hoje está sendo um dia difícil, a noite ainda mais, e eu tenho vivido como uma condenada, porém, você me fez sorrir, chorando eu sorri. E tudo que tenho passado nesses últimos meses, os piores e mais intensos de minha vida, em que enfrentei a tudo de cabeça erguida (mesmo desejando, apenas, abaixá-la e chorar compulsivamente), não me entreguei, não... Entretanto, tem sido tão tão tão difícil. Se você ao menos estivesse aqui hoje. Se você realmente estivesse aqui hoje... bastava-me olhar para você, no fundo de seus óculos esquisitos de aro redondo e sei que assim tudo ficaria bem. Se você estivesse aqui hoje.
  Hoje faz trinta anos. Trinta anos de sua ausência, e eu mal tenho a metade disto, ainda assim não sei o que fazer nem o que pensar. E os fatos tornam-se somatórios, e já não sei onde pisar; como não despedaçar as flores e os morangos? Como desviar o caminho? Não, não há como; se esse é o ciclo natural, se esse é o rumo a ser tomado, então eu sigo sem escolha.
  Eu só queria dizer que lhe conheço bem, mesmo não conhecendo nada. Eu realmente lhe conheço. E por mais que boa parte de você seja produto de minhas sensações mórbidas e de meu mais profundo obscurecimento, entenda...  I really love you, John.

6 de dez de 2010

Apenas volte

Vá, sem olhar para trás,
Apenas vá.
Ganhe a chuva, namore o sol
Fique em paz, busque a desordem;
Aproveite o céu, o mar, as árvores,
os aromas, as sensações, os gostos;
Restaure a calma, com cumplicidade
Viva o caos e a tempestade,
Seja a  felicidade, seja amor.
Sinta tudo o que puder sentir.
Depois volte e me diga, se deseja seguir
Sentindo tudo isso, de novo,
Comigo.

4 de dez de 2010

Solitude

   Existe sensação mais estranha do que o esquecimento? Quando a vida resumia-se a um coração dilacerado, que batia para apanhar em dobro, então, você dormia todas as noites com os olhos inchados; logo já não prestava atenção em mais nada, seus pensamentos não eram sua propriedade. Era como se você não pertencesse a si próprio. A vida não fazia algum sentido sem a presença de alguém. E você era posto de lado por você mesmo. 
    O sofrimento, logo, toma conta, muitos caem nas garras da depressão, o que não dá para chamar de fraqueza. Outros tentam disfarçar, tornando-se mais frios do que deveriam ser. Contudo, o sofrimento não é  o que podemos chamar de problema. O problema acontece quando não se acostuma a ser solitário por um tempo, sentindo-se desamparado, por causa da falta de alguém, perdendo a vontade de viver - isso significa que você foi caído no seu esquecimento.

   Então, fazemos uma singela troca: sofrimento por solidão, que soa melhor como solitude. A solidão dificilmente é bem vinda pela maioria das pessoas, pois ela lembra isolamento. Contudo, esse isolamento exprime a mesma identidade de interiorização, que é essencial a todo ser, pois para que se conheça melhor deve ter um tempo dedicado, apenas, a si mesmo. Ela nos faz ir para dentro, restitui-nos o que sempre foi nosso - a nossa entrega.   Já reconstituídos, sem nos esquecermos de dar uma espiada lá atrás, pensamos: como é bom estar de volta, como é bom me pertencer de novo. E nos vemos prontos para nos desvairarmos novamente e dessa vez, com a certeza de que teremos, sempre, a nós mesmos. 
   No fim, qualquer um pode ser deixado para trás a qualquer momento e o que realmente importa é que você tem a capacidade de se reerguer sempre, pois o que precisa para viver está guardado em seu interior. Haja o que houver, doa o que doer, no fim poderá, sempre, contar com você.
  

2 de dez de 2010

Aquele tardio

E quando, finalmente, puder sentir-se capaz,
Irá olhar e perceber o quão tarde foi demais,
Já não haverá o que fazer, do que quer ela irá atrás,
Não esperará, nem irá rápido demais,
Tudo que desejará será buscar sua paz.
Você nem poderá tentar persuadir,
Pois de qualquer forma ela não vai ouvir,
Mas irá lembrar-se de olhar para trás e dizer
"Um dia, a muito tempo, sem falar,
Sem querer, eu te amei por pensar,
 Eu pensei por te amar"
Logo, será noite, será tarde,
Ela estará longe, esgotada.
Você desejará mudar a condição covarde
Porém, será tarde. Será tarde.

