10 de ago de 2016

Após tantas vitórias...

Após oito anos e seis gestões petistas consecutivas no DCE da UFSM, da construção intensiva de apontamentos do programa democrático e popular para as universidades, e do longo período em que esta entidade esteve comprometida com a construção de uma sociedade justa e igualitária, no dia 08 de Junho de 2016 a direita e seu projeto neoliberal, representada pelos Estudantes Pela Liberdade (EPL), sai vitoriosa do processo eleitoral da entidade dirigente do Movimento Estudantil santa-mariense. Esta vitória significa uma derrota aos avanços na construção de uma universidade a serviço da classe trabalhadora, comprometida com as demandas sociais e com a soberania nacional brasileira. Esta vitória significa o retrocesso no que diz respeito ao acúmulo da política de assistência estudantil e democratização do acesso na instituição.
A fundação da Universidade Federal de Santa Maria ocorreu em 1960, sendo a primeira instituição de ensino superior do interior do país. A sua organização se deu no modelo norteamericano, em que as instituições eram centralizadas e afastadas dos centros urbanos, estando configuradas como “cidades universitárias”. Este modelo certamente foi um dos principais pilares que favoreceram a organização do Movimento Estudantil. Isso, pois, durante a ditadura militar as casas de estudantes universitárias eram um dos raros espaços que possibilitavam discussões políticas e o exercício da democracia para eleger representantes.
Na década de 70 a história da luta pela moradia na UFSM foi marcada pela ocupação das mulheres na Casa de Estudantes Universitários II, em que as vagas eram destinadas apenas aos homens. Na década de 80 ocorreram ocupações com mais de 2.500 estudantes, conquistando ampliações da moradia universitária. Ao todo, em 21 anos de ocupações conquistou-se 14 blocos de moradia.
Por este histórico, a Assistência Estudantil consolidou-se como pauta prioritária e unitária do Movimento Estudantil da Universidade Federal de Santa Maria. Tendo como consequência o fato de que a UFSM passou a apresentar um dos mais desenvolvidos programas de Assistência Estudantil do país, mesmo que entre 1997 e 2007 as instituições federais ainda não recebecessem recurso federal para tal política.
A consolidação da pauta de assistência estudantil no ME faz parte do avanço na disputa da universidade pública pelos/as e para os/as trabalhadores/as. No Brasil as instituições superiores historicamente serviram para a formação e demandas das elites sociais. Esse conservadorismo se expressava na falta de democracia de acesso ao ensino superior e falta de qualquer programa que garantisse a permanência daqueles/as que não tinham condições de se manter na universidade e exercer, além do ensino, a pesquisa e a extensão, devido a condições materiais. Realidade que foi se transformando com as políticas de ações afirmativas (a partir de 2003) e com a criação do Programa Nacional de Assistência Estudantil (2007).
Além da luta pela democratização do acesso e da permanência, o Movimento Estudantil da UFSM contribuiu com grande parte da elaboração do programa democrático e popular de universidade, e com a luta pela Reforma Universitária.
A história da universidade brasileira é marcada por reformas universitárias conservadoras que transformaram o ensino por vias de interesses do mercado externo. Em 1968, em plena ditadura militar, após grande período de mobilização popular e estudantil pelas reformas de base, incluindo a reforma universitária, o estado implementa uma reforma estrutural conservadora nas universidades. Esta reforma trouxe a estrutura departamental, que fragmenta e hierarquiza o ensino; ampliou as parcerias público-privadas, que coloca a produção científica pública a servir interesses do mercado; o sistema de crédito que aumenta o divisionismo do ensino e a sua condição produtivista, além de várias outras políticas autoritárias, fragmentadas e bancárias em relação ao ensino.
A Universidade Democrática e Popular, apesar de também expressar as contradições sociais e históricas, apresenta-se como uma instituição com potencial transformador. Em outros termos, ao contrário do modelo bancário predominante hoje no Brasil, que trabalha para a manutenção do status quo social, o modelo democrático e popular trabalha a partir da superação das contradições sociais e emancipação dos povos a partir da produção de um conhecimento crítico e socialmente útil.