30 de nov de 2010

Déjà Vu

Ele abre a porta para ela,
Ela sorri antes de entrar em seu carro.
Ele sorri ao ver o sorriso dela.
Antes quem sorria era eu.

Eles escolhem uma mesa no mesmo nosso bar,
Ele puxa a cadeira para ela se sentar,
Ele a beija, como a mim, apaixonadamente.
E só minhas lágrimas caem em uma torrente.

As, minhas idênticas, flores em cima da mesa,
Me lembram, idênticas, noites de verão,
lembro do poesia, da lua, de sua canção.
Vejo, agora, fazendo a ela mesma surpresa

Quem sabe, ele não há ame de verdade,
Quem sabe, seja, apenas, para esquecer a antiga paixão.
Quem sabe, ela possa curá-lo de mim,
Quem sabe, já o tenha feito esquecer a traição.
Quem sabe, me tenha tirado, ardiloso, do coração.
Quem sabe, um dia ele me perdoe.

Mas os olhando, juntos, dessa forma,
Não espero, mesmo, que me retorne
O brilho foi devolvido aos olhos.
Sinto o amor em sua volta.

E quando ele me enxerga a distância,
Acena e sorri formalmente,
Então, seus olhos brilham intensamente,
E reparo na ligação existente,
Parecida com a que existia entre a gente,
Presente nele e em sua companhia.
Não, aquele brilho já não me pertence.

28 de nov de 2010

Ponto de paz

  E quando tudo que existe cai exatamente sobre nossas cabeças? Existem momentos em que isso acontece e nos vemos vivendo em uma completa desordem. Quando menos esperamos o caos está com a gente, de mãos dadas com a nossa sombra e, então, temos que aguentá-lo por um bom tempo, nesses momentos nos perguntamos: o que seria de nós sem os amigos? Não, não falo daqueles que estão sempre por perto durante a noite, nas festas, dividindo o dinheiro do táxi; não falo desses que se divertem com a gente e nos deixam em paz quando queremos, não que esses não sejam bons amigos, pelo contrário, são perfeitos em seus momentos. Contudo, estou falando dos amigos autênticos; aqueles que, clichemente falando, estão com a gente em todos os momentos, inclusive quando tudo cai exatamente em cima de nossas cabeças e o caos aparece parecendo que veio pra ficar; é justo nessa hora, em que nos vemos sozinhos e desamparados, que sentimos uma mão em nosso ombro e um empurrão sutil, gesticulando que precisamos continuar. Só isso. É o que precisamos para continuar. E continuamos.
   Eles estão ali ao nosso lado, esperando o momento certo de nos fazer sorrir, de nos fazer pensar; eles são literalmente mágicos, é incrível como compreendem, compreendem muito, desconfio que compreendam mais que a gente sobre a gente mesmo. E repreendem, também. Eles sabem, muito bem, diferenciar quando devem secar nossas lágrimas e quando devem deixá-las cair; sabem, mais ainda, quando devem ficar em silêncio e quando devem matar-nos de rir; e nunca, absolutamente nunca, nos deixam em paz. Sem eles não há paz, ou há, sei lá, mas seria uma paz ruim, uma paz vazia.

26 de nov de 2010

Menino dos olhos

   É como uma criança, ela pensava, enquanto o observava, olhando para o céu completamente distraído e admirado, encantada. Mas como uma criança pode ter músculos definidos e a barba crescida? É quase como uma criança, ele a convencia disto quando baixava os olhos para ela, deixando formar um sorriso bobo em seu rosto. Os olhos tinham aquele brilho grave do qual ela sempre procurara, tinham a tonalidade verde mais linda que ela já vira. Ele era o ser mais lindo que existia.
  Era inquietante o modo como ele levava a vida, seu jeito apaixonado, jeito de ver tudo como um grande mistério, uma aventura. Ele era diferente de tudo que ela teria imaginado, não havia comparação, ele era melhor. Não havia sentido, não havia motivos, não havia causas; havia apenas o fascínio por parte de ambos.  
  Quando ele brincava com seu cachorro como se não estivesse atrasado para o trabalho e como se ninguém estivesse olhando. Quando ele não conseguia segurar as lágrimas que vinham por tristezas ou alegrias. Quando deitava no colo dela e contava seus sonhos harmoniosos, de um modo terno, seus olhos brilhavam; então, dizia que a amava de uma maneira excessivamente doce e a fazendo rir logo em seguida; demonstrava embaraço e surpresa quando ouvia dela que o amava; em seguida segurava sua mão como se fosse a coisa mais importante para ele naquele momento; depois a olhava, de uma maneira desconcertante. Nesses momentos ele era, apenas, um garoto. Uma criança que passara dos trinta anos, mas ainda assim uma criança.

24 de nov de 2010

Horizonte

   Quando eu estava aprendendo sobre tempo, lugares e espaços, eu não entendia bem o que realmente era o horizonte. Um dia meu pai me levou à praia, em um final de tarde lindo de se lembrar e foi, então, que ele me apontou o horizonte e eu achei aquilo tão lindo, quase tão lindo quanto aquela tarde com meu pai na praia. Nesse dia eu tive meu primeiro sonho: conhecer o horizonte. Eu iria até ele. Não entendia quando as pessoas me diziam que era impossível. Era impossível porque elas não sabiam o caminho. E eu iria.

    Passados alguns anos, eu ainda tinha o mesmo sonho, de chegar ao horizonte, era o único lugar que eu queria conhecer e o único que negavam me levar. Onde eu morava, existia um velho, do qual as pessoas julgavam louco, não no bom sentido de louco que eu gosto, no sentido de doido mesmo. Contudo ele chamava a minha atenção. E eu conversava com ele e nós dois olhávamos o horizonte e sorríamos sentados em um banco qualquer do parque. Então ele me disse, como se adivinhasse meus pensamentos, que eu chegaria ao horizonte, se eu caminhasse sem parar, sem olhar para os lados, sem esperar pelos outros, mas que eu caminhasse rapidamente para dar tempo e chegar logo, pois o horizonte era muito distante.

    E assim eu fiz, aquele foi o primeiro dia de todos os outros dias idênticos que eu comecei a ter. Eu caminhei durante cada parte da minha vida, dormia e comia com pressa para continuar caminhando. Não tive tempo para conhecer mais ninguém, nunca senti amor por nada, não olhava para os lados. Existia algumas pessoas que me acompanhavam por um tempo, mas andar com elas ao meu lado atrasava-me, então, eu as afastava e seguia minha jornada sozinha. Eu, absurdamente, nunca parei para admirar um pôr-do-sol, nem as aves, nem o mar. Eu só queria chegar lá, a todo custo.

   E hoje estou aqui, dei uma volta no mundo e não encontrei o tal horizonte, na verdade, a cada passo que eu dava ele se afastava um passo, talvez eu tenha entendido do que se trata, mas de qualquer forma não importa mais, perdi toda minha vida em uma busca inútil. Não conheci, não chorei, não senti, não amei, nem sequer aproveitei a caminhada por causa da pressa. Talvez se eu tivesse deixado alguém vir comigo, esse tempo na estrada tivesse sido válido, entretanto nem isso. Agora apenas lamento o tempo perdido. 
 
 

21 de nov de 2010

Vício antecipado

   Posso, pelo menos, aquietar minha visão, entregando-lhe sua imagem, amenizando a ardência. Entretanto, tenho mais quatro sentidos que queimam em brasas para, também, ter um pouco de você. Só que esses outros sentidos terão que ser aliviados com um genérico qualquer. E dói, e é angustiante porque dói, angustia dolorosa essa que sinto. Vejo-lhe, mas não lhe toco, não lhe sinto, não lhe tenho, mas tenho a vontade. A vontade, o desejo e eu vejo, que mesmo que só um pouco, mesmo que bem menor que a minha, vontade você também tem. Vontade nós dois temos. É tão urgente essa minha vontade, mais urgente que a sua, não há calma, não há paciência, não há futuro, não há medo, nem sentido, só uma urgência, uma carência. Carência de amor físico ou amor psíquico? Não sei, carência de você. É fome, é sede, é vontade de fumar, de beber, é tudo isso junto e elevado à quarta potência. E urge, enquanto me pede calma, urge mais, mais e mais. E o que faço é me controlar e esperar que você sinta essa urgência que sinto e venha nos tirar da abstinência. Abstinência, é exatamente isso. Deveria ter me avisado do vírus que tinham os seus olhos, que contagiaram os meus. Deveria ter me avisado que seu gosto era droga - droga que vicia sem provar, é que agora eu quero essa droga, como se tivesse me viciado antecipadamente.