O Movimento Estudantil de Santa Maria protagonizou diversas outras pautas na universidade e no município, como a organização pela redução da tarifa do transporte coletivo. Com muita mobilização e organização estudantil, por volta dos anos 80 conquistou-se a meia passagem para as/os estudantes. Destaca-se também a organização e os avanços nas pautas de voto universal ou paritário para eleições de gestão de reitoria; democratização da gestão, a partir da participação estudantil dos espaços de decisão e reivindicação da paridade nos conselhos superiores; inserção dos movimentos sociais na vida universitária, a partir da construção de projetos de extensão, ações, debates, pesquisas etc. em conjunto com o MST e demais movimentos do campo, MNLM e demais movimentos urbanos, movimento negro, indígena, de saúde, de mulheres, LGBT.  O vínculo do Movimento Estudantil, a partir do DCE, também se dava para além de parcerias universitárias, as/os próprios membros muitas vezes foram também parte de coletivos e movimentos sociais.
A presença santa-mariense também se consolidou na construção do Movimento Estudantil Nacional: em congressos e encontros da UNE, do movimento das casas de estudantes universitários, de executivas de cursos etc. O ME da UFSM esteve presente na luta pela redemocratização do país e nos debates da Constituinte, na disputa da educação do Brasil, na campanha Fora Collor, e na resistência ao projeto neoliberal de educação que trouxe reflexos intensos à UFSM – com a luta contra o Provão, o contingenciamento de recursos e a política de autonomia financeira de FHC.
Diante do acúmulo e da importância do Diretório Central dos Estudantes da UFSM para a organização do Movimento Estudantil nacionalmente, ter em sua direção uma gestão representante do projeto neoliberal de sociedade e educação é preocupante. Soma-se a isso o atual cenário de golpe contra o povo brasileiro – o impeachment forjado à primeira mulher presidente do Brasil, eleita e reeleita com o voto do povo, sem comprovação de nenhum crime de responsabilidade pelo qual foi acusada, com o objetivo de estagnar o combate à corrupção; a entrega da exploração do Pré-sal e demais patrimônios públicos; a privatização de serviços públicos; o corte de recursos destinados a políticas sociais; o ataque aos direitos das/os trabalhadores/as, como o congelamento do salário mínimo e a reforma da previdência, e a redução drástica no investimento em educação e saúde.
Este cenário de golpe e ascensão do conservadorismo tem bastante influência dentre os setores da juventude, incluindo o Movimento Estudantil. As Manifestações de Junho de 2013 demonstraram o interesse dos setores da direita na organização da juventude, e na construção da mobilização desta a partir dos aparelhos ideológicos. Bem como essa ampliação da inserção de representantes do projeto neoliberal nas entidades estudantis demonstraram que as organizações conservadoras estão descobrindo cada vez mais possibilidades de capilarização entre os e as jovens.
Que sirva de alerta ao Movimento Estudantil nacional e a própria direção da União Nacional dos Estudantes: se não acertarmos no tom, com unidade, seriedade e comprometimento com a nossa base social, estaremos ampliando o espaço de inserção da direita entre os/as estudantes.
Neste momento é fundamental que a UNE e as demais entidades estudantis cumpram com o papel de disputar a consciência daqueles/as estudantes que serão prejudicados com o programa golpista – representado, em grande parte, no documento “Ponte para o Futuro” -, com o fim da obrigatoriedade orçamentária pelo estado no investimento da educação pública; com os cortes na educação, gerando cortes no Programa Nacional de Assistência Estudantil, nos programas PROUNI e FIES; com o pagamento de mensalidades para cursos de especialização e extensão; com a flexibilização da inserção de setores privados nas universidades públicas etc.
Estes estudantes podem receber estas políticas destrutivas com uma visão errônea de que é culpa “da política brasileira”, sem fazer o recorte e a polarização necessária entre os projetos de sociedade colocados em disputa. Ou seja, se a UNE insistir em não realizar assembleias gerais para debater o golpe e a educação; não organizar ações locais e caravanas, construindo, conjuntamente com outros setores da educação, a possibilidade de paralizações nacionais com a pauta unificada de “Não ao Golpe, Fora Temer” e em defesa da educação; não organizar os e as estudantes contra os cortes na educação pública, contra o corte nos programas sociais de ensino superior, contra o pagamento de mensalidades nas instituições públicas, em defesa do Pré-sal e a destinação de seus recursos para a educação pública, e em defesa da Assistência Estudantil e da Reforma Universitária Democrática e Popular... Perderá o curso da história e a possibilidade de avançar na democratização da educação.
Segue o alerta: que a direção da UNE não deixe de fazer o que deve ser feito para cair no conto da chamada das eleições gerais de forma inconsequente ou mesmo oportunista. Isso apenas confundiria os e as estudantes, reduziria o seu potencial de disputa para o lado de cá da trincheira, e beneficiaria a base estudantil que legitima o golpe e concorda com o projeto liberal de educação.