20 de nov de 2010

O reencontro

   - E no fim se casou com alguém milimetricamente contrária a mim. Loira, alta, olhos claros, meiga, paciente e que cozinha muito bem. - Ela disse em tom de zombaria.
   - Tinha que achar alguém que não me fizesse lembrar de você toda vez que a olhasse, alguém que não me fizesse chorar toda noite. - Ele respondeu fingindo inocência.

    Depois de muito tempo, estavam ambos com vidas distintas e distantes. Ele morava no sul do país, estava casado e tinha dois filhos. Ela morava no norte, ainda não se casara, mas tinha incontáveis casos. Agora ali, naquele evento que reunia os melhores jornalistas e publicitários do país, eles se reencontram - os olhos se reencontram. Incrível, o brilho era o mesmo, talvez com uma intensidade ainda maior. Eles se amavam, tiveram que perder a chance de ter um ao outro para, então, perceberem isso. Contudo eles se amavam, eles sabiam disso. Agora se encontravam do lado de fora do salão do hotel mais caro da cidade, onde ocorria a festa, olhando-se ardentemente, deixando visível todo desejo; provocando-se com sorrisos e gestos. Eles se desejavam.
  Ele pegou a mão dela e a arrastou para o carro; ela foi fingindo um protesto, como quem vai forçada. Por fim a levou ao hotel em que estava hospedado, abriu a porta com um pontapé enquanto a beijava. Ao entrar no quarto apenas continuava a beijá-la com uma sede feroz. Então a despiu e se perdeu no corpo dela, durante toda noite.
  No outro dia, pela manhã, percebeu seu celular vibrando, ao ver o número de sua esposa, desligou o aparelho, e continuou a admirar a beleza da adormecida mulher que estava em seu lado, na cama. A mulher - que sempre foi - de sua vida.