As eleições gerais serão pautadas por essa nova gestão do Diretório Central dos Estudantes da UFSM, que ganhou com um discurso liberal e travestido da hipocrisia chamada de “apartidarismo”.  

6 de jul de 2016

Eu hei de carregar todas as angústias do mundo dentro de mim

Eu hei de carregar todas as angústias do mundo dentro de mim
A vida não é mais do que acumulação de angústias
Angústia do homem de olhar fundo da sarjeta sem luz no fim do túnel
Angústia da criança sentada na calçada
Angústia da falta da casa amarela
Angústia do homem que deixa o rancho
Em busca de algo que não sabe
E descobre depois de muito muito tempo
Que não há nada que se encontre
Angústia de uma vida inteira
De muitas vidas
Do homem negro gay travesti
Que cantava e queria ser alguém
Angústia da criança que sabia que ia morrer
Angústia da luta de classes
do preto, pobre
do homem velho
angústia de não haver a vida
angústia de não haver sentido
eu hei de carregar todas as angústias dentro de mim
e tentar nomear uma por uma
e ficar de pé
ficar em pé

5 de abr de 2016

Marco de Retrocesso

A autonomia universitária aparece historicamente como um conceito em disputa. De um lado é pauta histórica dos movimentos sociais, colocando a instituição a comando e serviço público: com autonomia para direcionar a sua produção intelectual às demandas da maioria da população, ao desenvolvimento regional e rumo à soberania científica e tecnológica nacional. De outro lado se coloca a serviço das grandes empresas: com autonomia para produzir de acordo com as demandas do mercado. O que rege o direcionamento dessa disputa é o modo de gestão e financiamento.
Os governos FHC foram marcados pela política de Autonomia Financeira dentro das universidades. Modelo de gestão que inseriu dentro das instituições públicas ampla abertura ao financiamento privado a partir das fundações de apoio. Essas medidas estavam aliadas ao interesse de assegurar o monopólio da produção intelectual e tendo como consequência a política de cortes em gastos públicos com a educação. Cortes que tinham em vista, principalmente, o pagamento dos juros da dívida pública.
Já nos primeiros governos petistas foram realizadas as regulamentações das parcerias público-privadas dentro das universidades, como a lei de incentivo tecnológico. Com as críticas feitas durante todo o processo, pode-se olhar para trás e afirmar: tais regulamentações não cumpriram com o papel de ampliar o poder público na administração da produção intelectual do Brasil e traçar estrategicamente um plano desenvolvimento tecnológico e científico do país. Pelo contrário, a produção tecnológica e científica da universidade brasileira se manteve e se mantém na lógica produtivista, desenvolvendo e melhorando produtos de curto prazo para o mercado, além de anular todo e qualquer potencial criativo e a função social da instituição.
Sobre contexto atual: após um passo à frente rumo à democratização do ensino superior brasileiro a partir das políticas educacionais implementadas, são dados dois passos para trás em relação à função social da produção intelectual do país. O quarto governo petista, insistindo na tentativa de conciliação de classes e pressionado por uma direita que exige a destinação massiva de recursos públicos para o capital financeiro via dívida pública, vacila ao implementar uma política econômica recessiva que corta gastos em setores públicos – como a educação. Decorrendo disso políticas de ampliação da intervenção privada dentro das universidades a partir do financiamento.
Insistindo no erro: devido à necessidade de incentivos à inovação tecnológica, com o princípio desvirtuado de transformar a universidade em agente de desenvolvimento de produtos instantâneos para a competição do mercado, implementa-se uma política de flexibilização à atuação das empresas privadas dentro das instituições de ensino. Tal política está representada no Marco de Ciência e Tecnologia, de autoria do deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), presente nos itens da Agenda Brasil.
O marco legal regulamenta as parcerias público-privadas de longo prazo, tendo em vista como princípio fundamental a desburocratização e maior flexibilidade de atuação à iniciativa privada. As principais ressalvas do marco são: a possibilidade de dispensa de licitação nas contratações de serviços e compra de produtos destinados a atividades de pesquisa; a possibilidade de contratação, por parte do setor privado, de professores das universidades públicas em regime de dedicação exclusiva; a possibilidade de utilização da estrutura física e das equipes presentes nos institutos de pesquisa por parte das empresas; a possibilidade de que a União financie a produção das empresas, e a possibilidade da entrega da propriedade intelectual sobre o resultado das pesquisas ao setor privado.
Os retrocessos são claros: a contratação dos professores em regime de dedicação exclusiva por parte do setor privado pode ser ilustrada como a captação de profissionais para as grandes empresas dentro do setor público, em que este desenvolverá apenas o conhecimento demandado pelo mercado ao invés do que é de interesse público. Além disso, será crucial na formação dos futuros profissionais que atuarão para as próprias empresas financiadoras.
A concepção de extensão também passa por um desvio: passa a ser vista na perspectiva difusionista e presente na política de “transferência tecnológica”. O modelo da produção extensionista, nesta lógica, trata-se de produzir mercadorias para serem utilizadas (ou vendidas) por grandes empresas.
A entrega da propriedade intelectual sobre o que é produzido na esfera pública às empresas não se trata de algo menos do que de uma “apropriação privada do patrimônio científico público”, como define o Andes em sua crítica ao Marco Legal de Ciência e Tecnologia. Em tese, isso significa colocar a infraestrutura pública e a força intelectual das universidades à disposição de multinacionais e oligopólios em detrimento do desenvolvimento da pesquisa básica de qualidade, de novas empresas e produtos tecnológicos nacionais e da geração de novos conhecimentos.
Trata-se ainda da desvirtuação do termo “inovação tecnológica”, em que este se afasta da perspectiva de desenvolvimento tecnológico nacional, com uma produção a serviço da economia brasileira. Ao contrário, a concepção de inovação tecnológica de que trata as emendas está aliada à reles variação acelerada da produção decorrente das parcerias público-privadas dentro das universidades, e de acordo com as exigências do mercado.
O Marco Legal de Ciência e Tecnologia está à contramão de um projeto de universidade e sociedade que caminha em direção da superação das desigualdades sociais, do desenvolvimento econômico e da soberania científica nacional. Este projeto representa apenas os interesses superficiais do mercado, corresponde apenas às demandas imediatistas de uma lógica produtivista e beneficia apenas o oligopólio empresarial.
Ao contrário do que está posto nas emendas, é necessário uma regulamentação da produção científica que coloque na ordem do dia a necessidade de ampliar o controle estatal da produção tecnológica do país; que incentive o desenvolvimento de empresas e demais setores públicos de tecnologia e que trace um plano estratégico de desenvolvimento científico para o país – isso de modo a colocar o setor privado em submissão aos interesses públicos.
Para além disso, a universidade não pode estar a serviço apenas do desenvolvimento econômico, colocando toda a sua produção intelectual a disposição de produzir novas tecnologias para movimentar o mercado. A universidade deve estar a serviço do povo, dos/as trabalhadores/as e dos movimentos sociais. Deve alinhar-se com um projeto de emancipação da classe trabalhadora, desenvolvendo tecnologias sustentáveis e conhecimentos em benefício da maioria da população. A universidade deve cumprir sua função social e regional, deve ser aberta e enraizada na sociedade, valorizando todo tipo de conhecimento – muito além da normatização científica imposta pelo mercado. A universidade deve formar profissionais críticos e comprometidos com a superação das desigualdades sociais, produzir emancipação a partir do conhecimento e colocar a ciência a serviço de uma sociedade justa e igualitária.