18 de nov de 2010

John, afetos e liberdade - 2ª parte

  Depois de muito esforço, conseguiu discar o número de John, queria desistir e cancelar a ligação, porém ele atendeu antes.
   - Eu sabia que você não me evitaria por muito tempo. - Disse ele, transparecendo sua euforia por falar com ela.
   - Você sempre soube cada passo que eu daria, antes mesmo de eu pensar em o fazer, não tinha esperanças que mudasse mesmo. - Ela aparentava felicidade, também, porém estava relutante.
  - De qualquer forma não esperava falar contigo hoje, não depois de tantas tentativas falhas.
  - Eu estou ligando por que o caso é urgente. Tenho que salvar um amigo de algo terrível. - Deu uma risada e continuou - É amanhã o grande dia, como está se sentindo?
  - Obrigado pelo aviso minha garota -  Ficou em silêncio por alguns segundos, era estranho chamá-la de "minha garota" diante de tal circunstância - Estou nervoso, preocupado, a beira de um ataque cardíaco e pensando em suicídio. E só ficarei melhor se me disser que virá.
  - John e suas chantagens. - Sua voz passara de entretida à tensa nesse momento. - Acho que vou pegar um avião amanhã cedo para estar aí no grande momento.
  - Vou agradecer-lhe com as duzentas e quarenta e oito canções que fiz para você, prometo. Não sabe o quanto isso significa pra mim.
  - Até parece que eu perderia o dia mais importante da vida do meu melhor amigo. - Tentava transparecer distração, contudo não podia esconder o abatimento.
  - Saiba que o melhor dia da minha vida, foi aquele em que entrou com suas malas no meu carro e planeamos nosso caminho pela primeira vez. - Ele dizia isto sorrindo, mas percebeu a melancolia na voz dela. - O que foi, fala com um tom desanimado? Não me venha com desculpas, sabe que lhe conheço melhor que seu diário.
  - Sabe, é estranho, você casando, entende?
  - Eu sei. - Falava, de repente, com vaga tristeza - Completamente estranho, mas não pude dizer-lhe, não atendia minhas ligações, queria fazer-lhe uma surpresa quando eu já soubesse o sexo e lhe falar já tendo escolhido o nome e tudo mais, seria BAM um grande choque. Não era assim que imaginei contar-lhe do filho que Beatriz, minha futura esposa, está esperando.
  - Queria e conseguiu me deixar em estado de choque! Nossa, John, vai ser pai? Meu Deus! Parabéns. Eu nunca imaginaria... - Disse sem manifestar a felicidade necessária.
  - É eu sei, foi tudo repentino. - Interrompeu-a como se estivesse desculpando-se.
Ela não entendeu o porquê de se sentir daquele jeito, como se tivesse levado um soco no estômago. E ele não entendeu por que se sentira tão mal ao ter que contar para ela.
  - Talvez eu não deva ir... sabe, tenho muitas coisas pra resolver por aqui. - Ela mentiu.
  - Por favor, não faça isso comigo, já são dois anos. - Revelava o desespero aos poucos. - Além do mais, tem que publicar seu livro e está na hora de sossegar um pouco, não acha? Olha, tem uma casa aqui perto que está venda, eu pensei em te mostrar, poderíamos ser vizinhos. Eu sempre disse que teríamos que passar toda nossa vida juntos. - Não segurou o riso tímido.
  - Eu realmente ando pensando em voltar, quero confessar-lhe algo - Baixou a voz, como uma criança que conta segredos. - Eu acho que quero um lar, um abrigo, alguém que me faça chocolate quente nos dias de frio. Eu quero permanecer. Eu descobri que a liberdade não é tão boa assim, não quando é a única coisa que se tem; não quando se tem ela toda para você.
  - Eu sempre soube que me casaria primeiro, sempre achei que você fosse livre demais para arrumar um marido. Contudo, sempre tive a certeza de que um dia você iria querer casar-se também. - Poderia ser impressão, contudo aparentava decepção. - Quem sabe você tenha uma filha e ela cresça com meu filho. Quem sabe eles formem-se juntos em um curso qualquer, façam uma viagem, escrevam um livro, tornem-se tão importantes um para o outro como nós somos.
  - Eu não pretendo ter uma filha tão cedo...
  - Quem sabe meu filho seja mais inteligente que eu e peça sua filha em casamento antes de engravidar outra mulher. Quem sabe... - Ele disse segurando um soluço.
  - John...
  - Eu tenho que desligar agora, por favor, esteja aqui amanhã.
  E desligou o telefone. Pela primeira vez ela teve a certeza de que o que se passava entre eles não era um amor de amigos ou de quase-irmãos, era amor amor. E ele sempre soube. Todavia, ele se casaria amanhã, com uma mulher que esperava um filho dele. E não, ela não iria aparecer. Seria melhor assim.

16 de nov de 2010

John, afetos e liberdade - 1ª parte

   Era o pôr-do-sol mais lindo que já tinha visto, ela nem podia acreditar que estava na Tower Bridge, sobre o rio Tâmisa, em Londres. Durante os últimos anos conheceu muitos lugares impecáveis pelo mundo, como esse, difícil dizer o que mais marcara. Marcado mesmo, ficaram os dois primeiros anos, dos quais ela viajara com John, seu melhor amigo.
  
    Era uma tarde de sábado, quatro anos atrás, estavam ansiosos, iriam receber os diplomas de Comunicação Social em algumas horas. Ela queria escrever para um jornal e mais ainda, escrever diversos livros; ele queria mesmo escrever músicas e fotografar. Tinham um sonho em comum, fazer uma viagem, um longa viagem e conhecer lugares novos e pessoas diferentes, a fome de cultura de ambos era fascinante. À noite, enquanto toda turma se divertia na festa de formatura, eles saíram mais cedo e foram para o bar preferido deles; eles eram melhores amigos desde a pré-escola.
    - Viu só, nos formamos, com a idade que disse que nos formaríamos. Vinte e dois anos, não falhamos minha garota.
   - Ah, John, sempre soubemos do nosso potencial, mas e agora? Qual é o próximo ato? - E o contagiou com um riso de euforia. - Nos embebedarmos?
   - Tudo bem, é o que fazemos de melhor, não? - Ficou sério, fazendo suspense - Porém, bêbados não podemos dirigir.
   - Hoje eu tenho dinheiro para o Táxi, aproveite, não é todo dia. - Continuava se divertindo.
  - Escute garota, não estou falando de dirigir para casa, chegou o dia de pegarmos meu carro e conquistarmos a América, lembra? Seu livro e suas reportagens; minhas fotos e meus documentários.
    Desde muito jovens eles costumavam traçar planos, um desses planos era se formar cedo e assim que pegassem o diploma, viajariam pela América e deixariam registradas suas aventuras, depois voltariam e publicariam esses feitos.
   - Passe lá em casa amanhã as duas da tarde, esteja com as malas prontas e leve suas economias. - E com um sorriso sugestivo, mostrou a seriedade daquelas palavras por cima do seu tom de brincadeira.
   Eles eram assim, corajosos e inconsequentes.