2 de abr de 2016

Esfinge muda e encurralada

O tempo nublado, ofegante de cansaço, amaçando um cigarro aceso na mão. Entrou na igreja, vazia, daquela cidade minúscula. Queria respostas.

Nunca teve certeza da existência de qualquer coisa em que pudesse colocar a sua fé sem que estivesse diante de seus olhos. A não ser o infinito para além do céu e do mar. No entanto, aquela igreja, naquela vila de desesperados, trazia a paz que remetia ao infinito. Respostas. 


Que viesse a resposta de um travo de crivo, de uma oração, dos olhos de alguém, de uma mão no ombro: não é em vão. Segurança. Não tinha ar que entrasse quando pensava que guiava o barco ao léu. Afundaria a nau e mataria milhões. Colocaria a perder a história que tatuara no peito. Mataria a criança que havia dentro de si. E seguia caminhando cego em plena luz.

Estava ali, sabia, e ao pensar nisso chorou tudo de uma vez. Estava ali, não era apenas por si.  Esteve ali e ha tempos que permanecia. Sem saber ou pensar que poderia dar o fora. Não faria isso com ninguém. Estava ali, cravado no peito a coragem do mundo inteiro. Mas era justo?

A mão no ombro que faltava dizendo que, sim, é justo, vá adiante, não está sozinho nem nunca estará, e se chorar não tem problema. E acende o cigarro. E já não dá conta de si mesmo. 

Mas a mão no ombro que falta acena de longe, assistindo a nau se perder, com o sorriso de fiz o que pude, peço perdão, vá adiante, não está sozinho nem nunca estará...palavras ao vento. 

O horizonte encara de volta como queria qualquer um fizesse. Encara de volta como se trouxesse a verdade que falta, encurralasse a esfinge e a fizesse falar absolutamente tudo. Mas o horizonte encara e não diz nada. Como a mão no ombro que não vem mas acena de longe e os olhos do companheiro estão no chão. 