   Arrumaram as malas, colocaram gasolina e se foram pela estrada. Não tinham destino e o único plano era conhecer o máximo de lugares que pudessem e registrar tudo. Ela escrevia todas as noites, artigos, crônicas e começara seu livro, a estrada era sua fonte de inspiração. Ele fotografa, filmava, escrevia músicas e tocava para ela quando paravam em algum lugar estranho. Foram dois anos viajando pela América do Sul, dormindo em hotéis, comendo comidas esquisitas, conversando com pessoas estranhas, conhecendo lugares esquisitos, estranhos e bonitos; tudo muito interessante, completamente mágico. Eles paravam para admirar qualquer paisagem que encontrassem, se divertiam, iam à festas e se embebedavam. Na maior parte do tempo passavam na estrada, ouvindo clássicos do Rock ao som máximo. A sintonia deles era absoluta, se respeitavam, se protegiam, se entendiam pelo olhar e pelo sorriso e conheciam cada gesto um do outro, como códigos. Quem observava de fora não entendia o que eram. Eram namorados? Irmãos? Não poderiam ser simples amigos. Nem eles acreditavam que eram simples amigos, era um amor diferente de tudo. Contudo, eram apenas amigos, não poderia ser diferente, não poderiam ser um casal.


  Quando completaram dois anos de viagem, John decidiu-se que era hora de voltar para sua cidade de origem, ele publicaria suas fotos e ela seu livro. Assim fizeram: tanto as fotos quanto o livro foram um sucesso, eles conseguiram o dinheiro e o êxito esperado. Ele quis ficar, ter sua profissão fixa e comprar uma casa. John queria que ela ficasse também, porém, ele sabia que ela não ficaria quando dizia que não ficaria. Ela queria continuar sua viagem, mas dessa vez em outros horizontes, aumentar os limites, sair do chão e ir pelo ar. Queria descobrir outro continente: começaria pela Europa, pensava mais alto. - Por fim, ele ficou e ela foi. Ele prometeu milhares de músicas para quando ela voltasse e ela prometeu escrever para ele diariamente relatando como estava se saindo e descrevendo minuciosamente os lugares que conhecia.


    Agora ela apenas se concentrava nessas recordações, os dois primeiros anos deixaram as melhores lembranças que ela tinha, mesmo que nos dois últimos ela tenha conhecido lugares que eram como sonhos, os sonhos não eram tão bons sem John.
    Fazia dois anos que ela não o via. Na última vez que se corresponderam, exatamente três meses atrás, ele dissera que iria se casar, depois disso perderam o contato. O casamento seria amanhã. Ele tentava ligar para ela já havia uma semana e ela não atendia, pois sabia o que queria: que ela aparecesse no casamento. Não que ela fizesse alguma objeção ao casamento em si, mas a ideia lhe era estranha - John construindo uma família, uma vida da qual ela não participaria. Eles cresceram, passaram por dificuldade, realizaram sonhos, sempre juntos. E agora ela não poderia mais estar junto dele, não como antes. Havia, também, um problema maior, do qual ela tinha dificuldades de aceitar e assumir: ela percebia que, no fundo, também queria isso. Um lugar só dela, alguém que vivesse por ela. Ela queria permanecer. Essa vida peregrina se tornara cansativa. Havia um tempo em que ansiava por aventura e liberdade e agora só desejava ter alguém pra levá-la ao cinema, alguém que soubesse que ela não gosta de comer pipoca enquanto assiste ao filme.

14 de nov de 2010

Amando um vampiro

Me tira o coração e ainda quer minha alma,
Suplico que devolva minha sanidade e a fome,
E o que faz é solicitar uma última lágrima de sangue,
E eu peço, com humildade, pela última dança,
E dança como se fosse gente, fosse quente, e some.

Injeto de volta todo sangue que te dei
E minto pra mente que da cabeça te tirei,
Mas pra alma não se mente, ela sabe que eu sei,
Que não esquece quando se ama do jeito que te amei.
Pesa saber que não houvesse o que fazer, então eu desejei.