Só queria saber se é certo, se não vai afundar o barco, se não vai matar ninguém. 


30 de nov de 2015

O Adeus número quatro

o Adeus número quatro. E São Paulo mais nublada do que nunca tinha visto. Tantos olhos tristes que tudo é projeção - essa é a resposta. E a eterna frase marcada na pele: vai passar. E o eterno retorno na alma: vai voltar. Volta o lugar que nem sei mais se há ainda algo nele que eu possa voltar.

Das coisas concretas da vida, que se deixa, que se parte, que se coloca em volta da gente...
Tudo passa e a vida é passar o tempo todo
Mas na cabeça não passa nada: e é o diabo.
Não dá pra viver indo adiante colocando coisas concretas em volta da gente, partindo e deixando e se mudando de casa o tempo todo......... sem organizar as tralhas todas dentro da cabeça da gente

Psicanalisar é encontrar um infinito na cabeça. E durar a vida pra estruturar sabe-se lá o quê.
O bom é que o que se sente e o que se pensa não tem dimensão que se mensure.
De outra forma não caberia o tanto que foi.

E eu vejo a janela que mostra uma parte de São Paulo e me engasga alguma coisa na garganta

São Paulo nunca teve um nublado tão triste
- apesar de sempre triste e ainda por cima de tudo nublada quase sempre -
E me lembra, em associação direta, os morros de Santa Maria que estarão lá pra qualquer volta

Mas nem sei se ainda há algo que volta
A não ser a volta concreta
Sem a volta na cabeça
Que já entrou no giro do infinito
de um buraco que - deus me livre - quase não chega

sempre vem o concreto e fecha o que tem que ser fechado
mas é preciso organizar, organizar, organizar, colocar tudo no lugar
tudo no devido lugar
que nem tem devido de nada
a gente que vai inventando o que é devido
fazendo ter um devido lugar pra tudo.

menos pra volta
quero um devido lugar pra voltar.
quero um devido coiso para colocar tudo organizado bem dobrado entre a cabeça e a realidade que caiba certinho sem sobrar nem faltar

porque o tempo e a memória não tem dimensão que se mensure
portanto cabe
......
?
.....
às vezes é ao contrário, como o mar, que é concreto, colocado em volta da gente, e cabe meticulosamente na coisa concreta
e cabe concretamente dentro da gente
mas não cabe na cabeça de jeito nenhum
e não precisa de organização
organiza o mundo inteiro por si mesmo

é bom encontrar o mar
espelho da alma



23 de out de 2015

Astral para valer os maus tempos

Para o descanso da cabeça: precisava encontrar o astral de alguém dessa forma.

O encontro espontâneo vale a vida. E aqueles olhos, o sorriso bonito, os movimentos... Valem os maus tempos.

Para expulsar demônicos: precisava encontrar o astral de alguém dessa forma.

Toda a leveza vale a vida. E aquelas histórias, a imagem do mundo, todos os sons...Valem os maus tempos.

Para salvar o dia no fim da tarde: precisava encontrar o astral de alguém dessa forma.

13 de out de 2015

cansaço de beira de estrada

Infância vivida em quatro cidades diferentes, em mais de 8 escolas, casas pra se perder a conta. Intercâmbio. Saída da casa dos pais. Nenhuma rua pra chamar de sua. Estradas que levam a vários lugares.
essa coisa de acordar de manhã e pensar: "é hora de partir" não é nada nova.
A questão é que o que eram anos, hoje são semanas. A mudança, o caminhão, o guarda-roupa desmontado, agora é uma mochila que você dobra e desdobra.
E você se vê num caminho olhando um mapa. As paisagens ficando pra trás de maneira muito rápida. Uma vista atrás da outra e assim sucessivamente. A vista das coisas, das memórias e das pessoas. Como construir algum vínculo com algum caroneiro ou taxista que é a coisa mais profunda dos últimos dias. E já ficou para trás. Ou sentar em um banco com um desconhecido que vira o melhor amigo das últimas horas - porque ele te fez reparar no céu mais uma vez.
No fim, mesmo que se saiba: não é pra sempre. Logo, logo, a segurança volta - de vez. Aquela segurança que se passa quando se enxerga os morros de Santa Maria, que se passaria se passasse por Rio Verde, Santa Rosa, Montevidéu... Santa Maria. Logo, logo, se tem o lugar e a paisagem e a rua que vai ser sempre o que se enxerga da janela. E a memória. Logo, logo...

A verdade é que o pior dos cansaços chega durante o fim de tarde.