Certa até do dia, sei que vai voltar
E tenho medo, pois volta, mas só pra me roubar.
Volta e bebe o sangue que eu iria precisar,
Toma minhas forças, tira tudo do lugar.
Como sempre, vai embora e eu fico a desejar.

E desejar desse jeito, acabará por me matar,
Mas eu desejo e não entendo, como ainda posso amar
Aquele que me suga, me quebra, me parte, me deixa sangrar
E enquanto sangro, bebe meu sangue, sentindo prazer.
E sinto prazer ao ver-te beber, ao ver-te morder, ao ver-te sugar.
Teu corpo frio em meu corpo quente, bebe, morde, suga,
Me tira tudo que puder tirar.

12 de nov de 2010

Entregar-se

Abrindo os olhos, calando o coração
Vê-se a causa das palavras ditas,
Assusta-se com a falta de razão
E falta razão quando se entrega aos sentimentos
Ou se entrega aos sentimentos quando se perde a razão.
Não abandono a sensação de isolamento
Muito simples, não posso, então finjo
Finjo muito bem que consigo deixar o sentimento
De lado e seguir, mesmo sentindo-me um mendigo
O que eu faço é apenas ir e ir indo, 
Solicitando liberdade, mas a alma implorando abrigo
Abrigo é o que se quer e o que não se pede
Não se pede, nunca se pede
Vai achar quando achar que deve,
Antes disso, olhos abertos, coração aberto
Tens que ser livre, mas se permitir entregar
Terás liberdade e alguém poderá te guardar.
 

10 de nov de 2010

Ensaio da normalidade

   O mundo é repleto de pessoas normais. Eis a consternação.
   É normal trabalhar para conseguir dinheiro e descontente, trabalhar ainda mais para conseguir ainda mais dinheiro e ainda descontente, trabalhar mais que viver para conseguir mais dinheiro que vida. É normal ver mulheres sonhando em se casar com homens lindos e ricos, pois tendo apenas esses dois requisitos, certamente terão encontrado "o amor" de suas vidas. É normal gastar dinheiro, sem pensar, com o sapato da marca da moda que muda toda semana, e não pensar no dinheiro negado à criança que o pediu para comer, pois já não comia a uma semana. É normal demais seguir a tendência e deixar de lado a sua verdadeira preferência. É absurdamente normal maltratar os animais e se esquecer que eles possuem uma alma mais pura que a nossa. É tão normal reclamar dos políticos, não entender nada de política e reclamar mais um pouco da situação, então resolver continuar a não fazer nada e ir olhar algum reality show. É muito normal julgar as pessoas por algo que elas fizeram, fazem ou um dia irão fazer, enfim, é normal julgar. É a coisa mais normal do mundo colocar as pessoas em uma linha invisível e compará-las como se fossem iguais. E agredir, ofender e difamar para descarregar sua raiva, é algo absolutamente normal.
  Todos querem, obviamente, encontrar o caminho mais curto para a felicidade, porém, o que seria essa felicidade? Os normais responderiam - Riqueza e fama, e sinceramente eu não concordo. A felicidade para mim está nas pessoas, nos instantes e principalmente nos sentimentos; nos amores.  "Menos é mais". Então, a pessoa mais normal do mundo chegaria a seguinte conclusão e me diria: - Garota, você não é normal. E eu daria o melhor sorriso que tenho e responderia: - E faço o impossível para não ser.

29 de out de 2010

Mar e seu rumo

   Tão distante de tudo e de todos, mas tão perto do mar e do infinito, o que mais ele poderia querer?
   Estava sentando na areia deixando as ondas baterem em seus pés, observando o pôr do sol, era tudo tão lindo, tão perfeito que deixava-o sem entender o motivo de sua angústia. Essa angústia que tentou evitar durante os últimos dois meses em que nem pensara em aparecer ali de novo.
   Era exatamente um ano atrás, naquele mesmo lugar, naquele mesmo horário e aquele mesmo pôr do sol. Ele estava lá, porém não sozinho. Ele tinha levado-a junto aquela vez. Era o primeiro encontro deles, a primeira declaração e o primeiro beijo. Daquele dia em diante, ele fez da sua vida a vida dela, transformou seus objetivos em planos voltados a ela; se fez de novo, era completamente dela. E pela primeira vez ele se sentia completo de verdade. Até que chegou o dia, o dia em que saiu da boca dela as palavras que ele desejara nunca ouvir, ele ignorou o discurso pronto, mas não podia deixar de perceber as frases "preciso respirar outros ares" (...) "a gente se vê qualquer hora". Eram as suas últimas palavras, que as pronunciou e foi embora, como ele sabia que iria - ela sempre o avisara. Ela não tinha raízes, não fazia promessas, não falava sobre futuro e jamais sonhara com um lar, pois ela nunca permanecia. Ir de acordo com a estação, esse era seu plano. Contudo ele sabia que mesmo que o tempo tivesse sido curto, foi sincero. Ela nunca conseguiria fingir, sempre era apanhada em suas mentiras e sempre que ele se lembra disso, nem consegue, ao menos, segurar o riso.
    Agora ele estava só, olhando o mar; a melancolia tomava conta, porém sorria; sorria como nunca, pois aquela imensidão fazia-o lembrar-se dela; não uma lembrança comum, como quando se lembra de uma face sorrindo, mas uma recordação intensa. Ela era tão cheia de vida quanto os oceanos, a sua direção era tão incerta quanto as ondas, os seus sonhos eram tão infinitos quanto aquele horizonte, tinha como casa o mundo e vivia por sentir, para ser amada e só; desconhecia motivos e nada, para ela, precisava de sentido. Como o mar,  não existia maneira de segurá-la, era lamentável, mesmo assim, impossível não amá-los.

27 de out de 2010

Preciosos

   Como tesouros a serem descobertos, assim são as pessoas. Permanência não combina com a vida. Os amigos de hoje não serão exatamente os mesmos do ano que vem, por isso a valorização tem que ser imediata. Na nossa vida alguns ficam, enquanto outros partem. E nós conhecemos uma infinidade de pessoas pela estrada. O mais incrível: ninguém é igual a ninguém, por isso são tão especiais. Todos com seus defeitos e qualidades, pode achar a sustentação que precisar em cada um. E quando se aceita os defeitos sem questionar ou reclamar, então, torna-se fascinante viver pelas pessoas. O mundo é perfeito, as pessoas são perfeitas, com seus erros e pecados. Ouro, prata e diamante, não valem o que vale um sorriso sincero de um amigo.

23 de set de 2010

Voz interior

  Em luta com o que tem habitado seu corpo e lhe consumido a alma, ela se esforça para prender lágrimas que insistem em fugir.
  Esse estranho que tem a-dominado, já não a-deixa respirar, como se tivesse algo trancando-lhe a garganta. Um grito, que ela precisa, mas não pode soltar.
  Ela bem sabe o que é isso, afinal passara noites em claro para descobrir que não era angustia, nem a procura pela paz. Esse inferno interno, nada mais é que seu interior querendo, ambiciosamente, se tornar, também, exterior.
  É o seu ser tentando vir à tona. Contudo existem vozes que ela ouve do lado de fora, questionando-a, perturbando-a, confundindo-a. Essas vozes, que se apoderam dela, a-impedem de desabrochar seu ser.
   Levando uma vida imposta, fazendo e sendo o que dizem ser correto, mesmo contradizendo-se.
   Submetendo-se às vozes ela se perde do seu ser.
   Então ela abafa o grito que vem de dentro e a única voz que ela deveria ouvir, ela ignora. Logo sua vida já não lhe-pertence; somente suas lágrimas, o apelo pela verdade, o apelo da voz que vem de dentro.

23 de ago de 2010

Grau mais elevado do ser

  O ser humano está sempre buscando evoluir, querendo alcançar o mais alto nível. Ele procura por isso, mas ele ao menos sabe qual é o grau mais elevado do ser?

  Quando ele conseguir ver que os sentimentos são o mais importante de tudo. Quando ele aprender a amar as pessoas acima de qualquer coisa. Quando não julgar ninguém, somente a si mesmo. Quando respeitar toda vida existente, humanos, animais, plantas, etc. Quando ele enxergar a estupidez que é uma guerra. Quando ele trocar o fanatismo da religião pela fé em si mesmo. Quando ele se der conta que o maior tesouro que pode possuir é o planeta Terra e toda sua natureza. Quando ele entender que felicidade não é igual ao dinheiro. Quando ele, finalmente, perceber o valor e a finitude que a VIDA tem. Aí, então, ele terá chegado no grau mais elevado do ser.